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ESPECIAL
24 de setembro de 1980

A mulher de verdade

Nem Amélia nem ativista, a brasileira dos anos 80 é conservadora
e tímida, mas sabe que sua filha deve conquistar a independência


Passou a comprar roupas feitas e esqueceu a máquina de costura. Com o ferro elétrico, vai pelo mesmo caminho, pois de tudo o que faz em casa aquilo que a mulher mais detesta é passar roupa. Mulher, em sua opinião, deve trabalhar fora, pode romper um casamento e iniciar outro. Quanto à vida sexual livre para solteiras e legislação do aborto, ela não está tão certa - homossexualismo, elas são contra. Dividida entre valores novos e tradicionais, rejeita com veemência a idéia da submissão da mulher ao mesmo tempo em que, na prática, deixa ao homem a maior responsabilidade pelo sustento da casa. Sua mãe achava que política e economia eram assuntos da exclusiva alçada masculina. Ela não. Culpa o governo pelo aumento no custo de vida, e aponta a criminalidade como seu grande pavor. Absolve satisfeita o aparelho de televisão - acha até que as crianças aprendem muito vendo TV.

Eis o retrato da nova mulher brasileira, moradora dos grandes centros, Rio de Janeiro e São Paulo, conforme acaba de revelar uma extensa, por fezes fascinante pesquisa da McCann-Erickson Publicidade, uma das principais empresas do setor no Brasil. "Custou-nos 2 milhões de cruzeiros, mas valeu a pena", diz Altino João de Barros, vice-presidente da empresa em São Paulo. Entre agosto do ano passado e maio último, 1.080 mulheres casadas de até 49 anos de idade e pertencentes a todas as categorias sócio-econômicas falaram durante horas a pesquisadoras da Marplan, segundo o plano demoradamente produzido pela McCann. A amostra equivale a 63% do mercado consumidor de São Paulo e 50% do Rio. E à medida que seus dados vão se desdobrando, é como se fosse feita, em 1980, a descoberta da mulher brasileira real - não da mulher da qual se fala e sobre a qual às vezes se escrevem teses, mas da mulher que existe na vida de todos os dias. E, ao fazer esta descoberta, vários mitos caem por terra, enquanto verdades insuspeitadas vêm à tona.

Amélia, aquela que "não tinha a menor vaidade", e "achava bonito não ter o que comer", morreu muito antes de Ataulfo Alves, seu grande intérprete, mas a mulher brasileira, que ainda se livra dessa carcaça, ainda é pouco vaidosa, acredita nas virtudes da meiguice e, sempre colocando a culpa do custo de vida no governo, ainda repete ao marido "o que há de se fazer". Pensa muito menos "em luxo e riqueza" do que supõe a vã filosofia, e, sem querer tudo o que vê, sonha apenas com mais tempo de lazer para si e sua família. E, se lhe fosse dado algo A pedir, queria menos inflação, mais segurança nas grandes cidades e menos poluição.

Em comparação com sua avó ou mesmo com a mãe, a dona-de-casa enfrenta hoje em dia uma realidade extremamente mutável. E, com o mundo, muda também a mulher. Há poucas décadas, atrás das grandes mulheres profissionalizadas escondiam-se geralmente maus provedores masculinos. Agora, nenhuma mulher teria vergonha de trabalhar para contribuir no orçamento doméstico. Das mulheres ouvidas pela McCann, a absoluta maioria aprova o trabalho feminino, embora apenas 25% o pratiquem. Depoimento de uma entrevistada: "Antigamente, o homem era mais energético, nem deixava a mulher sair de casa sozinha. Hoje, a mulher está se tornando mais independente, começa a conhecer a vida lá fora".

Espremida entre uma educação antiquada e os ventos de um feminismo que ainda não entende e mal pratica, a mulher casada brasileira mostra que rompeu um ciclo. Foi educada por sua mãe de forma muito semelhante àquela que já ensinara a avó, no entanto dá à filha conselhos que construirão gerações de mulheres diferentes. Talvez a McCann e toda a bateria de sociólogos das universidades brasileiras estejam diante da última geração de donas-de-casa nas grandes cidades do país e, sobretudo, no Rio e em São Paulo. As velhas expressões "prendas do lar" e "doméstica" já começam a cair em desuso. Elas educam as filhas para serem mulheres, preferencialmente casadas, mas ambicionadamente independentes. "Minha mãe era uma carcaça do que queriam que ela fosse", diz uma das entrevistadas, enquanto outra acrescenta: "Minha filha tem que estudar para trabalhar. Trabalhar primeiro, acima de tudo." Assim, se algum dia alguém "achar bonito não ter o que comer", como fazia Amélia do samba, elas preferirão que esse estranho costume fique para os homens.