Arquivo VEJA
12 de junho de 1991
 
 

Televisão
Carrossel mexicano

Uma novela para crianças do SBT
dispara na audiência, invade o
público do Jornal Nacional e obriga
a Globo a reformar O Dono do Mundo

Eles estão na faixa dos 6 aos 8 anos de idade e têm nomes como Cirilo, Maria Joaquina e David. Alguns são loiros, mas a maioria tem a pele morena e os olhos de índio. Usam uniformes sóbrios e têm dificuldades na escola, com os amigos ou em casa. Sua professora, Helena, usa vestidos abaixo do joelho, decote fechado até o pescoço e lembra-se de passagens da Bíblia para transmitir ensinamentos à garotada. Essas são as estrelas de Carrossel, a novela mexicana que o SBT exibe diariamente às 8 da noite. Carrossel mostra tudo aquilo que se costuma considerar pobre, atrasado e brega na televisão brasileira: o cenário é rústico, os diálogos são declamados e os personagens, esquernáticos. Não se vêem mulheres de sensualidade deslumbrante, carros último tipo, cenas de violência, nudez, erotismo ou palavrões. Para piorar as coisas, a dublagem é péssima. Quinze dias depois de sua estréia, Carrossel produziu a mais espetacular reviravolta da televisão brasileira dos últimos anos, uma virada mais profunda que a de Pantanal.

A turma mexicana vai ao ar às 8 da noite, quando a Rede Globo exibe o Jornal Nacional, programa de maior audiência do país e espinha dorsal de sua milionária programação no horário nobre. Antes de Carrossel estrear, há três semanas, o SBT tinha 6% da audiência no horário, contra 54% para o Jornal Nacional. Agora, a platéia do SBT atingiu a faixa dos 21 pontos, enquanto a do concorrente caiu para 41. Mais tarde, na Globo, Cid Moreira se despede dos espectadores e o noticiário do dia dá lugar ao romance entre Malu Mader e Antônio Fagundes na novela O Dono do Mundo. Escrita por Gilberto Braga, considerado o mais competente novelista brasileiro da atualidade, O Dono do Mundo é um luxo só. A produção tem pretensões cinematográficas, os diálogos são em ritmo acelerado e o elenco é de primeira. Não faltam banquetes de milionários, casais adúlteros, frufru de lençóis, moças de vida incerta, diálogos picantes, tipos engraçados e galãs para diversas faixas etárias. Conversas em tom psicanalítico sobre os traumas dos personagens também são freqüentes, assim como críticas sutis à realidade social do país. Tudo inútil.

A novela anterior da Globo, Meu Bem Meu Mal, que em seu tempo foi considerada um desastre, se encerrou com 56 pontos no Ibope. O Dono do Mundo estreou na mesma noite que Carrossel e sua audiência está parada nos 11. No mesmo horário, a professora Helena e seus alunos já chegaram a 21 pontos. É verdade que, com seus 21 pontos contra 41 do concorrente, a turma mexicana do SBT dispõe de pouco mais da metade dos cerca de 40 milhões de telespectadores da Globo e, até agora, não alcançou sequer os 40% que a Manchete conseguiu no ano passado com Pantanal. Mas também é verdade que pela primeira vez uma emissora concorrente conseguiu cravar uma estaca no coração da Globo, em que o Jornal Nacional é uma espécie de alavanca que recolhe uma audiência mais modesta na novela das 7, engorda-a ao longo de suas reportagens e assegura uma boa musculatura para a atração seguinte, a novela das 8. A Manchete já teve mais audiência que a Globo com Pantanal, mas nunca num confronto com os carros-chefes da programação global.

TENDÊNCIA - Pode-se aguardar pelos 180 capítulos de O Dono do Mundo e pelos 200 de Carrossel para adivinhar o que irá acontecer daqui para a frente, mas agora a astrologia da audiência favorece o SBT. "Quando se trata de uma programação contínua, como uma novela, dificilmente se inverte a tendência inicial observada nas pesquisas", afirma Carlos Augusto Montenegro, diretor-executivo do Ibope. "A Globo vai reagir, mas mesmo assim a perspectiva de Carrossel é subir ainda mais", afirma Rubens Furtado, superintendente-geral da Rede Bandeirantes. Contra Pantanal, a Globo colocou filmes milionários, nudez e mexeu nos horários de sua programação. Contra Carrossel, não pode trocar Cid Moreira e Sérgio Chapelin por Xuxa e Simone, nem exibir ... E o Vento Levou no lugar do Jornal Nacional. No máximo, pode mudar O Dono do Mundo. E é o que está fazendo, num ritmo frenético, desde a semana passada. Todos os dias a Globo conta com os adultos com ar debilóide da Escolinha do Professor Raimundo para massacrar os concorrentes no fim da tarde. Agora, tem as crianças mexicanas da Escuela Mundial da professora Helena nos seus calcanhares. Escrita por um novelista chamado Abel Santa Cruz, que há anos mudou-se do México para a Argentina, Carrossel é um desses fenômenos que a televisão só consegue produzir de tempos em tempos. E, basicamente, um programa que traz aquilo que o espectador mais procura quando liga sua televisão: entretenimento, numa feliz combinação de novidades com discussão de questões que seu público-alvo enfrenta no cotidiano. Por exemplo:

• Num horário dominado por atrações oferecidas aos adultos, Carrossel é uma novela para crianças, interpretada por crianças. Os institutos de pesquisa confirmam aquilo que qualquer pai e mãe de família já puderam constatar por experiência própria. No horário das 8, são os filhos que têm o direito de brigar, gritar, xingar e espernear para assistir ao programa de sua preferência. O pai, que passou o dia no trabalho, não vai criar caso com a filha porque quer ver no Jornal Nacional a quantas anda a apuração da bilionésima fraude da Previdência, ou qual o jeito que Alexandre Garcia encontrará para elogiar pela trilionésima vez o governo Collor.

Carrossel é um programa infantil mesmo. Os diálogos vão direto ao ponto, o caráter de cada personagem é definido assim que ele aparece em cena pela primeira vez. Bom é bom, mau é mau.

• É uma novela ágil. Não há uma trama central que se arrasta durante meses até que o mocinho fique com a mocinha (ou vice-versa), mas urna seqüência de problemas da vida cotidiana que são solucionados em poucos capítulos. Na versão original, apresentava-se e resolvia-se um pequeno drama a cada dois capítulos. Na versão exibida pelo SBT, em que se somam dois capítulos a cada noite, assiste-se ao começo, ao meio e ao fim de um problema na mesma hora.

Carrossel fala de problemas do dia-a-dia do público: do menino que não fez a lição de casa, do pai que não tem dinheiro para comprar uma bola de futebol para o filho, da menina que tem dificuldade em se enturmar na classe, do garoto frágil espezinhado pelo grandalhão na hora do recreio.

• A novela é destinada ao público mirim, mas como todo adulto já teve uma experiência escolar ele pode se identificar com as situações mostradas em Carrossel. Chico Anysio já explicou o sucesso de sua Escolinha junto aos adultos com esse argumento. Escola é um filão rico nas artes. Ele está presente tanto no romance O Ateneu, de Raul Pompéia, como nas histórias em quadrinhos de Charlie Brown e em filmes como Ao Mestre com Carinho (alguém ainda lembra de Sidney Poitier no papel de professor?) e Sociedade dos Poetas Mortos.

Carrossel, por tudo isso, conquistou um naco do público, apesar dos seus defeitos de dublagem. O fato de se passar no México não chega a ser um empecilho, e pode até estar funcionando como um atrativo. Se o público brasileiro é capaz de se encantar com personagens de filmes americanos, também pode se enternecer com os mexicanos do SBT - aliás, porque o México é muito mais parecido com o Brasil do que os Estados Unidos. É possível portanto acompanhar Carrossel com interesse quando a professora Helena, interpretada por Gabriela. Rivero, resolve consolar um menino em dificuldades. Um dos dramas da novela é o amor não correspondido do pequeno Cirilo, negro e pobre, pela malvada Maria Joaquina, loira e rica. Num determinado momento, Cirilo se aproxima da menina para lhe dar flores de presente. Ela rejeita e diz com todas as letras: "Vá se meter com os de sua cor". Em outra passagem, Maria Joaquina diz que os negros são como macacos e vivem "cheios de pulgas". Sem saber o que fazer, Cirilo vai reclamar com a professora. "Sou rejeitado porque o pai dela é médico e o meu é carpinteiro", diz Cirilo. A compreensiva Helena dá um sorriso meigo e responde: "Você sabia que o pai do Menino Jesus também era carpinteiro?"

SEM PALAVRAS LEVES - O cotidiano dos personagens de Carrossel não tem angústias existenciais nem ginásticas psicológicas, mas é composto de problemas palpáveis. Um aluno, David, passou uma jornada dolorosa, às voltas com a doença da avó, que acabou se recuperando. "Na vida não há dor que não passe e nem alegria que não termine", afirma. Outra menina, Marcela, tem uma dificuldade em casa. Seus pais resolveram se separar. Em Carrossel, não se fala do divórcio com as palavras leves dos adultos das novelas da Globo, que se julgam preparados para enfrentar a experiência de um casamento desfeito, mas com a crueza das crianças que têm muita dificuldade para entender o que se passa. Para professores e alunos da Escuela Mundial, o divórcio não é uma contingência da vida - é desgraça. Outro menino, Jaime, é maltratado pelo pai, que o considera "muito burro". Na escola, no entanto, Jaime é um exemplo de solidariedade, sempre disposto a ajudar os amigos que têm algum problema. O tom geral de Carrossel é austero. Existem adultos bondosos, como o bedel Firmino, e adultos autoritários, como dona Oliva, a diretora da Escuela Mundial. Não existem, no entanto, adultos problemáticos, daqueles que não sabem por que vieram ao mundo.

Produzida entre 1988 e 1990 nos estúdios da Televisa mexicana, um dos gigantes da indústria de televisão no mundo inteiro, com uma fábrica de novelas e programas mais produtiva que a da Globo, Carrossel é um sucesso latino-americano que muitas pessoas imaginam que só pode acontecer com produtos globais. Foi vendida para duas dezenas de países e depois de explodir na América Latina inteira chegou à Turquia, à China e ao Japão. No Brasil, em apenas quinze dias já se transformou numa mania entre meninos de 7 a 10 anos. Normalmente, os programas bem-sucedidos do SBT recolhem a maior quantidade de matéria-prima para sua audiência junto às chamadas classes C e D, que habitam as fatias menos remuneradas da população. Em se tratando de Carrossel, existem motivos para se acreditar que a escolinha da professora Helena também faz sucesso junto a crianças de outras camadas.

No Externato Aldeia, freqüentado por alunos de classe média de São Paulo, a novela é campeã de preferência. "Temos uma atividade em que os alunos contam as novidades que lhes dizem respeito", diz a pedagoga Heloisa Reuter. "Sempre se falava de uma ida ao dentista ou a um passeio. Pois agora só se discute Carrossel. As crianças contam os capítulos e até fazem desenhos dos personagens." No Helena Lubienska, no Recife, a novela também agrada. "Carrossel é boa porque nela a gente vê tudo o que pode acontecer", afirma Rafaela Costa Campos, 9 anos, aluna da 30 série do Lubienska. "Até a tristeza de menina cujos pais se separaram apareceu num capítulo", acrescenta a garota, referindo-se ao drama de Marcela. "Mesmo que Carrossel seja um dramalhão, e é mesmo, é nessa novela que as crianças estão identificando valores como respeito, amor, companheirismo, coisas que a humanidade não encontra freqüentemente no seu dia-a-dia nem na TV', afirma Maria Antonieta Cavalcanti, coordenadora pedagógica do Helena Lubienska. "Logo no primeiro dia, em casa, começou a briga. Nós queríamos ver o jornal e nossa filha queria ver Carrossel, conta Maria Elizabeth Leite Soares, coordenadora do 1º grau do Colégio Oswald de Andrade, de São Paulo, mãe de uma menina de 6 anos. "Depois, pensamos: temos outras opções de telejornal, e ela só pode contar com essa novela infantil. Conclusão: não estamos mais vendo o Jornal Nacional. Agir de outra forma seria egoísmo".

O sucesso de Carrossel já rendeu muitas especulações sociológicas e trouxe a público diversas famílias de piruetas mentais. Condena-se a novela por ser um dramalhão mexicano de baixo nível, cheio de situações piegas, demagógicas e inverossímeis. Pode ser. Mas em matéria de verossimilhança é difícil encontrar uma professora tão inacreditável quanto a virgem Márcia (Malu Mader) de O Dono do Mundo. Em matéria de demagogia, conhecem-se poucos exemplos como o do personagem Beija Flor (Angelo Antônio), que já disse no ar que até poderia virar um assaltante porque o salário mínimo "está baixo". E, em matéria de verossimilhança, é difícil acreditar na rapidez com que Felipe (Antônio Fagundes) consegue embarcar para o Canadá em companhia da noiva de um funcionário que mal conhece e levá-la para a cama antes do marido.

O debate é estéril e preconceituoso. Estéril porque é impossível descobrir a fórmula do sucesso. Se a pobreza digna de Carrossel, em contraponto com a riqueza de O Dono do Mundo, fosse a chave da explicação do sucesso, os bons índices teriam batido mais cedo à porta do SBT. Há menos de um mês a rede de Silvio Santos exibia a novela Brasileiras e Brasileiros, drama da estirpe realista-socialista, com heróis e bandidos pobres, dirigida pelo competente Walter Avancini. A novela de Avancini naufragou e foi motivo de chacotas na Globo. O debate é preconceituoso, também, em dois sentidos. Primeiro porque se considera o dramalhão mexicano o ápice da apelação de mau gosto - como se o Brasil também não fosse um país do Terceiro Mundo e a televisão brasileira só levasse ao ar novelas escritas por Shakespeare, Marcel Proust e Machado de Assis. Em segundo lugar porque sempre que alguma emissora consegue pontos a mais de audiência há uma enorme torcida em setores da imprensa e nos meios supostamente intelectuais para que o ibope da Globo deslize para as profundezas do inferno - como se a Globo não apresentasse boa parte dos melhores programas da televisão brasileira.

CONTRA-ATAQUE - "Entre assistir às novelas da Globo, que exploram cenas de sexo, algumas constrangedoras, e Carrossel, admitamos que a segunda opção é um mal menor", afirma Silvio Santos. O ibope da novela das crianças é fruto da inspirada visão de Silvio Santos para assuntos televisivos. Dias antes de levá-la ao ar, o empresário aceitava apostas de 100 000 dólares contra quem duvidasse que a média da audiência da novela passaria da marca dos 10 pontos. Silvio Santos resolveu pagar 10 000 dólares para cada capítulo de Carrossel logo depois de assistir à novela numa viagem aos Estados Unidos. O SBT também contou com um lance de sorte em sua investida. Carrossel foi adquirida num pacote com outras três novelas. Pelos planos iniciais de Guilherme Stoliar, um dos executivos do SBT, Carrossel não era a grande atração a ser levada ao ar imediatamente. A prioridade deveria ser dada a outras produções. Acontece que apenas Carrossel e a novela que vai ao ar logo em seguida, Rosa Selvagem (que tem premiado o SBT com um ibope na faixa dos 11 pontos), estavam disponíveis no armazém da Televisa mexicana. Por isso elas vieram primeiro e estrearam na frente. Se fosse obedecida a cronologia concebida pela inteligência opaca de Stoliar (que só está no SBT porque é parente do dono), as crianças que hoje se divertem com Carrossel continuariam no sereno.

Atingida no centro nevrálgico de sua programação, a Globo armou um contra-ataque profissional. No domingo dia 2, Gilberto Braga reuniu-se com Leonor Brassères e Angela Carneiro, que o auxiliam a escrever a novela, e deu uma garibada em dez capítulos numa só tacada. Outras mudanças serão feitas a curto prazo. Em suas linhas gerais, como o conflito da moça de subúrbio com o cirurgião plástico rico, bem-sucedido e inescrupuloso, O Dono do Mundo fica como está. O que muda é o tom. A viúva Márcia, que até há pouco levava sua vida numa boa, irá passar por uma jornada de sofrimentos cruéis, que terá início com sua expulsão de casa. "Quando a heroína é mal compreendida, tem que sofrer para purgar seu crime e ser aceita pela sociedade", diz Fernanda Montenegro, que faz a cafetina de luxo chamada Olga.

Já no sábado o público poderá ter uma idéia do que vem por aí. Lá pelas tantas, Márcia comparece ao -consultório de Felipe. Conforme o texto original, os dois discutiam e Márcia ia embora, desiludida, em "estado catatônico". Agora, ela apanha um bisturi sobre a mesa e dá uma antológica navalhada no rosto de Felipe. "O corte é superficial, mas neste final de capítulo deve haver o máximo de sangue possível", recomenda Gilberto Braga no script enviado à produção da Globo. Ou seja, a professora Márcia se transformará num monstro vingativo e depois comerá o pão que o diabo amassou. Décadas depois de aposentar a cubana Glória Magadan, pioneira de suas novelas da década de 60, e informar ao público que resolvera modernizar sua dramaturgia criando o que se chamou de "novela brasileira", a palavra de ordem é mexicanizar. Os mexicanos de verdade, que estão no SBT, são crianças que fazem maldades, choram, brincam e riem. Os mexicanos da Globo são adultos que bebem até alta madrugada e querem sangue.

ESTAFA - No início da semana passada, o diretor de O Dono do Mundo, Denis Carvalho, telefonou aos atores para informá-los das mudanças. Sua instrução foi que ficassem de sobreaviso e, de imediato, parassem de decorar os capítulos de 25 a trinta, pois seria perda de tempo. Os novos capítulos só foram distribuídos na quarta-feira, obrigando o elenco a um esforço incomum para decorá-los antes da gravação. Em algumas ocasiões, foram gravadas 36 cenas num único dia - mais que o dobro da produção normal. Na manhã de quinta-feira, Antonio Grassi, o garçom Darci da novela, que vai expulsar a Márcia de casa, precisou levar o script para a capela do cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, onde estava sendo velado o amigo Chiquinho Brandão, ator da minissérie O Sorriso do Lagarto, que dias antes morrera num acidente de automóvel. "Com a mudança de todos os scripts, tivemos que levar os papéis para o velório para terminar de ler as falas. Ainda assim, Dênis Carvalho deixou os atores entrarem no estúdio com scripts para colar suas falas", diz Grassi.

Nessa fase atual, Malu Mader tem sofrido mais que mocinha americana raptada por bandidos mexicanos. Mal consegue dormir. Sua estafa é tamanha que na quinta-feira foi obrigada a gravar a mesma cena em cinco oportunidades. "Tenho que decorar 26 páginas de um dia para o outro", diz Malu. "O ritmo de gravações se intensificou e eu não paro de correr." Esse esforço da Globo em promover uma reforma geral na novela é uma tradição em toda emissora que luta desesperadamente para recuperar pontos no ibope. Mas a outra tradição é que essas operações quase nunca dão certo. Às voltas com o erotismo ecológico de Pantanal, a Globo chegou a mostrar os seios de Cláudia Raia em Rainha da Sucata - o sucesso, mais que merecido, só durou uma noite. O próprio SBT já viveu uma experiência semelhante com Brasileiras e Brasileiros. Dizia-se que uma novela em que heróis e vilões integravam um mesmo bando de descamisados; não seria capaz de chamar a atenção de ninguém e estava mesmo destinada ao fracasso. Improvisaram-se: os milionários de plantão em escritórios luxuosos e mansões cheias de novidades eletrônicas. Com sua opção exclusiva pelos pobres, Brasileiras e Brasileiros chegou a ter 8 pontos no ibope. Com os milionários, acabou em 5. Em 1967, no exemplo mais radical de recauchutagem das novelas brasileiras, a falecida Janete Clair promoveu um terremoto que provocou a morte de 35 dos quarenta personagens da novela Anastácia. O maior resultado prático foi a economia com os cenários e cachês de atores e os figurantes dispensados do serviço.

Há um dado crucial no esforço da Globo para construir um dique em tomo da audiência de Carrossel. No passado, havia uma guerra de novelas. Agora, é uma concorrência entre produtos de natureza distinta, como a novela Carrossel e o noticiário do Jornal Nacional. É um fato estabelecido nas televisões do mundo inteiro os programas de entretenimento sempre batem os de telejornalismo, a não ser em situações excepcionais, como a guerra do Golfo. Temendo uma carnificina que mandasse todos os telejornais para o abatedouro, há vários anos que as três grandes redes americanas selaram um acordo de cavalheiros pelo qual sempre exibem seus noticiosos noturnos no mesmo horário. Há três anos, Silvio Santos tentou trazer para o Brasil a experiência americana de unificação dos horários dos telejornais. Ele lançou a proposta em seu programa dominical, mas não conseguiu nenhuma adesão das outras emissoras. Não fazia sentido, para a Globo, aceitar a proposta de Silvio Santos. Isso porque no Brasil o jornalismo também perde para o entretenimento, mas há uma diferença: implantados em horários estratégicos, sem ter à sua frente concorrentes com equipamento e patrimônio para realizar investimentos à altura, a Globo mantém três programas jornalísticos que estão entre as cinco maiores audiências da rede - o Jornal Nacional, o São Paulo Já e o Globo Repórter. Há seis anos, Silvio Santos fez um primeiro ataque na estratégia entretenimento contra jornalismo. Lançou o programa Chaves, também mexicano e infantil, para competir com os telejornais regionais da Globo. A experiência deu relativamente certo e hoje Chaves faz em média 9 pontos de audiência. Outra emissora, a Record, também promove um investimento semelhante, exibindo o seriado Os Três Patetas no horário do Jornal Nacional.

Junto com Carrossel, o SBT tem outro motivo de alegria, o programa Aqui Agora, que supera a marca dos 15 pontos a partir das 6 e meia da tarde. Para a Globo, a escalada do SBT ocorre num período particularmente delicado. Na semana passada, uma circular percorreu todos os andares da emissora proibindo viagens internacionais, qualquer compra de material e até horas extras. Tais medidas têm sua razão de ser. Como ocorreu com a imensa maioria das empresas brasileiras, a recessão econômica fez um belo estrago no faturamento da emissora, que fechou o balanço dos primeiros cinco meses de 1991 com um prejuízo estimado em 20 milhões de dólares.

Toda vez que uma emissora consegue emplacar um programa de sucesso, começa a circular a teoria de que o país estaria vivendo a aurora de uma nova fase televisiva, na qual se assistiria ao fim do império da Globo, capaz de se banquetear com as fatias mais gordas da audiência e deixando apenas migalhas para seus concorrentes. Seria a famosa pluralização da TV no Brasil. Que a perspectiva real é que um dia a Globo não terá mais uma audiência massacrantemente majoritária é um fato admitido com tranqüilidade pela própria família Marinho. Há cinco anos os diretores da rede fizeram uma bateria de reuniões para debater o assunto e concluíram que o conforto no Ibope não era eterno. Elaborou-se ali mesmo uma estratégia para enfrentar a nova situação, optando-se pela diversificação dos negócios do grupo. Também se decidiu que a Globo não iria acomodar-se à ascensão de concorrentes, mas mobilizaria os imensos recursos de que dispõe para conservar a faixa de campeã de audiência onde fosse possível. O azar dos concorrentes da Globo é que essa situação não chegou, ainda que se tenham dado passos nesse sentido.

DECLÍNIO HISTÓRICO - A Globo já teve novelas com audiência média na faixa de 70% nos anos 70, de 60% na década de 80, entrou em 1991 com os 50% de Meu Bem, Meu Mal e agora convive com os 41% de O Dono do Mundo. O Jornal Nacional, por sua vez, chegou a manter uma média espetacular de 70% em 1983 caiu - 64% no ano seguinte e agora foi surpreendido pelos meninos de Carrossel na casa dos 40%. Outra novidade é que, se no passado sempre apareciam concorrentes capazes de consumar um sucesso espasmódico, esses espasmos vêm se tomando mais freqüentes. Houve Pantanal em 1990, há Carrossel em 1991. Existe um declínio histórico na audiência da Globo, e pode-se mesmo apostar que essa tendência irá se acentuar com a instalação de novas tecnologias, como os canais por assinatura, em UHF ou a cabo, que no mundo inteiro tiveram o efeito de pulverizar as platéias.

A Globo é uma máquina cara, que investe muito mais que seus rivais, e necessita de um retorno bem maior. Cada capítulo de O Dono do Mundo, por exemplo, custa 30 000 dólares em média, ou três vezes mais que os de Carrossel. Mesmo as grandes emissoras dos países desenvolvidos preferem funcionar como uma espécie de supermercados de atrações, que adquirem seriados, filmes e novelas de produtoras independentes, pagando suas contas com a publicidade. A Globo só não produz os filmes que exibe - e mais de 80% de sua programação sai de seus estúdios, um caso raríssimo no mundo. Para tranqüilidade da Globo, a mesma recessão que está lhe dando prejuízos neste ano pegou suas concorrentes numa situação muito pior. Sem recursos financeiros de porte, não há como Manchete, Bandeirantes e SBT montarem uma programação inteira capaz de enfrentar seriamente a Globo. Elas podem acertar com Pantanal ou Carrossel, mas fazer programas de sucesso da manhã até a madrugada, todos os dias, requer dinheiro, talento e experiência. Requer tudo aquilo que a Globo tem.

 
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