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13 de outubro de 2004
 
 

Leia trechos do livro Filosofia em Tempo de Terror, de Jürgen Habermas

GIOVANNA BORRADORI: O senhor considera aquilo que passamos a chamar de "11 de setembro" um acontecimento sem precedentes, que altera radicalmente a nossa própria maneira de nos encarar?

JÜRGEN HABERMAS: Permita-me primeiro dizer que estou respondendo às suas perguntas com um distanciamento de três meses. Seria útil, portanto, mencionar minha experiência pessoal em relação ao acontecimento.

No começo de outubro, eu iniciava uma estada de dois meses em Manhattan. Devo confessar que, de certa forma, me sentia mais estrangeiro desta vez do que em visitas anteriores à "capital do século XX", uma cidade que me fascina há mais de três décadas. Não foi só o patriotismo de bandeira em punho e o lema um tanto desafiador de "Estamos Unidos" que haviam mudado o clima, nem o peculiar pedido de solidariedade, e a suscetibilidade que o acompanhava, diante de qualquer suposto "antiamericanismo". A impressionante liberalidade norte-americana em relação aos estrangeiros, o encanto do abraço ansioso e às vezes também constrangido de aceitação - esta nobre mentalidade de coração aberto - parecia ter dado lugar a uma ligeira desconfiança. Ficaríamos nós, aqueles que não haviam estado presentes ao acontecimento, ao lado dos americanos, agora de maneira incondicional? Mesmo os que têm uma "ficha" inquestionável, como é o meu caso entre meus amigos americanos, precisavam ser cautelosos em relação às críticas. Desde a intervenção no Afeganistão, subitamente começamos a notar quando, em discussões políticas, acabávamos ficando apenas entre europeus (ou entre israelenses). Por outro lado, somente aqui senti pela primeira vez a plena magnitude do acontecimento. O terror desse desastre que literalmente explodiu do nada, as horríveis convicções por trás daquele ataque traiçoeiro, bem como a depressão sufocante que baixou sobre a cidade, tudo isso foi uma experiência completamente diferente aqui do que na Alemanha. Cada amigo e colega podia lembrar exatamente o que estava fazendo naquele dia pouco depois das nove horas da manhã. Em suma, só aqui comecei a compreender a atmosfera agourenta que já ecoa em sua pergunta.

Também entre a esquerda existe uma consciência generalizada de que estamos vivendo um ponto crucial na história. Não sei se o próprio governo dos Estados Unidos estava ligeiramente paranóico ou apenas fugindo da responsabilidade. De qualquer maneira, os comunicados repetidos e extremamente imprecisos acerca de possíveis novos ataques terroristas e os apelos insensatos para se "ficar em alerta" geraram ainda mais uma vaga sensação de angústia, ao lado de uma prontidão incerta - exatamente a intenção dos terroristas. Em Nova York as pessoas pareciam preparadas para o pior. Como era de se esperar, o pânico do antraz (e até a queda do avião em Queens) foi atribuído às maquinações diabólicas de Osama bin Laden.

Levando em conta esse pano de fundo, é possível entender uma certa tendência para o ceticismo. Mas será que aquilo que nós, contemporâneos, pensamos no momento é tão importante para um diagnóstico a longo prazo? Se o ataque terrorista de 11 de setembro deve constituir uma ruptura na história mundial, como muitos julgam, então ele deve ser capaz de suportar uma comparação com outros acontecimentos de impacto histórico. Nesse caso, a comparação não deve ser feita com Pearl Harbor, mas com os desdobramentos de agosto de 1914. A irrupção da Primeira Guerra Mundial assinalou o fim de uma era pacífica e, vista em retrospecto, de certo modo confiante, desencadeando uma era de luta armada, opressão totalitária, barbárie mecanicista e burocráticos assassinatos em massa. Na época havia algo como um presságio generalizado. Somente em retrospectiva seremos capazes de entender se o colapso simbolicamente disseminado das cidadelas capitalistas no baixo Manhattan implica uma ruptura daquele tipo, ou se essa catástrofe meramente confirma, de modo desumano e dramático, a vulnerabilidade há muito conhecida de nossa complexa civilização. Se um acontecimento não for, de modo bem claro, considerado importante, como a Revolução Francesa - não muito tempo depois da revolução Kant falou em um "sinal histórico" que apontava para uma "tendência moral da humanidade" - , apenas em retrospecto a "história efetiva" poderá julgar sua magnitude.

Talvez em algum ponto mais adiante será possível atribuir conseqüências importantes a 11 de setembro. Mas por ora não sabemos quais dos muitos cenários descritos hoje irão de fato se sustentar no futuro. A inteligente, embora frágil, coalizão contra o terrorismo reunida pelo governo dos Estados Unidos poderia, no caso mais favorável, ser capaz de avançar na transição da lei internacional clássica para uma ordem cosmopolita. Aconteça o que acontecer, um sinal favorável foi a conferência sobre o Afeganistão em Bonn, que, sob os auspícios das Nações Unidas, estabeleceu as prioridades na direção correta.

No entanto, depois de 11 de setembro, os governos europeus fracassaram completamente. São obviamente incapazes de enxergar além do seu próprio âmbito de interesses nacionais e de oferecer pelo menos seu apoio ao secretário de Estado dos Estados Unidos Colin Powell contra a linha-dura. A administração Bush parece continuar, mais ou menos imperturbada, o curso centrado sobre si mesmo de uma superpotência insensível. Está lutando agora, como lutou no passado, contra a formação de uma corte criminal internacional, recorrendo, em vez disso, a tribunais militares próprios. Estes constituem, do ponto de vista da lei internacional, uma inovação duvidosa. Os Estados Unidos recusam-se a assinar a Convenção das Armas Biológicas. Unilateralmente põem fim ao Tratado de Mísseis Balísticos (ABM) e de modo absurdo planejam montar um sistema de defesa com mísseis, validado pelos acontecimentos de 11 de setembro. O mundo se tornou muito complexo para esse unilateralismo mal disfarçado. Ainda que a Europa não se levante, como deveria, para desempenhar um papel civilizador, o poder emergente da China e o poder em declínio da Rússia não se encaixam tão simplesmente assim no modelo da pax americana. Em vez do tipo de ação de polícia internacional que esperávamos durante a guerra em Kosovo, novamente há guerras - conduzidas com a tecnologia mais refinada, mas ainda no velho estilo.

A miséria no Afeganistão dilacerado pela guerra é uma reminiscência das imagens da guerra dos Trinta Anos. Naturalmente havia boas razões, até mesmo normativas, para remover à força o regime Talibã, que oprimia brutalmente não só as mulheres como toda a população. Os afegãos também se recusavam a atender à exigência legítima de entregar bin Laden. Contudo a assimetria entre o concentrado poder destrutivo dos feixes eletronicamente controlados de mísseis elegantes e versáteis no ar e a ferocidade arcaica dos enxames de guerreiros barbudos equipados com Kalashnikovs na terra persiste como uma visão moralmente obscena. Este sentimento é mais bem entendido quando nos lembramos da sanguinária história colonial do Afeganistão, seu desmembramento geográfico arbitrário e a continuada instrumentalização do país nas mãos do jogo do poder europeu. Em todo caso, o regime Talibã já pertence à história.

 

11 de setembro: o primeiro acontecimento
histórico mundial

É um grande privilégio ter uma mente do calibre da de Habermas aplicando-se à leitura e interpretação de um acontecimento que apagou tão radicalmente um certo sentimento de segurança produzido pelo fim da Guerra Fria. Por coincidência, ele esteve em Nova York nas semanas seguintes aos ataques terroristas que destruíram as Torres Gêmeas, uma porção do Pentágono, em Washington, D.C., e derrubaram um avião comercial cheio de passageiros no oeste da Pensilvânia. A experiência direta daqueles dias posteriores à tragédia deu-lhe uma perspectiva completamente diferente sobre o grau de devastação emocional que os nova-iorquinos sofreram em 11 de setembro.

Nosso diálogo começou a partir da admissão, por Habermas, do abismo intransponível entre fato e representação, perspectivas de primeira e terceira pessoas. Ele admite com franqueza que foi só depois de chegar a Nova York que a plena intensidade emocional do abismo se tornou palpável para ele. Até Habermas, um rigoroso defensor dos intermináveis benefícios daquilo que se pode articular pela fala, admitiu a força do indizível, ao recontar a história de um amigo que viu a tragédia se desenrolar da cobertura de sua casa. Por mais gráficas e chocantes que fossem, as imagens a que assistiu na tela de sua televisão na Alemanha exibiram-se no formato do "plantão noticioso", deixando aberta a possibilidade de uma perspectiva de terceira pessoa. Em contraste, os nova-iorquinos, como eu, foram jogados em um caos existencial e sensorial: não só um cheiro penetrante pairou sobre Manhattan durante semanas, mas o grito agudo das sirenes, geralmente perdido na poluição acústica, insistia em romper o silêncio deixado pelo espaço aéreo vazio - a grande cúpula de esteiras de jato e zumbidos ziguezagueando sobre a cidade. E, no entanto, como Habermas salienta, nunca antes alguém extraiu tanta realidade de uma tela de TV quanto as pessoas do mundo inteiro durante 11 de setembro. As imagens do dia não foram editadas ou produzidas pela mídia para sua própria cobertura, e isso transforma o evento, nas palavras do filósofo, no "primeiro acontecimento histórico mundial".

Talvez 11 de setembro pudesse ser chamado de o primeiro acontecimento histórico mundial no sentido mais estrito: o impacto, a explosão, o lento colapso - tudo o que não era mais Hollywood, mas, na verdade, era uma realidade medonha, teve lugar literalmente diante da "testemunha ocular universal" de um público global. Uma comparação com a reação de Habermas à Guerra do Golfo esclarece sua visão da singularidade de 11 de setembro. Naquele caso também, ele foi uma voz pública ativa. Em janeiro de 1991, quando a Guerra do Golfo estourou, o mundo ficou impressionado de como o conflito parecia "encenado": ele sugeria, escreveu Habermas depois, comparações com videogames, com o replay loucamente irresistível de um programa eletrônico. Ainda assim, nós, observadores de fora, ficamos todos muito conscientes de que uma boa porção da realidade - de fato, a dimensão bélica da guerra - estava sendo suprimida, e essa consciência pode ter estimulado nossos próprios poderes de imaginação. A faixa negra da censura na tela da TV coloca nossa própria imaginação em movimento.

A Guerra do Golfo expôs ao público uma quantidade mínima de imagens do que aconteceu em campo. Enquanto, em 1991, comprovando o velho ditado de que "A verdade é a primeira baixa em uma guerra" o público global foi brindado com uma construção da mídia, em 2001, o mesmo público global tornou-se uma "testemunha ocular universal" Só este fato, para Habermas, faz de 11 de setembro o "primeiro acontecimento histórico mundial". Enquanto Habermas sublinha a singularidade absoluta de 11 de setembro do ponto de vista de sua própria modalidade comunicativa, ele prefere deixar que a história julgue sua importância relativa. Se 11 de setembro vai ou não "suportar a comparação com outros acontecimentos de impacto histórico mundial", disse ele, cabe à própria história decidir. Mas como a história vai julgar? A resposta para a pergunta reside, segundo Habermas, na noção de "história efetiva" (Wirkungsgeschichte), primeiramente teorizada por outro filósofo alemão, Hans Georg Gadamer. Por história efetiva Gadamer indica que o intérprete de um acontecimento passado está condicionado, em sua avaliação, pelos efeitos de seu próprio presente. Isso nega ao conhecimento histórico qualquer grau de objetividade, pela simples razão de que estamos sempre imersos na história. Em contraste, julgamentos históricos baseiam-se em uma interação peculiar entre passado e presente, que Gadamer chama "fusão de horizontes".

Contrariamente à maioria dos comentaristas políticos, Habermas aposta que 11 de setembro está mais próximo de agosto de 1914, o início da Primeira Guerra Mundial, do que do ataque de surpresa contra a frota naval dos Estados Unidos pelo exército japonês em Pearl Harbor, em 1941. Em sua leitura, precisamente como 1914, o acontecimento de 11 de setembro marca o começo de uma era de pronunciada instabilidade, não só nas relações entre o Oriente e o Ocidente, mas talvez, e o que é ainda mais perturbador, entre os Estados Unidos e a Europa. A reação dos Estados Unidos ao terrorismo produziu uma desconfiança fundamental com relação aos estrangeiros e, ao mesmo tempo, criou uma expectativa de apoio incondicional da parte de seus parceiros políticos, com a Comunidade Européia em primeiro lugar. Essas duas posições - desconfiança com os estrangeiros e expectativa de apoio incondicional - correm contra a própria natureza do enfoque de Habermas dos domínios político e ético, que ele vê governados pelo diálogo e pela argumentação racional. A ênfase na argumentação racional como condição final para a justiça é o tema central da abordagem filosófica de Habermas. Ela surge a partir do enorme desafio apresentado pelo fato de ele ser um intelectual alemão do pós-guerra.

Segunda Guerra Mundial. Crescer em um país física e culturalmente devastado por um "passado ingovernável" levou Habermas a assumir a responsabilidade de ser um cidadão alemão e europeu no grau máximo. A Europa "deve usar uma de suas forças, a saber, seu potencial para a autocrítica, seu poder de autotransformação, a fim de se relativizar muito mais radicalmente face aos outros, os estrangeiros, os mal compreendidos. Isso é o oposto do europocentrismo. Mas nós podemos superar o europocentrismo somente por meio do melhor espírito da Europa". Para Habermas, o melhor espírito da Europa é a tradição racionalista, em que o apoio nunca é concedido sem argumentação racional. Dentro dessa tradição, Kant destaca-se como o mestre insuperável.

De fato, a concepção kantiana do Iluminismo é posta contra a noção de apoio incondicional que Habermas sente ser solicitada pelos Estados Unidos a seus aliados depois de 11 de setembro. Para Kant, o Iluminismo marca a libertação da humanidade da obediência cega à autoridade, conquistada por meio de auto-afirmação racional. O Iluminismo é a "liberdade que temos de fazer uso público de nossa razão em todas as questões". Declarar que o exercício da razão depende de "uso público" significa afirmar que existe um efeito exponencial de iluminação caso a liberdade pública se estabeleça. A liberdade pública estimula a liberdade privada, porque, segundo Kant, todo indivíduo defende naturalmente sua autonomia de julgamento se as condições externas assim o permitirem.

O julgamento autônomo ou a liberdade privada são a formulação de um argumento racional: uma vez que os argumentos, para Kant, consistem na troca entre interlocutores que consideram um ao outro iguais, a própria forma da argumentação racional é modelada segundo o uso público da razão, até mesmo quando os argumentos estão sendo formulados na privacidade de nossa mente. Se a liberdade privada depende de seu uso público - como para Kant -, ela também depende da disponibilidade de um interlocutor se abrir para ouvir e responder com sinceridade. Assumir a perspectiva kantiana, como faz Habermas, significa rejeitar de fato qualquer apelo de apoio incondicional.

 

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