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Trecho
do livro Sexo e as Origens
da Morte, de William R. Clark
Epílogo
E
toda vez, repetidamente,
Faço meu lamento contra a destruição.
Yevgeny Yevtushenko
Nós
morremos porque nossas células morrem. Claramente,
a definição de "humanidade" deve transcender
as descrições que podemos derivar do estudo
da vida de células individuais; e, no entanto, é
verdade que, quando chega para nós, a morte nos colhe
célula por célula. A morte de nossas células,
como vimos, não é uma exigência a priori
da vida. É uma conseqüência evolutiva
da forma como nos reproduzimos e de nossa pluricelularidade.
Por motivos que são difíceis de discernir ao
longo de centenas de milhões de anos de tempo evolutivo,
a decisão de usar o sexo como um meio de reprodução
foi seguida, na linha evolutiva que leva aos seres humanos,
pela geração de DNA reprodutivamente irrelevante.
Este DNA irrelevante, segregado nas células somáticas,
transformou-se em nós.
O
DNA só tem um objetivo: reproduzir-se. Ele faz isto
de acordo com as mesmas leis físicas — os mesmos princípios
da termodinâmica — que regem todo o resto do universo.
Depois que um número razoável de nossas células
germinativas tiveram a oportunidade de transmitir seu DNA
à geração seguinte, nossas células
somáticas tornaram-se excesso de bagagem. Elas não
servem a nenhuma função útil, e elas
— nós — devem morrer, para que a mudança
possa ser transmitida à geração seguinte.
Sob
orientação do DNA, cada célula somática
do corpo senescerá e por fim morrerá por conta
própria. Isto ficou conhecido como morte programada.
Se escaparem da morte celular acidental, as células
serão instruídas a cometer suicídio —
a executar a seqüência de eventos conhecida como
morte celular programada através de apoptose.
Com mais freqüência, isto acontece quando o DNA
de uma célula acumulou níveis inaceitáveis
de mutações. Mas a morte do corpo raramente
ocorre devido aos efeitos cumulativos de extinção
seqüencial de células somáticas, uma por
uma. Autópsias de pessoas muito velhas (com mais de
oitenta anos) em geral revelam sinais de mais ou menos meia
dúzia de doenças graves que levariam à
morte em pouco tempo. Mais cedo ou mais tarde, à medida
que as células morrem gradualmente por apoptose e os
órgãos essenciais como os rins, os pulmões
ou o fígado começam a falhar devido à
perda celular, o coração pára de bater.
Depois o processo de morte ocorre de uma forma muito acelerada.
Privadas de nutrientes e do oxigênio levados pelo sangue,
as células restantes do corpo sofrerão uma morte
necrótica violenta em questão de minutos. As
células cerebrais serão as primeiras a partir;
o resto logo as seguirá.
Quer
as células morram por necrose ou por apoptose, o principal
elemento de sua morte é a perda da estrutura celular
cuidadosamente integrada que permite que o metabolismo se
sustente. Na morte celular necrótica, a estrutura é
rompida principalmente pelo influxo de água, que estica,
rasga e dilacera a célula. Na apoptose, as estruturas
internas (além do DNA) não são alteradas
tanto como são segregadas umas das outras à
medida que a célula se desintegra em corpos apoptóticos.
Todas as organelas estão ali, mas não podem
mais interagir. Uma coleção — mesmo uma coleção
completa — de organelas em corpos apoptóticos separados
não é uma célula, como uma coleção
de órgãos corporais em sacos separados não
é um ser humano. As estruturas de cada órgão
ainda estão ali e podem funcionar por algum tempo,
mas a estrutura do organismo se perdeu para sempre. O mesmo
acontece com uma célula morrendo por apoptose, entornando
partes de si mesma como pétalas de uma flor ou folhas
de uma árvore.
A
ordem em que morrem as células somáticas não
é de preocupação especial para a natureza,
embora recentemente venha se tornando uma preocupação
crescente para nós. Quando o coração
pára de bater, as células cerebrais morrem primeiro,
como vimos. Outras células as seguem, o momento de
sua morte determinado por sua capacidade de realizar metabolismo
anaeróbico com as reservas de nutrientes separadas
para épocas de escassez. Ninguém parece ter
guardado (ou pelo menos publicado) registros precisos sobre
a questão, mas é muito provável que consigamos
recuperar células viáveis, como fibroblastos,
de um ser humano, por algum tempo, depois da perda total da
função cerebral e de uma declaração
oficial de morte. Postas em cultura, estas células
podem continuar a completar seu limite de Hayflick por muitas
semanas ou meses depois da morte do corpo de que provieram,
até que finalmente sucumbam a sua própria morte
geneticamente codificada por apoptose. A não ser, é
claro, que de certa forma sejam transformadas por vírus,
e neste caso elas poderiam carregar o holograma de DNA deles
interminavelmente no futuro como uma célula germinativa
renegada, ou como as células retiradas do tumor de
Henrietta Lacks.
Aprendemos
a intervir no processo de morte iniciado pela perda de células
cardíacas e, em alguns casos, esta intervenção
funciona muito bem. O antes rápido e irreversível
declive para a morte pode com freqüência ser detido.
Um coração defeituoso pode até ser substituído,
seja por transplante, ou, possivelmente um dia, por um coração
totalmente artificial; o coração, afinal, é
simplesmente uma bomba. Alguns tipos de danos ao cérebro
podem ser reparados também mas, depois que vários
neurônios morrem, eles não podem ser trazidos
de volta à vida e não podem ser substituídos.
A tecnologia de ressuscitação nos obrigou a
encarar com honestidade a questão da morte na medida
em que se relaciona com a função cerebral; estamos
chegando ainda mais perto da concepção de que
a morte de muitas células no córtex do cérebro
indica a morte da pessoa, se não do corpo. E, no entanto,
até esta definição pode não ser
suficiente para resolver os problemas que temos criado para
nós mesmos. Como declarou Peter Singer, eminente bioeticista
australiano, em seu livro Rethinking Life and Death:
"O conserto pode prosseguir indefinidamente, mas é
difícil ver um futuro longo e benéfico para
uma ética tão paradoxal, incoerente e dependente
da presunção quanto se tornou nossa ética
convencional de vida e morte. Novas técnicas médicas,
decisões em casos judiciais marcantes e mudanças
na opinião pública estão constantemente
ameaçando trazer todo o edifício abaixo."
Todavia,
no presente, os seres humanos parecem ter decidido que as
células do cérebro são mais importantes
na definição da vida do que outras células.
A natureza, é claro, não faria esta distinção;
de seu ponto de vista, um cérebro não é
mais ou menos importante do que um pulmão, um rim ou
um pé. A natureza não reconhece nenhuma hierarquia
entre as células somáticas. Por que fazemos
esta distinção se a natureza não faz?
O cérebro evoluiu para coordenar as atividades do corpo
com mais eficácia, para tornar melhor o organismo que
dirige na competição por recursos, por sobrevivência
e pelo direito de transmitir um conjunto específico
de genes — um padrão específico de DNA. Mas,
em algum lugar ao longo do caminho, o cérebro humano
deu uma guinada completamente sem precedentes; ele adquiriu
a mente. Isto não significa absolutamente nada
para a natureza, exceto que pode promover o bem-estar do DNA,
mas nos leva, como organismos biológicos, a arenas
distintamente não-biológicas que aparentemente
têm pouco a ver com a sobrevivência e a reprodução:
a poesia, por exemplo, ou o raciocínio puro ou a matemática
pura; a arte, a religião e a música; as comédias
de situação e as novelas de tevê. Daí
para a frente, as pressões que regem nossa evolução
não são mais estritamente biológicas;
através da mente, adquirimos cultura e esta,
em vez de uma competição pelos recursos necessários
até a idade de reprodução, é agora
a força seletiva predominante em nosso sucesso reprodutivo.
Como assinalou Richard Dawkins, embora a cultura exista só
em nossa mente, ela tem seu próprio momentum evolutivo,
assim como os genes e o DNA.
Ainda
temos de ver como, a que ponto ou até se a aquisição
da mente pode ter alterado ou ainda pode alterar a ordem natural
das coisas. Os seres humanos escaparam da árdua realidade
da seleção natural, mas o resto do planeta biológico,
não. Não é que simplesmente tenhamos
criado passatempos mentais que tornam nossa passagem pela
vida mais agradável, ou pelo menos mais tolerável;
através da mente, começamos a alterar a natureza,
e até nosso eu biológico, de formas nunca vistas
na biosfera em que evoluímos. Não mais sujeitos
à morte primitiva e ríspida que a natureza reserva
para os fracos ou desajustados, começamos a acumular
defeitos genéticos que tempos atrás tinham sido
rejeitados pela natureza. A medicina do século XX já
nos permitiu alterar a composição do pool
de genes humanos mantendo vivas por toda a idade reprodutiva
pessoas que, num ambiente mais natural, teriam morrido de
doença genética. A medicina do século
XXI, através da terapia genética, estenderá
esta tendência a fronteiras que ainda só percebemos
vagamente, com conseqüências genéticas que
só podemos conjeturar. E não contentes em ter
escapado da competição por recursos imposta
a outros seres vivos, começamos a alterar, por poluição,
e a esgotar, pelo consumo, aqueles recursos dos quais dependem
outras formas de vida. Isto tem de ter um preço. A
maioria de nós se conscientizou de que o esgotamento
de recursos naturais nos priva de espécies cuja beleza,
graça ou mestria física admiramos e cuja ausência
deste planeta seria pranteada. O que mal começamos
a perceber é que estas espécies estão
no habitat natural de um leque de organismos microbianos
com quem elas viveram por milhões de anos em equilíbrio
pacífico. Privadas de seus hospedeiros naturais, alguns
destes microrganismos, por mero desespero, começaram
a saltar para os seres humanos, onde não há
tal equilíbrio e pode não haver por milhões
de anos no futuro. Os resultados, como vimos com os vírus
Ebola e da Aids, podem ser desastrosos.
Nossa
mente chegou a considerar nosso corpo algo mais do que um
veículo elegante para nutrir e transmitir o DNA e temos
relutado em deixar que a reprodução seja, como
é para todas as outras criaturas vivas, nosso único
imperativo, nosso único impacto sobre o mundo em que
vivemos. Tornamo-nos criaturas racionais que pensam em muito
mais do que o DNA. Como mostra a história da cirurgia
cerebral, o cérebro, através da mente, pode
até pensar em si mesmo. Mas a mente que contempla o
cérebro — e portanto a si mesma — é meio como
olhar um espelho com outro espelho em nossas costas; leva
a uma gama interminável de imagens frontais e traseiras
até o infinito. Assim, quando tentamos pensar no universo
e em nosso lugar nele, quando pensamos no que nos define como
seres humanos, ou na vida e na morte, talvez devamos reter
um certo ceticismo em relação a nossas conclusões.
Devemos nos lembrar de que quaisquer que sejam as idéias
que possamos sustentar sobre a importância do cérebro
como mente, estas idéias se originaram da mente como
cérebro. Em outro aspecto dos assuntos humanos, isto
seria considerado conflito de interesses. É uma idéia
simples, mas a mente humana não é o poder que
impele o universo. Gostemos ou não, a mente como cérebro
é impelida pelo DNA, esta estranha molécula
que por sua vez é impelida — irracionalmente, supomos,
e no entanto de certa forma desesperadamente — a se
reproduzir.
Quando
completarmos o processo de morte, cada célula de nosso
corpo estará morta, como pretendia a natureza. Se tivermos
feito nossa parte, teremos transmitido nosso DNA, embalado
nas células germinativas, à geração
seguinte. Este DNA pode muito bem estar à beira de
nosso leito de morte na forma de um filho ou de uma filha.
O DNA de todas as outras células de nosso corpo — nosso
DNA somático — não será mais de nenhuma
utilidade; como o DNA do primeiro macronúcleo redundante
um bilhão de anos atrás, ele será destruído.
Para parafrasear uma velha visão biológica,
um ser humano é apenas a forma de uma célula
germinativa produzir outra célula germinativa — como
acontece na barata; como acontece no repolho. Esta não
é uma forma muito lisonjeira de nos explicarmos a nós
mesmos. Queremos tão desesperadamente ser mais do que
um veículo para o DNA, e somos, pelo menos temporariamente.
Todavia, as células somáticas morrerão
no fim de cada geração, quer sejam parte da
asa de um inseto ou de um cérebro humano. Podemos passar
a entender a morte, mas não podemos mudar este fato
simples e singular: no esquema maior das coisas, não
importa nem um pouco que algumas células somáticas
contenham tudo o que mais amamos em nós mesmos; nossa
capacidade de pensar, de sentir, de amar — de escrever e ler
estas palavras. Em relação ao processo básico
da vida, que é a transmissão de DNA de uma geração
à seguinte, tudo isso não passa de som e fúria,
o que certamente significa muito pouco e muito possivelmente
não quer dizer nada.
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