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 De
olhos bem abertos
 Monica
Weinberg
AFP
 | "OVO
DE PATA" A modelo chinesa exibe o formato
de rosto oval tão valorizado no país: antes de procurar emprego,
até 60% das universitárias fazem plástica para "ociimagens/c;ncia |
O que as chinesas querem? Em termos estéticos, o mesmo que as outras
mulheres do mundo: ser bonitas. Para elas, isso se traduz em ter a dobra das pálpebras
delineada rara entre orientais , pele clara e os inevitáveis
seios plastificados, entre outros atributos. A busca do aprimoramento exterior
transformou o ramo das cirurgias plásticas no terceiro que mais cresce
no país. Só fica atrás do efervescente mercado imobiliário
e do setor de turismo, segundo um estudo divulgado pelo governo. A clínica
comandada pelo cirurgião Tongfeng Ho, um dos mais conhecidos da China,
é um retrato dessa vitalidade. Atletas, atrizes, socialites e estudantes
se esbarram nos corredores enfeitados por estátuas de deusas gregas e pôsteres
de celebridades de Hollywood. Fenômeno global, o uso de métodos avançados
para melhorar a aparência tem uma relevância peculiar na China, onde
durante décadas de puritanismo comunista manifestações de
vaidade eram interpretadas como hábito pequeno-burguês e até
punidas. A cirurgia plástica, incipiente, só podia ser utilizada
por razões médicas, os salões de cabeleireiro eram proibidos
e espelhos em locais públicos eram vetados. O catálogo de horrores
da Revolução Cultural é pródigo em casos de meninas
humilhadas em público por usarem laços no cabelo ou tranças,
sumariamente podadas. Aberta há duas décadas, a clínica de
Tongfeng Ho passou um bom tempo às moscas, até que se solidificasse
a idéia de que vaidade não é crime político. Hoje,
a clientela aumenta a um ritmo de 50% por ano. "As pessoas fazem fila na porta
da clínica com a voracidade de quem só comia marmita e agora tem
à frente um banquete", compara o cirurgião.
Convidadas a provar do bufê da vaidade, as clientes mais jovens, sem os
traumas do passado, servem-se à vontade. Em números relativos, para
o país mais populoso do mundo, o acesso a cirurgias plásticas ainda
é limitado. Mas, em números absolutos, a China já empata
com os Estados Unidos ambos registram 1 milhão de intervenções
por ano. O Brasil é o vice-campeão, com 630 000 operações
estéticas. Uma pesquisa da Universidade de Tsinghua, em Pequim, mostrou
que 40% das 10 000 entrevistadas, entre 20 e 30 anos, já haviam se submetido
a uma cirurgia estética. Outras 45% desejariam fazê-lo. "Perdi o
medo do biimagens/io é pequeno diante dos benefícios
que esse tipo de cirurgia proporciona na China", diz a enfermeira Fang Lijun,
de 21 anos, que há dois decidiu corrigir pela raiz os dois defeitos apontados
por um médico em seu nariz: ponta grande e abas pequenas. Paulo
Vitale
 | IMPÉRIO
DA BELEZA O cirurgião plástico Zhao
Xiao Zhong com sua cliente, a imagens/>(acima), e Tongfeng
Ho, dono de uma das clínicas mais badaladas do país (abaixo):
nos tempos da Revolução Cultural, os dois médicos não
tinham permissão para realizar operações com fins estéticos,
e as manifestações de vaidade na China eram punidas até com
prisão. Hoje, os consultórios comandados por ambos se tornaram negócios
prósperos que fervilham de gente disposta a entrar na fila para se submeter
a uma cirurgia plástica para melhorar a aparência. "Os chineses demonstram
a avidez de quem só comia marmita e agora tem à frente um banquete",
diz o cirurgião Tongfeng Ho | Antonio
Ribeiro
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A enfermeira se refere a fenômeno comum em qualquer lugar, mas especialmente
relevante na China: as melhorias estéticas aumentam as chances de arranjar
bons empregos. Baseadas nisso, seis de cada dez chinesas que se graduam na Universidade
de Pequim declaram ter feito pelo menos uma plástica antes de sair em busca
de trabalho. Mesmo em empregos banais persiste a exigência de que as mulheres
tenham no mínimo 1,60 metro de altura, além da cláusula chamada
wuguan duanzheng. Literalmente, quer dizer que "os cinco sentidos são
regulares". Mas o verdadeiro significado é universal: boa aparência.
Em lugar de condenarem a discriminação estética, órgãos
do governo aderem a ela. No Ministério das Relações Exteriores,
são vetados homens com menos de 1,70 metro e mulheres com altura abaixo
de 1,60 metro. Uma ironia maior ainda quando se recorda que o homem que abriu
as porteiras da modernização, Deng Xiaoping, tinha 1,50 metro. A
altura considerada desejável também é atributo ressaltado
pelas casamenteiras, profissionais especializadas em apresentar rapazes a garotas,
e vice-versa, com fins matrimoniais. Nos casos mais extremos, baixinhos temerários
recorrem ao aterrorizante Método Ilizarov, criado por um médico
russo para tratar fraturas graves, nanismo e vítimas da poliomielite. Através
dele, aumenta-se a altura depois de serrar os ossos das canelas e esticá-los
com a ajuda de um aparelho metálico. "Esse tipo de operação
ganhou espaço com a abertura econômica, que elevou à máxima
potência a competição no mercado de trabalho", diz o cirurgião
Zhao Xiao Zhong, um dos mais respeitados do país.
As plásticas mais procuradas pelas chinesas são as que produzem
a desejada dobra na pálpebra, afinam o nariz e imprimem ao rosto um delicado
formato oval (cirurgia popularizada como "a plástica do ovo de pata").
Lipoescultura para delinear quadris e próteses de silicone para inflar
os seios também ingressaram no universo da estética chinesa. "Minhas
clientes chegam ao consultório com a foto da Sophia Loren e dizem: 'Quero
um seio igual ao dela'", conta o cirurgião Ruoy Chai. Para o olho "ocidentalizado",
existe a alternativa de um fio de náilon que, encaixado nas pálpebras
superiores, causa o efeito da dobra, mas os resultados são tão discutíveis
quanto os do mar de cremes clareadores da pele, uma obsessão nacional.
Os cirurgiões ouvidos por VEJA contam ainda que seus consultórios
são o palco de um novíssimo fenômeno: os casais estão
realizando plásticas aos pares. O objetivo é ver produzidos no rosto
efeitos estéticos idênticos, sendimagens/ fininhos
são os mais pedidos. O mercado da beleza cresceu 20% nos últimos
cinco anos e ainda tem muito espaço para se expandir. Os números
espelham a realidade de jovens como a atriz Cheng Li Li, de 23 anos, coadjuvante
numa novela de época chinesa. Ela acaba de ter implantados na boca dois
dentes cuja brancura exibe como um troféu. A atriz pesa 49 quilos, tem
1,60 metro e, embora não precise, faz dieta. "Estamos engordando porque
descobrimos as maravilhas do chocolate suíço", diz Li Li. Ela é
a cara da novíssima China. |