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 Em
algum lugar do passadoA pobreza milenar continua no
campo; a modernidade esvaziou aldeias, trouxe poluição
e disputas por terras. O milagre chinês tem de aproximar 800 milhões
de uma vida melhor 
Antonio Ribeiro
Antonio Ribeiro  |
A
ALDEIA SEM JOVENS
Sob
o olhar de Mao Tsé-tung, o agricultor Li Wan Jin (de perfil, cabelos grisalhos)
joga mahjong no armazém de uma aldeia da zona rural: "Os jovens
vão para a cidade ganhar dinheiro para ajudar as famílias que não
tiram mais o sustento da lavoura. Isto aqui lembra os tempos da Longa Marcha:
quem tinha braços e pernas fortes foi embora" | Na
história da raça humana, a criação de riquezas descreve
uma curva equivalente à trajetória de um Jumbo em decolagem. O início
é lento, laborioso, rente ao solo até ganhar velocidade e rumar
para o alto, impulsionado por confluências benignas. Durante as duas últimas
décadas, o espetacular crescimento econômico da China está
traçando uma linha ascendente mais parecida com a de um foguete do que
com a de um Jumbão. Lá vai o foguete do progresso chinês.
Por enquanto, ele deixa a ver navios cerca de 800 milhões de habitantes
da zona rural. Ou seja, seis em cada dez chineses não estão a bordo
do expresso do futuro. Longe dos cenários dignos de ficção
científica das metrópoles chinesas às margens do Pacífico,
a pobreza domina a planície aluvial, as cadeias de montanhas e o além
delas, o Gobi, deserto maior e mais quente a cada virada de estação
climática. É uma área
continental, descrita a VEJA como "a imensa favela do meu país" por Qin
Lui, especialista em história agrária da China e professor das universidades
de Pequim e Harvard. Nenhuma nação moderna prosperou de modo sustentado
deixando para trás, a comer poeira, a maioria de seu povo. A China não
será exceção. Esse é hoje o continental dilema do
espetacular fenômeno chinês. A geração de riquezas na
cidade não está ajudando a erradicar a milenar pobreza do campo
chinês. Em alguns casos está criando um quadro ainda mais iníquo.
Os chineses do campo são cidadãos de segunda classe. O governo os
mantém assim, deliberadamente podando seus parcos direitos, de modo a controlá-los
melhor. O temor de uma explosão social no campo é hoje a preocupação
central do governo e, como tudo no gigantesco país, um problema
com potenciais repercussões mundiais.
Li Wan Jin, 65 anos, pertence a esse mundo lunar, fora do resplandecente universo
econômico chinês. Um oitavo da população do planeta
está empenhado em retirar de uma área do tamanho do Centro-Oeste
brasileiro pouco mais de 1 dólar por dia. Um formigueiro humano. No cerrado
brasileiro, cada sete habitantes dispõem do espaço de 1 quilômetro
quadrado. Na zona rural chinesa, 590 pares de braços se debruçam
sobre o mesmo quilômetro quadrado para arrancar seu sustento da terra. Essa
equação produz tensão e desesperança. Para que houvesse
um mínimo de equilíbrio, o campo chinês deveria ter produtividade
84 vezes maior que a do cerrado brasileiro. Ocorre justamente o contrário.
Enquanto a tecnologia e a mecanização fizeram do cerrado a região
agrícola mais produtiva do mundo, o chinês continua puxando arado.
Fotos Antonio Ribeiro  |
MORTE; ESPERANÇA
Procissão funerária leva as
cinzas de mineiro que morreu de câncer no estômago o terceiro
caso em um mês, na região carvoeira de águas contaminadas.
Abaixo, Du Zhen Lei faz um intervalo no trabalho com o triciclo primitivo usado
como trator e garante: "Meu filho não será camponês, vai estudar
informática na cidade". Do que ganha, 20% vão para o pagamento da
mensalidade escolar. A aspiração é coletiva: a educação
dos filhos encabeça a lista de despesas dos moradores do campo |
 | Li
Wan Jin é um dos milhões de chineses para quem doença grave
significa insolvência ou morte não há seguro-saúde
nem aposentadoria no campo. Ele tem 65 anos, gosta de jogar mahjong e mora numa
área onde os jovens são raridade, atraídos pela promessa
das cidades. Sua plantação é pouco maior que um campo de
futebol. Ali a família cultiva cada palmo e, muitas vezes, aduba o solo
com os próprios dejetos. Consegue se sustentar, mas vive sob o medo de
perder tudo. A terra pertence ao Estado e muda de destinação sempre
que surge um empreendimento imobiliário ou a necessidade de criação
de uma zona industrial. A ordem vem de cima. A execução é
brutal e inquestionável. O burocrata local cumpre a diretiva, se preciso
com a ajuda do Exército. Os Li Wan Jin somem do mapa local. Dependendo
da indenização, compram um apartamentozinho na cidade, trampolim
real ou imaginário para uma vida melhor. Quando dão azar, somam-se
à pobreza urbana. No início
dos anos 80, o líder comunista chinês Deng Xiaoping, nanico com visão
de gigante, mandou fracionar as ineficientes comunas agrícolas, transformando-as
em quinhões familiares. O trabalhador rural foi autorizado a vender seus
produtos a preços de mercado. A renda no campo quadruplicou. A máxima
de Deng era não mais se importar com a cor do gato, mas com a destreza
do bichano em pegar os ratos. No ano passado, enquanto o gato da roça agarrou
seu rato mirrado, as garras do felino urbano capturaram três de um só
golpe. A renda per capita rural não saiu dos 400 dólares por ano.
O crescente dinamismo urbano gerou riquezas, e a renda hoje nas cidades está
em torno de 1 300 dólares. A tendência da desigualdade de ganhos
é aumentar, tanto pela aceleração da produção
de riqueza urbana quanto pela depauperação crescente da "grande
favela" rural chinesa.
Fotos Antonio Ribeiro  |
PESCARIA EM ÁGUAS
TURVAS
Expulsas das cidades, indústrias poluentes
encontram abrigo na zona rural, onde têm maior poder de pressão sobre
as autoridades locais. A urbanização também avança.
O pasto de ovelhas de Li Yi Yue logo terá novo vizinho: um conjunto residencial
para empregados da empresa petrolífera chinesa. Camponeses se revoltaram
ao saber que manda-chuvas locais levaram parte da indenização. "Chegou
uma tropa de soldados distribuindo sopapos", contou um comerciante local. Não
se falou mais no assunto |  |
Sem o fragor do recrutamento forçado
dos camponeses liderados por Mao, o início da epopéia sangrenta
genitora da República Popular da China, 400 milhões de chineses
mais que o dobro da população brasileira migraram
do campo para as cidades, onde há fartura de empregos. Foi o maior movimento
populacional pacífico da história. Centenas de milhões ainda
são como Du Zhen Lei, 43 anos. Ele ficou para trás, mas tem planos
definidos: "Meu filho não será camponês, ele vai estudar informática
na cidade", diz, com os olhos fixos no horizonte. O êxodo rural só
não se transforma em estouro de boiada porque a China ainda é uma
ditadura comunista. O grilhão administrativo no caso chama-se sistema hukou.
Por tal sistema, todo chinês deve residir e trabalhar onde nasceu. A mudança
exige permissão do mandarim de plantão. Quem viola a regra se arrisca
a sofrer punições severas, e a mais óbvia e dolorosa delas
é a perda da terra. Mas arriscar é da natureza do homem. Estima-se
entre 150 e 200 milhões o número de migrantes "ilegais" nas cidades
chinesas. Empregados nas cidades, os ilegais cuidam de mandar dinheiro para a
família no campo. No ano passado, os migrantes enviaram um total de 45
bilhões de dólares aos parentes na zona rural. Isso equivale a 52
dólares para cada um, quase um 13º salário, dinheiro que vai
quebrar muitos galhos. É pouco? Sim. Mas corresponde a toda a ajuda oficial
do governo chinês para o campo em 2006. De olho nas remessas dos ilegais,
onze das 23 províncias chinesas começam, gradualmente, a relaxar
a restrição do ir-e-vir.
Quando não é o campo que sonha com a cidade, é esta que avança
sobre aquele. Li Yi Yue, 58 anos, e suas ovelhas logo terão novos vizinhos.
Adjacente ao seu pastinho de capim ralo está sendo erguido, em ritmo frenético,
um conjunto de apartamentos com vasta área de lazer para os empregados
da China National Petroleum. A empresa negociou a compra da área com a
administração municipal de Zhuozhou. Os 1 000 camponeses deslocados
ganharam uma indenização de 342 dólares por acre, mas ficaram
furiosos quando descobriram que os chefetes locais retiveram parte do dinheiro
com a justificativa de "previsão de gastos com urbanização".
Os mais destemidos tentaram fazer barricadas para impedir a chegada do comboio
de britadeiras que daria início às obras. Em vão. Na sala
privada de um restaurante, entre um gole e outro da sopa fumegante, um comerciante
local de 31 anos, nome reservado a pedido, conta a VEJA a cena a que assistiu.
"Às 10 horas da manhã, uma tropa de soldados enfezados chegou distribuindo
sopapos. Levou presa uma dezena de camponeses. Na calada da mesma noite, os soldados
foram de porta em porta no distrito de Zhaoge. Prenderam o resto, cujas famílias,
além de terem perdido a terra, tiveram os móveis da casa e os utensílios
de cozinha quebrados." Não se fala mais nisso em Zhuozhou.
A contenda ali não é a investida do mal (o progresso) sobre o bem
(o miserável mas milenarmente sustentável modo de vida rural). No
fundo tem-se a noção de que a chegada do progresso à zona
rural vai melhorar a vida de todos. Mas essas coisas não ocorrem sem que
genuínos e dolorosos dramas pessoais se desenrolem. Um vale da Califórnia,
nos Estados Unidos, antes coberto de milharais, hoje abriga o epicentro da criatividade
tecnológica mundial e o melhor índice de qualidade de vida do planeta.
O chinês do campo anseia pelo progresso há séculos. Inveja
os compatriotas da cidade que já o usufruem. Vive, porém, submetido
às vontades do comunista de plantão, que desafia até o poder
central. Um exemplo: o mandarim rural paga ao camponês menos de 5% do valor
real da terra que interessa a projetos residenciais ou industriais e negocia o
bem espoliado com base no valor de mercado. O agricultor não tem a quem
recorrer, mas pode espernear no ano passado, houve 87 000 "distúrbios
públicos" decorrentes dos confiscos de terra, segundo dados do governo,
famosamente obcecado por estatísticas. A medida mais transformadora seria
dar títulos de propriedade aos camponeses. "A transferência da posse
das moradias do Estado para os habitantes das cidades foi um dos maiores sucessos
do novo modelo econômico chinês, não há razão
para ser diferente no campo", diz o economista Li Shi, autor do estudo que lançou
o debate sobre a desigualdade de renda na China.
Numa breve pausa no intenso tráfego de caminhões transportando carvão
mineral, a poeira se dissipa na estrada de Mentougou. Surge um colorido cortejo.
É o enterro de Li Jing Cang, 57 anos. A terceira morte de câncer
de estômago, em um mês, no distrito de Kun Ying Gu. "A água
contaminada está nos matando, e Li Jing Cang interrompeu a quimioterapia
porque não conseguia pagar o tratamento", diz um amigo do morto. As indústrias
pesadas depositam, diariamente, toneladas de material tóxico em rios, canais
e reservatórios de água da região. Forçadas a deixar
as cidades, as indústrias poluidoras vão se instalar no campo, onde
os mandarins locais, desesperados para gerar empregos e aumentar a receita de
impostos, abrandam a legislação ambiental, quando não fazem
vista grossa, em troca de propina felpuda, à degradação.
O retrato de quem um dia der títulos de posse, privatizar e modernizar
o campo tem grande chance de ir para a parede dos bares rurais como o líder
da próxima grande revolução chinesa. |