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Revolução na sala de aulaNo
projeto de se transformar em superpotência, a China copia tudo o que
deu certo no Ocidente e investe na formação de um exército
de cientistas 
Monica Weinberg
Antonio Ribeiro  |
TREINADOS PARA
COMPETIR
Aos 9 anos, Huang Kai Zhao (à esq.)
e Wang Yu Jiao são campeões no prestigiado concurso nacional de
caligrafia: sob pressão, as crianças varam madrugadas para manter
a liderança no ranking | Graciosos,
alegres e esforçados, os pequenos Wang Yu Jiao e Huang Kai Zhao, mostrados
na página anterior, são o retrato de uma China que passa por uma
revolução em sala de aula sem precedentes no mundo. Ela é
única por combinar velocidade e dimensão espantosas a um sistema
de meritocracia que alia os princípios da livre competição
à mão bem visível do Estado um híbrido tipicamente
chinês. Kai Zhao, o garotão bochechudo, e Yu Jiao, a menina de trancinhas,
ambos de 9 anos, tornaram-se celebridades do mundo escolar ao conquistar, respectivamente,
o primeiro e o segundo lugares no campeonato nacional de caligrafia chinesa. O
concurso mobiliza cerca de 3 milhões de crianças e jovens que varam
madrugadas e ficam com calos nas mãos para traçar no papel um ideograma
perfeito, prática que exige, além de habilidade natural, muito treinamento
e disciplina. Eles são pressionados pelas escolas para conseguir uma boa
colocação no ranking nacional. Os vencedores ganham aulas extras
e são aplaudidos em cerimônias que reúnem estudantes do país
inteiro. "É ótimo ser o número 1 na China", orgulha-se Kai
Zhao, o campeão. O estímulo à competição e
ao aprimoramento dos talentos individuais ajuda a entender a revolução
na educação chinesa, totalmente dirigida para transformar o país
numa fábrica de gente qualificada e competitiva para atuar na economia
global. O cientista Guo Huadong, secretário-geral da Academia Chinesa de
Ciências, explica o esforço de forma concisa: "A China depende disso
para ser a maior economia do mundo".
Paulo Vitale  |
CÉREBROS EM EVIDÊNCIA
O professor universitário Zhong Fun Liu
compõe a elite de cientistas que dispõem de mais verbas do governo
para fazer pesquisas em áreas de alta tecnologia: ao receber uma proposta
financeira irrecusável e a garantia de ter sob seu comando um laboratório
de primeira linha, ele decidiu retornar à China depois de uma temporada
de dez anos no Japão | A
velocidade da revolução educacional acompanha o ritmo do espantoso
crescimento econômico. Em 1976, a China emergia do período de trevas
da Revolução Cultural (que, como se sabe, era inteiramente anticultural),
durante o qual a atividade intelectual do país ficou paralisada, professores
universitários foram forçados a criar gado e as escolas se tornaram
centros de adoração ao líder Mao Tsé-tung (veja
relato). Nessa época, os índices de analfabetismo
beiravam a casa de 60% um desastre para um país com aspirações
a potência mundial. Em apenas três décadas, a China conseguiu
erguer um sistema de ensino eficiente o bastante para emplacar duas de suas universidades
entre as melhores do mundo (segundo rankings mundiais que medem a produção
acadêmica), formar nada menos que 1,2 milhão de pesquisadores com
doutorado e reduzir o analfabetismo a 4%. Isso num universo de dimensões
chinesas. As salas de aula do país absorvem 240 milhões de estudantes
de todos os níveis uma vez e meia a população inteira
do Brasil. É a maior concentração de alunos do mundo. Conclusão:
mesmo partindo de uma situação de atraso catastrófico, há
três décadas, e lidando com as complicações de uma
engrenagem de proporções gigantescas, a China conseguiu alcançar
uma produção acadêmica expressiva em todos os níveis
de ensino. Está na frente do Brasil.
Um dos pontos que mais chamam atenção na fórmula chinesa
é a concentração de esforços na formação
de gente capacitada a produzir alta tecnologia. O planejamento é de longo
prazo. Nos próximos quinze anos, por exemplo, o país terá
dobrado a fatia do PIB que destina à área de pesquisa e desenvolvimento,
chegando a 2,5%. O investimento é dirigido para as áreas da ciência
teoricamente mais capazes de resultar em inovações tecnológicas
de aplicação comercial. São onze as áreas escolhidas,
entre elas a nanotecnologia e a tecnologia da informação. Outro
método comum é distribuir dinheiro farto aos cientistas cujos laboratórios
apresentam produção acadêmica de alto nível, segundo
medidores objetivos. Isso desperta uma competição acirrada. O professor
Zhong Fun Liu, 44 anos, chefe em um laboratório na Universidade de Pequim,
é um dos 164 cientistas tidos como "de elite" na China o que o faz
receber mais verbas. Sua rotina para manter a dianteira ilustra o que se passa
no cotidiano do mundo acadêmico chinês. Zhong chega à universidade
às 7h30 e só deixa o laboratório perto da meia-noite, inclusive
aos sábados. "Quem não trabalha duro na China fica para trás
e sem dinheiro para a pesquisa", resume.
AFP  |
MÁQUINA UNIVERSITÁRIA
A cena mostrada na foto acima, em que aparece
uma turma de alunos recém-formados na Universidade de Anhui, prolifera
por toda a China: nos últimos cinco anos, o número de jovens na
faculdade quadruplicou. Essa expansão só foi possível porque
o governo começou a cobrar mensalidades. O desafio agora é promover
um salto de qualidade no nível de ensino | Outra
estratégia que impulsiona o progresso do ensino é atrair de volta
pessoas que deixaram o país, sobretudo nas décadas de 70 e 80, para
estudar e trabalhar no exterior. Elas saíram de uma China na qual o brilhantismo
era malvisto (e mesmo punido, durante os anos da Revolução Cultural)
e onde um cientista no topo ganhava no máximo o equivalente a 100 dólares
por mês. Estão desembarcando num país inteiramente mudado.
Na novíssima China, os bons cientistas ostentam status de celebridade.
Recebem convites para participar de programas de televisão de grande audiência
e chegam a ser parados na rua para distribuir autógrafos. O salário
médio de um pesquisador chinês é hoje de 2 000 dólares.
Além do salário, pesam as boas condições de trabalho
e o prestígio, como ocorreu com Fei Luo, 40 anos, doutor em fisiologia.
"Nos Estados Unidos, eu era apenas mais um cientista. Na China, estou entre os
primeiros", diz Luo. A academia não é o único destino para
os que retornam. Eles também recebem incentivos para abrir a própria
empresa, como acontece em Suzhou, fervilhante pólo industrial a 70 quilômetros
de Xangai. Ali residem 1 000 chineses que têm no currículo uma passagem
pelo exterior. Em comum, eles voltaram à China motivados por subsídios
para a compra da casa própria e generoso alívio nos impostos para
montar empresas. Todas voltadas para o mercado high-tech.
A China reúne tantas especificidades que uma comparação com
o Brasil, ou qualquer outro país, pode parecer forçada. Visitar
um grande centro de ensino permite vislumbrar um dos muitos paradoxos chineses:
os professores são bons, os equipamentos, modernos, e os alunos, comparáveis,
em padrões de comportamento, aos de países desenvolvidos. Mas existe,
sim, o controle da livre expressão típico dos regimes autoritários,
a internet é censurada e não se fala em assuntos tabus, como a explosão
estudantil que redundou no massacre da Praça da Paz Celestial, há
dezessete anos. O próprio ensino ainda padece de excesso de disciplina
e verticalismo, que limitam o risco e a inventividade, fatores que contam no sucesso
das grandes universidades ocidentais. Ainda assim, sobressaem os méritos
que merecem ser ressaltados. Criar mecanismos para esculpir talentos individuais
e recompensá-los é um deles. Outro é estabelecer um laço
estreito entre a produção acadêmica e a realidade da economia
no caso da China, com maciço investimento em cérebros voltados
para a área tecnológica. A terceira lição chinesa
é a importação, sem restrições ideológicas,
de tudo o que deu certo nos países que têm mais sucesso na formação
de capital humano. É por essa razão que o governo continua a enviar
cientistas para estudar nos Estados Unidos e na Europa. Por isso, a China também
decidiu enxugar em 40% o número de universidades públicas do país
e cobrar mensalidades dos estudantes nas faculdades públicas. "Aprendemos
com os melhores do mundo: não dá para ter um ensino superior gigante
e arcar com os custos de tantos alunos", diz Guo Xiangyuan, do Ministério
da Educação chinês.
Paulo Vitale  |
"LUCRO, LUCRO!"
A executiva Cascade Huan é diretora
numa das escolas de negócios mais procuradas do país, a Cheung Kong
Graduate School of Business: com currículo semelhante ao das americanas,
tem como alunos diretores de grandes empresas e quadros do alto escalão
do Partido Comunista. Ninguém quer ouvir falar de Marx. "O objetivo dos
chineses é aprender a ganhar dinheiro" | Dentro
da tradição oriental de investir tudo na educação
da prole, diz-se que o chinês de classe média tem três sonhos:
casa própria, carro e ensino no exterior para o filho. Quando não
é possível mandar o filho estudar fora, traz-se o ensino de fora
para o filho. Um exemplo é o sucesso da rede de escolas de modelo canadense
aberta pelo empresário Francis Pang, que tem a cidadania dos dois países.
Em uma visita a um desses colégios, em Pequim, tem-se a sensação
de estar em uma típica escola do Canadá. A literatura de sala de
aula é canadense, só se ouve o inglês nos corredores e os
estudantes usam camisetas com dizeres como "I love Niagara Falls". Pang, que acrescentou
um original toque decorativo ao ambiente espalhando réplicas gigantes de
clássicos da literatura mundial, diz: "Importei o método do Canadá.
A procura é gigantesca". Outro
sinal de popularidade do modelo estrangeiro na China é a proliferação
dos cursos de negócios para executivos os MBAs. Eles foram autorizados
pelo governo apenas em 1991. São hoje uma febre nacional. De acordo com
um estudo da consultoria McKinsey, até 2010 a economia chinesa demandará
pelo menos 75 000 executivos de padrão internacional. Hoje o país
tem apenas 5 000 profissionais assim para ocupar cargos de comando. Para tentar
suprir a demanda, os chineses fizeram parceria com as melhores escolas de negócios
do mundo, entre elas a da Universidade Harvard, a do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) e a Wharton esta última patrocinada pelo bilionário
Li Ka Shing, de Hong Kong, que ocupa a décima colocação no
ranking dos homens mais ricos do mundo, feito pela revista Forbes. A escola
do bilionário a Cheung Kong Graduate School of Business está
instalada em um moderno edifício no qual ele, coerentemente, também
mandou construir um shopping center, com lojas de grifes como Ermenegildo Zegna
e Louis Vuitton. É nesse ambiente que os alunos assimilam o jargão
corporativo da espécie e focam nos resultados. "O objetivo dos chineses
é aprender a ganhar mais dinheiro", resume a diretora Cascade Huan. Numa
das aulas, um professor pergunta: "O que vocês mais querem?". Os alunos
respondem num coro entusiasmado: "Lucro! Lucro! Lucro!".
Paulo Vitale  |
EDUCAÇÃO
S/A
O empresário Francis Pang, que tem negócios nas áreas têxtil
e de eletrônicos, farejou uma oportunidade de diversificar investimentos
construindo uma rede de escolas inspirada no modelo canadense: ele, que viveu
na China nos tempos da Revolução Cultural, diz ainda ficar surpreso
com o fascínio chinês pela cultura ocidental. "A China perdeu o preconceito"
| É estranho
como um país tão voltado para o "lucro, lucro, lucro" ainda tenha
resquícios do velho comunismo em algumas de suas práticas. No ambiente
universitário, por exemplo, as escolas de marxismo ainda são responsáveis
por cinco disciplinas "públicas" obrigatórias para todas as carreiras.
Nelas, os estudantes recebem informações sobre as últimas
diretrizes do Partido Comunista e lêem O Capital, de Karl Marx. Outro
sinal da velha China está presente em relatos de professores que se sentem
vigiados e com medo de perder o emprego caso falem além da conta. "Sei
que posso receber uma advertência se disser algo que contrarie os interesses
do partido", diz um professor da Universidade de Pequim. Ele lembra que um colega
seu foi demitido por ter dado um tom "crítico demais" à análise
sobre Mao Tsé-tung. O medo empobrece a produção acadêmica
chinesa, sobretudo na área das ciências humanas. Os números
mostram que a China ainda precisa avançar muito nesse setor para obter
o destaque desejado no cenário internacional.
O fervor patriótico também é cultivado sistematicamente.
Na escola Shijia, uma das melhores no bom sistema público da China, crianças
de 10 anos assistem a um filme sobre a importância das fontes de energia
para o projeto nacional de tornar-se a maior potência do planeta. Outra
classe aprende que os chineses criaram as tecnologias que resultaram no relógio
mecânico movido a água e na pólvora. A exaltação
dos feitos chineses, o culto à competição, o incentivo à
meritocracia e a valorização do estudo são traços
profundamente arraigados. Foram os chineses, afinal, que inventaram o concurso
público o conceito de que o acesso à burocracia deveria ser
conseguido por capacidades intelectuais testadas em provas. Como tantos outros
feitos, isso é creditado ao primeiro imperador, Qin Shi Huangdi, nascido
em 259 a.C. Por volta do século VII, já estava consolidado o sistema
de exames para o serviço público imperial, o Keju, cuja concorrência
nunca foi igualada por nenhuma outra prova no mundo: no século XIX, chegou
a ser de uma vaga para 1 milhão de candidatos. O desempenho nesses testes
era a principal via de acesso a cargos públicos, bons salários,
prestígio e poder numa sociedade altamente hierarquizada. Os vencedores
tornavam-se mandarins, palavra que ganhou universalidade, como sinônimo
de casta influente (também é assim que se define, nos idiomas ocidentais,
a "língua comum" dos chineses). Hoje, a China moderna sonha reaver seu
lugar na história colocando em prática um velho ditado confucionista
que exalta a importância do estudo: "Se quiser ter prosperidade por um ano,
cultive grãos. Por dez, cultive árvores. Mas, para ter sucesso por
100 anos, cultive gente".
| O Brasil está atrás A
China vai melhor que o Brasil nos principais indicadores que medem o nível
de educação e a produção científica *
| | China | Brasil |
| Taxa de analfabetismo | 4% | 10% |
| Taxa de jovens na universidade | 21% | 19% |
Graduados em carreiras tecnológicas
(por ano) | 1
milhão | 94
000 | | Artigos
publicados em periódicos científicos internacionais (em relação
à produção mundial) | 5,9% | 1,8% |
| Ph.D. (por 100 000 habitantes) | 88 | 63 |
* Últimos números disponíveis,
relativos aos anos de 2004 e 2005 Fontes: Ministério de Educação
da China, MEC, ISI e Unesco | |
| "PERDI DEZ ANOS DA MINHA
VIDA" Em 1966, o professor Wang Sen
Yui tinha 11 anos e conta que sua vida virou "uma história de horror".
Era o início da Revolução Cultural na China. Wang foi separado
dos pais e sua escola trocou as aulas por rituais de adoração a
Mao Tsé-tung. A história do professor é semelhante à
de milhões de chineses de sua geração. São raros,
no entanto, os que falam tão abertamente sobre o assunto, como ele fez
em seu relato a VEJA.
"Tinha uma infância feliz até a China embarcar na Revolução
Cultural. O sítio onde meus pais plantavam milho foi confiscado pelos soldados
comunistas, e eles receberam o rótulo de burgueses por terem sido proprietários
de terra. Foram mandados a uma aldeia para trabalhar com os camponeses locais.
Meus pais eram submetidos a torturas constantes e forçados a desfilar na
praça da cidade com uma placa pendurada no pescoço: 'Sou burguês'.
Eu fui morar com um tio em Pequim, onde continuei a freqüentar a escola.
Ela tornou-se um braço da revolução. Quem dava aula eram
os próprios alunos ou os camponeses mobilizados por Mao Tsé-tung.
Trancávamos os professores dias a fio numa sala minúscula. Dávamos
a eles um pedaço de pão por dia. Eram retirados da clausura apenas
para passar por um ritual de humilhação. Nós os obrigávamos
a usar chapéus de burro e imobilizávamos seus braços, para
espancá-los. Jamais tive uma aula de física ou de química.
A biblioteca foi queimada. Minha rotina escolar consistia em sair à rua
rasgando cartazes coloridos, resquícios do regime burguês, e decorar
o livro vermelho de Mao Tsé-tung. Repetíamos em voz alta, olhando
para a foto do grande líder: 'Preferimos o capim de um país socialista
à semente do capitalismo'. Quando o pesadelo terminou, em 1976, entrei
na universidade e voltei a morar com meus pais. Eles tinham vergonha de mostrar
as cicatrizes deixadas pelas torturas. Eu nunca superei a dor dessas lembranças.
Perdi dez anos da minha vida. A China também." |
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