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Televisão
A nova imagem da Globo
Na
madrugada de 28 de maio, num ponto qualquer do espaço
entre Nova York e Rio de Janeiro, a bordo de um DC-10 da Varig,
Walter Clark, diretor geral da Rede Globo de Televisão,
bebericava champanha francês e jogava gamão com
seu amigo e colega de diretoria, José Ulises Arce.
De repente, vira-se para outro passageiro, Hélio Beltrão,
ex-ministro do Planejamento e Coordenação Econômica
do governo Costa e Silva, e confidencia: "Vou te dar
uma notícia em primeira mão".
Dez
mil metros abaixo, nesta mesma madrugada, na sede náutica
do Clube de Regatas Vasco da Gama, no Rio, o jornalista Sérgio
Cabral comemorava seus 40 anos com uma festa para 600 convidados
regada a chope (1 000 litros) e cachaça (300 garrafas).
Súbito, explode e corre a notícia: "Tá
sabendo? 0 Walter Clark acaba de. . - "
A
alguns quilômetros dali, no Restaurante Lamas, centenário
ponto de encontro da boêmia e da intelectualidade carioca,
um rapaz subia numa cadeira e gritava para as superlotadas
mesas e corredores a manchete do dia e da semana: "O
Walter Clark caiu!"
Uma
queda de levantar poeira dourada, com o baque de 1,5 milhão
de cruzeiros jogados ao chão - segundo os últimos
cálculos, o dinheiro que Walter Clark ganhava por mês
na Globo. Quem passaria a receber tão fabuloso salário?
E quem doravante dirigiria a maior, mais poderosa e bem-sucedida
indústria de comunicações do país,
com lucro operacional de 56 milhões de cruzeiros por
mês?
0
lugar deixado por Clark permanecerá vazio pelo menos
pelos próximos seis meses. Através de uma intervenção
di-reta, Roberto Marinho, 72 anos, diretor-presidente das
organizações Globo, assumia, ele próprio,
a direção. Mas, confessadamente homem de imprensa,
parece bastante provável que ele continue ditando apenas
a linha política da TV Globo, deixando a parte executiva
e técnica a Cargo dos três homens que dela vêm
se desincumbindo- ou seja: José Ulises Arce (superintendente
de Comercialização), Joseph Wallach (superintendente
de Administração) e José Bonifácio
de Oliveira Sobrinho, o "Boni", de todos o mais
poderoso, não só por acumular a chefia de três
setores vitais (Programação, Produção
e Engenharia) como por sua identificação confessa
com o grupo, que, nos últimos anos, manifestava seu
desagrado diante de certos aspectos da situação
interna e externa da Globo (veja a entrevista na página
111).
"Grande
observador" - Assim, já ao presidir, a primeira
reunião da diretoria sem Clark, segunda-feira passada,
Marinho reafirmaria sua vontade de exercer uma função
de "grande observador". Mas advertiu: "Em minhas
empresas, sempre fiz questão de ser o principal responsável,
o condutor. Quando me entendem bem, prefiro não dar
ordens. Mas, quando dou, gosto de vê-las cumpridas com
muita propriedade e muita velocidade".
Justamente
aí no comportamento de Roberto Marinho à frente
de suas empresas, se encontraria a explicação
para a saída de Clark. Empresário forte, Marinho
sempre se mostrou, como conta um amigo chegado, "um homem
avesso à ostentação". Seu jornal,
0 Globo, é líder de tiragem, circulação
e faturamento no Rio de Janeiro. Suas três emissoras
de rádio - Globo, Mundial e Eldorado - ocupam, segundo
dados do IBOPE, respectivamente, primeiro, terceiro e sétimo
lugares na preferência dos ouvintes cariocas. No entanto,
seu nome e o de seus familiares raramente aparecem em colunas
sociais. E não se tem notícia de que hajam,
alguma vez, cometido extravagâncias.
O
mesmo não acontecia. porém, com o diretor geral
da Rede Globo de Televisão. Depois que a máquina
que ele mesmo montou passou a funcionar com suas próprias
pernas, Clark tornou-se uma espécie de relações
públicas da empresa, uma figura quase decorativa. "Ele
não fazia mais TV, tinha um cargo político e
fazia a política da emissora", conta Oriovaldo
Vargas, amigo de Clark há 25 anos e também seu
companheiro na última viagem internacional que realizou
como diretor da Globo.
Certo
status - Se o acomodamento forçado desagradava
ao empresário dinâmico e cheio de idéias,
por outro lado permitia-lhe levar um padrão de vida
de acordo com seu alto salário. Assim, pôde adquirir
carros importados (um Mercedes e uma Ferrari), um apartamento
duplex de cobertura na lagoa Rodrigo de Freitas (com 1 200
metros quadrados), uma lancha de 37 pés, a "Cinderela"
(quem já viu, garante: não é um barco,
é um imóvel), uma casa em Angra dos Reis, com
praia particular, mais outra em Itaipava. Em seu amplo apartamento
carioca misturam-se móveis coloniais, poltronas modernas,
porcelana chinesa, pequenas esculturas egípcias em
ferro, budas autênticos, bichos javaneses, tapetes persas,
elefantes em louça da índia. Nas paredes, quadros
de Manabu Mabe, Di Cavalcanti, Tarsila, Portinari, João
Câmara, Djanira, além de quatro reproduções
de Vasarely - assinadas.
Com
o governo exigindo austeridade e os jornais atentos aos gastos
do governo com as mordomias, o fausto de Clark somado às
constantes notícias de sua presença nos mais
caros restaurantes e boates, onde não raro se excederia
no gastos e nos drinques, ilustrava - desa gradavelmente para
Marinho - a imagem da TV Globo como uma Hollywood brasileira.
Por outro lado, comenta-se também que Marinho se sentia
algo incomodado com o prestígio e a popularidade de
Clark, que, por seu trabalho tinha seu nome mais ligado à
Rede Globo que o próprio proprietário.
Evidentemente,
Walter Clark não era o único funcionário
da Globo a receber e a gastar mensalmente grandes soma de
dinheiro. "Acho muito saudável que os sujeitos
que conquistaram certo status queiram desfrutar dele",
explica Walter Clark. "Doentio é o cara ganhar
ficar aplicando no open market e morando num quarto e sala.
Fala-se muito da vida do pessoal da Globo mas se esquece de
que é uma empresa feita por um pessoal que tinha 30
anos, homens vindos de funções mais humildes
- no rádio, na televisão, na propaganda - e
que foram aquinhoados com aquilo que seu mérito permitiu,
um dinheiro ganho honestamente."
Cigarras
e formigas - De qualquer forma, nem todos na cúpula
da Globo concordavam com essa colocação. Con-tra
a, digamos, dissipação das cigarras, insurgiam-se
as laboriosas formigas, in- conformadas com a imagem, segundo
elas desfavorável, de uma empresa rica demais. Tanto
que, na primeira segunda-- feira sem Clark, uma frase irônica
cor-ria pelos corredores da Vênus Platinada, o edifício-sede
da Rede Globo no bairro carioca do Jardim Botânico:
"Agora, gente, todo mundo de terninho da Du cal, Volkswagen
na porta e às 9h15 na sala". Previa-se também
frugalidade maior no restaurante dos diretores da emissora,
apelidado Marinho's. Os almoços são encomendados
ao restaurante Medalhão d'Or, de lpanema, e prepara
dos pelo chefe de cozinha Manoel Cerdeira, que tem ordens
de não repetir e pratos num espaço de quinze
dias. Na sexta-feira, dia 27, quando a saída de Clark
ainda não era do conhecimento da cidade, Cerdeira enviou
para a Vênus Platinada quinze rabadas completas, quinze
coquetéis de melão ao Porto, mais drinques diversos.
Custo da refeição: 7 000 cruzeiros.
Por
essas e outras, nos últimos seis meses, tanto Roberto
Marinho quanto Walter Clark já sabiam que o relaciona-mento
profissional entre ambos cami- nhava para um desenlace. Quando
este finalmente se deu, no último sábado de
maio, correram versões de que a cabeça do diretor
geral teria sido pedida por au toridades de Brasília,
por se haver ele portado de maneira inconveniente e desrespeitosa
no coquetel de inauguração da sucursal de 0
Globo na capital Federal, no último dia 11. Clark teria,
segundo os boatos: a) tomado intimidades com generais presentes;
b) ofendido as Forças Armadas; c) apostrofado os critérios
da Censura; d) desrespeitado um colega diante de senhoras
de oficiais.
Avançando
o sinal - Segundo outros boatos, Clark teria se mostrado
indelicado no dia seguinte, dia 12, numa festa oferecida por
Edgard Erichsen, diretor de relações públicas
da Rede Globo em Brasília.
O
jantar na luxuosa casa de Erichsen, no lago sul, era em homenagem
ao recém-promovido general de exército Arnaldo
Luís Calderari, e Roberto Marinho sentou-se à
mesma mesa que os generais Sylvio Frota, ministro do Exército,
e João Baptista Figueiredo, chefe do Serviço
Nacional de Informações. 0 diretor geral da
Globo em Brasília, Afrânio Nabuco, nega categoricamente
que tenha ocorrido qualquer incidente durante o ágape.
Um funcionário da Globo conta, porém, que ouviu
de Marinho após sobremesa: "O Walter está
avançando o sinal".
Dias
depois, acompanhado por Sílvia Falkenburg, sua atual
namorada, Clark viajava para Portugal para o lançamento
da novela "Gabriela", em festa a que compareceu
até o embaixador brasileiro, general Carlos Alberto
Fontoura. De Lisboa seguiu para Nova York, disposto, como
contou Felipe Rodriguez, do escritório da Globo na
cidade, a tirar alguns dias de férias. "Quero
ficar tranqüilo", disse Clark. E ficou. Jantou uma
noite no restaurante La Cremaillére, tido como um dos
melhores dos Estados Unidos, esteve no Cachaça, um
bar que oferece música e bebida brasileiras, e visitou
o Hippopotamus local.
Ao
desembarcar de volta no Aeroporto Internacional do Galeão,
na manhã de sábado, Clark ainda tentaria desmentir
sua saída: "Não penso em deixar a Globo.
Quem falou nisso? Minha vida está muito ligada à
Globo".
Tempos
dourados - Pelo menos, a vida da personagem em que Clark
se transformou. Como costuma acontecer nos contos de fada,
Walter Clark Bueno nasceu pobre (ou quase isso), em 14 de
julho de 1936, em São Paulo. Aos 6 anos, mudava-se
com a família para o Rio. E já aos 16, através
de amigos do pai, que trabalhava na manutenção
dos rádios da Panair do Brasil, entrou para a Rádio
Tamoyo, como uma espécie de office-boy.
Ao
mesmo tempo, começava a revelar outros aspectos de
sua personalidade. Primeiro, o talento - logo estava escrevendo
pequenos programas, como "Senhora Maestra", patrocinado
pelo Organdi Paramount. Segundo, o gosto literário,
lendo Hermann Hesse, Rilke e Fernando Pessoa na praia, numa
época em que eles ainda não tinham sido descobertos
no Brasil", como recorda um de seus velhos amigos, Carlos
Alberto Lofler, que hoje trabalha na Globo. Também
na praia, jogava futebol no time do folclórico Neném
Prancha.
A
caminhada de fato começou. entretanto, quando Clark,
entre 1953 e 1956, passou a trabalhar em publicidade, como
chefe de tráfego na agencia PanAmericana. Em 1956,
mudava para a TV Rio, onde atravessou todos os salões:
de contínuo a contato de publicidade e, no fim, diretor
geral. Saiu por causa de uma briga com o dono da emisora,
que lhe valeu um melancólico pileque com amigos e a
constatação de que, no fim de dez anos de trabalho,
'tinha que vender um carro para poder viver". Mas as
dificuldades não foram longas. Em 2 de dezembro de
1965, entrava pela primeira vez na Globo, para dirigir uma
emissora que ainda engatinhava.
Além
de carta branca, obtivera do dono uma participação
nos minguados lucros da empresa. Consta que, em seu primeiro
mês de trabalho, dobrou o faturamento publicitário.
Começaram
aí os tempos dourados, encerrados oficialmente na tarde
do próprio sábado, 28 de maio, por duas cartas
com elogios mútuos, uma assinada por Clark e outra
por Roberto Marinho - e, comenta-se, escritas por uma mesma
pessoa, Otto Lara Rezende, diretor da Globo. Sacramentada
sua demissão, Clark encerrava onze anos e meio de trabalho
e poderia fechar um balanço de sua vida com o saldo
de quatro casamentos (dois deles com atrizes, Ilka Soares
e Maria Rosário do Nascimento e Silva), três
filhas e um invejável patrimônio. Ao sair da
Globo, ele não perde sua participação
acionária nas outras empresas da Rede: a Sigla (gravadora
com 20% do mercado brasileiro), a Vasglo (empresária
de grandes atrações internacionais), a TVC (que
estuda a implantação do sistema de TV por cabos)
e a Telcom (de assuntos relacionados à comunicação).
Além delas. Clark possui ainda a Construtora Vento,
a Imobiliária Adepar, a firma Sigen, de prensagem de
discos, a Starlight Communication, com sede em Nova York,
a Showbiz, promotora de shows. E, logo ao sair da Globo, comprou
de seus dois outros sócios (Luís Carlos Barreto
e o cineasta francês Jean-Gabriel Albicocco) a Indústria
Cinematográfica Brasileira.
Dono
da verdade - Rei morto, rei posto. O terceiro dia da Globo
sem Clark começa com um alto funcionário do
Departamento Comercial na sala de Boni. Este balança
a cabeça diante de um projeto à sua frente e
sentencia: "Fora de questão. Está errado".
Sai o empregado, Boni já despacha um memorando para
a Administração. Nele, analisa os baixos salários
no setor de Cenografia - 450 funcionários, lembra ele
no bilhete - e pede providências.
Pela
rotina de trabalho observada na última semana, não
se duvida de que esta ampla sala decorada em preto e branco,
onde é proibido fumar, seja o novo, inquestionável
centro de decisões executivas dentro da Globo. "É
fácil avaliar o poder conseguido pelo Boni", sussurra
nove andares abaixo um editor de telejornalismo. "Se
ninguém for nomeado para a direção geral,
o comando é dele."
No
gabinete de Boni, um televisor Semp, 26 polegadas, elevado
a 1 metro , meio de altura por uma haste de metal e emoldurado
por uma proteção de madeira para que a claridade
não prejudique a imagem florida, está quase
sempre sintonizado no canal 5 do Rio de Janeiro, canal que
não existe para o resto da cidade. Mas nesse aparelho
a programação não pára. Tanto
pode pegar uma cena de "Planeta dos Homens" quanto
um segmento do "Globo Repórter" ou um trecho
de " Locomotivas" depende do que estiver sendo gravado
num dos três estúdios do Jardim Botânico.
Boni, o espectador desse aparelho mágico, costuma acompanhar
pelo canal interno da TV Globo o trabalho de seus comandados.
Nem
precisava desse Grande Olho. Dentro e fora dos estúdios,
pelos cantos da TV Globo, sua sombra cobre todas as áreas
de produção. "Se o Boni saísse daqui,
seria um baque. Ele é a mola". "Só
se trabalha pensando no que ele vai achar", diz um dos
mais antigos funcionários da estação.
Não só ele. Nas conversas de corredores, repete-se
sempre a história do dia em que Boni achou horrível
a letra apresentada para o tema do "Fantástico",
e rabiscou em 5 minutos alguns versos em substituição;
lembra-se as vezes em que ele desceu aos estúdios para
montar ou dirigir espetáculos, mexer em cenografia.
Enfim, lendas e lembranças que não discutem
sua competência. "É o homem que mais entende
de televisão no país", afirmam todos, inclusive
ele mesmo. Numa discussão profissional em que lhe disseram
que não deveria se apresentar como o dono da verdade,
retrucou: "Pois nisso aqui eu sou dono da verdade mesmo".
Queijos
franceses - José Bonifácio de Oliveira Sobrinho,
paulista de 42 anos crescido no bairro da Pompéia,
dois casamentos e dois filhos, só se interessa pelo
que entende e só aprende o que possa utilizar. Não
tem, por exemplo, outras leituras além de livros técnicos
de eletrônica e de psicologia, combinação
que lhe permite manipular dentro da televisão tanto
os segredos da engenharia quanto os mecanismos humanos. "É
um gênio", espantou-se o falecido teatrólogo
Paulo Pontes, quando o conheceu melhor. "Conseguiu dominar
à perfeição a técnica do comando
pelo terror."
Nos
últimos tempos estabeleceu a média de vinte
memorandos por dia, contendo apreciações sobre
o trabalho técnico e artístico que revogam imediatamente
as disposições em contrário, aliás,
criadas por ele mesmo.
Dizem
que tem a temperatura da casa na Barra da Tijuca adaptada
não a si mas à saúde dos queijos franceses
e principalmente dos vinhos, preciosidades que lhe abriram
as portas de três confrarias internacionais de gastrônomos.
"Posso
até dizer que ganho mal", ga-rante Boni, feliz
proprietário de um Porsche verde. "Nos meus dez
anos de Globo, passei os cinco primeiros sendo explorado em
termos de salários, três anos menos explorado
e só nos dois últimos recebi um aumento de ganhos,
através de participação nos lucros, e
mesmo assim recebendo bem menos que muita gente de áreas
diferentes e escalões inferiores." Diz que ninguém
vai acreditar: "Não tenho um tostão empregado
ou guardado. Nada no banco, a não ser um papagaio de
2 milhões. Tenho a minha casa na Barra da Tijuca, que
é sem dúvida uma bela casa, um barquinho em
Angra dos Reis e mais nada, porque o meu negócio não
é ficar milionário".
Aos 15 anos, em 1950, Boni já escrevia textos humorísticos
para a Rádio Nacional, experiência seguida de
estágios na Rádio Mayrink Veiga e na extinta
TV Paulista, então canal 5 de São Paulo. Nos
anos seguintes, dirigiu departamentos de TV de agências
de publicidade - Lintas, Alcântara Machado, Multi e
por fim Proeme, da qual foi fundador, intercalando atividades
como redator e produtor da TV Tupi, e mais tarde TV Excelsior,
onde fez sucesso como redator do programa do maestro italiano
Enrico Simonetti. Mas foi como publicitário que Boni
conheceu em 1967 Walter Clark, na época diretor comercial
da TV Rio, com quem discutia horas seguidas sobre uma paixão
comum: televisão.
"Não houve golpe de Estado"
Também
não houve escândalo em
festa alguma, segundo a versão de Clark
Por
duas vezes, na semana passada, Walter Clark recebeu o chefe
da redação de VEJA no Rio, Zuenir Ventura. em
seu apartamento duplex de cobertura na lagoa Rodrigo de Freitas.
Na segunda-feira, quando ainda era densa a poeira levantada
pela sua saída da Globo, houve a primeira entrevista.
Na quinta, já com horizontes mais claros, houve a complemen-tação.
VEJA
- Por que você saiu da TV Globo?
CLARK
- Essa decisão já vinha sen-do amadurecida há
cerca de um ano. Nos últimos meses, os entendimentos
co-meçaram a ser estabelecidos no sentido de se estudar
uma maneira pela qual eu pudesse ser dispensado da Globo.
Final-mente agora tudo terminou da forma mais elegante possível
para todos os la-dos, sem ressentimentos, sem rancores.
VEJA
- Não foi portanto uma de-cisão intempestiva?
CLARK
- Não, não foi nada intem-pestiva. Passei quinze
dias em Nova York, e lá, com o meu amigo Orioval-do
Vargas, que participou muito de mi-nha vida nesses 25 anos
de trabalho em televisão, amadureci muito a decisão.
Principalmente por considerar que já ti-nha feito tudo
o que tinha para fazer. 0 que me cabia para fazer agora fugia
do traço mais importante da minha per-sonalidade, que
é a inquietação, a vonta-de de realizar
coisas, febrilmente. A po-sição de homem de
gabinete, de certa forma, estava me violentando. A minha vida
foi dedicada à televisão de uma forma tão
absorvente que isso acabou tor-nando minha vida pessoal bastante
aci-dentada. A partir do momento em que completei 40 anos,
comecei a meditar sobre o assunto. Afinal de contas, o que
eu pretendia, o que ia fazer da vida?
VEJA
- Essa inquietação poderia le-var a supor que
você vai mudar de "mídia"?
CLARK
- Uma das coisas que pro-jeto fazer é um filme. E não
é na base de sonho não: o Lauro César
Muniz já está com o livro para a adaptação,
"Ju-das, o Obscuro", de Thomas Hardy. Já
no tempo da TV Rio eu ia produzir com o Ruy Guerra.
VEJA
- Você quer dirigir o filme?
CLARK
- Quero ver se consigo. Nunca dirigi um filme, mas já
dirigi muito televisão. Acredito que não deva
ter grandes mistérios, apoiado numa boa equipe. Fazer
esse filme é uma das coi-sas em que mais objetivamente
estou pen-sando, no momento.
VEJA
- Do ponto ele vista formal, você pediu demissão
ou foi demitido?
CLARK - Pedi para sair e, afinal, o Roberto (Marinho)
concordou.
VEJA
- Isso significa que você não vai ser indenizado.
CLARK - Tenho um acordo ope-racional com a Globo, que
me permitia pedir essa demissão e pleitear condições
que, digamos, fizessem jus ao esforço que fiz. Não
fui sócio do Roberto, mas fui um sujeito que participou
da em-presa, que ajudou a estruturá-la. Acho que, ao
sair, é justo que se encontre uma forma de remuneração
pelo meu trabalho.
VEJA
- Já se fala na cifra: 30 milhões de cruzeiros.
CLARK
- Outros falam em 40 milhões.
VEJA
- E quanto é na verdade?
CLARK
- Está sendo discutido. Para você ter idéia
de como as coisas estão tranqüilas, só
agora o assunto vai ser discutido.
VEJA
- Na sua juventude, você teve alguns cometimentos poéticos,
não?
CLARK
- Também agora. Para um sujeito de 40 anos, que está
numa idade em que começa a ver o cheiro da morte -
ainda que possa parecer exagerado, meio dramático -,
não existe muito tempo para pensar. Você tem
que agir, Por isso eu vou matar um pouco o Walter Clark que
entra até em samba de Odair José e fazer nascer
o Walter Clark Bueno. Uma mulher com quem tive uma relação
muito importante ficava indignada - e com razão -porque
eu não conseguia me separar da pessoa jurídica
que era o tempo todo. A Globo se transformou num fenômeno
nacional do tipo "Tubarão": promove grandes
paixões e grandes ódios. 0 meu caso não
é o do profissional que deixou o emprego - o emprego
mais sedutor do mundo, sem aspas - e do profissional que resolveu
encontrar-se consigo mesmo. Ao contrário da personagem
de William Holden no filme "Rede de Intrigas"),
eu saio extremamente feliz, acreditando, inclusive, na televisão.
Mas é evidente que você não pode se acomodar
no sucesso. E, posicionado desta forma, estou diante de uma
perspectiva para o futuro: não propriamente matar o
Walter Clark. Ele fez do filho de um sujeito modesto e de
uma senhora da nobreza decadente paulista, que começou
a trabalhar com 16 anos e queria ser o sucessor de João
Cabral de Meio Neto ou do Ferreira Gullar, numa pessoa importante.
Mas quero voltar à minha vida sentimental, pessoa ,
afetiva, acidentada. Não creio que tenha me empobrecido
intelectualmente porque a vida da televisão é
muito rica na participação cotidiana. Mas não
acompanhei o ritmo a que me impus até certa época.
Quero sair para fazer alguma coisa que não interfira,
tanto quanto a televisão, nesse lado de minha vida,
o humano.
VEJA
- Pelo que se diz, você, o maior salário do mundo,
teria condições de viver bem pelo resto da vida.
CLARK
- De jeito nenhum. Aliás, eu nunca tive salário.
Na Globo eu tinha uma participação equivalente
ao que realizasse. No primeiro mês na Globo, tive que
vender um carro para viver.
VEJA
- A Globo era deficitária? Qual era a situação
dela?
CLARK
- Ela estava recém-inaugurada e tinha um parque técnico
bem equipado. Mas faltava gente. O Roberto Marinho, que nessa
época estava desfazendo o contrato com a Time-Life,
me chamou. Então eu visitei a estação,
vi que realmente ela tinha base para fazer alguma coisa e,
enquanto discutia o contrato, já estava armando a programação,
que três meses depois estava em primeiro lugar. E não
foi genialidade, não. Foi a soma do empresário
saudável, que equipava a estação e que
lhe dava boa imagem, com o profissional competente, e depois,
com vários e vários profissionais competentes.
Nunca se credita muito ao Roberto Marinho o sucesso da Globo
- procuram situá-lo mais no Boni e em mim -, mas eu
gostaria, na hora em que estou saindo, de registrar que a
importância do Roberto na Globo foi decisiva.
VEJA
- Havia divergências entre você e Roberto Marinho?
CLARK
- Não, de jeito nenhum. 0 entendimento entre eu e o
Roberto foi sempre perfeito. Nunca tivemos problema que não
fosse resolvido dentro do clima da mais absoluta cordialidade.
VEJA
- Você se identificava tanto com a Globo, que seria
o caso de se perguntar até que ponto se pode tribular
a você os erros e defeitos dela?
CLARK
- Não. Ela é balizada pela Censura e por uma
série de informações, o que nos obriga,
por uma questão de bom senso, a fazê-la substantiva.
Ela comunica o fato puramente, não procura interpretá-lo.
Se interpretasse, teria uma importância maior, mas também
é preciso levar em consideração que,
no Brasil, o universo da televisão não é
específico: vai do Walther Moreira Salles à
pessoa mais humilde da favela. Que forma iríamos encontrar
para fazer uma interpretação, uma avaliação
mais profunda das coisas se a capacidade de absorção
desse material vai de zero ao infinito? A televisão
e extremamente rica, não é específica,
como é o livro. E é muito perigosa. Por ela
ser muito perigosa, ela tem que ser, não digo alienante,
mas um pouco anódina. Ela tem que se limitar a mandar
a notícia de uma forma substantiva para o ar, e deixar
que os jornais e as revistas interpretem.
VEJA
- E onde é que entra a Censura?
CLARK
- Ela interfere no que considera ser problema de segurança
nacional. E como concessionários devemos cumprir, inclusive,
porque os regimentos do Código Nacional de Telecomunicações
são extremamente severos. Mas isso é assim no
governo atual, como era assim no governo tido como o mais
democrático que o Brasil já teve, o de Juscelino.
E foi assim na época do muito democrático Carlos
Lacerda. por uma questão de briga pessoal com o Roberto
Marinho. Televisão é concessão, é
um serviço público designado pelo governo e
o governo interfere, sempre interferiu. É uma realidade
que temos que enfrentar. E às vezes eles são
desconcertantes. Às vezes, não se compreende.
Eles dizem: "Vocês não sabem o que está
por trás disso", e outras coisas, mas são
desconcertantes. Mas isso faz parte do negócio.
VEJA
- Você parece achar que a Censura não é
um mal para a televisão. É isso?
CLARK
- Eu não acho que a Censura não seja um mal
para a televisão. Acho que a Censura é um mal.
Mas como ela existe para o teatro, o cinema, o disco, o livro,
seria um privilégio não existir para a televisão.
0 problema é que o nível está aquém
do veículo. Muitas vezes esse veículo deixa
de transmitir mensagens positivas na suposição
de que seriam negativas. A confusão simplória
de que a televisão é muito forte para que certas
coisas sejam nela divulgadas é danosa para o próprio
governo, para os próprios interesses que passaram a
conceituá-la dessa forma.
VEJA
- Em que medida exatamente o governo interfere hoje?
CLARK
- Posso garantir que jamais me pediram uma cabeça.
Em toda as conversas, sempre ficou claro: "A responsabilidade
do que é transmitido é do senhor e da empresa.
Não quero saber quem escreve é A, B ou C".
Isso é uma coisa que me dá uma grande paz, porque
ser obrigado a afastar uma pessoa é muito ruim.
VEJA
- Como você explica o fato de a televisão noticiar
um engarrafamento monstro e não noticiar a causa do
engarrafamento, no caso, uma assembléia de estudantes
na PUC?
CLARK
- Eu estava viajando nesse dia ...
VEJA
- Como são e como eram suas relações
com o Boni?
CLARK
- Boas, muito boas.
VEJA
- No entanto, atribui-se sua saída também ao
choque entre dois grupos: o seu e do Boni. Como se diz lá
dentro, "o grupo que trabalhava e o grupo que festejava".
CLARK
- Não, não houve nada disso. Nenhum detalhe
comezinho existiu. É evidente que os grupos existem,
as forças perseguindo o poder existem e é natural,
senão seria um bando de imbecis. A luta pelo poder
existe até no Vaticano e no Kremlin, mas daí
a dizer que houve um "golpe de Estado, não.
VEJA
- 0 Boni não teve nenhuma participação
nessa crise?
CLARK
- Não. É evidente que, como envolvia mudança
de cúpula, Roberto Marinho foi obrigado a conversar
com o Boni e lhe dizer que eu ia sair da empresa, que ele
esperava continuar com a colaboração dele, etc.
0 Boni é o sujeito que eu considero o mais competente
profissional da televisão. É um homem precioso.
Temos temperamentos diferentes -ele é impulsivo, um
espanhol, eu sou mais calmo -, mas o nosso relacionamento
profissional é de dois caras que se respeitam. Se houve
alguma coisa na televisão que fiz certo, foi exatamente
a independência e tranqüilidade que esses homens
tiveram para trabalhar e que transferiram a outros e a outros.
Hoje, a TV Globo é uma pirâmide. uma máquina
no bom sentido, tanto que vou sair e ela vai continuar tendo
sucesso.
VEJA
- Quem é o responsável pelo chamado padrão
Globo de qualidade?
CLARK
- 0 Boni.
VEJA
- Mudando de assunto: até que ponto o chamado episódio
de Brasília pesou na sua saída da Globo?
CLARK
- Qual episódio de Brasília?
VEJA
- Existe uma versão, que correu no Rio, que diz que
você. numa determinada reunião social, teria
destratado uma ou várias autoridades militares.
CLARK
- Você acha que se eu tivesse feito isso não
estaria preso? Realmente estive em Brasília, mas não
com o general Frota, nem com o general Figueiredo (com o general
Frota estive uma vez num concurso hípico e esse encontro
se limitou a um cumprimento e com o general Figueiredo tive
um almoço aqui no Ministério do Exército).
Conversei muito com o general Carlos AIberto Cabral Ribeiro
e relembrei o tempo em que ele comandava o 1 Exército
e tínhamos excelente relação, estive
com Humberto (Barreto, da Caixa Econômica Federal),
chorando dinheiro para o Flamengo, e saí mais cedo
da festa. Eu não sou louco, eu sou o sujeito mais hábil
do mundo.
VEJA
- Mas a reunião teria sido na casa de um funcionário
da TV Globo, não na festa de inauguração.
CLARK
- Realmente houve essa reunião, mas não houve
nada do que se diz. Se houvesse, puxa vida, eu não
estaria solto.
VEJA
- Quem estava nessa festa?
CLARK
- 0 general Calderari, o Humberto, muitas pessoas da sociedade
local, havia muita gente. Foi uma festa enorme, inclusive
no jardim. Disseram até que eu teria me encontrado
com o Armando Falcão e teria reclamado da Censura,
etc. Não houve nada disso.
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