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Capa
A grande mania
nacional
Histórias da telenovela,
que em
dez anos fez do Brasil a terra
prometida das emoções em capítulos
No fundo, bem no fundo do coração
de cada um dos 45 milhões de brasileiros que podem
assistir televisão, palpitam ansiedade e esperança
quando as noites começam. Em Oliveira, quieta cidade
mineira de 40.000 habitantes, a duas horas de Belo Horizonte,
o vento gelado da terça-feira passada esbarrava numa
platéia silenciosa plantada em pé na praça
da Matriz. Cercados de rosas e margaridas, bem em frente à
igreja, eles mantinham os olhos fixos numa coluna de 5 metros
de altura,- feita de cimento, ferro e acrílico, em
cujo topo brilhava um aparelho de televisão de 24 polegadas,
emitindo radiações coloridas e sonoras: era
mais um pedaço da história de um cidadão
de educado sotaque, o "Meu Rico Português".
Naquela mesma noite havia maré
alta em Guaraqueçaba, cidadezinha paranaense de 8 000
habitantes, a quatro horas de Curitiba, e o mar invadia os
porões da casa do pescador Manoel Teóffio dos
Anjos, assentada sobre alicerces bem altos. Nenhum motivo
para se alterar a rotina diária: dentro da casa, o
barulho da arrebentação se confundia com as
duvidosas sinfonias que brotavam do aparelho estrategicamente
colocado para que o pescador, sua mulher, sete filhos e alguns
vizinhos contemplassem o talento de um maestro ameaçado
por gente perversa, em "Bravo!".
Ritmo de delírio
- Estas duas platéias não estavam, porém,
sozinhas na sua devoção. E fizeram sacrifícios
consideráveis para se dedicar a ela. Em Oliveira, um
espectador varrido pela ventania, Euclides Alves, barbeiro
aposentado de 58 anos, explicava as razões que o tiraram
de casa: "Gosto de novelas porque gosto de aventuras.
E aqui na praça eu tenho amigos para conversar e tomar
minhas pingas". Em Guaraqueçaba, cidade que só
possui dezoito aparelhos de televisão, o pescador Manoel.
desabafava: "Eu não agüento mais. A filharada,
a mulher e os vizinhos ficam reclamando comigo que a televisão
tem uns chuviscos".
Por isso ele levou seu aparelho
de barco a Paranaguá, distante quatro horas pela costa,
para ouvir do técnico a explicação de
que os chuviscos eram provocados "por defeito de antena".
Tanto Manoel (dono do primeiro aparelho de Guaraqueçaba)
quanto Euclides compraram, suas televisões em suaves
prestações - na verdade, duros capítulo
na vida dos moradores de um país que, menos de cinco
anos atrás, se dividiam em grupos de treze para cada
aparelho nas cidades e pequenas multidões de 354 para
cada receptor na zona rural. Naquela época, 52% dos
domicílios brasileiros sequer possuíam luz elétrica
e 76% não tinham televisão.
De lá para cá,
porém, as linhas desse enredo foram aceleradas num
ritmo de delírio. Os 3,5 milhões de aparelhos
de 1970 saltaram para os 10 milhões (segundo o Ministério
das Comunicações) ou 12 milhões (segundo
os fabricantes) em 1974. Crescendo à média de
10% ao ano, os 76% de domicílios sem receptores caíram
para 53% no ano passado - quando 1 655 000 novos aparelhos
foram vendidos. Daqui a mais cinco anos, segundo calcula a
Associação Brasileira da Indústria Elétrica
e Eletrônica (Abinee), o número total de televisores
no Brasil subirá a 20 milhões e sobre tudo isso
reina soberana a novela - fazendo histórias como as
de Oliveira e Guaraqueçaba se multiplicarem a um ponto
cujo desfecho nenhum roteirista, por mais imaginativo que
seja, será capaz de prever.
Máquinas e cifrões
- Porque a tendência, tanto na Rede Globo quanto
na Rede Tupi, as únicas que produzem telenovelas, é
investir cada vez mais no setor. Três anos atrás,
a Globo gastava 42% de seu orçamento em telejornalismo
e 30% em telenovelas; no ano passado, as telenovelas já
consumiam 53% de tudo, prevendo-se em 1975 um gasto mensal
de 3,2 milhões de cruzeiros em suas quatro produções.
A Globo tem aproximadamente
50 milhões de cruzeiros em equipamento em sua sede
no bairro carioca do Jardim Botânico, no Rio, e entre
eles estão quatro aparelhos de vídeo-teipe,
catorze câmeras a cores e 32 em preto e branco. O chefe
desse pequeno reino, René Proença, 42 anos,
calcula que 40% da parafernália técnica são
ocupados pelas telenovelas: para gravar e transmiti-las, a
Globo aciona permanentemente, 24 horas por dia, uma equipe
de mais de 300 técnicos, três caminhões
para tomadas externas e um minicomputador capaz de descobrir
o menor arranhão ou falta de sincronização
que por acaso exista em algum trecho da fita magnética
contendo os sons e as imagens que chegarão aos telespectadores.
A avidez da platéia
- Na Tupi, os gastos mensais, também para um quarteto
de telenovelas, são orçados em 2 milhões.
E esse dinheiro não paga extravagâncias: cada
uma das emissoras tem quatro estúdios para gravações
internas e neles se trabalha numa rapidez que não raro
beira os limites da resistência física dos participantes,
mas, também, o orgulho de se ter chegado a um "ritmo
de TV.
Esse "ritmo" fez
com que o Brasil, desde os primeiros vagidos de "O Direito,
de Nascer", o primeiro exemplar (1964), se transformasse
no país das telenovelas. No ano passado, a Globo mandou
para o ar 28 500 minutos de telenovelas, isto é, 475
horas ou vinte dias ininterruptos de enredos. Como a Tupi
emite a mesma quantidade de produções, é
possível supor que um espectador dotado de poderes
extraordinários, capaz de acompanhar a toda elas, teria
passado quarenta dias seguido diante de seu receptor só
vendo telenovelas. E isso ainda parece pouco, justificando
o empenho das emissoras: 30% dos espectadores entrevistados
pela Globo gostariam que as telenovelas fossem transmitidas
também aos domingos. E mais: 80% deles, se tivessem
tempo, estariam dispostos a seguir duas telenovelas por dia
e 60% gostariam de assistir a três.
O "ser televisivo"
- Esses números provocaram alterações
notáveis no comportamento nacional. Em Oliveira, enquanto
o povo na praça contemplava o televisor 5 metros acima
de suas cabeças, um dos cinemas locais, com capacidade
para 1 000 espectadores, exibia "A Divina Ira",
com Robert Mitchum para não mais que trinta pessoas.
O expediente de atrasar horários das sessões
cinematográficas, aulas e reuniões virou rotina.
Além disso, como a televisão brasileira tornou-se
capaz de atingir a quase totalidade do país (só
o Amapá continua imune a ela), as preferências,
os comportamentos e as ambições gerados no Rio
e em São Paulo passaram a circular nas mais variadas
platéias.
Ainda assim, as emissoras acreditam
na existência de um "espectador típico".
Para a Globo, por exemplo, segundo informa sua Divisão
de Análise e Pesquisa, este "ser televisivo"
(66% do total de entrevistados) é uma mulher. Ela tem
mais de 30 anos e dois filhos, curso secundário incompleto,
trabalha no comércio, mora nas periferias das grandes
cidades e pertence às chamadas classes C e D.
A catástrofe invisível
- A busca de personagens menos estatísticos, porém,
leva a descobertas intrigantes - ou mesmo patéticas,
como no Recife, inundado no mês de julho passado sem
que uma parte da sua população, entretida nas
telenovelas, se desse conta disso. "Na manhã do
dia 18", conta o repórter Marco Cirano, de VEJA,
"a estudante Clara Maria Feitosa, de 21 anos, aluna do
terceiro ano de jornalismo, saiu de sua casa em Boa Viagem,
bairro elegante da capital pernambucana, para sua aula de
ginástica no centro da cidade. Na véspera, ela
assistira a "Meu Rico Português", "Ovelha
Negra" e "O Sheik de Ipanema", e foi dormir
sem saber que 80% da cidade estava alagada pela enchente do
rio Capibaribe. Tudo isso porque nem a Globo, nem a Tupi interromperam
suas novelas para noticiar a catástrofe, que estava
sendo transmitida apenas pela TV Jornal do Comércio,
de baixíssima audiência na cidade."
Ainda no Recife, e também
fora de qualquer perfil estatístico,- o cego José
Martins de Andrade, de 40 anos, percorre as ruas tocando gaita
e pedindo esmola. Nos últimos meses, mudou seu repertório
de baiões para temas de telenovela, que ele ouve na
televisão de um amigo e tenta, com dificuldade, reproduzir:
"É o que me pedem para tocar". Na ponte da
Boa Viagem, o camelô-mirim Israel José da Silva,
de 13 anos, mesmo sem ver televisão conhece bem as
personagens de "Gabriela", "Escalada"
e "Ovelha Negra". Ele vende camisas com retratos
dos artistas, apurando entre 150 a 200 cruzeiros por dia,
num mercado que considera muito firme: "Camisa com escudo
de time de futebol sai mais, mas só quando o campeonato
está quente. Artista de TV vende o ano todo".
Os novos gaúchos
- Muito longe dali, entre Dom Pedrito e Santana do Livramento,
no extremo sul do país, o repórter André
Pereira, de VEJA, atravessou os 3.000 hectares de soja do
fazendeiro Walter Potter para localizar a quebra de uma das
mais caras tradições gaúchas. Todos os
dias, às 6 e meia da tarde, o próspero Potter,
de 61 anos, entra em sua perua e vai embora, deixando o trabalho
no campo por conta de quem o cultiva. Às 7 está
em casa e só tem tempo para uma meteórica passagem
pelo banheiro, onde troca a camisa xadrez, do campo, por uma
lisa, de ir à cidade. Ainda veste as botas de couro
marrom quando a empregada lhe serve o chimarrão e "Bravo!"
começa a passar na TV. Ao lado da mulher, Érica,
que faz crochê olhando para o vídeo, ele se sente
no dever de dar alguma espécie de explicação
pelo seu comportamento: "O que a gente pode fazer nessa
campanha deserta à noite? Já passou o tempo
em que o gaúcho era conhecido como um sujeito macho,
de muita pinga e muita mulher. O progresso está aí.
É burrice continuar vivendo como antigamente, só
para dizer que é macho". Potter ainda cultiva
o velho hábito de não dormir depois de 9 e meia
da noite, mas talvez até isso esteja no fim. Sua mulher
costuma vê-lo de pijama, depois das 10, rondando o aparelho
em cores, onde Sônia Braga e Armando Bógus fazem
interessantes evoluções: "Ando perdendo
o sono", justifica ele.
Em Rivera, cidade uruguaia
que faz divisa com a cidade gaúcha de Santana do Livramento,
don Nero Esparta de Barros, 63 anos, não usa nenhum
subterfúgio para esconder sua adoração
pelas novelas. Ele se orgulha de ter viajado de lá
ao Rio, em doze dias, e não ter perdido um capítulo
de "Escalada". E explica: "Cinema? Ia no tempo
de rapaz. Hoje, só se reprisarem um filme de Cantinflas".
Rivera recebe imagens de uma outra emissora, canal Diez, que
passa a novela americana "A Caldeira do Diabo" e
tem audiência miserável. A novela está
cinco capítulos à frente em Montevidéu
e sempre há alguém vindo da capital para cobrar
o que vai acontecer e provocar o desinteresse da cidade.
"Integración,
capito?" - Rivera, de resto, espelha razoavelmente
o fator de "união nacional" que a televisão
reivindica para si - tanto que consegue já atravessar
a fronteira geográfica e lingüística. Gastón
Pérez, 29 anos, chofer de táxi, pára
o trabalho às 6 horas e vai para casa, na calle Ceballos.
Às 7, está vendo "Bravo!", ao lado
da mulher, Noeli. Jantam falando da possibilidade de conciliação
entre Clóvis (Carlos Alberto) e Cristina (Araci Balabanian).
As 7h45, acabados novela e jantar, Pérez vai para a
rua em busca de novos fregueses e só volta um pouco
antes das 10 para assistir, já de pijama, às
magias baianas de "Gabriela". Para ele, esse ritual
é fascinante e também instrutivo: "A Noeli
é brasileira, mas acho que ahora estou hablando o português
melhor do que ela".
Em Nova Milano, cidadezinha
gaúcha perto de Porto Alegre e Caxias do Sul, o velho
Joaquim Peroni, de 71 anos, pensa parecido. Embora ele e sua
família - filho, nora, três netos - ainda liguem
a televisão uma hora antes das novelas, "para
esquentar" e desconheçam as funções
dos botões de correção vertical e brilho,
todos estão certos de que a vida melhorou para eles
desde que compraram o aparelho. Explica Peroni: "Antigamente
me sentia desmoralizado, porque colono não valia nada.
Com as novelas, a gente tem instrução. Pode
conversar com as pessoas, capito?".
Os fãs ocultos -
Nos bares e lares, nas lojas e estações rodoviárias,
em todas as frestas do lazer a telenovela tem dado um jeito
de se infiltrar. Em alguns lugares, por certo, ela é
amaldiçoada. O prefeito de Guaraqueçaba, Salim
de Castro, por exemplo, tem uma posição curiosamente
parecida com a de Maria Machado, ou "Maria Japonesa",
que em outros tempos saiu do norte do Paraná com a
fama de se parecer com Elizabeth Taylor e hoje é dona
da boate Quatro Bicos, o mais famoso ponto de encontro de
Curitiba. Diz o prefeito que sua Igreja, a Assembléia
de Deus, é "meio contra esse tipo de diversão,
cheio de beijos e abraços, ensinando o pecado",
mas confessa que já viu uns capítulos de "Gabriela"
e lamenta não ter visto todos.
"Maria Japonesa",
por sua vez, acha que "por causa dessas malditas telenovelas
tenho que ir aos quartos chamar as meninas para atender aos
fregueses". Mas confessa que deixa as meninas, em número
de 38, assistirem às novelas na TV em cores de seu
próprio quarto, "desde que fiquem com um olho
no aparelho e outro nos corredores". Sintomaticamente,
a novela favorita no local é "Gabriela",
e uma das moças, "Vanessa", de 20 anos, diz
por quê: "A maior parte do pessoal que vem aqui
parece com o pessoal da novela. É tudo delegado, político,
gente da sociedade".
Sempre "Gabriela"
- Mas esta multidão anônima e fiel, ainda mal
conhecida das próprias emissoras, estaria buscando
exatamente o que em suas telenovelas? E o que é que
elas oferecem? Há alguns fatos e algumas teorias a
respeito. Quanto aos primeiros, basta lembrar que as telenovelas
oferecem emprego direto a umas 3.000 pessoas e têm uma
capacidade xerográfica de gerar negócios em
série. Se nos últimos três anos apenas
a Rede Globo investiu 6,6 milhões de dólares
em equipamento de cor, esta operação gera lucros
por vias travessas, como, por exemplo, os da editora de discos
da Globo, que num único ano - entre julho de 1973 e
julho de 1974 - lançou quarenta LPs com trilhas de
novelas, muitas delas reedições de sucessos
antigos. Neste sentido, "Gabriela" parece ser o
exemplo fulminante: o livro virou novela que virou disco que
virou exposição de pintura sobre o tema. Virou,
enfim, uma festa em Ilhéus, na semana passada, quando
Jorge Amado e sete artistas da novela chegaram ao lugar. Carlos
Libório, correspondente de VEJA em Salvador, relata:
"Jorge Amado desgostou
muita gente em Ilhéus com seu livro, recebeu ameaças
e há mais de vinte anos não ia lá. Mas
agora Ilhéus reservava a ele 'a maior festa do século',
nas palavras inflamadas de Demóstenes Berbert de Castro,
65 anos, que se identifica - como o falecido senador João
Mangabeira - com o 'Mundinho Falcão' do livro e da
telenovela. Como ele, vários ilheenses têm agora
o maior orgulho em proclamar supostas afinidades com as personagens
da novela. A rigor, somente Emílio Maron, apontado
como o turco Nacib, marido de Gabriela (que seria sua mulher
Maria de Lourdes), se mantém distante e revoltado com
tais comparações. Mas seu filho, Carlos Maron,
atual dono do bar que já foi o Vezúvio, assistia
de bermuda a toda a movimentação. Ele instalou
no bar um pequeno balcão para vender garrafas da Pinga
do Nacib, a 10 cruzeiros cada, além de chapéus
e bolsa de palha para moças. O Diário da Tarde
- que seria o Diário de Ilhéus do romance -
acha que a cidade reviveu com a novela, lembrando que na principal
rua da cidade havia catorze casas comerciais fechadas e agora
são apenas três. O dono do jornal, e prefeito
da cidade, Ariston Cardoso, acha também que "Gabriela"
trouxe sorte ao município, pois o cacau está
subindo de cotação. Por tudo isso, e durante
um grande banquete, o escritor recebeu as homenagens - e o
perdão - da cidade, esperando-se para breve a abertura
da avenida Jorge Amado num bairro novo da cidade".
Teoria e prática
- É certo que tantas personagens. interesses e
investimentos acabaram por alçar vôo daquele
mundo acanhado, da mulher de 30 anos, etc., para sensibilizar
olhos e ouvidos em outros logradouros. Ataques e defesa da
telenovela são feitos com paixão e fúria,
como numa telenovela. Nélson Rodrigues, o teatrólogo
em recesso, jornalista e panfletário passional, acredita
tratar-se de um gênero eterno, "um filho do folhetim
que não desaparecerá nunca da vida do homem",
e lamenta não ter tempo para acompanhá-las.
O historiador Hélio Silva não perde o pouco
tempo que tem com telenovelas, mas com estudos, e só
viu o "Rebu" porque seu neto, Buza Ferraz (o "Cauê"),
trabalhava nela: "Infelizmente, o que fazem são
programas para domésticas e, aliás, comprei
um aparelho para minha empregada". Entre esses extremos,
o imortal Afonso Arinos de Mello Franco apenas se interessou
por "Senhora", por gostar do gênero e de José
de Alencar. Achou bons os costumes e os cenários, mas
considera "terríveis" os erros históricos:
"Uma personagem falava em saldar dívida com notas
promissórias, quando se sabe que este título
cambial só surgiu em 1920. Outro dizia que fulana tinha
it, palavra que só surgiu com o cinema americano nos
anos 30".
Erros desse tipo podem ser
creditados, por certo, ao célebre "ritmo de TV"
de que as emissoras tanto se orgulham e padecem. No Rio, na
semana passada, Eva Spitz, de VEJA, acompanhou um dia de filmagem
de "Gabriela": "Uma cena do capítulo
119 mostra GabrieIa sentada na máquina de costura,
displicente, quando recebe a visita de quatro respeitáveis
senhoras de Ilhéus exigindo que saia da cidade ou se
mude para o cabaré Bataclan. Esta cena foi ensaiada
só uma vez e durante a gravação sofreu
vários cortes: ou alguém esquecia o texto, ou
tropeçava nas palavras, ou havia problemas de iluminação.
Finalmente costurada toda a cena, ela é transmitida
e já composta no aparelho de vídeo-teipe. Todos
querem se ver. 'Nossa, como estou estranha', admira-se Sônia
Braga. A cena seguinte começa logo. Durante 5 minutos,
Sônia Braga chora diante das câmaras. 'Chora de
verdade', murmura o contra-regra. No final, todos estão
maravilhados: 'Ela é mesmo uma atriz! Viu como ela
chorou?' Os cenários vão mudando e, às
3 da tarde; os atores discutem, desanimados, o fato de terem
que gravar treze capítulos a mais (a novela foi esticada
de 120 para 133 capítulos). Paulo Gracindo (Coronel
Ramiro) acabou de se vestir e se prepara para um diálogo
com Mário Gomes (Berto Leal) que boceja. Uma fala estava
errada: 'Não é bom dia, é boa noite,
afinal está tudo iluminado'. Às 6 da tarde já
haviam sido gravadas 26 cenas e ainda faltavam treze, que
ficarão para o dia seguinte, quando os atores chegarão
às 8 horas para os primeiros ensaios, encontrando o
estúdio preparado previamente na noite anterior".
Poeira e lágrimas
- Em São Paulo, primeiro na cidadezinha construída
em frente à estação da Tupi, para a gravação
de "Vila do Arco", e depois no estúdio, onde
estava sendo gerado mais um pedaço de "Ovelha
Negra", Eda Maria Romio, de VEJA, captou mais um pouco
do "ritmo": "Luís Gallon, diretor de
'Vila do Arco', chega ao final das gravações
praticamente sem voz: comandou mais de cinqüenta atores,
ao longo de uma rua de cerca de 100 metros, sem usar megafone,
na base do grito.
Além de afônico,
Luiz Gallon está com a roupa, o rosto e os cabelos
sujos. Para conseguir um efeito de poeira, não teve
outra alternativa senão pedir a um ator que corresse
pela rua montado numa vassoura. No estúdio, às
8 da manhã, os atores passeiam entre os cenários
decorando textos às vezes entregues pouco antes.
Nos vestiários não
cabem mais que dois atores de cada vez. Para ensaiar as cenas,
dispõem de 3 a 5 minutos - e elas raramente são
refeitas, por falta de tempo. Para atrasar ainda mais, as
gravações costumam parar meia hora porque um
quarto pobre deve se transformar num quarto rico. Entre garrafas
térmicas de café, cigarros, dividindo o pouco
espaço com carpinteiros e sob o zumbido de serras,
os atores chegam a um momento importante. É uma cena
longa, de muitas personagens, e uma mulher que não
quer o namoro da filha ouve do 'Ovelha Negra' (Rolando Boldrin)
uma preleção sobre o amor, após a qual
a mulher se comove e o namoro é consentido. Edson Braga,
o diretor, grita de sua cabina que a cena ficou ótima,
mas ninguém se mexe: todos estão comovidos com
o que acabaram de fazer e alguns choram. De repente, o elenco
se precipita para o vídeoteipe do estúdio, onde
se vêem e de novo se emocionam. É a última
cena do dia".
Abertura total - Por
certo esta tarefa corrida, escrita ao longo das pressões
do gosto do público, espichando-se, encolhendo-se,
gerou uma forma de comunicação extremamente
singular. Dias Gomes, talvez o mais bem sucedido autor do
gênero, acredita mesmo que a telenovela brasileira não
se parece com nenhuma outra do mundo: não é
teatro, não é cinema, e encontrou seu lugar
junto ao povo porque nunca houve no país um teatro
popular e o melhor cinema que se tentou fazer se fechava em
seu próprio hermetismo. E mais: "A telenovela
é a verdadeira obra aberta, porque o autor começa
a escrever de parceria com milhões de telespectadores".
Ou talvez não seja nada
disso. Muniz Sodré, escritor e professor de teoria
da comunicação no Rio, é totalmente contra
as telenovelas, que ele chama de "folhetim eletrônico".
Segundo Sodré, na telenovela tudo acontece, sem fazer
acontecer realmente nada, "porque a televisão
é um tipo de fantasma do mundo, imenso discurso organizado
sobre o vazio - e a telenovela é uma das unidades significativas
desse discurso". Mas ressalva: "É forçoso
reconhecer o apuro técnico das telenovelas. Elas acabaram
se tornando importantes para um público acionado pelo
seu próprio vazio cultural".
No fundo, tanto faz. A mulher
de 30 anos, etc. ficaria sem dúvida perplexa diante
de tudo isso. E mudaria logo de canal.
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