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 Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo
Soberana
e imperturbável
Um depoimento pessoal e uma
conclusão sobre as relações entre a China e o tempo "O
novo embaixador da China telefonou..." Algumas semanas atrás este autor...
(este autor?; não: desta vez esta página contém um depoimento
pessoal, então vai na primeira pessoa). Algumas semanas atrás recebi
esse recado. Faz tempo que não tinha tratativas com a China, então
que quereria comigo o embaixador? A rigor, tive tratativas com a China apenas
uma vez, já lá se vão 21 anos, quando fui incumbido por esta
revista de fazer uma reportagem sobre o país, então ensaiando os
primeiros passos na direção do capitalismo, ou socialismo capitalista,
ou "socialismo de mercado", ou seja lá que nome essa coisa tenha. Passei
três semanas na terra então comandada por Deng Xiaoping, e logo ao
chegar fui recebido por duas pessoas com quem conviveria largamente naquele período.
A primeira foi o embaixador brasileiro, o inesquecível
Italo Zappa, já meu conhecido. Zappa era o desbravador-mor do Itamaraty.
Desbravara as relações brasileiras com as antigas colônias
portuguesas. Agora estava ajudando a desbravar as relações com a
China. "Tudo aqui começa com a política externa", ensinou-me ele.
O mastodonte chinês antes escolhe os passos com que se movimentará
no meio do mundo, depois aplica as conseqüências disso no dia-a-dia
da população. Foi assim que o afastamento da União Soviética,
ainda na década de 50, prenunciou a radicalização da Revolução
Chinesa. Ou que a retomada das relações com os Estados Unidos, em
1972, executada com tal alarde que incluiu uma visita do presidente Richard Nixon,
prenunciou o processo em curso até hoje. Outra
lição de Zappa foi que na China não se deve deixar o cão
escapar do portão de casa. Seu cãozinho, um vira-lata chamado "Tu",
vivia a espreitar a oportunidade de sair, sempre que o portão era aberto
para a entrada de alguém. Às vezes conseguia. E então Zappa
saía em correria pela rua, no afã de recapturá-lo antes que
algum chinês da vizinhança o fizesse. Nesse caso, o destino provável
de Tu seria a panela. Chinês gosta de comer cachorro, como se sabe. Aliás,
chinês gosta de comer tudo. Um dito da terra apregoa que chinês come
tudo o que tenha quatro patas, exceto mesa. A outra
pessoa que me recebeu em Pequim foi Chen Duqin, destacado pelo Ministério
das Relações Exteriores chinês para me servir de intérprete.
Eram espantosos o domínio que Chen tinha do português, inclusive
do português coloquial do Brasil, e o nível de informação
que tinha do país. Seu leve sotaque, muito leve, lembrava o do índio
Juruna, então em voga. Para mim, era a prova que faltava, irrefutável
e indesmentível, de que os índios americanos vieram da Ásia,
caminhando pelas geleiras que então cobriam o Estreito de Bering. Chen
tinha servido na embaixada chinesa em Brasília. Uma vez, durante nossa
estreita convivência, eu o peguei comentando com outro chinês que,
no Brasil, se alguém queria ligar de uma cidade para outra, bastava discar
uns numerinhos prévios. Na China não havia DDD. Outra vez, ele comentou
que quando vivia no Brasil não tinha tempo para nada. Na China lhe sobrava
tempo. A China daquele ano de 1985, embalada pelas
reformas de Deng Xiaoping, apregoava como novidades a possibilidade de as pessoas
estabelecerem um negócio próprio, desde que modesto, e a de um camponês
cultivar seu próprio pedaço de terra, desde que modesto. Quanto
às empresas, todas estatais, elas tinham ganho a possibilidade, primeiro,
de tomar suas próprias decisões, dentro de um certo limite; segundo,
de vender uma parte da produção no mercado, e não para o
Estado, dentro de outro limite; e, terceiro, de se associar em joint ventures
(as duas palavrinhas eram tão freqüentes nos lábios dos chineses
quanto ni hao, a expressão com que se saúdam) com investidores
estrangeiros, respeitados outros tantos limites. Com cuidados de mastodonte, a
China ensaiava entrar no baile capitalista. Ao
mesmo tempo, com calculados beliscões no próprio corpo, tentava
despertar de seu milenar sono rural. Talvez fosse a esse sono que Chen se referisse
ao dizer que na China lhe sobrava tempo. Mas pode haver outra explicação
para o tempo que lá se estica, se expande e se avoluma. Ao contemplar certa
vez a multidão de chineses que, num parque, como em todas as manhãs,
começavam o dia com os movimentos lentos e ritualísticos do tai
chi, veio-me a revelação, como um raio: a China tem parte com a
eternidade. Ela é a mais antiga civilização ainda em atividade.
Viu muitas outras nascer e morrer. Tem uma experiência sem igual no planeta
Terra. Ao responder ao telefonema do novo embaixador
chinês, eu me dei conta de que... sim, era o Chen. Meu antigo intérprete
e amigo chegou ao topo da carreira. Não sei que China é essa que
ele veio representar. O leitor, ao chegar a esta página, já sabe
como é a China dos dias que correm, mas eu não li a revista ainda.
O que sei é que, comunista ou capitalista, rica ou pobre, a China impõe-se
ao mundo, soberana e imperturbável como um deus. |