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Televisão
O futuro de um império
A
Rede Globo de Televisão só tem
medo de uma coisa: dela mesma
Cid
Moreira dá uma última espiadela no espelhinho
re-dondo de bolso e retoca a maquilagem. Tosse. Exercita os
músculos da cara, retesando-os e afrouxando-os, se-
guidas vezes. Pega um pedacinho de papel em forma de confete,
umedece com a língua e pergunta se não fica
uma graça com uma pintinha na bochecha. Alguém
avisa que chega de brincadeira, o programa já vai entrar.
Desa-parece o sorriso, cessa o pigarro, Cid olha firme para
frente e compõe o sereno semblante que os telespectadores
daqui a 1 minuto contemplarão.
Descabelada,
sem maquilagem, calça de brim surrada, Nelma Célia
Silva, a 100 metros do estúdio onde Cid arma seu glamour,
vive os 60 segundos mais agitados e perigosos de seu dia.
Ela é operadora do "Master" - seleciona as
imagens e as coloca no ar. Nelma não pode errar nunca.
A sua volta, tão nervosos quanto ela, trocando gritos
e imprecações, quinze outros técnicos
transformam a sala do controle-mestre num verdadeiro inferno.
"Corta, corta, vai entrar o toque de 8 segundos."
E entra. A TV Globo do Rio de Janeiro comunica às 22
emissoras da Rede Globo de Televisão que são
19 horas, 44 minutos e 52 segundos. Elas devem se unir incontinenti.
Pois, com um último toque das mãos de Nelma,
está no ar o "Jornal Nacional".
O
programa de maior audiência da televisão brasileira
é visto por 25 milhões de pessoas. A imagem
empertigada de Cid Moreira atinge os 35% do território
nacional onde vive metade da população do Brasil.
Um horário estratégico e caro. A Globo cobra
130 425 cruzeiros para transmitir um anúncio de 30
segundos de duração a esse formidável
mercado.
Quem
não sonha em ganhar sozinho a Loteria Esportiva? A
Globo. Estima-se seu faturamento mensal em 10 milhões
de dólares, ou 113 milhões de cruzeiros, ou
ainda quatro consecutivos e solitários triunfos na
Loteca. 0 país sintoniza maciçamente as emissoras
da Rede. A mais categórica prova dessa preferência
está nas pesquisas de opinião públíca
- os dez programas mais vistos da TV brasileira são
transmitidos pela Globo. É a maior indústria
de comunicação já implantada no Brasil.
Produz 75% da programação que vai ao ar entre
18 e 24 horas.
A
Globo não inventou a telenovela. De seus estúdios,
porém, partiu a contribuição decisiva
para sua transformação em um gênero paracinematográfico,
de dimensões hollywoodianas, mas tipicamente brasileiro
na linguagem, na temática e no alucinado ritmo de produção.
Somadas, suas quatro novelas equivalem a um filme de longa
metragem por noite. Um mercado de trabalho que a maioria dos
artistas brasileiros preza e abençoa: dá-lhes
fama ou, na pior das hipóteses, pagamento em dia. Pode,
portanto, a Globo ostentar e manter o mais fabuloso elenco
de astros e estrelas jamais reunidos por uma central de produção
artística.
Do autor ao eletricista, do astro ao extra, 1 300 pessoas
participam da feitura diária dos capítulos,
gravados em estúdios ou na mais hollywoodiana das criações
da Rede Globo - a "cidade cenográfica". No
quilômetro 78 da Rio-Santos, num aterro de 4 000 metros
quadrados entre a estrada e o mar, Barra do Guaratiba é
uma cidade de mentira. Lá, atualmente, são gravadas
as cenas externas das novelas "0 Casarão"
e "Saramandaia".
Insólito
lugar. Abre-se a porta da igreja, da prefeitura, de qualquer
edifício, e não se entra em parte alguma. São
só fachadas. E duram enquanto duram as novelas.
Pelo
menos duas dezenas de artistas chegaram ao Olimpo global:
ganham, por força de contrato, salários mensais
que vão de 80 000 a 150 000 cruzeiros. E férias
de três a nove meses. De segunda a sábado entre
6 da tarde e a meia-noite as novelas constituem a espinha
dorsal da programação dessa Hollywood brasileira.
Vão para o ar em horários cuidadosamente estudados
de forma a manter seu espectador-padrão ligado. Ou
melhor, ligada.
Desde
1971, a Globo realiza em média 10 milhões de
entrevistas por ano. Anota os hábitos, o comportamento
e as tendências de uma respeitável massa de telespectadores
das cinco maiores cidades brasileiras: São Paulo, Rio
de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. O resultado
de todas as enquetes é religiosamente encaminhado ao
homem que as encomenda e estuda, Homero Icaza Sánchez,
chefe do Departamento de Análise e Pesquisas da Rede
Globo.
-
Bruxo não dá entrevista, dá receita.
Mas
Homero Sánchez abriu uma exceção para
os dois repórteres de VEJA que foram descobri-lo. Entre
muitas risadas e com voz musical, sacode o corpo gordo pela
sala ao representar o papel do tipo que descreve - o telespectador
brasileiro, segundo o padrão Globo de audiência:
-
É mulher. Casada, pouco mais de 30 anos, católica.
Vai uma vez por mês ao cabeleireiro, faz as unhas em
casa e acompanha o marido ao cinema nas noites de sábado.
Ela é que compra tudo para o homem. O marido só
escolhe mesmo o terno e a gravata. 0 resto, até as
cuecas, ela compra. Mostra-se mais compreensiva e mais moderna
que o companheiro. Do filho, espera que se forme; da filha,
torna-se aliada.
Eis
por que, para a casa dessa mulher está voltada toda
a programação da Globo. Sánchez, um panamenho
de 51 anos, ex-diplomata, narra o que faz acontecer em milhões
de casas brasileiras entre 18 e 24 horas, de segunda a sexta:
"Entro
às 6 horas com uma história juvenil, que faz
a mulher recordar o tempo das avós, pureza, romantismo
"A Moreninha", "0 Feijão e o Sonho".
Às 7, solto uma coisa ainda leve, mas já com
alguns problemas, quase uma espécie de fotonovela "Anjo
Mau"). Agora, na novela das 8, meus amigos, aí
a mulher faz a catarse - é o dia-a-dia, a vida dela,
os filhos de Salviano Lisboa que são uns safados, o
inferno da Lucinha ("Pecado Capital", a neurose
de Lina "O Casarão"). Já na novela
das 10 forneço uma leitura adulta. É um horário
em que a gente pode se soltar mais, ousar mais, experimentar".
-
Mas, e o homem, e o homem?
Responde
o alquimista:
"O
homem chega em casa lá pelas 6 e meia, 7 da noite.
Vem do escritório, do trânsito, de um dia cheio
de aborrecimentos. Precisa de uma descompressão. A
cabeça dele parece estar dentro de uma caixa de vidro,
ele não ouve nada. Vai sentar em sua poltrona, enfiar
a cara num jornal, continuar inatingível durante o
jantar. Só começará a se relaxar, se
mexer, se sentir bem, quatro horas depois de chegar em casa.
E aí que que eu faço com ele? Jogo o que o cara
precisa para se soltar de uma vez: muito tiro, soco, "Kojak",
"Arquivo Confidencial", "Controle Remoto"
o nosso horário de ação".
Não
foi à toa, portanto, que Sánchez deu um murro
na mesa ao terminar a leitura da sinopse de "Estúpido
Cupido", de Mário Prata. Lá estavam, apontava
ele aos assessores, qualidades indispensáveis a uma
boa novela das 7: volta à pureza de uma época
ainda recente, 1961; início da discussão de
temas controvertidos até hoje, como a pílula
anticoncepcional; um forte apelo musical com ampla possibilidade
de comercialização; e, finalmente, o detalhe
que apaixonou Sánchez: o concurso de Miss Brasil, sonho
dourado da telespectadora-padrão da Globo ("mais
de 30 anos. . .") que certamente acompanhará,
roendo as unhas, a escalada de Maria Teresa (Françoise
Fourton) rumo à capa da então viçosa
revista 0 Cruzeiro.
O
segundo programa de maior audiência da Rede Globo é
ou a novela das 7, ou a novela das 8 depende de qual esteja
estreando ou terminando. De qualquer maneira, raramente uma
das duas bate o campeoníssimo "Jornal Nacional".
Mas, se a mulher é o alvo da Globo, e as novelas, o
forte da Rede, como explicar a quase invencibilidade do noticioso?
Armando Nogueira, diretor responsável pela Central
Globo de Jornalismo, desvenda a estratégia:
-
O "Jornal Nacional" tem que durar 15 minutos. Mais,
não pode. Senão a dona-de-casa muda de estação
e passa a ver a novela de outro canal.
Mas
na Hollywood brasileira todo, mundo é artista. Até
mesmo os locutores de telejornais. Sérgio Chapelin,
por exemplo, que costuma indignar-se quando o tratam meramente
como um homem bonito, pelo menos uma vez por mês assume
o papel de galã e anima bailes de debutantes nos subúrbios
do Rio e no interior do país. Igualmente precavido,
o veterano Cid Moreira (25 anos de locução)
só concede entrevista depois de indagar sua finalidade.
"Todos pensam que os locutores são apenas tipos
de beleza, sem nada na cabeça. É preciso respeito
pelos profissionais." Como seus colegas, ele não
revela quanto ganha. A Globo, ele diz, não interfere
em sua apresentação pessoal: "Cada um corta
o cabelo onde quer". Uma coisa, porém, Cid Moreira
não pode negar: recebe uma média de 100 cartas
de fãs por mês.
Na
seção de correspondência da emissora,
Clarinha e Márcia, duas moças simpáticas
mas levemente entediadas, abrem milhares dessas cartas toda
semana. Em julho, por exemplo, elas atenderam a 13 366 pedidos
de fotos de artistas e locutores da casa. Cada missivista
recebeu, como resposta, uma foto 18 x 24 autografada por seu
astro favorito. Cada foto custa à Globo 6 cruzeiros.
Mas
quem recebe mais cartas? Eis os dez mais do mês de agosto:
Mário Gomes (2 117 cartas); Mário Cardoso (1
656); Lauro Góes (1 531); Dênis Carvalho (1 502);
José Wilker (1 362); Francisco Cuoco (1 131); Pepita
Rodrigues (1041); Regina Duarte, embora há quase dois
anos afastada da televisão, foi lembrada por 1 023
telespectadores; Suzana Vieira (909); e, finalmente, Débora
Duarte (790).
Terrível
é o "Tarado", que envia mensagens desvairadamente
pornográficas às atrizes da Globo. Dele, sabem-se
apenas as iniciais (C. Z.), que mora em São Paulo e
usa sempre a mesma agência dos correios, na alameda
Tietê. C. Z. é mesmo um tarado sem qualquer critério.
Tanto escreve para jovens e deslumbrantes atrizes como para
respeitáveis senhoras. Nem ZiIka Salaberry escapou.
As
mulheres que escrevem para os galãs falam princi-palmente
de amor. A maioria recorre ao subterfúgio da narração
de sonhos para sugerir, ou mesmo cla-ramente expressar, a
atração sexual que sente por seu ídolo.
Mas o que aconteceu com Dênis Carvalho, o"Atílio"
da segunda fase da novela "0 Casarão", é
rigorosamente inédito. Ele conta que recebeu certa
vez uma carta de uma estudante de psicologia do Ceará.
A moça dizia querer ardentemente um filho dele. Mas
que Dênis, pelo amor de Deus, não pensasse mal
dela. Queria um filho, mas não pelo método secularmente
consagrado: " ... mande num vidrinho, pelo correio".
"Virei
até bonito. De repente, entro para a Globo e sou lindo.
0 galã triste." O neoformoso Ney Latorraca, 32
anos, o Mederiquis de "Estúpido Cupido",
paga com prazer o preço da fama. "Fãs me
agarrando, puxando o cabelo, rasgando a roupa, gritaria, delírio,
já passei por tudo isso. E gostei. Antes eu era serião,
só lia Grotowski, Stanislavsky. Aí entrei de
sola no esquemão. Quando fazia só teatro em
São Paulo, eu era um tipo meio maldito na família.
Agora, o que está aparecendo de Latorraca pelo Brasil
é fantástico. Gente que eu nem sabia que existia
me escreve indicando parentesco. Na Globo, amigo, o ator deixa
de ser marginal. 0 sonho de todo ator é trabalhar na
Globo."
Sandra
Brea que o diga. A Globo a lançou em sua primeira novela
em cores, "0 Bem-Amado", de Dias Gomes, em 1972.
Hoje, aos 24 anos, apontada por muitos como a primeira estrela
fabricada pela televisão (e não importada do
teatro, como de hábito), ela se expressa e se comporta
de maneira bastante afetada. No camarim do restaurante Vivará,
no Rio, minutos antes de entrar em cena no show "Bananas
e Paetês", com seu inseperável partner Miéle,
Sandra Brea pede champanha para ela e cafezinho para o repórter
Joaquim Ferreira dos Santos, de VEJA. Que não perde
a oportunidade de lhe perguntar:
-
Você acha que a Globo é a Hollywood brasileira?
-
Vamos ficar na base. Ela tem dinheiro.
Guta,
uma mulher de seus 50 anos, pequena, desde menina sofre de
um problema de coluna. Usa colete de aço e sente dores
permanentemente. As de cabeça, em particular, são
terríveis. Só costumam melhorar quando toma
Aracin, aspirina pura, concentrada. "Não tem no
Brasil. Eu mando vir dos Estados Unidos." Todo dia, às
9 da manhã, ela se acomoda em sua cadeira acolchoada
e começa a trabalhar. Maria Augusta B. de Matos dirige
o Departamento de Elenco da Rede Globo. Tem sempre ao alcance
da mão cinco cadernos de endereços: a qualquer
momento, Guta pode contatar 95% da classe teatral do eixo
Rio-São Paulo. Mais: 3 000 pastas reúnem dados
pessoais e fotos de candidatos a artistas, ocasionalmente
convidados, pelos comandados de Guta, para uma "ponta"
ou mesmo um papel nos programas da Rede. A sala de Guta entra
obrigatoriamente na rotina diária dos artistas da Globo.
Nela, são distribuídos os capítulos de
novelas que os atores devem decorar e afixados os roteiros
de gravação.
Ali
chega também toda a correspondência endereçada
aos astros e estrelas da casa. O espaço em volta desta
enérgica e poderosa mulher é bastante escasso.
Mesa, cadeiras, um sofá, uma estante, um aparelho de
TV em cores e 47 posters de artistas - todos dedicados a Guta,
Gutinha, Mãezinha - compõem o mobiliário.
-
Oi, mãe! - aparece Françoise Fourton exclamando
e beijando Guta.
Sentado
no sofá, Ney Latorraca assiste à efusão
da colega e faz beicinho: de enciumado. 0 teatrinho dos três
não dura mais de 2 minutos e termina com risos e abraços.
Semblante severo, mas em tom indisfarçadamente maternal,
Guta aponta o dedo para Ney:
-
Vou anunciar que você vai deixar de fumar. Quero ver
o senhor não parar.
Maria
Della Costa chega resfriada de São Paulo. Guta não
tem um remedinho bom para gripe? Claro que sim. A diretora
do Elenco transformou em farmácia uma prateleira da
sala. Amostras grátis e remédios para todos
os males do corpo, da mente e, principalmente, os da pura
e simples hipocondria. Ela própria admite: artista
vê doença em toda parte. "Os atores estão
acostumados a viver vidas alheias", ela explica. "Têm
a sensibilidade à flor da pele. Quanto mais sensíveis,
mais problemáticos. Mas eu sei lidar com eles. E eles
aprenderam a confiar em mim." Tanto que vários
deles entregam a Guta a gerência de seus negócios.
Ney Latorraca, por exemplo, comprou justamente o apartamento
que Guta escolheu para ele.
A
visão romântica do trabalho do ator, que Guta
não perdeu em trinta anos de trabalho no rádio,
na publicidade e na televisão, não a impede,
porém, de por vezes tomar o partido da casa e não
o do artista. Ela reconhece que muitos intérpretes
sentem dificuldade em adaptar-se à frenética
maratona da TV. E cita o caso de Joel Barcelos, contratado
por 40 000 cruzeiros mensais para atuar em "Estúpido
Cupido". Escolado no cinema, Joel não gravou mais
que alguns capítulos. "Não agüentou
o ritmo do trabalho e pediu demissão", exclama
Guta. "Ele sentou aqui na minha frente e eu disse: "Aqui
não é Cinema Novo, não! Estou tentando
fazer de você um ator do Sistema Globo' ". A diretora
do Elenco pode definir tal espécime? Pois não:
"Na televisão, o que interessa é talento,
estampa e texto na ponta da língua".
Guta
que o perdoe, mas Joel Barcelos não concorda com ela:
-
Texto não se decora, se impregna.
Lima
Duarte está de férias da Globo até abril
de 1977. Sem deixar de receber, durante todos esses meses,
seu salário de 50000 cruzeiros mensais. "Para
o ator, essas paradas são muito boas. E para a TV Globo
muito mais. Fico armazenado como num silo. Quando ela precisar
do produto Lima Duarte, vai lá e me tira."
Outra
lição que Lima aprendeu: a televisão
não admite o fracasso. "Quando fracassei na direção
da novela de Bráulio Pedroso, '0 Bofe', um diretor
da casa me chamou para dizer que não tinha mais interesse
em mim. Mas que eu continuaria recebendo até o final
de nosso contrato. Foi aí que me deram o papel de 'Zeca
Diabo' em 'O Bem-Amado'. Colou, fiz sucesso, continuei. Na
Globo é assim: se você trabalha bem, ótimo.
Caso contrário, rua."
Mas,
afinal, quanto ganham os artistas? O mais alto salário
da Hollywood brasileira sai fora da área das telenovelas
250 000 cruzeiros, basicamente para fazer "Chico City"
e aparecer no "Fantástico". Quanto aos demais,
torna-se praticamente impossível apurar. Primeiro,
porque eles não contam - ou mentem. Sabe-se, no entanto,
que os superstars - Francisco Cuoco, Regina Duarte, Tarcísio
Meira e Glória Menezes ganham ordenados seguramente
superiores a 100 000 cruzeiros.
Constituem,
na verdade, uma minoria. E, de resto, cada caso é um
caso. Tempo de casa, prestígio nos palcos ou nas telas,
preferência popular, tudo pode influir na discussão
dos termos de um contrato.
De
qualquer forma, trabalhar na Globo e como estar numa vitrina.
E proporciona oportunidades paralelas de aumentar a renda
mensal. Podem surgir convites para gravar comerciais, comandar
bailes, integrar o elenco de uma peça ou filme. A própria
Globo, aliás, através da onipresente Guta, fixou
a tabela de preços que seus atores devem cobrar.
Onde
é o baile? Longe? Norte, nordeste, Mato Grosso, Goiás?
20000 cruzeiros, mais estada. Felizardas, as debutantes do
sudeste e do sul precisarão desembolsar apenas 15 000
cruzeiros, mais estada, para receber um belo Sérgio
Chapelin em sua festa. Pechincha da tabela: baile no Rio,
10 000 cruzeiros. Aviso: inútil convidar Dênis
Carvalho, Mário Cardoso, Lauro Góes, Ney Latorraca
e Carlos Eduardo Dollabela para qualquer début - eles
estão com a agenda tomada até o fim do ano.
Ganham
os atores quando a Globo os chama para trabalhar. Mas ela
ganha também. "Quantas e quantas vezes gravei
cenas de novela onde ficava horas olhando tristemente o horizonte,
sem dizer nada, apenas olhando, e aquela música tocando
no fundo, o tema de Simone, o tema de Simone. . ." Regina
Duarte sabia muito bem, naqueles instantes, que seu meigo
e desprotegido ar de mocinha triste estava sendo usado para
vender uma música gravada num disco da Som Livre, etiqueta
fonográfica que integra o conglomerado Globo.
Essa é uma técnica de merchandising. Outra cena:
A linda Renée de Vielmond e o cobiçado Mário
Gomes estão sentados num bar gravando uma cena de "Anjo
Mau". Travam um rápido diálogo:
- Quer tomar alguma coisa?
- Uma Coca-Cola - ela responde.
A isso também se chama merchandising. Ao contrário
do anúncio, que pretende vender um produto, o merchandising
apenas mostra uma preferência. Sônia Braga, ex-Gabriela,
hoje vivendo a tórrida "Marcina" de "Saramandaia",
desabafava com um repórter de VEJA: "Só
quero ver se essa semana vou ter falas ou se tudo vai ser
de novo no estilo maratona. Minhas marcas são assim:
'Marcina entra na far-mácia'; 'Marcina sai da loja
do Gibão'; 'Marcina passa pela praça'. Lá
vou eu, mas haja paciência!"
Terá
o autor da novela condenado sua heroína a um perene
caminhar? Não, Dias Gomes não tem nada com isso.
Marcina vai à farmácia porque lá está
afixado um anúncio de Coristina. Na frente da loja
do Gibão, um cartaz proclama: "Manah adubando,
dá". E, exatamente na praça onde Marcina
tanto passeia, existe um alvirrubro comercial da Coca-Cola.
Octavio
Olive, diretor do Departamento de Merchandising da Rede Globo
de Televisão, admite estar interessado em comercializar
também "o enorme intervalo que separa um bloco
de comerciais do outro". Ou seja: os próprios
programas. Olive diz que a Globo ainda não sistematizou
tal recurso. Mas não tardará a fazê-lo:
"Queremos, de fato, vender a presença, no vídeo
e/ ou no áudio, de produtos e marcas. Tudo, naturalmente,
dentro de um certo limite, de modo a não constranger
a liberdade das pessoas e o desenvolvimento da produção
de qualquer programa da Rede".
A
força da Globo como emissora de televisão não
tardou a se fazer presente em outras áreas da indústria
do entretenimento. Em 1971, ela entrou no mercado do disco
e fundou a Sigla (Sistema Globo de Gravações
Audiovisuais), uma empresa com 100000 cruzeiros de capital.
Passados cinco anos, já com 300 títulos em catálogo,
à Sigla pertencem 20% do mercado total de vendas de
discos no Brasil. "Faturamos 22 milhões de cruzeiros
no mês de julho", revela João Araújo,
diretor geral da gravadora.
Um
pequeno sobrado de seis salas na Lagoa, Rio, funcionam a Sigla
e seus três selos: Som Livre (trilhas sonoras de novelas),
Sape (discos baratos de música sertaneja) e Soma (reedições).
Seu último sucesso: o LP "Anjo Mau", que
vendeu 470000 exemplares. "Pagamos 5 milhões de
cruzeiros em direitos autorais e artísticos por trimestre.
E 2 milhões a músicos e arranjadores",
especifica Araújo.
Augusto
Graça Mello, o "Guto", 28 anos, músico,
arranjador e maestro, é gerente de produção
da Sigla e diretor musical das novelas da Globo. Em torno
de uma mesa de reunião, Guto e Maurício Sherman,
diretor geral de "Fantástico", discutem as
próximas atrações musicais do programa.
"Paulinho
da Viola não", diz Sherman. "Ele dubla muito
mal." E Cely Campello? "Anda dizendo tanta besteira,
a Cely", interrompe o diretor. "Ela diz que tudo
que é cantado em português é brasileiro.
Assim não dá." Simone também não
serve: "Muito classe A". Ao telefone, alguém
informa que Elizeth Cardoso quer 30000 cruzeiros para cantar
um número no "Fantástico". Clara Nunes
pede 10000. A Divina ficou para outro domingo.
Sherman
define o programa que dirige: "É um funil da programação
da Rede Globo, envolve os núcleos de show e de jornalismo,
e é o programa de maior orçamento da emissora".
No mês de julho, para fazer cinco "Fantásticos",
a Globo gastou 1,8 milhão de cruzeiros - um pouco mais
de 300000 por domingo. Em compensação, cada
anúncio de 30 segundos de alcance nacional rendeu 126
810 cruzeiros - 4 227 o segundo.
Tenho
condições de deslocar Hélio Costa para
qualquer região do mundo desde que eu perceba que a
viagem pode render uma boa reportagem. Não há
limitações financeiras - gasta-se o que for
necessário.
José
Itamar de Freitas comanda há dois anos a equipe de
quatro repórteres, três editores e um produtor
encarregado de preparar o bloco de 40 a 45 minutos dedicados
ao jornalismo a cada "Fantástico". Segundo
Itamar. "é assustador o alcance das reportagens
feitas por Hélio Costa". Um exemplo: 5 000 cartas
de todo o Brasil chegaram à Globo solicitando o endereço
de uma clínica de marca-passo que o repórter
apresentara no programa. Mais tarde, uma pesquisa revelaria
que 89% dos telespectadores entrevistados queriam mais matérias
científicas.
Provavelmente
terão. Pois o luxo de poder contar com um correspondente
internacional especializado em curiosidades da ciência
está incluído na previsão de gastos do
Departamento de Jornalismo -80 milhões de cruzeiros.
E as maravilhas científicas, se despertam o interesse
do telespectador, apresentam igualmente a vantagem de evitar
certo tipo de problemas. Pois, como afirma o diretor responsável
Armando Nogueira, os noticiosos da emissora enfrentam "pressões
maiores que qualquer jornal".
-
Uma notícia aqui pode atingir 30 milhões de
pessoas.
Quando
da morte do presidente Juscelino Kubitschek, por exemplo,
após uma edição extra de 3 minutos, à
tarde, Nogueira recebeu telefonemas de diretores da estação
que por sua vez haviam recebido chamadas de autoridades. A
recomendação: no "Jornal Nacional",
a notícia da morte de JK deveria ser dada "com
menos emoção. Por exemplo, a cena daquele homem
chorando não pode entrar de novo", diziam a um
Nogueira preocupado em compreender o grau exato de emoção
que poderia ir ao ar.
Na
última semana de setembro, Nogueira se inteirava de
outra proibição: a Rede Globo de Televisão
não podia dar nenhuma notícia sobre a bomba
que fora jogada na casa do diretor- presidente da Rede Globo
de Televisão, Roberto Marinho.
Atribulações
semelhantes afligem Walter Avancini. diretor do núcleo
das novelas das 22 horas. "Estou tendo muito problema
em encontrar textos para as próximas produções.
Já tivemos três sinopses censuradas: 'Baby Stompanato',
de Bráulio Pedroso; 'Dona Flor e Seus Dois Maridos',
baseada no romance de Jorge Amado; e 'A Vida como Ela É',
um trabalho de Walter George Dürst baseado em crônicas
e personagens de Nelson Rodrigues. A Globo está aberta
aos intelectuais. Eu os convido a virem lutar aqui".
conclama Avancini.
Saibam,
contudo, eventuais interessados, que o trabalho não
será nada fácil. O autor deve escrever vinte
páginas por dia - o equivalente a um romance por mês.
Com imaginação e capacidade de trabalho tal
obstáculo talvez não seja tão difícil
de transpor. Duro, para o escritor de novelas, é ver
a conduta de suas personagens deixar de ter lógica
por interferência da Censura.
No
momento, excetuada a novela das 18 horas, as outras três
estão povoadas de personagens obrigadas a alterar suas
características. Em "Estúpido Cupido",
de Mário Prata, "Olga" (Maria Della Costa)
viu-se compelida a enviuvar porque uma senhora desquitada
ainda não ganhou o direito de namorar às 19
horas. Em "0 Casarão", o desquite tornou-se
o menor dos males: Lina (Renata Sorrah) teve de apressar e
oficializar sua separação de "Estêvão"
(Armando Bógus) para poder namorar "Jarbas"
(Paulo José). E, em "Saramandaia", novela
de Dias Gomes, 22 horas, ninguém mais corre perigo
de ser chamuscado: Marcina (Sônia Braga), que tinha
(ou teria) fogo no corpo a ponto de literalmente incendiar
lençóis, recebeu ordens de casar logo com Gibão
(Juca de Oliveira).
0
maior, e pior, acidente na linha de produção
de novelas da Globo aconteceu com "Roque Santeiro",
de Dias Gomes, no ano passado. Com sessenta capítulos
já gravados, a dois dias da estréia a Censura
vetou a novela. Na época, calculou-se em 3 milhões
de cruzeiros o prejuízo que a proibição
acarretou - dezenas de atores contratados, figurinos executados,
cenários prontos para a novela inteira. "Se a
TV Globo não tivesse uma saúde financeira de
ferro, não teria agüentado. Três milhões,
assim de repente - isto é o faturamento bruto de outras
emissoras."
Essa
análise de um dos membros da cúpula global bastaria
para justificar a existência na Globo do cargo de "revisor
de textos". José Leite Otati, que chefiou o Serviço
de Censura Pública do Rio de Janeiro durante 25 anos,
entre 1943 e 1968, tem por obrigação ler cada
capítulo de novela e indicar à direção
da emissora cenas, falas e situações que correm
o risco de ser cortadas ou vetadas pela
Censura
Federal. Advogado, professor de Latim e Português, Otati
fala inglês com desembaraço e afirma já
ter lido os clássicos de Shakespeare, Sófocles
e Moliére. "Conheço tudo isso aqui",
repetia ele a Guilherme Cunha Pinto, editor-assistente de
VEJA, enquanto dava palmadinhas quase carinhosas em seu velho
exemplar do Código de Censura. "E não é
por adivinhação. Sei as leis e suas possíveis
interpretações. 0 censurável me vem pelo
ar, como música." José Leite Otati é
praticamente surdo e trabalha numa sala mal iluminada e silenciosa.
"Faço
aqui um pré-exame dos textos. Por um problema industrial
da empresa, ela não pode se arriscar a gravar capítulos
e depois perdê-los. Mas eu só dou o alerta. A
direção aceita ou não."
Como
é que um censor se sente em ação?
"Normalmente
mal, porque ele é muito malvisto e mal interpretado.
Procuro ser um censor simpático e dialogável,
mas o trabalho é difícil, chato e antipático.
É aquela história: de médico, poeta,
louco e censor todos nós temos um pouco. 0 pessoal
fica como na arquibancada do Maracanã, tomando sua
cervejinha e gritando: '0 Zico é grosso! Perdeu o pênalti!'
Falar da arquibancada é fácil. Mas vai lá
no campo, vai lá bater o pênalti. É a
mesma coisa: todo mundo xinga o censor, acha errado tudo o
que ele faz. Mas vai lá fazer censura para ver se acerta."
Cercada
de palmeiras imperiais e pelas matas do Corcovado, o núcleo
central da Rede Globo de Televisão se espalha por um
arquipélago de prédios, casas e lojas do bairro
Jardim Botânico, no Rio. Ali, na rua Von Martius, 22,
num prédio de três andares, quatro estúdios
e 8 200 metros quadrados, inaugurou-se, em 23 de abril de
1965, a ZYD-81, TV Globo, canal 4 do Rio de Janeiro.
-
A TV Globo não está pronta. E esperamos que
nunca esteja pronta.
Com
estas palavras de Roberto Marinho, dono da nova estação,
entrava no ar o primeiro programa da casa "Uni-Duni-Tê".
Hoje, o funcionário mais antigo da Globo, Duarte Franco,
ainda recorda o tombo que o padre levou ao descer as escadas,
após a bênção das instalações.
Nesses onze anos, o prédio pegou fogo duas vezes. E
tornou-se pequeno demais para abrigar 2 500 empregados. Tornava-se
urgente a construção de um novo edifício.
Lá
está ele, batizado de "Vênus Platinada",
porque pintado de azul e prata, as cores oficiais da Hollywood
brasileira. Uma ponte de aço e plástico, apelidada
"Waterloo", une o reluzente espigão de dez
andares - o centro do poder - aos familiares contornos amarelados
da sede antiga - o centro de produção - agora
conhecida como "a velha estação".
Raramente
se vê por ali o dono de tudo, Roberto Marinho, um fiel
observador da discrição. "Nasci homem de
imprensa", disse ele numa conferência. "Fui,
sou e serei sempre homem de imprensa. Vivo, dia a dia, hora
a hora, a vida do jornalista. Sou avesso a confissões
de público. Devemos, o quanto possível, não
ser notícia."
Infelizmente,
Roberto Marinho não pode deixar de ser notícia.
Aos 71 anos, é diretor-presidente de um multimilionário
conglomerado de empresas de comunicação, entre
elas a Rede Globo. Seu gabinete permanece onde sempre esteve
no prédio do jornal 0 Globo. Dali, via telefone, ele
despacha com seus principais assessores. Como diz Marinho,
trata-se de "uma equipe excepcional e de talento invulgar".
Essa
gente extraordinária fica encastelada nos três
últimos andares da "Vênus Platinada",
servida por um elevador exclusivo. Nele, só são
admitidos os quatro homens mais poderosos da Rede, os superexecutivos
da Globo: Walter Clark, 40 anos, diretor geral; Joseph "Joe"
Wallach, 51 anos, superintendente da Central Globo de Administração;
José Ulises Alvarez Arce, 51 anos, superintendente
da Central Globo de Comercialização; e José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o "Bôni",
39 anos, superintendente de três centrais - Produção
e Programação, Jornalismo e Engenharia.
No
alto da "Vênus Platinada", mesmo nos dias
mais tórridos de verão, o clima está
sempre pouco abaixo dos 20 graus. Ali, entre samambaias e
secretárias impecáveis, trabalha Walter Clark
Bueno, o executivo número 1 e o salário maior
da casa. Com a participação de 1 % sobre o faturamento
da Rede, há dois anos já se estimava sua retirada
mensal em 1,3 milhão de cruzeiros. Terno invariavelmente
bem cortado, sempre de colete, por onde passa Walter Clark
manda fechar janelas eventualmente abertas para que a temperatura
se mantenha naturalmente fria. Alguns sinais exteriores podem
ser relacionados para demonstrar que Clark sabe usar, para
conforto próprio, os bons rendimentos que aufere. Tem
dois carros: um Dino Ferrari azul-marinho e um Mercedes -
prateado, naturalmente. Mora num apartamento duplex com piscina,
na Lagoa. Tem ainda uma casa com praia particular em Angra
dos Reis, onde atracam seus dois barcos.
Walter
Clark assumiu a direção da Globo no dia 2 de
dezembro de 1965, exatamente sete meses e cinco dias depois
de inaugurada a estação. A ele é creditada,
correntemente, a revolução desencadeada pela
emissora. Mas talvez haja pormenores a esclarecer melhor.
"A
revolução da Globo começa na adaptação
que fez, para o Brasil, do sistema americano de exploração
comercial da televisão", comenta Mauro Salles,
primeiro diretor de jornalismo da emissora, dono hoje da Mauro.Salles/
Inter-Americaria de Publicidade. "A televisão
passaria a ser vendida com um todo", acrescenta ele,
acrescenta ele, "e não mais em cima de horários
ou programas isolados". Simultaneamente, a Globo se organizaria
nas áreas administrativa e de produção."
Fundamentais,
nesse processo, seriam os acordos entre a Globo e o grupo
americano Time-Life para a construção da "velha
estação" e também para assistência
técnica. Também decisiva, na ocasião,
seria a presença do argentino Goar Mestre, ex-produtor
nos Estados Unidos. Chamado ao Brasil para repetir o que já
fizera em Cuba (no tempo de Fulgencio Batista), na Venezuela
e na Argentina, Goar Mestre encontrou, ao desembarcar no Rio,
outra das peças definitivas da revolução
global, o americano Joseph Wallach, administrador enviado
pelo Time-Life.
Hoje
naturalizado brasileiro e poderoso superintendente da Rede
Globo de Televisão, Wallach tinha então a experiência
de dez anos como administrador de uma pequena estação
em San Diego, na Califórnia. "Os primeiros cinco
anos da Rede Globo foram de luta pela sobrevivência",
recorda-se ele. "Não havia recursos técnicos
nem financeiros, passamos todo esse tempo tentando fazer da
Rede Globo uma empresa."
E
foi bem nesse princípio que Walter Clark se incorporou
ao grupo, com a missão de comandar o processo. Apesar
de contar com Wallach e Goar Mestre, sentia falta de seu amigo
e ex-colega de outras estações, Bôni.
"Eu não via outro sujeito para implantar a televisão
que eu imaginava no Brasil", afirma Clark. "O Bôni
é um prussiano."
Mas
só no ano seguinte, 1967, José Bonifácio
de Oliveira Sobrinho sairia de São Paulo para o Rio,
para a Globo - onde acabaria por se converter, como previra
Clark, no nome mais falado, mais ouvido e mais temido. Como
um feitor, presente em todo instante da produção,
ele é capaz de ter escrito, só neste ano de
1976, 850 memorandos - inclusive um que proibia seus subordinados
de adotarem seu estilo. Muitas vezes acusado, o próprio
Bôni admite que teve de ser duro. "Para impor todo
esse processo de produção", conta ele,
"tive de sair no pau, na briga pessoal mesmo, quebrar,
amassar, jogar fora, pular em cima das coisas."
Pela
primeira vez na história da televisão brasileira,
postos chaves de comando, com carta branca dos patrões,
eram entregues a homens oriundos da publicidade, e não
do rádio. Clark e Bôni - igualmente publicitário
de formação se juntaria o americano José
Ulises Alvarez Arce, filho de uruguaios e naturalizado brasileiro,
ex-funcionário das agências Norton e Benson,
e, mais tarde, proprietário da Gallus.
E
seria através de uma audaciosa idéia de Arce,
no dia 7 de setembro de 1969, que a Rede Globo (até
então com emissoras apenas no Rio, em São Paulo
e em Belo Horizonte) começaria a tomar conta do telespectador
brasileiro. 0 próprio diretor geral Walter Clark, voltando
da Europa, surpreendeu-se ao ler em jornal brasileiro, no
avião: naquele dia, pela primeira vez, iria ao ar o
"Jornal Nacional".
Tomava
forma, assim, um novo estilo, diferente de tudo o que se conhecia
de televisão no Brasil. "A realidade da televisão
brasileira não é a Globo, são as outras
emissoras", define Manoel Carlos, homem de TV há
mais de vinte anos, produtor do "Fino da Bossa",
grande sucesso da década de 60. "No Brasil",
lembra ele, "nenhum empresário havia sentido,
até então, o alcance do veículo."
E cita exemplos: "Assis Chateaubriand passava com uma
mala pelo caixa, perguntava quanto tinha e levava embora",
apesar de já contar com a mais extensa rede de rádio,
TV e jornais do país. Outro: "Nos áureos
tempos da Record, dava pena ver o dr. Paulo Machado de Carvalho
curvado sobre um desses de caixa de armazém marcando
entrada e saída, como se TV fosse uma loja de secos
e molhados" '
Sete
anos depois desse grande lance, é justamente sobre
o horário do "Jornal Nacional" que Arce pode
desenvolver, ao máximo, as combinações
de suas indústrias de segundos. A Rede Globo, hoje,
opera verdadeiros milagres de multiplicação
de tempo, entre 19h45 e 20 horas. Cada vez que o apresentador
Cid Moreira sai do ar por 1 minuto, abre-se para cada uma
das emissoras Globo a possibilidade de faturamento local.
E são cinco geradoras de propriedade da Globo, às
quais se somam dezoito "afiliadas".
É
todo um potencial imenso a desenvolver - e em desenvolvimento.
Como a Central de Produção tem o apoio de Homero
Icaza Sánchez e suas pesquisas de comportamento, também
a comercialização se alimenta em fonte fértil
- o Mercado Global. Promovendo pesquisa de mercado e de produtos
nas mais diversas áreas alcançadas pela estação,
o departamento dirigido por Sinval Leão já se
transformou, em dois anos e meio, num verdadeiro banco de
dados. Mensalmente, esse trabalho é levado a 12 000
leitores da revista Mercado Global.
A
maior sofisticação comercial da Globo, no entanto,
ainda está por ser implantada. No ano que vem, segundo
cálculos já terminados, estarão funcionando,
principalmente para a comercialização dos segundos
da Globo, um serviço de telex próprio e um DDD
interno. Mais ainda: em tempo não muito distante, a
central de comercialização se dispõe
a instalar terminais inteligentes de computação
iguais aos de companhias aéreas para reserva de passagem.
De qualquer uma das grandes praças brasileiras, assim,
o cliente saberá prontamente se há vaga para
seu anúncio e em que parte do país. Para tanto,
bastará que se apresente no escritório local
da Globo.
Por
que isso? Quem responde é Otacílio Pereira,
diretor de administração: "Eu vendo segundos,,
produzo segundos. E 1 segundo perdido, não vendido,
não se recupera mais ".
Para
espíritos menos grandiosos - menos ambiciosos não
haveria necessidade de tão grande volúpia, pois
a fatia da Globo é seguramente a mais generosa entre
todas as distribuídas pela indústria de propaganda.
No ano passado, calcula Mauro Salles, essa indústria
investiu 740 milhões de dólares, cabendo à
televisão 53% desse total e à Globo, com sua
audiência maciça, reservou-se a maior parte.
"Esse
é o poder da Globo", resume Walter Clark. Em linhas
mais gerais, ele aponta algumas das razões de tal sucesso:
"Administrar em padrões modernos, até com
computadores de terceira geração. Dar importância
ao departamento comercial. E ter sucesso com a programação
em rede, o que possibilitou o ritmo industrial, a produção
paracinematográfica das novelas". Mesmo, grandiloqüente,
ele compara: "0 processo de conquista de audiência
da Globo foi como empurrar um carro sem ignição:
depois que começou a descer a ladeira, não parou
mais".
Bôni,
a mola de toda a Central Globo de Produções,
vai além ao resumir o que seja seu maior problema:
"A Globo é muito grande para o Brasil". Seria
como se uma fábrica de automóveis se instalasse
num lugar onde não existisse uma indústria de
autopeças; para supri-la. "A Globo", informa
Boni, "tem quase 70% de sua produção nacional
feita por ela mesma e o investimento ficou tão grande
que, se ampliarmos um pouco mais, a empresa passa a correr
risco."
Conhecedor
das grandezas e fraquezas da empresa, Bôni se recusa
a classificar a Globo como "a Hollywood brasileira. "Dou
um esculacho em quem disser isso", ameaça bem
ao seu modo. É verdade que nenhuma tele-visão,
no mundo inteiro, produz tanto quanto nós. Mas o nosso
processo ainda é artesanal".
No
mesmo nono andar da "Vênus Platinada" onde
fica suíte de Bôni, o superintendente da Central
Globo de Comercialização, Joe Wallach, parece
inibido com a presença do repórter Hamilton
Almeida Filho, de VEJA. Ele é um homem extremamente
educado, gentil e elegante. Pede desculpas com seu sotaque
invencível, nos seus onze anos de Brasil, nunca deu
uma entrevista à imprensa. Pelo contrário, muitas
vezes se escondeu das bisbilhotices dos inimigos da casa:
"Finalmente
nacionalizamos nossa empresa a partir de 1969 e liquidamos
toda a dívida com o grupo Time-Life em 1971. Por isso,
nos cinco anos seguintes, a Rede Globo deu seus grandes passos
para a criação da televisão brasileira.
Para mim, a verdadeira história da Globo começa
em 1969, com a saída do Time-Life, o lançamento
do Jornal Nacional' e o boom da telecomunicação
que ligou o país. Este é o marco da TV no Brasil".
Fincado o marco, sobreviveria a expansão, acelerando-se
incontida até as proporções de gigantismo
dos dias atuais. E o que virá depois? Qual o futuro
da Rede Globo? Respondem seus homens fortes:
Wallach:
"Os próximos cinco anos da televisão brasileira
irão dar mais opções, mais canais, mais
programações, principalmente na parte de educação.
Com a nova tecnologia, será a época do vídeo-cassete,
do vídeo-disco e a entrada do satélite doméstico.
A TV vai atingir 85% dos brasileiros, ou seja, 100 milhões
de pessoas. Com a metade de nossa população
com menos de 20 anos, a TV será a maior força
de informação e orientação".
Bôni:
"Vamos entrar numa fase crescente de recursos que jamais
foram sonhados pela TV brasileira. Estamos com-prando 9 milhões
de dólares de equipamentos que só se tornarão
obsoletos em 1990. Toda a nossa produção será
apoia-da na eletrônica. Nós queimamos a etapa
do cinema. Graças a Deus, nós pulamos etapas".
Walter
Clark: "Eu não sei onde vai parar. Ninguém
sabe. Além de um certo limite não é mais
possível".
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