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 A
turma de bem com a vidaConsumo, games,
grifes, visual bem produzido: nisso, os jovens chineses são iguais
a todos os outros. Em que se distinguem: estudam muito e até poupam!
 Fotos
Paulo Vitale  | TCHIEN,
TCHIEN, TCHIEN, TCHIEN É assim que
se diz dinheiro qian em chinês e esse é o som
que anima uma juventude que estuda muito, quer ter sucesso na carreira e faturar.
Mas o pessoal fazendo pose nesta foto está em outra: eles são dançarinos
de tecno |
Comprar,
comprar, comprar. E comprar mais um pouquinho. Para os que não são
assim tão ligados em consumo, o imperativo é outro: jogar, jogar,
jogar. No computador, claro. Toda generalização é enganosa,
ainda mais num país do tamanho da China. Mas saltam aos olhos os pontos
em comum entre os jovens chineses urbanos e economicamente despreocupados e seus
congêneres ocidentais. Na verdade, em alguns lugares, como Xidan, o bairro
dos moderninhos de Pequim, os olhos chegam até a arder diante da quantidade
de informações visuais, e a mente a se confundir: isso é
China mesmo? Parece Japão, diante da criatividade das roupas e do esmero
na produção, mas é China, sim. Nos corredores dos shopping
centers cravejados de lojinhas onde as últimas novidades da moda jovem
se empilham em quantidades atordoantes, as "garotas de Xidan", como já
são chamadas pelo estilo peculiar, exercem o hiperconsumo como um direito
natural. "A gente vem aqui umas três ou quatro vezes por semana", contam
as amigas Xiao Yu e Xiao Lu, de roupinhas caprichadas, cabelos repicados e, como
as japonesas, mãozinhas dadas. Ambas são devotas do mais universal
dos fetiches da moda a calça jeans. Quantas têm? "Umas vinte.
Ou trinta", calcula Xiao Lu, docemente indiferente ao fato de que nunca na história
da China existiu semelhante sinal de prosperidade coletiva.
 | CABEÇA
FEITA Não parece, mas a linda Ling Ling é um
retrato do inacreditável índice de poupança interna da China, que bate em quase
metade do PIB. "Todo mês, guardo 30% do que ganho", diz a jovem, em plena manhã
de compras |
Xidan
é um reduto onde é possível topar com manifestações
mais vanguardistas do comportamento jovem, como um ateliê de tatuagem em
que quase se pode sentir o cheirinho de pele queimada ou um grupo de dançarinos
de tecno, esclarecem recém-saídos de uma apresentação.
As meninas fazem carinha de enfado quando perguntadas sobre marcas favoritas,
como se isso fosse uma coisa muito, muito ultrapassada. Fora de seus limites,
o comportamento é mais padrão: os jovens tomam cerveja mexicana,
colecionam revistas americanas de moda, dançam ritmos latinos e, acima
de tudo, se acabam de cantar nos karaokês (os de verdade, não aqueles
nos quais existem salas com moças disponíveis a diversões
mais profissionais). O fundo musical poderia ser, num paralelo com o Brasil, o
tchien, tchien, tchien, tchien, tchien nada a ver com dançarinas
de shortinho; essa é a pronúncia aproximada de qian, dinheiro
em chinês. Subir na vida e ter sucesso na carreira parecem ser objetivos
universais. Também não é nada mau se cobrir de grifes da
moda. Se possível, as autênticas, não as montanhas de jiade
as falsificações que fazem a fama da China. "Para
mim, uma roupa bonita é aquela que, além da marca, tem uma etiqueta
bem grande", assume Zhang Chenking, 20 anos, estudante de letras.  |  |  |  | GAROTAS
DE XIDAN Parece Japão, mas os jovens
mostrados nestas imagens estão em Xidan, o bairro onde o pessoal moderninho
vai caprichar na produção. "A gente vem umas três ou quatro
vezes por semana", diz Xiao Lu (de blusa listrada e mãos dadas com a amiga).
Fazer o quê? O mesmo que todo mundo: comprar, comprar, comprar |
O
consumismo declarado não é incompatível com a seriedade acadêmica,
uma característica de tantos jovens chineses que alia a tradição
oriental de dedicação aos estudos à realidade bem global
de um mercado altamente competitivo. A mesma Zhang Chenking que desfila graciosamente
produzida, com vestido sobre legging, mais tamancos Birkenstock e bolsa Gucci
(verdadeiros), diz que tem o nada modesto objetivo de ser "referência nacional
na minha carreira". Outra beldade flagrada numa manhã de compras
figurino: vestido esvoaçante em camadas e sandálias rasteiras enfeitadas
com cristais exemplifica a enorme capacidade de poupança dos chineses,
característica raramente associada a jovens das sociedades de consumo.
"Todo mês eu guardo 30% do meu salário para o futuro", diz Ling Ling,
28 anos, que é formada em comércio exterior e trabalha numa empresa
de informática.  | GARRA
E GRIFES Zhang Chenking, 20 anos, assume que
adora grifes, mas não perde o foco nos estudos. "Quero ser referência nacional
na minha carreira", diz a jovem estudante de letras de Xangai. Para afiar o inglês
e ter a valorizada experiência internacional, vai ser mandada pelos pais para
a Nova Zelândia |
A
geração abaixo dos 30 anos tem pouca ou nenhuma memória da
grande erupção de aspirações liberalizantes que mobilizou
jovens em todo o país e culminou na terrível repressão pelas
armas, conhecida como o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989. Mais
inconsistente ainda é a era das trevas da Revolução Cultural:
pais e avós muitas vezes escondem as experiências pavorosas que viveram,
por vergonha ou medo. Quando não o fazem, suas histórias reforçam
a idéia de que os jovens atuais vivem tempos privilegiados. "Em comparação
com meus familiares, estou na ilha da fantasia", diz o estudante Zhang Wei, de
20 anos. Dois avós dele foram mortos e seus pais passaram fome durante
a Revolução Cultural. Zhang Wei fica pelo menos quatro horas por
dia com os olhos grudados na tela de um computador num cibercafé de Xangai.
Numa salinha reservada, trava demoradas disputas com os amigos em games on-line.
Também navega por sites que o informam sobre o mundo do kung fu e a economia
de outros países. "A internet abriu a minha cabeça", avalia. Como
todo internauta, ele sabe que o governo censura as informações que
trafegam pela rede. Mais ainda, tem consciência de que pode estar sendo
vigiado por uma das incontáveis câmeras de vídeo que o governo
mandou instalar em 1 325 cibercafés da cidade, para flagrar eventuais acessos
a endereços da lista negra. Não se incomoda. "O governo sabe o que
faz", diz Zhang Wei, refletindo a face cordata de uma juventude de bem com os
tempos em que vive. "Eu me sinto livre para pensar, dizer e comprar o que quero
na China", celebra a estudante Nüxiao Yan, de 20 anos, também da classe
média de Xangai. "O resto é detalhe."  | CAFÉ
COM GAMES "Estou me esbaldando com a internet",
diz Zhang Wei, quatro horas diárias de cibercafé. Ele não liga para a censura
nem para as câmeras que controlam a rede. "O governo sabe o que faz" |
 | PICADA
DO CORPO Como nos países ocidentais,
as tatuagens já foram coisa dos marginalizados. No passado, criminosos
chineses eram tatuados no rosto. Hoje, a arte chamada de wen shen (desenho do
corpo) ou ci shen (picada do corpo) é o orgulhoso emblema da vanguarda
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