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 Prada
da casa E também dos prédios
comerciais e dos projetos arrojados: o rei da construção
civil é moderno, elegante e badalado 
Vilma Gryzinski
Paulo Vitale  |
O TAO DA CONSTRUÇÃO
Pan Shiyi é o tipo de empreiteiro que não se espera encontrar em lugar nenhum,
muito menos na China. Simpatizante do taoísmo, a antiga tradição filosófica e
religiosa chinesa, dá conselhos à Paulo Coelho sobre o caminho do sucesso: "É
preciso acreditar" | Ele
seria o vilão ideal num país onde os barões da construção
civil já foram execrados até numa novela de televisão
ou seja, com autorização do governo comunista. Gananciosos, exploradores,
especuladores, corruptos, destruidores de aldeias inocentes e construtores de
porcarias que caem aos pedaços, literalmente, com pouco ou nenhum uso.
Essas são as gentilezas dirigidas, só para começo de conversa,
contra os donos do negócio mais visível e lucrativo
da China. Com 42 anos, pequenino e vivaz, Pan Shiyi, que já foi chamado
de "o rei de Pequim", pela quantidade de obras que espalhou pela cidade, não
se encaixa de jeito nenhum no figurino de vilão. Ele é chique, cool,
minimalista, exatamente como seus projetos o oposto absoluto da ostentação
novo-riquista que cobriu a China de abominações arquitetônicas.
Tem uma imagem pública positiva, que cultiva com profissionalismo. Declara-se
seguidor do taoísmo e registra, com um sorriso levemente irônico:
"A vida espiritual é muito difícil para os ricos". Mas
a trajetória do improvável rei do cimento ilustra como a China se
tornou um gigantesco canteiro de oportunidades e produziu, em poucas décadas,
uma fornada de milionários que tiveram de aprender sozinhos a fazer tudo
de fechar o negócio mais banal a captar capital na bolsa, passando
por todas as intrincadas, incestuosas e, para estrangeiros, impenetráveis
"relações com o governo", expressão que normalmente significa
um mar de problemas e também aquilo mesmo que todo mundo está
pensando. Pan Shiyi não usava Prada, não citava Confúcio
e não tinha a menor idéia do que fosse arquitetura contemporânea
quando se lançou na carreira empresarial num país onde isso ainda
era novidade. Nascido miserável, num lugarejo remoto, filho de mãe
inválida e pai politicamente desgraçado, ainda nos estertores da
Revolução Cultural, contava, porém, com dois atributos vitais:
audácia e um sócio esperto (este encarregado do primeiro empréstimo,
da primeira autorização oficial e de tudo o mais que todo mundo
sabe o que significa).
Divulgação  |
| À SOMBRA DA MURALHA
É difícil imaginar uma localização
melhor para uma casa de campo na China: junto da Grande Muralha. Foi lá
que Pan Shiyi construiu o condomínio mais arrojado do país. A casa
acima um "corredor" sem paredes divisórias foi projetada
por Gary Chang, de Hong Kong | Começou
em Hainan, uma das primeiras "zonas econômicas especiais", aquelas onde
se testava a economia de mercado, comprando e vendendo imóveis. O negócio
acompanhou o ritmo alucinado da economia em expansão. Pan revelou aptidão
excepcional para, pressentindo o estampido, pedir preços cada vez mais
altos por propriedades compradas na baixa especulação é
o nome disso, mas ninguém associaria prática tão vulgar a
figura tão elegante. Hoje, de seu escritório em Pequim (pequeno
e simples, cercado de espaços enormes e vazios, apenas salpicados, aqui
e ali, de obras de arte modernésimas), comanda um império feito
de prédios comerciais, residenciais ou mistos que às
vezes lembram uma versão chinesa de Brasília, às vezes evocam
filmes de ficção científica. O nome da empresa é igualmente
sofisticado, Soho China. Ele e seus assessores ou assessoras, todas lindas
e eficientes gostam de dizer que no ano passado a Soho pagou o segundo
maior imposto de renda do setor, mas é difícil interpretar isso,
à luz do relacionamento heterodoxo dos chineses com essa instituição.
Uma das grandes sacadas de Pan e
sua mulher e sócia, Zhang Xin, tão ou mais chique e badalada que
ele, foi investir em projetos arrojados, que lhes deram grande visibilidade. Isso
num país em que meio século de comunismo havia produzido apenas
caixotões horrendos, à la arquitetura soviética, e a nova
abertura econômica significava os mesmos caixotões horrendos, só
que com mais vidro, mais mármore e mais dourado. O bilhete de entrada do
casal na lista internacional dos bem-sucedidos e bem-vistos foi um condomínio
tão espetacular que até hoje causa alvoroço. A Comuna da
Grande Muralha, assim chamada porque fica literalmente grudada no monumento nacional,
numa área de floresta a uma hora de Pequim, consiste em doze casas, cada
uma mais excepcional que a outra. Como não havia arquitetos locais sintonizados
com o estilo contemporâneo, eles convocaram japoneses, sino-americanos e
o que mais houvesse de talentos asiáticos para dar um clima oriental ao
projeto. Ficou tudo tão espetacular, tão experimental e tão
caro que o conjunto acabou virando um hotel muito, muito exclusivo.
Divulgação  |
| SÍNDROME DA CHINA
O Teatro Nacional, assinado pelo francês Paul Andreu, está
na lista dos grandiosos projetos de obras públicas em execução na China. A cúpula
de titânio parece flutuar sobre um lago artificial. Chega-se a ela por um corredor
transparente, debaixo d'água | A
aposta modernista de Pan Shiyi e Zhang Xin antecipou, no âmbito privado,
a louca caçada aos "melhores arquitetos do mundo" desencadeada na China
em geral e em Pequim em particular, com a escolha da cidade como sede das Olimpíadas
de 2008. O fenômeno, chamado de Síndrome da China pelo New York
Times, produziu pelo menos uma dezena de projetos a maioria ainda em
execução, alguns já terminados , cujo conjunto não
tem similar no mundo. Não existe nome arquitetonicamente estrelado que
não esteja hoje na China. O novo Aeroporto Internacional de Pequim é
um estilizado dragão voador assinado pelo ing|ês Norman Foster; a
Ópera de Guangzhou, às margens do Rio das Pérolas, tem a
grife da premiadíssima iraquiana Zaha Hadid, evocando seixos fluviais longamente
desgastados; o Grande Teatro Nacional, uma cúpula futurista no meio de
um lago, é do francês Paul Andreu. Pela posição ímpar
de destaque que ocuparão, duas grandes obras olímpicas vão
deixar o mundo de queixo caído em 2008. Uma é o Centro Nacional
de Esportes Aquáticos, conhecido como Watercube (Cubo Aquático),
uma caixa translúcida recoberta por "almofadas" de um tipo de plástico
inflável que criam um efeito de água flutuante (veja
foto da maquete eletrônica na reportagem sobre Olimpíadas).
Outra é o Estádio Nacional, dos suíços Pierre de Meuron
e Jacques Herzog, envolto em um "bordado" de aço que já foi comparado
a uma gaiola, um gradil da era Ming ou, como preferem os chineses, um ninho de
andorinha no caso, a referência é gastronômica.
Para muitos arquitetos, a China é
o campo dos sonhos, o lugar onde podem realizar fantasias impossíveis.
Eles chegam impressionados com os números do país que consome 54%
de todo o cimento e 36% de todo o aço produzidos no mundo, com a enormidade
da mão-de-obra a certa altura, havia 7 000 operários trabalhando
no estádio olímpico e pelos baixos custos. Meuron calcula
que o estádio chinês sairá a 10% do custo que teria na Europa.
Em contrapartida, são engolidos pelo labirinto chinês: leis cambiantes,
burocratas inacessíveis, cadeia de comando indecifrável, autoridades
que dizem "sim", significando "pode ser", quem sabe" ou "depende...". O escritório
de Meuron contratou um artista plástico local que tinha morado em Nova
York, Ai Weiwei, para guiá-los nesse pântano. Uma das primeiras perguntas
dos corretos suíços foi se o concurso para um grande projeto seguiria
as regras de equanimidade das licitações internacionais. "Pela minha
experiência na China, isso não tem a menor possibilidade de acontecer",
respondeu Ai, um grandalhão barbudo e desbocado que coleciona troncos de
árvores antigas em seu loft.
Ai Weiwei também trabalhou com Pan Shiyi, fornecendo projetos de paisagismo,
esculturas vanguardistas e uma torrente de opiniões. Durante todo o furor
olímpico, o empreiteiro ficou fora hoje não quer nem falar
no assunto, que considera superexplorado. Seu novo projeto é um conjunto
monumental de prédios comerciais, ou espaços múltiplos, como
prefere definir. Também tem um blog, no qual escreve sobre filosofia e
negócios, segundo informa, dessa vez quase sem ironia. "Eu sou chato, como
todos os empresários. É uma gente que tem de dar muita importância
ao dinheiro", diz, numa autodefinição só possível
àqueles que já têm dinheiro suficiente para fazê-la.
Sobre seu país, tem uma visão muito mais radiosa: "Nos últimos
anos, a China mostrou a sua enorme capacidade de produção, no campo
da manufatura. No futuro, vai mostrar ao mundo o poder da mente, em lugar do poder
da mão". |