Arquivo VEJA
10 de setembro de 1975
 
 

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A grande mania nacional

Histórias da telenovela, que em
dez anos fez do Brasil a terra
prometida das emoções em capítulos

No fundo, bem no fundo do coração de cada um dos 45 milhões de brasileiros que podem assistir televisão, palpitam ansiedade e esperança quando as noites começam. Em Oliveira, quieta cidade mineira de 40.000 habitantes, a duas horas de Belo Horizonte, o vento gelado da terça-feira passada esbarrava numa platéia silenciosa plantada em pé na praça da Matriz. Cercados de rosas e margaridas, bem em frente à igreja, eles mantinham os olhos fixos numa coluna de 5 metros de altura,- feita de cimento, ferro e acrílico, em cujo topo brilhava um aparelho de televisão de 24 polegadas, emitindo radiações coloridas e sonoras: era mais um pedaço da história de um cidadão de educado sotaque, o "Meu Rico Português".

Naquela mesma noite havia maré alta em Guaraqueçaba, cidadezinha paranaense de 8 000 habitantes, a quatro horas de Curitiba, e o mar invadia os porões da casa do pescador Manoel Teóffio dos Anjos, assentada sobre alicerces bem altos. Nenhum motivo para se alterar a rotina diária: dentro da casa, o barulho da arrebentação se confundia com as duvidosas sinfonias que brotavam do aparelho estrategicamente colocado para que o pescador, sua mulher, sete filhos e alguns vizinhos contemplassem o talento de um maestro ameaçado por gente perversa, em "Bravo!".

Ritmo de delírio - Estas duas platéias não estavam, porém, sozinhas na sua devoção. E fizeram sacrifícios consideráveis para se dedicar a ela. Em Oliveira, um espectador varrido pela ventania, Euclides Alves, barbeiro aposentado de 58 anos, explicava as razões que o tiraram de casa: "Gosto de novelas porque gosto de aventuras. E aqui na praça eu tenho amigos para conversar e tomar minhas pingas". Em Guaraqueçaba, cidade que só possui dezoito aparelhos de televisão, o pescador Manoel. desabafava: "Eu não agüento mais. A filharada, a mulher e os vizinhos ficam reclamando comigo que a televisão tem uns chuviscos".

Por isso ele levou seu aparelho de barco a Paranaguá, distante quatro horas pela costa, para ouvir do técnico a explicação de que os chuviscos eram provocados "por defeito de antena". Tanto Manoel (dono do primeiro aparelho de Guaraqueçaba) quanto Euclides compraram, suas televisões em suaves prestações - na verdade, duros capítulo na vida dos moradores de um país que, menos de cinco anos atrás, se dividiam em grupos de treze para cada aparelho nas cidades e pequenas multidões de 354 para cada receptor na zona rural. Naquela época, 52% dos domicílios brasileiros sequer possuíam luz elétrica e 76% não tinham televisão.

De lá para cá, porém, as linhas desse enredo foram aceleradas num ritmo de delírio. Os 3,5 milhões de aparelhos de 1970 saltaram para os 10 milhões (segundo o Ministério das Comunicações) ou 12 milhões (segundo os fabricantes) em 1974. Crescendo à média de 10% ao ano, os 76% de domicílios sem receptores caíram para 53% no ano passado - quando 1 655 000 novos aparelhos foram vendidos. Daqui a mais cinco anos, segundo calcula a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o número total de televisores no Brasil subirá a 20 milhões e sobre tudo isso reina soberana a novela - fazendo histórias como as de Oliveira e Guaraqueçaba se multiplicarem a um ponto cujo desfecho nenhum roteirista, por mais imaginativo que seja, será capaz de prever.

Máquinas e cifrões - Porque a tendência, tanto na Rede Globo quanto na Rede Tupi, as únicas que produzem telenovelas, é investir cada vez mais no setor. Três anos atrás, a Globo gastava 42% de seu orçamento em telejornalismo e 30% em telenovelas; no ano passado, as telenovelas já consumiam 53% de tudo, prevendo-se em 1975 um gasto mensal de 3,2 milhões de cruzeiros em suas quatro produções.

A Globo tem aproximadamente 50 milhões de cruzeiros em equipamento em sua sede no bairro carioca do Jardim Botânico, no Rio, e entre eles estão quatro aparelhos de vídeo-teipe, catorze câmeras a cores e 32 em preto e branco. O chefe desse pequeno reino, René Proença, 42 anos, calcula que 40% da parafernália técnica são ocupados pelas telenovelas: para gravar e transmiti-las, a Globo aciona permanentemente, 24 horas por dia, uma equipe de mais de 300 técnicos, três caminhões para tomadas externas e um minicomputador capaz de descobrir o menor arranhão ou falta de sincronização que por acaso exista em algum trecho da fita magnética contendo os sons e as imagens que chegarão aos telespectadores.

A avidez da platéia - Na Tupi, os gastos mensais, também para um quarteto de telenovelas, são orçados em 2 milhões. E esse dinheiro não paga extravagâncias: cada uma das emissoras tem quatro estúdios para gravações internas e neles se trabalha numa rapidez que não raro beira os limites da resistência física dos participantes, mas, também, o orgulho de se ter chegado a um "ritmo de TV.

Esse "ritmo" fez com que o Brasil, desde os primeiros vagidos de "O Direito, de Nascer", o primeiro exemplar (1964), se transformasse no país das telenovelas. No ano passado, a Globo mandou para o ar 28 500 minutos de telenovelas, isto é, 475 horas ou vinte dias ininterruptos de enredos. Como a Tupi emite a mesma quantidade de produções, é possível supor que um espectador dotado de poderes extraordinários, capaz de acompanhar a toda elas, teria passado quarenta dias seguido diante de seu receptor só vendo telenovelas. E isso ainda parece pouco, justificando o empenho das emissoras: 30% dos espectadores entrevistados pela Globo gostariam que as telenovelas fossem transmitidas também aos domingos. E mais: 80% deles, se tivessem tempo, estariam dispostos a seguir duas telenovelas por dia e 60% gostariam de assistir a três.

O "ser televisivo" - Esses números provocaram alterações notáveis no comportamento nacional. Em Oliveira, enquanto o povo na praça contemplava o televisor 5 metros acima de suas cabeças, um dos cinemas locais, com capacidade para 1 000 espectadores, exibia "A Divina Ira", com Robert Mitchum para não mais que trinta pessoas. O expediente de atrasar horários das sessões cinematográficas, aulas e reuniões virou rotina. Além disso, como a televisão brasileira tornou-se capaz de atingir a quase totalidade do país (só o Amapá continua imune a ela), as preferências, os comportamentos e as ambições gerados no Rio e em São Paulo passaram a circular nas mais variadas platéias.

Ainda assim, as emissoras acreditam na existência de um "espectador típico". Para a Globo, por exemplo, segundo informa sua Divisão de Análise e Pesquisa, este "ser televisivo" (66% do total de entrevistados) é uma mulher. Ela tem mais de 30 anos e dois filhos, curso secundário incompleto, trabalha no comércio, mora nas periferias das grandes cidades e pertence às chamadas classes C e D.

A catástrofe invisível - A busca de personagens menos estatísticos, porém, leva a descobertas intrigantes - ou mesmo patéticas, como no Recife, inundado no mês de julho passado sem que uma parte da sua população, entretida nas telenovelas, se desse conta disso. "Na manhã do dia 18", conta o repórter Marco Cirano, de VEJA, "a estudante Clara Maria Feitosa, de 21 anos, aluna do terceiro ano de jornalismo, saiu de sua casa em Boa Viagem, bairro elegante da capital pernambucana, para sua aula de ginástica no centro da cidade. Na véspera, ela assistira a "Meu Rico Português", "Ovelha Negra" e "O Sheik de Ipanema", e foi dormir sem saber que 80% da cidade estava alagada pela enchente do rio Capibaribe. Tudo isso porque nem a Globo, nem a Tupi interromperam suas novelas para noticiar a catástrofe, que estava sendo transmitida apenas pela TV Jornal do Comércio, de baixíssima audiência na cidade."

Ainda no Recife, e também fora de qualquer perfil estatístico,- o cego José Martins de Andrade, de 40 anos, percorre as ruas tocando gaita e pedindo esmola. Nos últimos meses, mudou seu repertório de baiões para temas de telenovela, que ele ouve na televisão de um amigo e tenta, com dificuldade, reproduzir: "É o que me pedem para tocar". Na ponte da Boa Viagem, o camelô-mirim Israel José da Silva, de 13 anos, mesmo sem ver televisão conhece bem as personagens de "Gabriela", "Escalada" e "Ovelha Negra". Ele vende camisas com retratos dos artistas, apurando entre 150 a 200 cruzeiros por dia, num mercado que considera muito firme: "Camisa com escudo de time de futebol sai mais, mas só quando o campeonato está quente. Artista de TV vende o ano todo".

Os novos gaúchos - Muito longe dali, entre Dom Pedrito e Santana do Livramento, no extremo sul do país, o repórter André Pereira, de VEJA, atravessou os 3.000 hectares de soja do fazendeiro Walter Potter para localizar a quebra de uma das mais caras tradições gaúchas. Todos os dias, às 6 e meia da tarde, o próspero Potter, de 61 anos, entra em sua perua e vai embora, deixando o trabalho no campo por conta de quem o cultiva. Às 7 está em casa e só tem tempo para uma meteórica passagem pelo banheiro, onde troca a camisa xadrez, do campo, por uma lisa, de ir à cidade. Ainda veste as botas de couro marrom quando a empregada lhe serve o chimarrão e "Bravo!" começa a passar na TV. Ao lado da mulher, Érica, que faz crochê olhando para o vídeo, ele se sente no dever de dar alguma espécie de explicação pelo seu comportamento: "O que a gente pode fazer nessa campanha deserta à noite? Já passou o tempo em que o gaúcho era conhecido como um sujeito macho, de muita pinga e muita mulher. O progresso está aí. É burrice continuar vivendo como antigamente, só para dizer que é macho". Potter ainda cultiva o velho hábito de não dormir depois de 9 e meia da noite, mas talvez até isso esteja no fim. Sua mulher costuma vê-lo de pijama, depois das 10, rondando o aparelho em cores, onde Sônia Braga e Armando Bógus fazem interessantes evoluções: "Ando perdendo o sono", justifica ele.

Em Rivera, cidade uruguaia que faz divisa com a cidade gaúcha de Santana do Livramento, don Nero Esparta de Barros, 63 anos, não usa nenhum subterfúgio para esconder sua adoração pelas novelas. Ele se orgulha de ter viajado de lá ao Rio, em doze dias, e não ter perdido um capítulo de "Escalada". E explica: "Cinema? Ia no tempo de rapaz. Hoje, só se reprisarem um filme de Cantinflas". Rivera recebe imagens de uma outra emissora, canal Diez, que passa a novela americana "A Caldeira do Diabo" e tem audiência miserável. A novela está cinco capítulos à frente em Montevidéu e sempre há alguém vindo da capital para cobrar o que vai acontecer e provocar o desinteresse da cidade.

"Integración, capito?" - Rivera, de resto, espelha razoavelmente o fator de "união nacional" que a televisão reivindica para si - tanto que consegue já atravessar a fronteira geográfica e lingüística. Gastón Pérez, 29 anos, chofer de táxi, pára o trabalho às 6 horas e vai para casa, na calle Ceballos. Às 7, está vendo "Bravo!", ao lado da mulher, Noeli. Jantam falando da possibilidade de conciliação entre Clóvis (Carlos Alberto) e Cristina (Araci Balabanian). As 7h45, acabados novela e jantar, Pérez vai para a rua em busca de novos fregueses e só volta um pouco antes das 10 para assistir, já de pijama, às magias baianas de "Gabriela". Para ele, esse ritual é fascinante e também instrutivo: "A Noeli é brasileira, mas acho que ahora estou hablando o português melhor do que ela".

Em Nova Milano, cidadezinha gaúcha perto de Porto Alegre e Caxias do Sul, o velho Joaquim Peroni, de 71 anos, pensa parecido. Embora ele e sua família - filho, nora, três netos - ainda liguem a televisão uma hora antes das novelas, "para esquentar" e desconheçam as funções dos botões de correção vertical e brilho, todos estão certos de que a vida melhorou para eles desde que compraram o aparelho. Explica Peroni: "Antigamente me sentia desmoralizado, porque colono não valia nada. Com as novelas, a gente tem instrução. Pode conversar com as pessoas, capito?".

Os fãs ocultos - Nos bares e lares, nas lojas e estações rodoviárias, em todas as frestas do lazer a telenovela tem dado um jeito de se infiltrar. Em alguns lugares, por certo, ela é amaldiçoada. O prefeito de Guaraqueçaba, Salim de Castro, por exemplo, tem uma posição curiosamente parecida com a de Maria Machado, ou "Maria Japonesa", que em outros tempos saiu do norte do Paraná com a fama de se parecer com Elizabeth Taylor e hoje é dona da boate Quatro Bicos, o mais famoso ponto de encontro de Curitiba. Diz o prefeito que sua Igreja, a Assembléia de Deus, é "meio contra esse tipo de diversão, cheio de beijos e abraços, ensinando o pecado", mas confessa que já viu uns capítulos de "Gabriela" e lamenta não ter visto todos.

"Maria Japonesa", por sua vez, acha que "por causa dessas malditas telenovelas tenho que ir aos quartos chamar as meninas para atender aos fregueses". Mas confessa que deixa as meninas, em número de 38, assistirem às novelas na TV em cores de seu próprio quarto, "desde que fiquem com um olho no aparelho e outro nos corredores". Sintomaticamente, a novela favorita no local é "Gabriela", e uma das moças, "Vanessa", de 20 anos, diz por quê: "A maior parte do pessoal que vem aqui parece com o pessoal da novela. É tudo delegado, político, gente da sociedade".

Sempre "Gabriela" - Mas esta multidão anônima e fiel, ainda mal conhecida das próprias emissoras, estaria buscando exatamente o que em suas telenovelas? E o que é que elas oferecem? Há alguns fatos e algumas teorias a respeito. Quanto aos primeiros, basta lembrar que as telenovelas oferecem emprego direto a umas 3.000 pessoas e têm uma capacidade xerográfica de gerar negócios em série. Se nos últimos três anos apenas a Rede Globo investiu 6,6 milhões de dólares em equipamento de cor, esta operação gera lucros por vias travessas, como, por exemplo, os da editora de discos da Globo, que num único ano - entre julho de 1973 e julho de 1974 - lançou quarenta LPs com trilhas de novelas, muitas delas reedições de sucessos antigos. Neste sentido, "Gabriela" parece ser o exemplo fulminante: o livro virou novela que virou disco que virou exposição de pintura sobre o tema. Virou, enfim, uma festa em Ilhéus, na semana passada, quando Jorge Amado e sete artistas da novela chegaram ao lugar. Carlos Libório, correspondente de VEJA em Salvador, relata:

"Jorge Amado desgostou muita gente em Ilhéus com seu livro, recebeu ameaças e há mais de vinte anos não ia lá. Mas agora Ilhéus reservava a ele 'a maior festa do século', nas palavras inflamadas de Demóstenes Berbert de Castro, 65 anos, que se identifica - como o falecido senador João Mangabeira - com o 'Mundinho Falcão' do livro e da telenovela. Como ele, vários ilheenses têm agora o maior orgulho em proclamar supostas afinidades com as personagens da novela. A rigor, somente Emílio Maron, apontado como o turco Nacib, marido de Gabriela (que seria sua mulher Maria de Lourdes), se mantém distante e revoltado com tais comparações. Mas seu filho, Carlos Maron, atual dono do bar que já foi o Vezúvio, assistia de bermuda a toda a movimentação. Ele instalou no bar um pequeno balcão para vender garrafas da Pinga do Nacib, a 10 cruzeiros cada, além de chapéus e bolsa de palha para moças. O Diário da Tarde - que seria o Diário de Ilhéus do romance - acha que a cidade reviveu com a novela, lembrando que na principal rua da cidade havia catorze casas comerciais fechadas e agora são apenas três. O dono do jornal, e prefeito da cidade, Ariston Cardoso, acha também que "Gabriela" trouxe sorte ao município, pois o cacau está subindo de cotação. Por tudo isso, e durante um grande banquete, o escritor recebeu as homenagens - e o perdão - da cidade, esperando-se para breve a abertura da avenida Jorge Amado num bairro novo da cidade".

Teoria e prática - É certo que tantas personagens. interesses e investimentos acabaram por alçar vôo daquele mundo acanhado, da mulher de 30 anos, etc., para sensibilizar olhos e ouvidos em outros logradouros. Ataques e defesa da telenovela são feitos com paixão e fúria, como numa telenovela. Nélson Rodrigues, o teatrólogo em recesso, jornalista e panfletário passional, acredita tratar-se de um gênero eterno, "um filho do folhetim que não desaparecerá nunca da vida do homem", e lamenta não ter tempo para acompanhá-las. O historiador Hélio Silva não perde o pouco tempo que tem com telenovelas, mas com estudos, e só viu o "Rebu" porque seu neto, Buza Ferraz (o "Cauê"), trabalhava nela: "Infelizmente, o que fazem são programas para domésticas e, aliás, comprei um aparelho para minha empregada". Entre esses extremos, o imortal Afonso Arinos de Mello Franco apenas se interessou por "Senhora", por gostar do gênero e de José de Alencar. Achou bons os costumes e os cenários, mas considera "terríveis" os erros históricos: "Uma personagem falava em saldar dívida com notas promissórias, quando se sabe que este título cambial só surgiu em 1920. Outro dizia que fulana tinha it, palavra que só surgiu com o cinema americano nos anos 30".

Erros desse tipo podem ser creditados, por certo, ao célebre "ritmo de TV" de que as emissoras tanto se orgulham e padecem. No Rio, na semana passada, Eva Spitz, de VEJA, acompanhou um dia de filmagem de "Gabriela": "Uma cena do capítulo 119 mostra GabrieIa sentada na máquina de costura, displicente, quando recebe a visita de quatro respeitáveis senhoras de Ilhéus exigindo que saia da cidade ou se mude para o cabaré Bataclan. Esta cena foi ensaiada só uma vez e durante a gravação sofreu vários cortes: ou alguém esquecia o texto, ou tropeçava nas palavras, ou havia problemas de iluminação. Finalmente costurada toda a cena, ela é transmitida e já composta no aparelho de vídeo-teipe. Todos querem se ver. 'Nossa, como estou estranha', admira-se Sônia Braga. A cena seguinte começa logo. Durante 5 minutos, Sônia Braga chora diante das câmaras. 'Chora de verdade', murmura o contra-regra. No final, todos estão maravilhados: 'Ela é mesmo uma atriz! Viu como ela chorou?' Os cenários vão mudando e, às 3 da tarde; os atores discutem, desanimados, o fato de terem que gravar treze capítulos a mais (a novela foi esticada de 120 para 133 capítulos). Paulo Gracindo (Coronel Ramiro) acabou de se vestir e se prepara para um diálogo com Mário Gomes (Berto Leal) que boceja. Uma fala estava errada: 'Não é bom dia, é boa noite, afinal está tudo iluminado'. Às 6 da tarde já haviam sido gravadas 26 cenas e ainda faltavam treze, que ficarão para o dia seguinte, quando os atores chegarão às 8 horas para os primeiros ensaios, encontrando o estúdio preparado previamente na noite anterior".

Poeira e lágrimas - Em São Paulo, primeiro na cidadezinha construída em frente à estação da Tupi, para a gravação de "Vila do Arco", e depois no estúdio, onde estava sendo gerado mais um pedaço de "Ovelha Negra", Eda Maria Romio, de VEJA, captou mais um pouco do "ritmo": "Luís Gallon, diretor de 'Vila do Arco', chega ao final das gravações praticamente sem voz: comandou mais de cinqüenta atores, ao longo de uma rua de cerca de 100 metros, sem usar megafone, na base do grito.

Além de afônico, Luiz Gallon está com a roupa, o rosto e os cabelos sujos. Para conseguir um efeito de poeira, não teve outra alternativa senão pedir a um ator que corresse pela rua montado numa vassoura. No estúdio, às 8 da manhã, os atores passeiam entre os cenários decorando textos às vezes entregues pouco antes.

Nos vestiários não cabem mais que dois atores de cada vez. Para ensaiar as cenas, dispõem de 3 a 5 minutos - e elas raramente são refeitas, por falta de tempo. Para atrasar ainda mais, as gravações costumam parar meia hora porque um quarto pobre deve se transformar num quarto rico. Entre garrafas térmicas de café, cigarros, dividindo o pouco espaço com carpinteiros e sob o zumbido de serras, os atores chegam a um momento importante. É uma cena longa, de muitas personagens, e uma mulher que não quer o namoro da filha ouve do 'Ovelha Negra' (Rolando Boldrin) uma preleção sobre o amor, após a qual a mulher se comove e o namoro é consentido. Edson Braga, o diretor, grita de sua cabina que a cena ficou ótima, mas ninguém se mexe: todos estão comovidos com o que acabaram de fazer e alguns choram. De repente, o elenco se precipita para o vídeoteipe do estúdio, onde se vêem e de novo se emocionam. É a última cena do dia".

Abertura total - Por certo esta tarefa corrida, escrita ao longo das pressões do gosto do público, espichando-se, encolhendo-se, gerou uma forma de comunicação extremamente singular. Dias Gomes, talvez o mais bem sucedido autor do gênero, acredita mesmo que a telenovela brasileira não se parece com nenhuma outra do mundo: não é teatro, não é cinema, e encontrou seu lugar junto ao povo porque nunca houve no país um teatro popular e o melhor cinema que se tentou fazer se fechava em seu próprio hermetismo. E mais: "A telenovela é a verdadeira obra aberta, porque o autor começa a escrever de parceria com milhões de telespectadores".

Ou talvez não seja nada disso. Muniz Sodré, escritor e professor de teoria da comunicação no Rio, é totalmente contra as telenovelas, que ele chama de "folhetim eletrônico". Segundo Sodré, na telenovela tudo acontece, sem fazer acontecer realmente nada, "porque a televisão é um tipo de fantasma do mundo, imenso discurso organizado sobre o vazio - e a telenovela é uma das unidades significativas desse discurso". Mas ressalva: "É forçoso reconhecer o apuro técnico das telenovelas. Elas acabaram se tornando importantes para um público acionado pelo seu próprio vazio cultural".

No fundo, tanto faz. A mulher de 30 anos, etc. ficaria sem dúvida perplexa diante de tudo isso. E mudaria logo de canal.

 
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