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Televisão
Carrossel mexicano
Uma novela para crianças
do SBT
dispara na audiência, invade o
público do Jornal Nacional e obriga
a Globo a reformar O Dono do Mundo
Eles estão na faixa
dos 6 aos 8 anos de idade e têm nomes como Cirilo, Maria
Joaquina e David. Alguns são loiros, mas a maioria
tem a pele morena e os olhos de índio. Usam uniformes
sóbrios e têm dificuldades na escola, com os
amigos ou em casa. Sua professora, Helena, usa vestidos abaixo
do joelho, decote fechado até o pescoço e lembra-se
de passagens da Bíblia para transmitir ensinamentos
à garotada. Essas são as estrelas de Carrossel,
a novela mexicana que o SBT exibe diariamente às 8
da noite. Carrossel mostra tudo aquilo que se costuma
considerar pobre, atrasado e brega na televisão brasileira:
o cenário é rústico, os diálogos
são declamados e os personagens, esquernáticos.
Não se vêem mulheres de sensualidade deslumbrante,
carros último tipo, cenas de violência, nudez,
erotismo ou palavrões. Para piorar as coisas, a dublagem
é péssima. Quinze dias depois de sua estréia,
Carrossel produziu a mais espetacular reviravolta da
televisão brasileira dos últimos anos, uma virada
mais profunda que a de Pantanal.
A
turma mexicana vai ao ar às 8 da noite, quando a Rede
Globo exibe o Jornal Nacional, programa de maior audiência
do país e espinha dorsal de sua milionária programação
no horário nobre. Antes de Carrossel estrear,
há três semanas, o SBT tinha 6% da audiência
no horário, contra 54% para o Jornal Nacional.
Agora, a platéia do SBT atingiu a faixa dos 21 pontos,
enquanto a do concorrente caiu para 41. Mais tarde, na Globo,
Cid Moreira se despede dos espectadores e o noticiário
do dia dá lugar ao romance entre Malu Mader e Antônio
Fagundes na novela O Dono do Mundo. Escrita por Gilberto Braga,
considerado o mais competente novelista brasileiro da atualidade,
O Dono do Mundo é um luxo só. A produção
tem pretensões cinematográficas, os diálogos
são em ritmo acelerado e o elenco é de primeira.
Não faltam banquetes de milionários, casais
adúlteros, frufru de lençóis, moças
de vida incerta, diálogos picantes, tipos engraçados
e galãs para diversas faixas etárias. Conversas
em tom psicanalítico sobre os traumas dos personagens
também são freqüentes, assim como críticas
sutis à realidade social do país. Tudo inútil.
A
novela anterior da Globo, Meu Bem Meu Mal, que em seu tempo
foi considerada um desastre, se encerrou com 56 pontos no
Ibope. O Dono do Mundo estreou na mesma noite que Carrossel
e sua audiência está parada nos 11. No mesmo
horário, a professora Helena e seus alunos já
chegaram a 21 pontos. É verdade que, com seus 21 pontos
contra 41 do concorrente, a turma mexicana do SBT dispõe
de pouco mais da metade dos cerca de 40 milhões de
telespectadores da Globo e, até agora, não alcançou
sequer os 40% que a Manchete conseguiu no ano passado com
Pantanal. Mas também é verdade que pela primeira
vez uma emissora concorrente conseguiu cravar uma estaca no
coração da Globo, em que o Jornal Nacional é
uma espécie de alavanca que recolhe uma audiência
mais modesta na novela das 7, engorda-a ao longo de suas reportagens
e assegura uma boa musculatura para a atração
seguinte, a novela das 8. A Manchete já teve mais audiência
que a Globo com Pantanal, mas nunca num confronto com os carros-chefes
da programação global.
TENDÊNCIA
- Pode-se aguardar pelos 180 capítulos de O Dono do Mundo e pelos 200 de Carrossel para adivinhar o que
irá acontecer daqui para a frente, mas agora a astrologia
da audiência favorece o SBT. "Quando se trata de
uma programação contínua, como uma novela,
dificilmente se inverte a tendência inicial observada
nas pesquisas", afirma Carlos Augusto Montenegro, diretor-executivo
do Ibope. "A Globo vai reagir, mas mesmo assim a perspectiva
de Carrossel é subir ainda mais", afirma
Rubens Furtado, superintendente-geral da Rede Bandeirantes.
Contra Pantanal, a Globo colocou filmes milionários,
nudez e mexeu nos horários de sua programação.
Contra Carrossel, não pode trocar Cid Moreira
e Sérgio Chapelin por Xuxa e Simone, nem exibir ...
E o Vento Levou no lugar do Jornal Nacional. No máximo,
pode mudar O Dono do Mundo. E é o que está fazendo,
num ritmo frenético, desde a semana passada. Todos
os dias a Globo conta com os adultos com ar debilóide
da Escolinha do Professor Raimundo para massacrar os concorrentes
no fim da tarde. Agora, tem as crianças mexicanas da
Escuela Mundial da professora Helena nos seus calcanhares.
Escrita por um novelista chamado Abel Santa Cruz, que há
anos mudou-se do México para a Argentina, Carrossel
é um desses fenômenos que a televisão
só consegue produzir de tempos em tempos. E, basicamente,
um programa que traz aquilo que o espectador mais procura
quando liga sua televisão: entretenimento, numa feliz
combinação de novidades com discussão
de questões que seu público-alvo enfrenta no
cotidiano. Por exemplo:
Num horário dominado por atrações oferecidas
aos adultos, Carrossel é uma novela para crianças,
interpretada por crianças. Os institutos de pesquisa
confirmam aquilo que qualquer pai e mãe de família
já puderam constatar por experiência própria.
No horário das 8, são os filhos que têm
o direito de brigar, gritar, xingar e espernear para assistir
ao programa de sua preferência. O pai, que passou o
dia no trabalho, não vai criar caso com a filha porque
quer ver no Jornal Nacional a quantas anda a apuração
da bilionésima fraude da Previdência, ou qual
o jeito que Alexandre Garcia encontrará para elogiar
pela trilionésima vez o governo Collor.
Carrossel é um programa infantil mesmo. Os diálogos
vão direto ao ponto, o caráter de cada personagem
é definido assim que ele aparece em cena pela primeira
vez. Bom é bom, mau é mau.
É uma novela ágil. Não há uma
trama central que se arrasta durante meses até que
o mocinho fique com a mocinha (ou vice-versa), mas urna seqüência
de problemas da vida cotidiana que são solucionados
em poucos capítulos. Na versão original, apresentava-se
e resolvia-se um pequeno drama a cada dois capítulos.
Na versão exibida pelo SBT, em que se somam dois capítulos
a cada noite, assiste-se ao começo, ao meio e ao fim
de um problema na mesma hora.
Carrossel fala de problemas do dia-a-dia do público:
do menino que não fez a lição de casa,
do pai que não tem dinheiro para comprar uma bola de
futebol para o filho, da menina que tem dificuldade em se
enturmar na classe, do garoto frágil espezinhado pelo
grandalhão na hora do recreio.
A novela é destinada ao público mirim, mas como
todo adulto já teve uma experiência escolar ele
pode se identificar com as situações mostradas
em Carrossel. Chico Anysio já explicou o sucesso
de sua Escolinha junto aos adultos com esse argumento. Escola
é um filão rico nas artes. Ele está presente
tanto no romance O Ateneu, de Raul Pompéia,
como nas histórias em quadrinhos de Charlie Brown e
em filmes como Ao Mestre com Carinho (alguém
ainda lembra de Sidney Poitier no papel de professor?) e Sociedade
dos Poetas Mortos.
Carrossel,
por tudo isso, conquistou um naco do público, apesar
dos seus defeitos de dublagem. O fato de se passar no México
não chega a ser um empecilho, e pode até estar
funcionando como um atrativo. Se o público brasileiro
é capaz de se encantar com personagens de filmes americanos,
também pode se enternecer com os mexicanos do SBT -
aliás, porque o México é muito mais parecido
com o Brasil do que os Estados Unidos. É possível
portanto acompanhar Carrossel com interesse quando a professora
Helena, interpretada por Gabriela. Rivero, resolve consolar
um menino em dificuldades. Um dos dramas da novela é
o amor não correspondido do pequeno Cirilo, negro e
pobre, pela malvada Maria Joaquina, loira e rica. Num determinado
momento, Cirilo se aproxima da menina para lhe dar flores
de presente. Ela rejeita e diz com todas as letras: "Vá
se meter com os de sua cor". Em outra passagem, Maria
Joaquina diz que os negros são como macacos e vivem
"cheios de pulgas". Sem saber o que fazer, Cirilo
vai reclamar com a professora. "Sou rejeitado porque
o pai dela é médico e o meu é carpinteiro",
diz Cirilo. A compreensiva Helena dá um sorriso meigo
e responde: "Você sabia que o pai do Menino Jesus
também era carpinteiro?"
SEM
PALAVRAS LEVES - O cotidiano dos personagens de Carrossel
não tem angústias existenciais nem ginásticas
psicológicas, mas é composto de problemas palpáveis.
Um aluno, David, passou uma jornada dolorosa, às voltas
com a doença da avó, que acabou se recuperando.
"Na vida não há dor que não passe
e nem alegria que não termine", afirma. Outra
menina, Marcela, tem uma dificuldade em casa. Seus pais resolveram
se separar. Em Carrossel, não se fala do divórcio
com as palavras leves dos adultos das novelas da Globo, que
se julgam preparados para enfrentar a experiência de
um casamento desfeito, mas com a crueza das crianças
que têm muita dificuldade para entender o que se passa.
Para professores e alunos da Escuela Mundial, o divórcio
não é uma contingência da vida - é
desgraça. Outro menino, Jaime, é maltratado
pelo pai, que o considera "muito burro". Na escola,
no entanto, Jaime é um exemplo de solidariedade, sempre
disposto a ajudar os amigos que têm algum problema.
O tom geral de Carrossel é austero. Existem
adultos bondosos, como o bedel Firmino, e adultos autoritários,
como dona Oliva, a diretora da Escuela Mundial. Não
existem, no entanto, adultos problemáticos, daqueles
que não sabem por que vieram ao mundo.
Produzida
entre 1988 e 1990 nos estúdios da Televisa mexicana,
um dos gigantes da indústria de televisão no
mundo inteiro, com uma fábrica de novelas e programas
mais produtiva que a da Globo, Carrossel é um sucesso
latino-americano que muitas pessoas imaginam que só
pode acontecer com produtos globais. Foi vendida para duas
dezenas de países e depois de explodir na América
Latina inteira chegou à Turquia, à China e ao
Japão. No Brasil, em apenas quinze dias já se
transformou numa mania entre meninos de 7 a 10 anos. Normalmente,
os programas bem-sucedidos do SBT recolhem a maior quantidade
de matéria-prima para sua audiência junto às
chamadas classes C e D, que habitam as fatias menos remuneradas
da população. Em se tratando de Carrossel, existem
motivos para se acreditar que a escolinha da professora Helena
também faz sucesso junto a crianças de outras
camadas.
No
Externato Aldeia, freqüentado por alunos de classe média
de São Paulo, a novela é campeã de preferência.
"Temos uma atividade em que os alunos contam as novidades
que lhes dizem respeito", diz a pedagoga Heloisa Reuter.
"Sempre se falava de uma ida ao dentista ou a um passeio.
Pois agora só se discute Carrossel. As crianças
contam os capítulos e até fazem desenhos dos
personagens." No Helena Lubienska, no Recife, a novela
também agrada. "Carrossel é boa porque
nela a gente vê tudo o que pode acontecer", afirma
Rafaela Costa Campos, 9 anos, aluna da 30 série do
Lubienska. "Até a tristeza de menina cujos pais
se separaram apareceu num capítulo", acrescenta
a garota, referindo-se ao drama de Marcela. "Mesmo que
Carrossel seja um dramalhão, e é mesmo, é
nessa novela que as crianças estão identificando
valores como respeito, amor, companheirismo, coisas que a
humanidade não encontra freqüentemente no seu
dia-a-dia nem na TV', afirma Maria Antonieta Cavalcanti, coordenadora
pedagógica do Helena Lubienska. "Logo no primeiro
dia, em casa, começou a briga. Nós queríamos
ver o jornal e nossa filha queria ver Carrossel, conta Maria
Elizabeth Leite Soares, coordenadora do 1º grau do Colégio
Oswald de Andrade, de São Paulo, mãe de uma
menina de 6 anos. "Depois, pensamos: temos outras opções
de telejornal, e ela só pode contar com essa novela
infantil. Conclusão: não estamos mais vendo
o Jornal Nacional. Agir de outra forma seria egoísmo".
O
sucesso de Carrossel já rendeu muitas especulações
sociológicas e trouxe a público diversas famílias
de piruetas mentais. Condena-se a novela por ser um dramalhão
mexicano de baixo nível, cheio de situações
piegas, demagógicas e inverossímeis. Pode ser.
Mas em matéria de verossimilhança é difícil
encontrar uma professora tão inacreditável quanto
a virgem Márcia (Malu Mader) de O Dono do Mundo. Em
matéria de demagogia, conhecem-se poucos exemplos como
o do personagem Beija Flor (Angelo Antônio), que já
disse no ar que até poderia virar um assaltante porque
o salário mínimo "está baixo".
E, em matéria de verossimilhança, é difícil
acreditar na rapidez com que Felipe (Antônio Fagundes)
consegue embarcar para o Canadá em companhia da noiva
de um funcionário que mal conhece e levá-la
para a cama antes do marido.
O
debate é estéril e preconceituoso. Estéril
porque é impossível descobrir a fórmula
do sucesso. Se a pobreza digna de Carrossel, em contraponto
com a riqueza de O Dono do Mundo, fosse a chave da explicação
do sucesso, os bons índices teriam batido mais cedo
à porta do SBT. Há menos de um mês a rede
de Silvio Santos exibia a novela Brasileiras e Brasileiros,
drama da estirpe realista-socialista, com heróis e
bandidos pobres, dirigida pelo competente Walter Avancini.
A novela de Avancini naufragou e foi motivo de chacotas na
Globo. O debate é preconceituoso, também, em
dois sentidos. Primeiro porque se considera o dramalhão
mexicano o ápice da apelação de mau gosto
- como se o Brasil também não fosse um país
do Terceiro Mundo e a televisão brasileira só
levasse ao ar novelas escritas por Shakespeare, Marcel Proust
e Machado de Assis. Em segundo lugar porque sempre que alguma
emissora consegue pontos a mais de audiência há
uma enorme torcida em setores da imprensa e nos meios supostamente
intelectuais para que o ibope da Globo deslize para as profundezas
do inferno - como se a Globo não apresentasse boa parte
dos melhores programas da televisão brasileira.
CONTRA-ATAQUE
- "Entre assistir às novelas da Globo, que exploram
cenas de sexo, algumas constrangedoras, e Carrossel,
admitamos que a segunda opção é um mal
menor", afirma Silvio Santos. O ibope da novela das crianças
é fruto da inspirada visão de Silvio Santos
para assuntos televisivos. Dias antes de levá-la ao
ar, o empresário aceitava apostas de 100 000 dólares
contra quem duvidasse que a média da audiência
da novela passaria da marca dos 10 pontos. Silvio Santos resolveu
pagar 10 000 dólares para cada capítulo de Carrossel
logo depois de assistir à novela numa viagem aos Estados
Unidos. O SBT também contou com um lance de sorte em
sua investida. Carrossel foi adquirida num pacote com
outras três novelas. Pelos planos iniciais de Guilherme
Stoliar, um dos executivos do SBT, Carrossel não
era a grande atração a ser levada ao ar imediatamente.
A prioridade deveria ser dada a outras produções.
Acontece que apenas Carrossel e a novela que vai ao
ar logo em seguida, Rosa Selvagem (que tem premiado o SBT
com um ibope na faixa dos 11 pontos), estavam disponíveis
no armazém da Televisa mexicana. Por isso elas vieram
primeiro e estrearam na frente. Se fosse obedecida a cronologia
concebida pela inteligência opaca de Stoliar (que só
está no SBT porque é parente do dono), as crianças
que hoje se divertem com Carrossel continuariam no
sereno.
Atingida
no centro nevrálgico de sua programação,
a Globo armou um contra-ataque profissional. No domingo dia
2, Gilberto Braga reuniu-se com Leonor Brassères e
Angela Carneiro, que o auxiliam a escrever a novela, e deu
uma garibada em dez capítulos numa só tacada.
Outras mudanças serão feitas a curto prazo.
Em suas linhas gerais, como o conflito da moça de subúrbio
com o cirurgião plástico rico, bem-sucedido
e inescrupuloso, O Dono do Mundo fica como está. O
que muda é o tom. A viúva Márcia, que
até há pouco levava sua vida numa boa, irá
passar por uma jornada de sofrimentos cruéis, que terá
início com sua expulsão de casa. "Quando
a heroína é mal compreendida, tem que sofrer
para purgar seu crime e ser aceita pela sociedade", diz
Fernanda Montenegro, que faz a cafetina de luxo chamada Olga.
Já
no sábado o público poderá ter uma idéia
do que vem por aí. Lá pelas tantas, Márcia
comparece ao -consultório de Felipe. Conforme o texto
original, os dois discutiam e Márcia ia embora, desiludida,
em "estado catatônico". Agora, ela apanha
um bisturi sobre a mesa e dá uma antológica
navalhada no rosto de Felipe. "O corte é superficial,
mas neste final de capítulo deve haver o máximo
de sangue possível", recomenda Gilberto Braga
no script enviado à produção da Globo.
Ou seja, a professora Márcia se transformará
num monstro vingativo e depois comerá o pão
que o diabo amassou. Décadas depois de aposentar a
cubana Glória Magadan, pioneira de suas novelas da
década de 60, e informar ao público que resolvera
modernizar sua dramaturgia criando o que se chamou de "novela
brasileira", a palavra de ordem é mexicanizar.
Os mexicanos de verdade, que estão no SBT, são
crianças que fazem maldades, choram, brincam e riem.
Os mexicanos da Globo são adultos que bebem até
alta madrugada e querem sangue.
ESTAFA
- No início da semana passada, o diretor de O Dono do Mundo, Denis Carvalho, telefonou aos atores para informá-los
das mudanças. Sua instrução foi que ficassem
de sobreaviso e, de imediato, parassem de decorar os capítulos
de 25 a trinta, pois seria perda de tempo. Os novos capítulos
só foram distribuídos na quarta-feira, obrigando
o elenco a um esforço incomum para decorá-los
antes da gravação. Em algumas ocasiões,
foram gravadas 36 cenas num único dia - mais que o
dobro da produção normal. Na manhã de
quinta-feira, Antonio Grassi, o garçom Darci da novela,
que vai expulsar a Márcia de casa, precisou levar o
script para a capela do cemitério São João
Batista, no Rio de Janeiro, onde estava sendo velado o amigo
Chiquinho Brandão, ator da minissérie O Sorriso do Lagarto, que dias antes morrera num acidente de automóvel.
"Com a mudança de todos os scripts, tivemos que
levar os papéis para o velório para terminar
de ler as falas. Ainda assim, Dênis Carvalho deixou
os atores entrarem no estúdio com scripts para colar
suas falas", diz Grassi.
Nessa
fase atual, Malu Mader tem sofrido mais que mocinha americana
raptada por bandidos mexicanos. Mal consegue dormir. Sua estafa
é tamanha que na quinta-feira foi obrigada a gravar
a mesma cena em cinco oportunidades. "Tenho que decorar
26 páginas de um dia para o outro", diz Malu.
"O ritmo de gravações se intensificou e
eu não paro de correr." Esse esforço da
Globo em promover uma reforma geral na novela é uma
tradição em toda emissora que luta desesperadamente
para recuperar pontos no ibope. Mas a outra tradição
é que essas operações quase nunca dão
certo. Às voltas com o erotismo ecológico de
Pantanal, a Globo chegou a mostrar os seios de Cláudia
Raia em Rainha da Sucata - o sucesso, mais que merecido, só
durou uma noite. O próprio SBT já viveu uma
experiência semelhante com Brasileiras e Brasileiros.
Dizia-se que uma novela em que heróis e vilões
integravam um mesmo bando de descamisados; não seria
capaz de chamar a atenção de ninguém
e estava mesmo destinada ao fracasso. Improvisaram-se: os
milionários de plantão em escritórios
luxuosos e mansões cheias de novidades eletrônicas.
Com sua opção exclusiva pelos pobres, Brasileiras e Brasileiros chegou a ter 8 pontos no ibope. Com os milionários,
acabou em 5. Em 1967, no exemplo mais radical de recauchutagem
das novelas brasileiras, a falecida Janete Clair promoveu
um terremoto que provocou a morte de 35 dos quarenta personagens
da novela Anastácia. O maior resultado prático
foi a economia com os cenários e cachês de atores
e os figurantes dispensados do serviço.
Há
um dado crucial no esforço da Globo para construir
um dique em tomo da audiência de Carrossel. No passado,
havia uma guerra de novelas. Agora, é uma concorrência
entre produtos de natureza distinta, como a novela Carrossel
e o noticiário do Jornal Nacional. É um fato
estabelecido nas televisões do mundo inteiro os programas
de entretenimento sempre batem os de telejornalismo, a não
ser em situações excepcionais, como a guerra
do Golfo. Temendo uma carnificina que mandasse todos os telejornais
para o abatedouro, há vários anos que as três
grandes redes americanas selaram um acordo de cavalheiros
pelo qual sempre exibem seus noticiosos noturnos no mesmo
horário. Há três anos, Silvio Santos tentou
trazer para o Brasil a experiência americana de unificação
dos horários dos telejornais. Ele lançou a proposta
em seu programa dominical, mas não conseguiu nenhuma
adesão das outras emissoras. Não fazia sentido,
para a Globo, aceitar a proposta de Silvio Santos. Isso porque
no Brasil o jornalismo também perde para o entretenimento,
mas há uma diferença: implantados em horários
estratégicos, sem ter à sua frente concorrentes
com equipamento e patrimônio para realizar investimentos
à altura, a Globo mantém três programas
jornalísticos que estão entre as cinco maiores
audiências da rede - o Jornal Nacional, o São Paulo Já e o Globo Repórter. Há seis
anos, Silvio Santos fez um primeiro ataque na estratégia
entretenimento contra jornalismo. Lançou o programa
Chaves, também mexicano e infantil, para competir com
os telejornais regionais da Globo. A experiência deu
relativamente certo e hoje Chaves faz em média 9 pontos
de audiência. Outra emissora, a Record, também
promove um investimento semelhante, exibindo o seriado Os
Três Patetas no horário do Jornal Nacional.
Junto
com Carrossel, o SBT tem outro motivo de alegria, o programa
Aqui Agora, que supera a marca dos 15 pontos a partir das
6 e meia da tarde. Para a Globo, a escalada do SBT ocorre
num período particularmente delicado. Na semana passada,
uma circular percorreu todos os andares da emissora proibindo
viagens internacionais, qualquer compra de material e até
horas extras. Tais medidas têm sua razão de ser.
Como ocorreu com a imensa maioria das empresas brasileiras,
a recessão econômica fez um belo estrago no faturamento
da emissora, que fechou o balanço dos primeiros cinco
meses de 1991 com um prejuízo estimado em 20 milhões
de dólares.
Toda
vez que uma emissora consegue emplacar um programa de sucesso,
começa a circular a teoria de que o país estaria
vivendo a aurora de uma nova fase televisiva, na qual se assistiria
ao fim do império da Globo, capaz de se banquetear
com as fatias mais gordas da audiência e deixando apenas
migalhas para seus concorrentes. Seria a famosa pluralização
da TV no Brasil. Que a perspectiva real é que um dia
a Globo não terá mais uma audiência massacrantemente
majoritária é um fato admitido com tranqüilidade
pela própria família Marinho. Há cinco
anos os diretores da rede fizeram uma bateria de reuniões
para debater o assunto e concluíram que o conforto
no Ibope não era eterno. Elaborou-se ali mesmo uma
estratégia para enfrentar a nova situação,
optando-se pela diversificação dos negócios
do grupo. Também se decidiu que a Globo não
iria acomodar-se à ascensão de concorrentes,
mas mobilizaria os imensos recursos de que dispõe para
conservar a faixa de campeã de audiência onde
fosse possível. O azar dos concorrentes da Globo é
que essa situação não chegou, ainda que
se tenham dado passos nesse sentido.
DECLÍNIO
HISTÓRICO - A Globo já teve novelas com
audiência média na faixa de 70% nos anos 70,
de 60% na década de 80, entrou em 1991 com os 50% de
Meu Bem, Meu Mal e agora convive com os 41% de O Dono do Mundo.
O Jornal Nacional, por sua vez, chegou a manter uma
média espetacular de 70% em 1983 caiu - 64% no ano
seguinte e agora foi surpreendido pelos meninos de Carrossel
na casa dos 40%. Outra novidade é que, se no passado
sempre apareciam concorrentes capazes de consumar um sucesso
espasmódico, esses espasmos vêm se tomando mais
freqüentes. Houve Pantanal em 1990, há
Carrossel em 1991. Existe um declínio histórico
na audiência da Globo, e pode-se mesmo apostar que essa
tendência irá se acentuar com a instalação
de novas tecnologias, como os canais por assinatura, em UHF
ou a cabo, que no mundo inteiro tiveram o efeito de pulverizar
as platéias.
A
Globo é uma máquina cara, que investe muito
mais que seus rivais, e necessita de um retorno bem maior.
Cada capítulo de O Dono do Mundo, por exemplo, custa
30 000 dólares em média, ou três vezes
mais que os de Carrossel. Mesmo as grandes emissoras dos países
desenvolvidos preferem funcionar como uma espécie de
supermercados de atrações, que adquirem seriados,
filmes e novelas de produtoras independentes, pagando suas
contas com a publicidade. A Globo só não produz
os filmes que exibe - e mais de 80% de sua programação
sai de seus estúdios, um caso raríssimo no mundo.
Para tranqüilidade da Globo, a mesma recessão
que está lhe dando prejuízos neste ano pegou
suas concorrentes numa situação muito pior.
Sem recursos financeiros de porte, não há como
Manchete, Bandeirantes e SBT montarem uma programação
inteira capaz de enfrentar seriamente a Globo. Elas podem
acertar com Pantanal ou Carrossel, mas fazer programas de
sucesso da manhã até a madrugada, todos os dias,
requer dinheiro, talento e experiência. Requer tudo
aquilo que a Globo tem.
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