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 Planeta
China-EUA A maior potência econômica
do planeta, os Estados Unidos, precisa de 2 bilhões de dólares
por dia para financiar sua dívida. Boa parte desse dinheiro vem da
China. Não são apenas os EUA que dependem da economia chinesa.
O mundo inteiro está sendo açoitado pelas ondas de choque
que partem de Pequim  Lauro
Jardim
Getty
Images
 | UMA
EXPLOSÃO FUTURISTA Avenida de Shenzen, no sul
do país: em 25 anos, a população cresceu 2 700% e a cidade abrigou as fábricas
ultramodernas que espalham pelo mundo produtos como iPods e PlayStations |
Em 1995, apenas 5% dos produtos que a gigante Wal-Mart vendia nos Estados Unidos
saíam de suas fábricas. Hoje, um de cada dois produtos vendidos
pela Wal-Mart vem da China. O significado disso é muito maior do que a
indicação de que China e Estados Unidos mantêm intenso comércio
bilateral e uma aliança umbilical nas finanças quase todo
o dinheiro que os americanos gastam comprando artigos chineses volta ao país
quando o governo chinês devolve a gentileza adquirindo títulos do
Tesouro americano. O grande significado de as prateleiras do Wal-Mart e
também as da Target, da Best Buy e da Home Depot, as outras cadeias nacionais
de varejo dos Estados Unidos estarem cheias de produtos chineses vem do
fato de que isso ajuda a manter a inflação americana perto do zero.
Segundo o economista de Harvard Ken Rogoff, metade do aumento de produtividade
da economia americana a mais espetacular do mundo se deve ao fato
de os produtos feitos na China chegarem ao consumidor a um preço baixo
e ainda assim darem aos comerciantes uma margem de lucro altíssima, inatingível
caso comprassem de outro país produtor ou dos próprios fornecedores
americanos. Um caso exemplar: o Wal-Mart revende um par de botas made in China
por 50 dólares, com uma margem de lucro de cerca de 7% ou 3,50 dólares.
O fabricante chinês vende o par por 15,30 dólares e obtém
um lucro, antes dos impostos, de apenas 65 centavos de dólar. Conclusão
de Rogoff: "A imensa porção de riqueza gerada por essa operação
fica nos Estados Unidos. Por isso, nada menos do que 50% do aumento de produtividade
da economia americana se deve ao suor dos trabalhadores chineses".
Um império como o americano precisou de um século para crescer e
se firmar. Quem desembarca hoje na China assiste também à formação
de um império, mas que cresce em velocidade vertiginosa. Parece um daqueles
filmes de câmera rápida que mostram em segundos como a crisálida
se transforma em borboleta. Tome-se por exemplo a cidade de Shenzen, no sul da
China. Há 25 anos, tinha 300.000 habitantes. Produzia bananas e pobreza.
Hoje, são 8 milhões de pessoas trabalhando no local de maior concentração
de indústrias de eletroeletrônicos do planeta. De lá saem
os iPods que a Apple desenha para o mundo inteiro usar. Ou todos os PlayStation
que a Sony põe no mercado para a garotada. Na cidade se erguem dezenas
de torres de escritórios de cinqüenta andares, numa sucessão
tal que nem a soma dos arranha-céus das grandes capitais brasileiras as
bateria. Nada no Brasil se aproxima do espetáculo que se desenrola aos
olhos dos visitantes. Nada. São Paulo, nosso exemplar máximo de
poderio econômico, parece um museu do capitalismo do século passado.
O mundo também nunca viu algo assim, pelo menos na escala. Países
se modernizaram, como Cingapura e Coréia do Sul. Outros mudaram seu papel
no mundo, como é o caso do vizinho Japão. Mas nenhum fez o que a
China está fazendo. Antonio
Ribeiro
 | PODER
E SOBERANIA Zhu Guangyao, do Ministério das Finanças:
discurso duro contra pressões americanas |
Em um quarto de século, o país colocou-se no centro do planeta.
Para o mundo começar a andar mais devagar, basta a locomotiva chinesa dar
sinais de fadiga só os Estados Unidos têm poder semelhante.
Para que haja uma desarrumação na economia mundial, é só
dar uma boa mexida em sua moeda novamente, apenas os EUA têm essa
capacidade. Na hipótese de a China crescer mais do que o previsto, os preços
do petróleo, do minério de ferro e de outras matérias-primas
dispararão. Aumentará o risco de escassez de energia e se multiplicarão
os transtornos ambientais. E se o trem mantiver a velocidade atual, num cenário
sem soluços, portanto, a influência da China seguirá ascendente:
pelas estimativas da Organização Mundial do Comércio (OMC),
o país será o maior exportador do mundo em 2010. Atualmente, está
atrás da Alemanha e dos Estados Unidos. Para isso, precisa manter o ritmo
de crescimento dos últimos anos no comércio exterior, de 25% em
média. Indo direto ao ponto, a China hoje é, ao lado dos EUA, o
grande motor da economia mundial tudo passa por ela.
A interdependência entre os Estados Unidos e a China é total. Os
americanos dependem dos chineses para produzir barato e para financiar seus gastos.
A China precisa dos EUA vigorosos, despejando investimentos bilionários
no país e importando feito loucos os produtos baratos que ela fabrica.
EUA e China vivem em um processo simbiótico que permite e até obriga
cada um deles a ir empurrando com a barriga gigantescas distorções.
As famílias americanas economizaram 600 bilhões de dólares
nos últimos dez anos em conseqüência da importação
de produtos chineses baratos como se vê, os dois lados ganham. Além
disso, os chineses bancam 6 em cada 100 dólares de títulos da dívida
americana que estão no mercado e 4,2 trilhões de dólares
estão no mercado. Guang
Niu/Getty Images
 | TRABALHO,
TRABALHO, TRABALHO Fábrica de móveis
(acima) e funcionários do Wal-Mart, em Shenzen: a maior rede mundial
de varejo tem na China 80% de seus fornecedores. Os empregos que desaparecem no
resto do planeta ressurgem nas cidades chinesas | Greg
Girard
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Se esse ciclo se romper, não só os dois países como também
o resto do mundo passarão por boa temporada de problemas. E o mais incômodo
deles será a recessão. A importância da China é também
capital para as outras duas potências econômicas, Japão e Alemanha,
segunda e terceira economias do mundo (a China é a quarta). A fabulosa
máquina exportadora alemã tem na China o seu maior comprador. Quanto
ao Japão, basta dizer que boa parte da recuperação de sua
economia, estagnada por mais de uma década, se deve ao fenômeno chinês.
E, finalmente, os produtos chineses de baixo preço são um dos fatores
que explicam a inflação controlada de boa parte dos países
do Ocidente desenvolvidos, subdesenvolvidos e emergentes.
Desde o início do ano, a China é dona do maior volume de reservas
em moeda estrangeira do planeta. São cerca de 1 trilhão de dólares,
um valor que cresce em velocidade supersônica há dez anos
essas reservas somavam 75 bilhões de dólares (as do Brasil não
passam de 63 bilhões de dólares). O gigantesco superávit
em suas contas externas é alimentado também por doses industriais
de investimentos estrangeiros. Desse quase 1 trilhão de dólares,
60% estão aplicados em dólares e títulos do governo dos Estados
Unidos. O acúmulo descomunal de títulos do Tesouro americano (cerca
de 260 bilhões de dólares) em cofres chineses tem como efeito a
possibilidade de os americanos reduzirem suas taxas de juro. Os mesmos juros baixos
que, por sua vez, são parcialmente responsáveis pela bolha do mercado
imobiliário dos EUA. Ou, como disse recentemente o economista americano
Paul Krugman, com sarcasmo: "Tornamo-nos uma nação na qual as pessoas
ganham a vida vendendo casas e pagando por elas com dinheiro da China".
Por todos os lados que se olhe, a influência chinesa tende a ganhar corpo.
O tamanho de seu mercado doméstico, algo como 300 milhões de consumidores,
e a sua capacidade assustadora de produzir barato passarão em breve a ser
definidores de padrões de bens de consumo do mundo invertendo um
papel histórico do país. O setor eletroeletrônico será
o primeiro a sentir essa nova pegada chinesa. Até agora são as empresas
hegemônicas do setor que ditam as regras. Sony, Philips e Panasonic, por
exemplo, fixaram padrões de DVDs usados mundo afora. No novo mundo em que
estamos entrando já se pode imaginar um padrão criado na China para
um novo produto de consumo de larga escala ser lançado para os seus 300
milhões de consumidores e depois ganhar o planeta sobretudo pelo
preço mais baixo, que, no fim das contas, é determinante.
O fenômeno China não pode ser comparado aos também impressionantes
saltos do Japão nos anos 70 e 80 nem aos dos Tigres Asiáticos nos
80 e 90. O Japão passou de produtor de baixo custo a produtor de alto custo
numa geração apenas. "A China tem vastidão territorial com
enorme estoque de mão-de-obra, que lhe permitirá ascender na escala
tecnológica sem sacrificar ainda por muitos anos sua atual vantagem em
termos de custos", afirma o americano Oded Shenkar, um estudioso do país
há mais de três décadas, no livro O Século da China.
Pela extensão de seu território, pelo tamanho de sua população
e pela sua capacidade de alterar a geopolítica do planeta, o milagre chinês
tem muitas semelhanças com o surgimento do império americano, entre
fins do século XIX e início do XX. Só que em ritmo mais acelerado.
O crescimento arrasa-quarteirão
da China é um dos filhos bem-sucedidos da globalização. Sem
o aumento da integração econômica entre os países ocorrida
a partir da década de 80, esqueça o fenômeno ele não
teria se manifestado. A precondição fundamental foi, e continua
sendo, o intenso e pulverizado fluxo de investimentos de bens e capitais. Paralelamente,
o crescimento chinês ocorre num momento em que a OMC passou a existir e
ganhar importância, forçando a abertura de mercados. Tudo isso conjugado
com uma redução brutal dos gastos de transportes: os volumes crescentes
de bens exportados jogam no chão os custos de logística. Quem estava
protegido pela proximidade de seu mercado ficou a ver navios. Isso vale, por exemplo,
para o México. Com os acordos do Nafta, o país imaginou ter o mercado
americano cativo por causa da fronteira. Não está mais. Com isso,
vira pó mais uma verdade que norteou durante décadas o mundo dos
negócios. Não apenas
o baixo custo da mão-de-obra tem feito da China um país vencedor.
Tomem-se os setores têxteis ou o de calçados, em que a hegemonia
da nação cresce sem cessar. Há países na própria
Ásia oferecendo braços mais em conta mas não tão
disciplinados e competentes. Além disso, a economia de escala, a produtividade
e a logística tornam os chineses imbatíveis. Existem cadeias que
agilizam a produção, todas elas integradas. Assim, a China vai deixando
baixas em todos os continentes, indistintamente. No setor têxtil, por exemplo,
todos têm perdido. Ricos e pobres. A Associação Americana
de Produtores Têxteis estima que nos últimos três anos uma
fábrica tenha sido fechada por dia nos Estados Unidos. A África
Subsaariana viu suas exportações de roupas de cama cair de 1,1 milhão
de peças para 350.000 entre 2001 e 2003. Se há um lugar que poderia
disputar com a China no item custo de mão-de-obra seria a África.
Mas falta aos países africanos algumas condições essenciais
que os chineses oferecem: educação dos trabalhadores, infra-estrutura,
logística e um nível mínimo de estabilidade política.
Isso sem falar na corrupção endêmica que grassa no continente.
Os vizinhos asiáticos sentem arrepios da mesma intensidade. Em 1992, Cingapura
detinha 22% da produção de eletrônicos. Naquele ano, a China
ficava com 9,5% desse total. No fim da década, os sinais se invertiam:
a China alcançava o porcentual do vizinho, que se contentava com 13% do
mercado. Os Estados Unidos têm
se debatido em descobrir maneiras de diminuir o seu monumental déficit
no comércio bilateral com a China hoje na marca dos 200 bilhões
de dólares por ano. A palavra de ordem da maior economia do mundo tem sido:
"China, valorize a sua moeda já". Assim, os produtos chineses ficariam
mais caros (e supostamente menos competitivos). Não há um dia nestes
últimos meses em que alguém do governo Bush ou algum congressista
republicano ou democrata não bata nessa tecla. Acusam o governo chinês
de manter a moeda artificialmente desvalorizada. A China empurra uma eventual
mudança no câmbio com a barriga. Algumas vezes, responde mais duramente
aos EUA. Outras, acena com mudanças. Recentemente, num relatório
que distribuiu aos 149 integrantes da OMC, admitiu flexibilizar o câmbio,
mas "a longo prazo". Em entrevista a VEJA, o diretor de assuntos internacionais
do Ministério das Finanças da China, Zhu Guangyao, inicialmente
sorriu quando lhe foi perguntado até quando o país suportaria a
pressão dos Estados Unidos para valorizar o yuan. "Em julho de 2005, já
valorizamos nossa moeda", disse. Fez uma pausa, tomou um gole de chá e
emendou uma afirmação mais dura. "Não vamos tomar uma decisão
dessas por causa dos EUA." Ainda que seja uma retórica estudada, a declaração
não pode deixar de ser lida como um sinal de força. "Temos de pensar,
antes de tudo, em nosso crescimento. O governo da China faz o que é preciso
para a população chinesa, e não o que os outros querem que
ele faça." Importar barato
da China cria dependência. A escalada da Wal-Mart nos últimos dez
anos para o posto de maior empresa do mundo está umbilicalmente ligada
ao milagre chinês. Em 2003, o maior varejista do planeta importou mais produtos
chineses que a França ou o Reino Unido. Das 6.000 fábricas pelo
mundo que fornecem produtos à Wal-Mart, 80% estão na China. Isso
mata empregos. Aos Estados Unidos, e por extensão aos outros países
ricos, restaria gerar profissionais capazes de produzir "bens com base em idéias
que possam ser vendidos em todo o planeta", como sugere Thomas Friedman em seu
livro O Mundo É Plano, lançado no ano passado. Para ele,
"a quantidade de bons empregos fabris tem um limite, mas o número de bons
empregos gerados por idéias não". Perfeito, mas com o tempo a China
também será capaz de ter gente gerando boas idéias. Essa
é mais uma questão que atormenta o resto do mundo.
Na outra ponta, o crescimento do mercado interno chinês beneficia os exportadores
americanos. Isso quer dizer que o lobby chinês nos EUA é exercido
ainda por gigantes como a Boeing de olho num mercado que os especialistas
apontam como o maior do mundo para a aviação civil nos próximos
vinte anos. Como se vê, está tudo imbricado. Como conseqüência,
o lobby chinês nos Estados Unidos tende mais a ser feito pelos grandes e
poderosos conglomerados e a pressão protecionista, a ser comandada pelas
pequenas e médias empresas americanas. Das 500 maiores companhias americanas,
450 instalaram-se na China. Isso diz muita coisa. Hoje, todas as decisões
de investimento das empresas globais passam pela China. Um total de 72 bilhões
de dólares foi investido lá no ano passado pelas companhias estrangeiras
a maior enxurrada de dólares do planeta. Nenhuma multinacional bota
dinheiro no Brasil, por exemplo, sem levar em conta antes o mercado chinês.
O corolário do avanço
da China na economia é seu natural maior poder de fogo no jogo geopolítico.
Inicialmente, na Ásia. Ali, o país já tomou o lugar dos Estados
Unidos como o maior mercado externo da Coréia do Sul e de Cingapura. É
também o maior exportador para o Japão lançando ao
espaço uma supremacia americana que vinha desde o pós-guerra. E
prevê-se que em poucos anos ultrapasse os EUA como o maior parceiro comercial
da Índia. A China tem avançado ainda no comércio com a África.
Aproveita o flanco aberto por companhias americanas e européias de bens
de consumo que vêm se desinteressando de um continente com baixa capacidade
de consumo. Num outro campo, é
provável que no futuro próximo a China (dependente de petróleo
para sustentar seu crescimento) passe a lutar pelo combustível como os
Estados Unidos lutam. Hoje, o país importa 50% de sua demanda de petróleo.
Prevê-se que esse porcentual suba para 65% nos próximos cinco anos.
Quase 20% do que a China compra de petróleo vem do complicado Irã.
É nesse país que a empresa de energia Sinopec está fazendo
um de seus maiores investimentos no exterior para o desenvolvimento de um campo
de gás natural. Um vínculo e tanto. Não bastasse, a China
compra 60% do petróleo produzido pelo Sudão, endossando um regime
genocida, responsável pelo assassinato de 300.000 muçulmanos. Nem
se imagina que a China vá pensar em sanções comerciais por
questões assim seria ingenuidade pedir isso a um regime fechado,
comandado por um partido único. |