Arquivo VEJA
8 de junho de 1977
 
 

Televisão
A nova imagem da Globo

Na madrugada de 28 de maio, num ponto qualquer do espaço entre Nova York e Rio de Janeiro, a bordo de um DC-10 da Varig, Walter Clark, diretor geral da Rede Globo de Televisão, bebericava champanha francês e jogava gamão com seu amigo e colega de diretoria, José Ulises Arce. De repente, vira-se para outro passageiro, Hélio Beltrão, ex-ministro do Planejamento e Coordenação Econômica do governo Costa e Silva, e confidencia: "Vou te dar uma notícia em primeira mão".

Dez mil metros abaixo, nesta mesma madrugada, na sede náutica do Clube de Regatas Vasco da Gama, no Rio, o jornalista Sérgio Cabral comemorava seus 40 anos com uma festa para 600 convidados regada a chope (1 000 litros) e cachaça (300 garrafas). Súbito, explode e corre a notícia: "Tá sabendo? 0 Walter Clark acaba de. . - "

A alguns quilômetros dali, no Restaurante Lamas, centenário ponto de encontro da boêmia e da intelectualidade carioca, um rapaz subia numa cadeira e gritava para as superlotadas mesas e corredores a manchete do dia e da semana: "O Walter Clark caiu!"

Uma queda de levantar poeira dourada, com o baque de 1,5 milhão de cruzeiros jogados ao chão - segundo os últimos cálculos, o dinheiro que Walter Clark ganhava por mês na Globo. Quem passaria a receber tão fabuloso salário? E quem doravante dirigiria a maior, mais poderosa e bem-sucedida indústria de comunicações do país, com lucro operacional de 56 milhões de cruzeiros por mês?

0 lugar deixado por Clark permanecerá vazio pelo menos pelos próximos seis meses. Através de uma intervenção di-reta, Roberto Marinho, 72 anos, diretor-presidente das organizações Globo, assumia, ele próprio, a direção. Mas, confessadamente homem de imprensa, parece bastante provável que ele continue ditando apenas a linha política da TV Globo, deixando a parte executiva e técnica a Cargo dos três homens que dela vêm se desincumbindo- ou seja: José Ulises Arce (superintendente de Comercialização), Joseph Wallach (superintendente de Administração) e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o "Boni", de todos o mais poderoso, não só por acumular a chefia de três setores vitais (Programação, Produção e Engenharia) como por sua identificação confessa com o grupo, que, nos últimos anos, manifestava seu desagrado diante de certos aspectos da situação interna e externa da Globo (veja a entrevista na página 111).

"Grande observador" - Assim, já ao presidir, a primeira reunião da diretoria sem Clark, segunda-feira passada, Marinho reafirmaria sua vontade de exercer uma função de "grande observador". Mas advertiu: "Em minhas empresas, sempre fiz questão de ser o principal responsável, o condutor. Quando me entendem bem, prefiro não dar ordens. Mas, quando dou, gosto de vê-las cumpridas com muita propriedade e muita velocidade".

Justamente aí no comportamento de Roberto Marinho à frente de suas empresas, se encontraria a explicação para a saída de Clark. Empresário forte, Marinho sempre se mostrou, como conta um amigo chegado, "um homem avesso à ostentação". Seu jornal, 0 Globo, é líder de tiragem, circulação e faturamento no Rio de Janeiro. Suas três emissoras de rádio - Globo, Mundial e Eldorado - ocupam, segundo dados do IBOPE, respectivamente, primeiro, terceiro e sétimo lugares na preferência dos ouvintes cariocas. No entanto, seu nome e o de seus familiares raramente aparecem em colunas sociais. E não se tem notícia de que hajam, alguma vez, cometido extravagâncias.

O mesmo não acontecia. porém, com o diretor geral da Rede Globo de Televisão. Depois que a máquina que ele mesmo montou passou a funcionar com suas próprias pernas, Clark tornou-se uma espécie de relações públicas da empresa, uma figura quase decorativa. "Ele não fazia mais TV, tinha um cargo político e fazia a política da emissora", conta Oriovaldo Vargas, amigo de Clark há 25 anos e também seu companheiro na última viagem internacional que realizou como diretor da Globo.

Certo status - Se o acomodamento forçado desagradava ao empresário dinâmico e cheio de idéias, por outro lado permitia-lhe levar um padrão de vida de acordo com seu alto salário. Assim, pôde adquirir carros importados (um Mercedes e uma Ferrari), um apartamento duplex de cobertura na lagoa Rodrigo de Freitas (com 1 200 metros quadrados), uma lancha de 37 pés, a "Cinderela" (quem já viu, garante: não é um barco, é um imóvel), uma casa em Angra dos Reis, com praia particular, mais outra em Itaipava. Em seu amplo apartamento carioca misturam-se móveis coloniais, poltronas modernas, porcelana chinesa, pequenas esculturas egípcias em ferro, budas autênticos, bichos javaneses, tapetes persas, elefantes em louça da índia. Nas paredes, quadros de Manabu Mabe, Di Cavalcanti, Tarsila, Portinari, João Câmara, Djanira, além de quatro reproduções de Vasarely - assinadas.

Com o governo exigindo austeridade e os jornais atentos aos gastos do governo com as mordomias, o fausto de Clark somado às constantes notícias de sua presença nos mais caros restaurantes e boates, onde não raro se excederia no gastos e nos drinques, ilustrava - desa gradavelmente para Marinho - a imagem da TV Globo como uma Hollywood brasileira. Por outro lado, comenta-se também que Marinho se sentia algo incomodado com o prestígio e a popularidade de Clark, que, por seu trabalho tinha seu nome mais ligado à Rede Globo que o próprio proprietário.

Evidentemente, Walter Clark não era o único funcionário da Globo a receber e a gastar mensalmente grandes soma de dinheiro. "Acho muito saudável que os sujeitos que conquistaram certo status queiram desfrutar dele", explica Walter Clark. "Doentio é o cara ganhar ficar aplicando no open market e morando num quarto e sala. Fala-se muito da vida do pessoal da Globo mas se esquece de que é uma empresa feita por um pessoal que tinha 30 anos, homens vindos de funções mais humildes - no rádio, na televisão, na propaganda - e que foram aquinhoados com aquilo que seu mérito permitiu, um dinheiro ganho honestamente."

Cigarras e formigas - De qualquer forma, nem todos na cúpula da Globo concordavam com essa colocação. Con-tra a, digamos, dissipação das cigarras, insurgiam-se as laboriosas formigas, in- conformadas com a imagem, segundo elas desfavorável, de uma empresa rica demais. Tanto que, na primeira segunda-- feira sem Clark, uma frase irônica cor-ria pelos corredores da Vênus Platinada, o edifício-sede da Rede Globo no bairro carioca do Jardim Botânico: "Agora, gente, todo mundo de terninho da Du cal, Volkswagen na porta e às 9h15 na sala". Previa-se também frugalidade maior no restaurante dos diretores da emissora, apelidado Marinho's. Os almoços são encomendados ao restaurante Medalhão d'Or, de lpanema, e prepara dos pelo chefe de cozinha Manoel Cerdeira, que tem ordens de não repetir e pratos num espaço de quinze dias. Na sexta-feira, dia 27, quando a saída de Clark ainda não era do conhecimento da cidade, Cerdeira enviou para a Vênus Platinada quinze rabadas completas, quinze coquetéis de melão ao Porto, mais drinques diversos. Custo da refeição: 7 000 cruzeiros.

Por essas e outras, nos últimos seis meses, tanto Roberto Marinho quanto Walter Clark já sabiam que o relaciona-mento profissional entre ambos cami- nhava para um desenlace. Quando este finalmente se deu, no último sábado de maio, correram versões de que a cabeça do diretor geral teria sido pedida por au toridades de Brasília, por se haver ele portado de maneira inconveniente e desrespeitosa no coquetel de inauguração da sucursal de 0 Globo na capital Federal, no último dia 11. Clark teria, segundo os boatos: a) tomado intimidades com generais presentes; b) ofendido as Forças Armadas; c) apostrofado os critérios da Censura; d) desrespeitado um colega diante de senhoras de oficiais.

Avançando o sinal - Segundo outros boatos, Clark teria se mostrado indelicado no dia seguinte, dia 12, numa festa oferecida por Edgard Erichsen, diretor de relações públicas da Rede Globo em Brasília.

O jantar na luxuosa casa de Erichsen, no lago sul, era em homenagem ao recém-promovido general de exército Arnaldo Luís Calderari, e Roberto Marinho sentou-se à mesma mesa que os generais Sylvio Frota, ministro do Exército, e João Baptista Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informações. 0 diretor geral da Globo em Brasília, Afrânio Nabuco, nega categoricamente que tenha ocorrido qualquer incidente durante o ágape. Um funcionário da Globo conta, porém, que ouviu de Marinho após sobremesa: "O Walter está avançando o sinal".

Dias depois, acompanhado por Sílvia Falkenburg, sua atual namorada, Clark viajava para Portugal para o lançamento da novela "Gabriela", em festa a que compareceu até o embaixador brasileiro, general Carlos Alberto Fontoura. De Lisboa seguiu para Nova York, disposto, como contou Felipe Rodriguez, do escritório da Globo na cidade, a tirar alguns dias de férias. "Quero ficar tranqüilo", disse Clark. E ficou. Jantou uma noite no restaurante La Cremaillére, tido como um dos melhores dos Estados Unidos, esteve no Cachaça, um bar que oferece música e bebida brasileiras, e visitou o Hippopotamus local.

Ao desembarcar de volta no Aeroporto Internacional do Galeão, na manhã de sábado, Clark ainda tentaria desmentir sua saída: "Não penso em deixar a Globo. Quem falou nisso? Minha vida está muito ligada à Globo".

Tempos dourados - Pelo menos, a vida da personagem em que Clark se transformou. Como costuma acontecer nos contos de fada, Walter Clark Bueno nasceu pobre (ou quase isso), em 14 de julho de 1936, em São Paulo. Aos 6 anos, mudava-se com a família para o Rio. E já aos 16, através de amigos do pai, que trabalhava na manutenção dos rádios da Panair do Brasil, entrou para a Rádio Tamoyo, como uma espécie de office-boy.

Ao mesmo tempo, começava a revelar outros aspectos de sua personalidade. Primeiro, o talento - logo estava escrevendo pequenos programas, como "Senhora Maestra", patrocinado pelo Organdi Paramount. Segundo, o gosto literário, lendo Hermann Hesse, Rilke e Fernando Pessoa na praia, numa época em que eles ainda não tinham sido descobertos no Brasil", como recorda um de seus velhos amigos, Carlos Alberto Lofler, que hoje trabalha na Globo. Também na praia, jogava futebol no time do folclórico Neném Prancha.

A caminhada de fato começou. entretanto, quando Clark, entre 1953 e 1956, passou a trabalhar em publicidade, como chefe de tráfego na agencia PanAmericana. Em 1956, mudava para a TV Rio, onde atravessou todos os salões: de contínuo a contato de publicidade e, no fim, diretor geral. Saiu por causa de uma briga com o dono da emisora, que lhe valeu um melancólico pileque com amigos e a constatação de que, no fim de dez anos de trabalho, 'tinha que vender um carro para poder viver". Mas as dificuldades não foram longas. Em 2 de dezembro de 1965, entrava pela primeira vez na Globo, para dirigir uma emissora que ainda engatinhava.

Além de carta branca, obtivera do dono uma participação nos minguados lucros da empresa. Consta que, em seu primeiro mês de trabalho, dobrou o faturamento publicitário.

Começaram aí os tempos dourados, encerrados oficialmente na tarde do próprio sábado, 28 de maio, por duas cartas com elogios mútuos, uma assinada por Clark e outra por Roberto Marinho - e, comenta-se, escritas por uma mesma pessoa, Otto Lara Rezende, diretor da Globo. Sacramentada sua demissão, Clark encerrava onze anos e meio de trabalho e poderia fechar um balanço de sua vida com o saldo de quatro casamentos (dois deles com atrizes, Ilka Soares e Maria Rosário do Nascimento e Silva), três filhas e um invejável patrimônio. Ao sair da Globo, ele não perde sua participação acionária nas outras empresas da Rede: a Sigla (gravadora com 20% do mercado brasileiro), a Vasglo (empresária de grandes atrações internacionais), a TVC (que estuda a implantação do sistema de TV por cabos) e a Telcom (de assuntos relacionados à comunicação). Além delas. Clark possui ainda a Construtora Vento, a Imobiliária Adepar, a firma Sigen, de prensagem de discos, a Starlight Communication, com sede em Nova York, a Showbiz, promotora de shows. E, logo ao sair da Globo, comprou de seus dois outros sócios (Luís Carlos Barreto e o cineasta francês Jean-Gabriel Albicocco) a Indústria Cinematográfica Brasileira.

Dono da verdade - Rei morto, rei posto. O terceiro dia da Globo sem Clark começa com um alto funcionário do Departamento Comercial na sala de Boni. Este balança a cabeça diante de um projeto à sua frente e sentencia: "Fora de questão. Está errado". Sai o empregado, Boni já despacha um memorando para a Administração. Nele, analisa os baixos salários no setor de Cenografia - 450 funcionários, lembra ele no bilhete - e pede providências.

Pela rotina de trabalho observada na última semana, não se duvida de que esta ampla sala decorada em preto e branco, onde é proibido fumar, seja o novo, inquestionável centro de decisões executivas dentro da Globo. "É fácil avaliar o poder conseguido pelo Boni", sussurra nove andares abaixo um editor de telejornalismo. "Se ninguém for nomeado para a direção geral, o comando é dele."

No gabinete de Boni, um televisor Semp, 26 polegadas, elevado a 1 metro , meio de altura por uma haste de metal e emoldurado por uma proteção de madeira para que a claridade não prejudique a imagem florida, está quase sempre sintonizado no canal 5 do Rio de Janeiro, canal que não existe para o resto da cidade. Mas nesse aparelho a programação não pára. Tanto pode pegar uma cena de "Planeta dos Homens" quanto um segmento do "Globo Repórter" ou um trecho de " Locomotivas" depende do que estiver sendo gravado num dos três estúdios do Jardim Botânico. Boni, o espectador desse aparelho mágico, costuma acompanhar pelo canal interno da TV Globo o trabalho de seus comandados.

Nem precisava desse Grande Olho. Dentro e fora dos estúdios, pelos cantos da TV Globo, sua sombra cobre todas as áreas de produção. "Se o Boni saísse daqui, seria um baque. Ele é a mola". "Só se trabalha pensando no que ele vai achar", diz um dos mais antigos funcionários da estação. Não só ele. Nas conversas de corredores, repete-se sempre a história do dia em que Boni achou horrível a letra apresentada para o tema do "Fantástico", e rabiscou em 5 minutos alguns versos em substituição; lembra-se as vezes em que ele desceu aos estúdios para montar ou dirigir espetáculos, mexer em cenografia. Enfim, lendas e lembranças que não discutem sua competência. "É o homem que mais entende de televisão no país", afirmam todos, inclusive ele mesmo. Numa discussão profissional em que lhe disseram que não deveria se apresentar como o dono da verdade, retrucou: "Pois nisso aqui eu sou dono da verdade mesmo".

Queijos franceses - José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, paulista de 42 anos crescido no bairro da Pompéia, dois casamentos e dois filhos, só se interessa pelo que entende e só aprende o que possa utilizar. Não tem, por exemplo, outras leituras além de livros técnicos de eletrônica e de psicologia, combinação que lhe permite manipular dentro da televisão tanto os segredos da engenharia quanto os mecanismos humanos. "É um gênio", espantou-se o falecido teatrólogo Paulo Pontes, quando o conheceu melhor. "Conseguiu dominar à perfeição a técnica do comando pelo terror."

Nos últimos tempos estabeleceu a média de vinte memorandos por dia, contendo apreciações sobre o trabalho técnico e artístico que revogam imediatamente as disposições em contrário, aliás, criadas por ele mesmo.

Dizem que tem a temperatura da casa na Barra da Tijuca adaptada não a si mas à saúde dos queijos franceses e principalmente dos vinhos, preciosidades que lhe abriram as portas de três confrarias internacionais de gastrônomos.

"Posso até dizer que ganho mal", ga-rante Boni, feliz proprietário de um Porsche verde. "Nos meus dez anos de Globo, passei os cinco primeiros sendo explorado em termos de salários, três anos menos explorado e só nos dois últimos recebi um aumento de ganhos, através de participação nos lucros, e mesmo assim recebendo bem menos que muita gente de áreas diferentes e escalões inferiores." Diz que ninguém vai acreditar: "Não tenho um tostão empregado ou guardado. Nada no banco, a não ser um papagaio de 2 milhões. Tenho a minha casa na Barra da Tijuca, que é sem dúvida uma bela casa, um barquinho em Angra dos Reis e mais nada, porque o meu negócio não é ficar milionário".

Aos 15 anos, em 1950, Boni já escrevia textos humorísticos para a Rádio Nacional, experiência seguida de estágios na Rádio Mayrink Veiga e na extinta TV Paulista, então canal 5 de São Paulo. Nos anos seguintes, dirigiu departamentos de TV de agências de publicidade - Lintas, Alcântara Machado, Multi e por fim Proeme, da qual foi fundador, intercalando atividades como redator e produtor da TV Tupi, e mais tarde TV Excelsior, onde fez sucesso como redator do programa do maestro italiano Enrico Simonetti. Mas foi como publicitário que Boni conheceu em 1967 Walter Clark, na época diretor comercial da TV Rio, com quem discutia horas seguidas sobre uma paixão comum: televisão.


"Não houve golpe de Estado"

Também não houve escândalo em
festa alguma, segundo a versão de Clark

Por duas vezes, na semana passada, Walter Clark recebeu o chefe da redação de VEJA no Rio, Zuenir Ventura. em seu apartamento duplex de cobertura na lagoa Rodrigo de Freitas. Na segunda-feira, quando ainda era densa a poeira levantada pela sua saída da Globo, houve a primeira entrevista. Na quinta, já com horizontes mais claros, houve a complemen-tação.

VEJA - Por que você saiu da TV Globo?
CLARK - Essa decisão já vinha sen-do amadurecida há cerca de um ano. Nos últimos meses, os entendimentos co-meçaram a ser estabelecidos no sentido de se estudar uma maneira pela qual eu pudesse ser dispensado da Globo. Final-mente agora tudo terminou da forma mais elegante possível para todos os la-dos, sem ressentimentos, sem rancores.

VEJA - Não foi portanto uma de-cisão intempestiva?
CLARK - Não, não foi nada intem-pestiva. Passei quinze dias em Nova York, e lá, com o meu amigo Orioval-do Vargas, que participou muito de mi-nha vida nesses 25 anos de trabalho em televisão, amadureci muito a decisão. Principalmente por considerar que já ti-nha feito tudo o que tinha para fazer. 0 que me cabia para fazer agora fugia do traço mais importante da minha per-sonalidade, que é a inquietação, a vonta-de de realizar coisas, febrilmente. A po-sição de homem de gabinete, de certa forma, estava me violentando. A minha vida foi dedicada à televisão de uma forma tão absorvente que isso acabou tor-nando minha vida pessoal bastante aci-dentada. A partir do momento em que completei 40 anos, comecei a meditar sobre o assunto. Afinal de contas, o que eu pretendia, o que ia fazer da vida?

VEJA - Essa inquietação poderia le-var a supor que você vai mudar de "mídia"?
CLARK - Uma das coisas que pro-jeto fazer é um filme. E não é na base de sonho não: o Lauro César Muniz já está com o livro para a adaptação, "Ju-das, o Obscuro", de Thomas Hardy. Já no tempo da TV Rio eu ia produzir com o Ruy Guerra.

VEJA - Você quer dirigir o filme?
CLARK - Quero ver se consigo. Nunca dirigi um filme, mas já dirigi muito televisão. Acredito que não deva ter grandes mistérios, apoiado numa boa equipe. Fazer esse filme é uma das coi-sas em que mais objetivamente estou pen-sando, no momento.

VEJA - Do ponto ele vista formal, você pediu demissão ou foi demitido?
CLARK - Pedi para sair e, afinal, o Roberto (Marinho) concordou.

VEJA - Isso significa que você não vai ser indenizado.
CLARK - Tenho um acordo ope-racional com a Globo, que me permitia pedir essa demissão e pleitear condições que, digamos, fizessem jus ao esforço que fiz. Não fui sócio do Roberto, mas fui um sujeito que participou da em-presa, que ajudou a estruturá-la. Acho que, ao sair, é justo que se encontre uma forma de remuneração pelo meu trabalho.

VEJA - Já se fala na cifra: 30 milhões de cruzeiros.
CLARK - Outros falam em 40 milhões.

VEJA - E quanto é na verdade?
CLARK - Está sendo discutido. Para você ter idéia de como as coisas estão tranqüilas, só agora o assunto vai ser discutido.

VEJA - Na sua juventude, você teve alguns cometimentos poéticos, não?
CLARK - Também agora. Para um sujeito de 40 anos, que está numa idade em que começa a ver o cheiro da morte - ainda que possa parecer exagerado, meio dramático -, não existe muito tempo para pensar. Você tem que agir, Por isso eu vou matar um pouco o Walter Clark que entra até em samba de Odair José e fazer nascer o Walter Clark Bueno. Uma mulher com quem tive uma relação muito importante ficava indignada - e com razão -porque eu não conseguia me separar da pessoa jurídica que era o tempo todo. A Globo se transformou num fenômeno nacional do tipo "Tubarão": promove grandes paixões e grandes ódios. 0 meu caso não é o do profissional que deixou o emprego - o emprego mais sedutor do mundo, sem aspas - e do profissional que resolveu encontrar-se consigo mesmo. Ao contrário da personagem de William Holden no filme "Rede de Intrigas"), eu saio extremamente feliz, acreditando, inclusive, na televisão. Mas é evidente que você não pode se acomodar no sucesso. E, posicionado desta forma, estou diante de uma perspectiva para o futuro: não propriamente matar o Walter Clark. Ele fez do filho de um sujeito modesto e de uma senhora da nobreza decadente paulista, que começou a trabalhar com 16 anos e queria ser o sucessor de João Cabral de Meio Neto ou do Ferreira Gullar, numa pessoa importante. Mas quero voltar à minha vida sentimental, pessoa , afetiva, acidentada. Não creio que tenha me empobrecido intelectualmente porque a vida da televisão é muito rica na participação cotidiana. Mas não acompanhei o ritmo a que me impus até certa época. Quero sair para fazer alguma coisa que não interfira, tanto quanto a televisão, nesse lado de minha vida, o humano.

VEJA - Pelo que se diz, você, o maior salário do mundo, teria condições de viver bem pelo resto da vida.
CLARK - De jeito nenhum. Aliás, eu nunca tive salário. Na Globo eu tinha uma participação equivalente ao que realizasse. No primeiro mês na Globo, tive que vender um carro para viver.

VEJA - A Globo era deficitária? Qual era a situação dela?
CLARK - Ela estava recém-inaugurada e tinha um parque técnico bem equipado. Mas faltava gente. O Roberto Marinho, que nessa época estava desfazendo o contrato com a Time-Life, me chamou. Então eu visitei a estação, vi que realmente ela tinha base para fazer alguma coisa e, enquanto discutia o contrato, já estava armando a programação, que três meses depois estava em primeiro lugar. E não foi genialidade, não. Foi a soma do empresário saudável, que equipava a estação e que lhe dava boa imagem, com o profissional competente, e depois, com vários e vários profissionais competentes. Nunca se credita muito ao Roberto Marinho o sucesso da Globo - procuram situá-lo mais no Boni e em mim -, mas eu gostaria, na hora em que estou saindo, de registrar que a importância do Roberto na Globo foi decisiva.

VEJA - Havia divergências entre você e Roberto Marinho?
CLARK - Não, de jeito nenhum. 0 entendimento entre eu e o Roberto foi sempre perfeito. Nunca tivemos problema que não fosse resolvido dentro do clima da mais absoluta cordialidade.

VEJA - Você se identificava tanto com a Globo, que seria o caso de se perguntar até que ponto se pode tribular a você os erros e defeitos dela?
CLARK - Não. Ela é balizada pela Censura e por uma série de informações, o que nos obriga, por uma questão de bom senso, a fazê-la substantiva. Ela comunica o fato puramente, não procura interpretá-lo. Se interpretasse, teria uma importância maior, mas também é preciso levar em consideração que, no Brasil, o universo da televisão não é específico: vai do Walther Moreira Salles à pessoa mais humilde da favela. Que forma iríamos encontrar para fazer uma interpretação, uma avaliação mais profunda das coisas se a capacidade de absorção desse material vai de zero ao infinito? A televisão e extremamente rica, não é específica, como é o livro. E é muito perigosa. Por ela ser muito perigosa, ela tem que ser, não digo alienante, mas um pouco anódina. Ela tem que se limitar a mandar a notícia de uma forma substantiva para o ar, e deixar que os jornais e as revistas interpretem.

VEJA - E onde é que entra a Censura?
CLARK - Ela interfere no que considera ser problema de segurança nacional. E como concessionários devemos cumprir, inclusive, porque os regimentos do Código Nacional de Telecomunicações são extremamente severos. Mas isso é assim no governo atual, como era assim no governo tido como o mais democrático que o Brasil já teve, o de Juscelino. E foi assim na época do muito democrático Carlos Lacerda. por uma questão de briga pessoal com o Roberto Marinho. Televisão é concessão, é um serviço público designado pelo governo e o governo interfere, sempre interferiu. É uma realidade que temos que enfrentar. E às vezes eles são desconcertantes. Às vezes, não se compreende. Eles dizem: "Vocês não sabem o que está por trás disso", e outras coisas, mas são desconcertantes. Mas isso faz parte do negócio.

VEJA - Você parece achar que a Censura não é um mal para a televisão. É isso?
CLARK - Eu não acho que a Censura não seja um mal para a televisão. Acho que a Censura é um mal. Mas como ela existe para o teatro, o cinema, o disco, o livro, seria um privilégio não existir para a televisão. 0 problema é que o nível está aquém do veículo. Muitas vezes esse veículo deixa de transmitir mensagens positivas na suposição de que seriam negativas. A confusão simplória de que a televisão é muito forte para que certas coisas sejam nela divulgadas é danosa para o próprio governo, para os próprios interesses que passaram a conceituá-la dessa forma.

VEJA - Em que medida exatamente o governo interfere hoje?
CLARK - Posso garantir que jamais me pediram uma cabeça. Em toda as conversas, sempre ficou claro: "A responsabilidade do que é transmitido é do senhor e da empresa. Não quero saber quem escreve é A, B ou C". Isso é uma coisa que me dá uma grande paz, porque ser obrigado a afastar uma pessoa é muito ruim.

VEJA - Como você explica o fato de a televisão noticiar um engarrafamento monstro e não noticiar a causa do engarrafamento, no caso, uma assembléia de estudantes na PUC?
CLARK - Eu estava viajando nesse dia ...

VEJA - Como são e como eram suas relações com o Boni?
CLARK - Boas, muito boas.

VEJA - No entanto, atribui-se sua saída também ao choque entre dois grupos: o seu e do Boni. Como se diz lá dentro, "o grupo que trabalhava e o grupo que festejava".
CLARK - Não, não houve nada disso. Nenhum detalhe comezinho existiu. É evidente que os grupos existem, as forças perseguindo o poder existem e é natural, senão seria um bando de imbecis. A luta pelo poder existe até no Vaticano e no Kremlin, mas daí a dizer que houve um "golpe de Estado, não.

VEJA - 0 Boni não teve nenhuma participação nessa crise?
CLARK - Não. É evidente que, como envolvia mudança de cúpula, Roberto Marinho foi obrigado a conversar com o Boni e lhe dizer que eu ia sair da empresa, que ele esperava continuar com a colaboração dele, etc. 0 Boni é o sujeito que eu considero o mais competente profissional da televisão. É um homem precioso. Temos temperamentos diferentes -ele é impulsivo, um espanhol, eu sou mais calmo -, mas o nosso relacionamento profissional é de dois caras que se respeitam. Se houve alguma coisa na televisão que fiz certo, foi exatamente a independência e tranqüilidade que esses homens tiveram para trabalhar e que transferiram a outros e a outros. Hoje, a TV Globo é uma pirâmide. uma máquina no bom sentido, tanto que vou sair e ela vai continuar tendo sucesso.

VEJA - Quem é o responsável pelo chamado padrão Globo de qualidade?
CLARK - 0 Boni.

VEJA - Mudando de assunto: até que ponto o chamado episódio de Brasília pesou na sua saída da Globo?
CLARK - Qual episódio de Brasília?

VEJA - Existe uma versão, que correu no Rio, que diz que você. numa determinada reunião social, teria destratado uma ou várias autoridades militares.
CLARK - Você acha que se eu tivesse feito isso não estaria preso? Realmente estive em Brasília, mas não com o general Frota, nem com o general Figueiredo (com o general Frota estive uma vez num concurso hípico e esse encontro se limitou a um cumprimento e com o general Figueiredo tive um almoço aqui no Ministério do Exército). Conversei muito com o general Carlos AIberto Cabral Ribeiro e relembrei o tempo em que ele comandava o 1 Exército e tínhamos excelente relação, estive com Humberto (Barreto, da Caixa Econômica Federal), chorando dinheiro para o Flamengo, e saí mais cedo da festa. Eu não sou louco, eu sou o sujeito mais hábil do mundo.

VEJA - Mas a reunião teria sido na casa de um funcionário da TV Globo, não na festa de inauguração.
CLARK - Realmente houve essa reunião, mas não houve nada do que se diz. Se houvesse, puxa vida, eu não estaria solto.

VEJA - Quem estava nessa festa?
CLARK - 0 general Calderari, o Humberto, muitas pessoas da sociedade local, havia muita gente. Foi uma festa enorme, inclusive no jardim. Disseram até que eu teria me encontrado com o Armando Falcão e teria reclamado da Censura, etc. Não houve nada disso.

 
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