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Edição 1968 . 9 de agosto de 2006

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Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
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Retratos da China

Empresários, operários, gente da moda
– e um punhado de brasileiros. São menos
do que uma gota num oceano de 1,3 bilhão
de pessoas, mas abrem uma janela para os
muitos estilos de viver e de pensar num país
em frenética transformação

 

CORTE, COSTURA E MISSÃO CIVILIZATÓRIA

 

Fotos Paulo Vitale

Ele tem 25 anos, talento, futuro promissor, ateliê num prédio adequadamente decadente e a missão de civilizar a clientela. Lu Kun é uma revelação do mundo da moda em Xangai, um lugar onde o dinheiro ainda é muito novo e o conceito de elegância às vezes engatinha na fase da ostentação. "Muita gente ainda é um horror para se vestir", suspira ele. Por causa disso, além de estilista, Lu Kun funciona como eliminador-geral de excessos. "Tenho clientes riquíssimas que compram tudo aos montes", conta. "Vou à casa delas, abro o armário e vejo cinqüenta bolsas, mais de 100 sapatos de grife. Aí, começo a ensinar o que fazer. Monto a produção completa." E elas aceitam? "No começo, estranham. Depois da primeira vez, quando as amigas elogiam, passam a confiar em mim."

 

PRESIDENTE MAO? NÃO, URSINHO POOH

Ex-estudante de jornalismo, Song Dan, 25 anos, mudou de vida desde que ganhou o título de miss China 2003. Conseguiu emprego num programa de televisão e distribui autógrafos por onde passa. "Inclusive a membros do Partido Comunista. Mas, se tivesse nascido há trinta anos, iria para a cadeia só por ser bonita", diz, com uma pontinha de exagero. Song Dan detesta política – "Prefiro decorar meu apartamento com bonecos do Ursinho Pooh a pendurar um retrato de Mao Tsé-tung na parede" –, mas está cheia de idéias na linda cabecinha. "Vou escrever um livro para provar à China que moças bonitas também têm neurônios", planeja.

 

VALE ATÉ FOTO DE BIQUÍNI NA NEVE

 

Depois de estamparem o rosto em campanhas nada convencionais para padrões ocidentais – como a de um adesivo para aquecer a barriga ou a de fios de náilon para produzir dobras nas pálpebras –, as modelos brasileiras Maria Fernanda Goleb, 16 anos, Gabriela Maia, 24, e Virgínia Rugani, 18, têm opinião formada sobre o novíssimo mundo fashion chinês. "Os clientes são sádicos e pães-duros", resume Gabriela. Nascida no escaldante Amapá, ela quase congelou ao posar de biquíni durante mais de três horas numa montanha coberta de neve – sem inspirar nenhuma comiseração na equipe de produção. Na hora de receber os cachês, as moças têm outras surpresas. "Querem descontar até o tempo do lanche", queixa-se a sorocabana Maria Fernanda. Em meio aos percalços da profissão, as modelos, que racham o aluguel em Xangai, se divertem com as manias dos fotógrafos locais, como a obsessão por bicos e olhares apaixonados, bem exagerados. Só não reclamam do volume de trabalho. "Vamos voltar para casa com uma boa poupança", diz a mineira Virgínia.

 

CHIMARRÃO COM CONTENÇÃO

 

A gaúcha Márcia Schmaltz, de 33 anos, integra uma minoria que pode ser contada somente em dezenas: a de brasileiros sem origem chinesa fluentes em mandarim. Quando criança, morou com a mãe e o padrasto em Taiwan. Na volta ao Brasil, chegou a ter vergonha da experiência. "Parecia exótico. Hoje sou valorizadíssima por dominar o chinês", diz Márcia, que largou temporariamente seu posto de professora do idioma na PUC do Rio Grande do Sul para montar um núcleo de cultura brasileira na Universidade de Pequim. Márcia mora com a filha de 10 anos num singelo dormitório universitário e está perfeitamente ambientada aos costumes locais. Aprendeu, inclusive, a combinar (não se sabe como) o chimarrão com as iguarias locais. A fluência que lhe rendeu uma carreira única pode ser problemática: "Preciso vigiar a língua. Sei que se for crítica além da conta acabo expulsa daqui".

 

LITERATURA APLICADA

 

De dia, no chão de fábrica. À noite, no computador. Zhou Hongjuan, 23 anos, acumula as funções de operária e estudante de literatura chinesa. Como milhões de jovens, ela veio do interior para Shenzen, a cidade pioneira das reformas econômicas. O que a distingue da massa é a determinação. Supervisora de linha de montagem da Huawei, a maior empresa de componentes de telecomunicações do mundo, ganha o equivalente a 200 dólares, com jornadas de doze horas diárias, seis vezes por semana. Como consegue fazer faculdade? Ensino a distância, com aulas on-line. Trocou o dormitório da fábrica pela casa do namorado e diz: "O que mudou mesmo para melhor aqui foi a mentalidade das pessoas".

 

O CUSTO – E O SUSTO – BRASIL

 

Fotos Antonio Ribeiro

De sacoleiro a empresário, o xangainês Pedro Wang, 43 anos, construiu com trabalho suado o seu sonho brasileiro. No português cheio de vivacidade adquirido entre 1989 e 2002, ele descreve como o lado pior do custo Brasil o levou de volta a sua cidade natal. "Eu tinha Mercedes, fui assaltado. Troquei por Pajero, fui assaltado. Comprei Gol, fui assaltado de novo. Aí, fiz as malas e voltei para cá", conta ele a bordo de seu Audi A6 com chofer e travas nunca acionadas. Sócio de uma construtora de condomínios de luxo – "Construção é o melhor negócio que tem aqui na China" –, ele se sente perfeitamente à vontade tanto negociando casas de 2,5 milhões de dólares quanto no ambiente político em geral. "Comunismo? Já acabou aqui faz muito tempo", ri. Wang ainda mantém parte da família e dos negócios no Brasil, que "é melhor para ganhar dinheiro". Por quê? "Na China tem muita competição. O problema no Brasil é que tem aquela história de impostos..."

 

VIDA E SONHO DE PEÃO

 

Peões de obra, os três homens da foto à direita têm uma vida muito parecida com a de seus similares brasileiros. A diferença é que as condições de trabalho são mais duras – e os sonhos, mais ambiciosos. Chen Hua, de 18 anos, He Hue Hui, 47, e Song Haitao, 29, equilibram-se em frágeis andaimes de bambu, comem e dormem no local de trabalho e têm turnos de doze horas, seis dias por semana. Aos domingos, um pouco menos – é quando vão a uma praça, olhar o movimento. Quando o Chateau Pinnacle – a praga dos nomes pseudo-sofisticados é universal – acabar, os peões migrantes terão de deixar Xangai se não arranjarem outra obra. "Mas aqui tem muito serviço", diz o jovem Chen. No futuro, ele pensa em trabalhar no comércio e comprar um carro. "Tenho certeza de que vou conseguir", comenta. A seu lado, o colega He, mais experiente, dá um risinho descrente.

 

O ÚLTIMO REBELDE

 

A fúria modernizante – e a valorização dos imóveis – é tamanha que parece inacreditável encontrar em pleno centro de Xangai alguém como Zhu Ming Yu. Com 75 anos e muita teimosia, ele mora numa casa em escombros, com paredes desmoronadas e sem teto em alguns cômodos. Dos moradores da vila de cerca de setenta casas situada a apenas um quarteirão da fervilhante Nanjing Road, praticamente só sobrou o velho Zhu. Na porta de sua casa, que aluga desde 1956, pagando menos de 10 reais por mês, já está o onipresente ideograma pintado em vermelho: char (demolir). Zhu não quer o dinheiro oferecido pela prefeitura para sair, mas outra casa para morar. Operário aposentado que ainda se recorda dos tempos pré-comunismo, ele não quer encrenca maior do que a em que já está metido. "Os comunistas estão no governo. Não quero falar de política", diz, gentil mas firmemente.

 

CHURRASQUEIRO CEARENSE? CLARO QUE TEM

 

Seguindo os caminhos do churrasco, o cearense Luiz Medeiros, 46 anos, acabou em Xangai. E por cima da carne-seca. Caminhoneiro, com baixa escolaridade, mas habilidade nos espetos, ele primeiro trabalhou como churrasqueiro num rodízio brasileiro em Tóquio. De lá, foi transferido para a China. Cooptado como sócio por um casal de clientes interessado no potencial do negócio – qualquer chinês que conheça o Brasil tem como primeira e mais entusiasmada referência o churrasco –, saiu da cozinha para a administração. Logo pegou o estilo gerencial local: "O pessoal aqui é desorganizado e não muito limpo. Tenho de dar duro neles". Como? "Só falo algumas palavras de mandarim. Me comunico como os índios", explica. Com apartamento em Xangai e casa de praia em Fortaleza, ele não se acha uma exceção: "Aqui está cheio de Luizinhos".

 

"PELO MENOS AS PESSOAS FICAM RICAS"

 

Fotos Paulo Vitale

Eva Ho, 39 anos, tem jeito de bonequinha de luxo, profissão de gente que vive no mundo do supérfluo – é promoter – e uma mente analítica que parece desmentir as duas afirmações anteriores. Sobre os anos que passou nos Estados Unidos, estudando e trabalhando, ela resume: "Aprendi a escolher – na China, o professor fala e você ouve; nos Estados Unidos, ele abre um leque de opções. Aprendi a fazer perguntas – coisa que, como mulher, eu não fazia. E fui trabalhar na bolsa – vinha de um país comunista e quis conhecer o coração do capitalismo". E a situação atual? "O sistema não é perfeito, mas pelo menos permite que as pessoas fiquem ricas." É, portanto, a felicidade geral da nação? "Não, mas os chineses parecem tão satisfeitos porque basicamente todo mundo melhorou muito de vida. E por natureza são muito obedientes. É o peso de 5 000 anos de sistema feudal."

 

NA BALADA, DE ÔNIBUS

 

Um país que passa no teste de aceitação de jovens estrangeiros provavelmente já completou o ciclo do sucesso. O catarinense Thiago Lemos, 16 anos, cabelos tingidos de vermelho, vários piercings, assina embaixo. Vivendo há dois anos em Pequim com os pais e a irmã, mora em um condomínio ao estilo americano, estuda em uma escola internacional e tem amigos multinacionais. Fala mandarim e inglês. Com a turma, faz a ronda das baladas todos os fins de semana. Vai e volta de ônibus. "No Brasil, por causa da questão da segurança, isso não seria possível", diz seu pai, o executivo João Lemos. Thiago é desencanado dessa história de saudade: "Não quero voltar para o Brasil. Tenho algum bom motivo para isso?"

 

UM SONHO DE NOIVA

 

Há dois anos o universitário Xiu Zhen vem fazendo o tipo de coisa que provoca aprovação dos colegas moderninhos do Instituto de Cinema de Pequim e risinhos irônicos do público em geral. Ele anda por pontos turísticos e marcos urbanos com uma câmera e um manequim debaixo do braço. Quando acha o "lugar certo", enfia um vestido branco no manequim, veste um terno algo tosco e pede a um amigo que fotografe a cena. O projeto se chama "Eu e minha noiva" e nasceu de um sonho. Muita gente, claro, acha a coisa esquisita, e não faltam engraçadinhos perguntando por que ele não arruma uma noiva de verdade – é notória a falta de garotas na faixa dos 20 e poucos anos. "Sempre existe algum conflito entre o sonho e a realidade", registra o estudante sonhador.

 

OS CONSELHOS DE MADAME MA

Os assessores são numerosos, o carpete é alto e o salão, enorme. A coreografia que envolve Ma Xiuhong, vice-ministra do Comércio, tem uma mensagem explícita: ela é po-de-ro-sa, do tipo que fala escandindo bem as palavras para não restar nenhuma dúvida. Mas, caso reste, basta lembrar que madame Ma está num ministério que, no ano passado, administrou um volume de comércio de 1,4 trilhão de dólares. Engenheira por formação, 57 anos, cabelos tão engomados quanto o impecável tailleur de seda verde-petróleo, a vice-ministra só permite que seu tom de voz suba uma oitava e que o rosto ganhe uma expressão algo irada quando fala nas pressões dos Estados Unidos pela valorização da moeda chinesa. "Chegaram a sugerir 20% ou 30%. Acho que não conhecem a realidade do mercado", esbraveja. Uma ministra chinesa dando lições de mercado aos americanos? Ela deixa passar a ironia. E que conselhos daria a um empresário brasileiro que quisesse fazer negócios na China? Madame Ma se anima e enumera. Primeiro, é "muito importante" conhecer a realidade chinesa e saber quais as áreas às quais a China dá prioridade (em caso de dúvida, basta ler o XI Plano Qüinqüenal; está tudo lá, bem explicadinho). Segundo, estudar as políticas de captação de investimentos estrangeiros. Terceiro, identificar um bom projeto e bons parceiros. "Os empresários estrangeiros devem escolher um projeto em que possam exercer ao máximo a sua vantagem competitiva e, ao mesmo tempo, atender às necessidades da China", ensina. Entenderam bem? Tudo visa aos in-te-res-ses da Chi-na.

 
 
 
 
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