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Televisão
Tiroteio no vídeo
A Globo reage à disparada
de
popularidade da novela Pantanal,
estuda alternativa para o horário nobre
e declara aberta a guerra pela audiência
Algo de extraordinário
está acontecendo na televisão brasileira, e
não se trata da estréia de uma nova emissora
ou da entrada no ar de um programa revolucionário.
A programação das redes continua se apoiando
no tripé básico de novelas, telejornalismo e
filmes - salpicada pelos programas humorísticos, de
auditório, seriados, shows e desenhos animados. A grande
mudança está acontecendo na frente dos aparelhos
de televisão. Na medida em que o tempo passa, fica
cada vez mais claro que a novela Pantanal, apresentada
pela Rede Manchete às 9 e meia da noite de segunda-feira
a sábado, caiu definitivamente nas graças do
público. Nos últimos índices de audiência
disponíveis do Ibope, nos horários de melhor
desempenho Pantanal bate sistematicamente os programas
da Rede Globo. Na quarta e quinta-feira da semana passada,
em São Paulo, Pantanal ficou em primeiro lugar,
o SBT em segundo e a Globo em terceiro. O triunfo de Pantanal
não se mede apenas pelos seus percentuais de audiência.
Para além dos números, a novela da Manchete
é hoje o programa mais comentado do Brasil, e Cristiana
Oliveira, a deslumbrante estrela de Pantanal, transformou-se
numa figura nacional praticamente da noite para o dia.
Já houve anteriormente
casos de a Globo ser batida no seu horário pós-novela.
Foi o que aconteceu com a minissérie americana Pássaros
Feridos, apresentada pelo SBT, e com Dona Beija, da própria
Manchete. Com Pantanal, a situação é
diferente, num aspecto crucial: a reação Globo.
Na direção da emissora, os índices e
o falatório a respeito de Pantanal provocaram um frenesi
de reuniões, de improvisações e estudos
de alternativas para combater a bela e brava onça da
Manchete. A Globo sentiu-se vulnerável e, a toque de
caixa, pôs no ar anúncios das minisséries
A, E, I, O, Urca e Desejo, que não estavam
sequer prontas, condensou e apresentou de supetão Todas
as Mulheres do Mundo na sexta-feira passada e meio que
colocou sob suspeita alguns dos seus programas do horário
das 9 e meia da noite, a começar por TV Pirata.
Bichos X Gângsteres
- Além dos pontos no lbope, um episódio
de dimensão simbólica pesou na decisão
da emissora líder de reagir rapidamente a Pantanal.
Na quinta-feira dia 26, a Globo comemorou seu 25º aniversário
e programou para o mesmo horário da novela da Manchete
uma das suas grandes atrações para o ano - o
filme Os Intocáveis, pelo qual pagou 200 000
dólares. Involuntariamente, o filme continha uma alusão
ao poderio intocável da Globo no que diz respeito a
galvanizar a audiência. O filme foi ao ar, mas, nos
instantes de pico, o público preferiu os bichos, plantas
e beldades desnudas de Pantanal aos gângsteres,
policiais e tiroteios de Chicago.
É uma operação
difícil interromper bruscamente a carreira de sucesso
de uma novela em ascensão, mesmo para uma emissora
de público monumental como a Globo. É quase
tão complicado quanto fazer fora da Globo uma novela
com condições de competir para valer com a programação
global. A experiência e o talento da Globo em produzir
novelas a tornaram praticamente imbatível no gênero,
já que há longos anos o grosso do público
habituou-se ao padrão da emissora. No caso do sucesso
de Pantanal, porém, é possível
relacionar alguns motivos para explicar como ela deslizou
tão bem num terreno tão acidentado.
Em lugar das locações
habituais das novelas da Globo, encenadas nas ruas do Rio
de Janeiro, de São Paulo ou em cidades cenográficas
que simulam lugarejos interioranos; como a Santana do Agreste
de Tieta, a novela da Manchete mostra os cenários
deslumbrantes do Pantanal Mato-Grossense. Tem-se aí
uma novidade visual arrebatadora para o telespectador: em
vez das ruas e ambientes por onde ele circula todo dia, um
panorama que ele não conhece. Em lugar de carros e
uma praça cheia de figurantes, atores que circulam
entre jacarés, sucuris, onças-pintadas, capivaras;
e tuiuiús. Pouca gente sabia que o Pantanal era tão
bonito.
Uma novela pode ser
boa ou ruim, mas sabe-se que ela emplacou junto ao público
quando seus personagens começam a ser comentados nas
ruas e nas rodas de conversa. Como ocorreu com a viúva
Porcina de Roque Santeiro, o Tabaco de Roda de Fogo,
a Odete Reutemann de Vale Tudo e a Perpétua
de Tieta. A trama de Pantanal nada tem de especial
- é o velho folhetim que se repete -, mas a novela
ostenta dois personagens que caíram na boca do povo,
a selvagem e estonteante Juma de Cristiana de Oliveira e o
José Leôncio de Paulo Gorgulho - que, de tanto
sucesso na primeira fase, vai voltar na pele de outro personagem.
Rainha da Sucata tem uma constelação
de astros jamais reunida num elenco, mas até agora
nenhum dos personagens que eles interpretam mexe com o espectador.
Sucata, apesar de líder absoluta no horário,
não é comentada, não pegou.
Pantanal apresenta
atores novos que, além de se saírem bem em seus
papéis, oferecem a sensação de frescor,
de novidade. Nesse terreno, a Globo tem conseguido apenas
renovar seu estoque de rostos bonitinhos e sem sal, em papéis
irrelevantes. Ninguém jamais espera ver pintar nas
novelas da Globo uma cara pouco conhecida no time dos personagens
principais - tanto que a idade desses está muito distante
da juventude. Entre o olhar enigmático de Cristiana
Oliveira e os trejeitos de Regina Duarte, a novidade fica
com a primeira.
Há, por fim,
as decantadas cenas de nudez e erotismo de Pantanal,
expediente a que a Manchete recorre com freqüência
mas que nem sempre dá resultado. O recurso funcionou
com Maitê Proença em Dona Beija e, agora,
repete a dose com Cristiana Oliveira e suas amigas. Nudez
e erotismo ajudam a que o público masculino, mais resistente
a novelas, se interesse por Pantanal. "O telespectador
assiste à novela, vai dormir em seguida e sonha com
a Juma nua", explica um diretor de novelas da Globo.
"No dia seguinte, é claro, ele está novamente
sintonizado na Manchete."
"Exploração
do sexo" - Enquanto na Manchete a euforia é
total, engolfando desde porteiros até Adolpho Bloch,
o dono da emissora, nas emissoras concorrentes se reconhecem
as virtudes de Pantanal. "A Manchete realmente
acertou com o seu Pantanal de paisagem magnífica",
aplaude Silvio Santos, dono do SBT. José Bonifácio
de Oliveira Sobrinho, o Boni, sintetiza da seguinte maneira
sua opinião sobre a novela da Manchete: "Ela trouxe
uma paisagem nova e atraente para a televisão. Há
também uma maior ousadia no tratamento dado às
cenas de sexo, sem ultrapassar os limites do bom gosto. Embora
lenta e arrastada inegavelmente a narrativa tem apelo. Como
profissional, considero saudável uma concorrência
que busca a qualidade, especialmente quando jovens de talento,
como Jayme Monjardim Matarazzo, estão envolvidos no
processo."
Para Roberto Marinho, presidente
das Organizações Globo, há que se tomar
alguns cuidados ao se avaliar Pantanal. "A novela
não é essa estrela que a Manchete diz ter acendido",
diz ele. "Ela não é um sucesso absoluto
coisa nenhuma, pois para conseguir sucesso real seria preciso
colocar no ar uma novela no mesmo horário das da Globo,
e vencê-las." Essa concorrência direta deve
acontecer num futuro próximo. "Estamos nos preparando
agora para fazer novelas para o horário nobre",
avisa Adolpho Bloch. "Vamos apresentar uma novela às
7 horas, telejornais e uma outra novela às 8 e meia,
como a Globo", diz Silvio Santos. Roberto Marinho considera
ainda que Pantanal faz "exploração
do sexo'. Ele não entende por que, apesar dessas restrições,
a Globo não adquiriu os direitos de Pantanal quando
eles lhe foram oferecidos A Globo poderia até apresentar
a novela, mas sem as apelações sexuais",
afirma.
Subversão - Roberto
Marinho faz com tranqüilidade essas ponderações
a respeito da possibilidade de a Globo ter feito Pantanal,
mas nos escalões intermediários da Globo o caminho
da autocrítica é percorrido com amargor. Mesmo
assim, há razões compreensíveis para
a emissora ter rejeitado o projeto de Pantanal. Quando
se tem 80% de audiência com novelas, gravadas no próprio
Rio de Janeiro, é difícil aceitar a idéia
de gastar mais tempo, mais dinheiro, viajar até o Pantanal
e arriscar-se a produzir uma novela sem garantias de agradar
ao público. Mas é só quando as regras
são rompidas que ocorrem surpresas, e não só
no caso de Pantanal. Nos Estados Unidos, por exemplo,
a atual febre televisiva é o seriado Twin Peaks,
dirigido pelo cineasta David Lynch, responsável no
cinema por filmes artísticos e inovadores como O
Homem Elefante e Blue Velvet. Lynch subverteu as
regras dos seriados e o seu Twin Peaks vem obtendo
uma extraordinária repercussão.
A diferença é
que o seriado revolucionário de Lynch foi bancado pela
rede ABC, enquanto a Globo refugou ante uma novela muito mais
adaptada às normas da televisão brasileira,
como é o caso de Pantanal. O autor de Pantanal,
Benedito Ruy Barbosa, ofereceu repetidamente a novela a diversos
escalões da diretoria da Globo, que sempre a recusaram
como se fosse um projeto mirabolante de um autor excêntrico.
Agora, os responsáveis pela recusa de Pantanal,
ao lado dos caça-talentos da emissora, encarregados
da renovação do quadro de atores, estão
justamente entre os funcionários a quem a Globo atribui
um quinhão alentado de responsabilidade pela derrota
diante da Manchete no horário das 9 e meia.
Segundo Benedito Ruy Barbosa,
depois de muita insistência, José Bonifácio
de Oliveira Sobrinho autorizou um estudo de viabilidade da
novela. Dois diretores da emissora, Herval Rossano e Atilio,
Riccó, voaram para o Pantanal, mas era época
da cheia e eles voltaram no mesmo dia atestando a inviabilidade
de gravar uma novela na região. "O voto contrário
mais forte foi de Daniel Filho", informa o novelista.
"Não me eximo da responsabilidade pela perda de
Pantanal para a Manchete, mas acho que a novela ainda
hoje seria inviável na Globo", diz Herval Rossano.
"A Globo é uma empresa grande demais, em que os
atores trabalham no máximo oito horas por dia e fazem
exigências que não fazem nas outras emissoras",
ele completa.
Cristo e solidão
- Com relação a Pantanal, o grande
pavor é o que virá depois. "Não
podemos nos dar ao luxo de errar", diz Jayme Monjardim,
diretor da novela da Manchete, que desde Roque Santeiro,
na Globo, vem se revelando um dos profissionais mais capacitados
em sua especialidade. Embora Pantanal deva permanecer no ar
ainda por sete meses, a Manchete já investe verbas
e idéias na novela que irá sucedê-la.
Há alguns projetos em andamento. Um deles é
contar a vida de Jesus Cristo e seus apóstolos, na
versão fantasiosa e instigante do escritor espanhol
J.J. Benítez no best-seller Operação
Cavalo de Tróia. O outro projeto é transformar
em novela o romance Cem Anos de Solidão, do
colombiano Gabriel García Márquez. Um primeiro
contato com o escritor foi realizado pela diretora Tizuka
Yamasaki, que partirá ao seu encontro juntamente com
Monjardim, nas próximas semanas, para acertar os detalhes.
Monjardim diz que a expectativa
da Manchete quanto à sucessora de Pantanal é
imensa não apenas porque a emissora quer manter o seu
ibope em alta mas porque sabe que a Globo, além das
medidas de emergência para frear o sucesso da concorrente
neste momento, prepara chumbo grosso mais à frente.
Embora improvisação seja uma palavra freqüente
no mundo da televisão, em matéria de planejamento
as emissoras se preparam detalhadamente para estocar as rivais
em seus pontos mais vulneráveis, exatamente como em
qualquer indústria de refrigerantes ou sapatos. A Globo
se prepara para detonar, no próximo ano, um projeto
que pode mudar o rosto da telenovela brasileira.
Sob a direção
de Walter Avancini, a emissora parte para novelas internacionais,
co-produções com outros países que permitirão
que a trama e seus personagens viajem pelo mundo, oferecendo
aos telespectadores brasileiros novos cenários e informações.
Faturamento - Adepto
da tática de guerrilha, que implica mudanças
inesperadas, Silvio Santos colocou de pernas para o ar a programação
do SBT na semana passada e chamou a Globo para um duelo às
8 da noite. A partir desta segunda-feira, ele colocará
o prestigiado TJ Brasil, apresentado pelo jornalista Boris
Casoy, no mesmo horário do Jornal Nacional. É
a quinta alteração de horário do principal
telejornal do SBT em menos de dois anos. Mais para a frente
o empresário pretende apresentar uma novela depois
do telejornal, exatamente como a Globo. "Estou sentindo,
através de conversas com formadores de opinião,
que o nosso TJ Brasil tem mais credibilidade que o Jornal
Nacional e, como acredito que o público das classes
A e B chega em casa depois das 7 e meia, acho que o certo
é passar o nosso telejornal para as 8 horas', diz o
empresário. Boris Casoy topou a parada. "Com um
telejornal politicamente livre e agressivo, temos muito a
oferecer ao telespectador", diz o jornalista. "
A Globo tem a seu favor um Jornal Nacional bem feito e o hábito
dos telespectadores, mas acho que a passagem de tempo jogará
a nosso favor."
Silvio Santos reconhece que
perdeu 1 ou 2 pontos para a Manchete no horário das
9 e meia, mas que isso não é preocupante em
termos de faturamento comercial. "Quem deve estar preocpada
com faturamento é a Globo", diz silvio Santos.
"O anunciante paga para que o programa em que seu produto
aparece tenha uma determinada audiência e, quando ela
fica um ou dois pontos abaixo, ele está na margem de
segurança", explica. "Mas quando uma emissora
do porte da Globo perde mais de 10% de sua audiência
para Pantanal, aí o anunciante reclama e quer pagar
menos, e com razão, pois desembolsou uma determinada
cifra para atingir um público de determinado tamanho,
que não foi atingido."
Arca perdida - Já
na globo, apesar da correria dos últimos dias, quando
as minisséries A, E, I, O, Urca e Desejo
começaram a ser editadas a toque de caixa, decidiu-se
ir um pouco mais devagar com o andor, esperar a poeira de
Pantanal assentar e só então decidir quando
colocá-las no ar. O departamento comercial da emissora
quer ver Desejo no ar imediatamente, enquanto os responsáveis
pela programação preferem aguardar um pouco.
O A, E, I, O, Urca, prevista para durar vinte capítulos,
é uma minissérie musical que pretende reproduzir
o mundo encantado do Cassino da Urca no Rio de Janeiro dos
anos 40, com um elenco em que despontam Débora Bloch,
Beatriz Segall e Carlos Alberto Riccelli. A correria para
colocar no ar as minisséries tem causado certa apreensão
em alguns atores da Globo. "Temo que uma edição
feita às pressas possa comprometer um trabalho duro
que fizemos ao longo de vários meses", diz Vera
Fischer, que faz o principal papel feminino em Desejo,
minissérie que conta a história do escritor
Euclides da Cunha, principalmente a sua morte, assassinado
pelo amante da mulher. "Desejo é sem dúvida
um trunfo importante, mas seu sucesso é imprevisível,
pelo menos nas proporções em que está
sendo exigido", pondera a atriz, cautelosa com o que
a espera pela frente.
Para realizar seus ambiciosos
projetos na área de dramaturgia, a Globo terá
que resolver um problema que passou a incomodá-la com
particular insistência depois do sucesso de Pantanal.
A emissora não consegue rechear suas novelas com novos
valores. Segundo se comenta nos corredores da Globo, os caçadores
de talento da emissora não se lançam para valer
em busca da arca perdida, preferindo favorecer amigos e parentes
no mais puro estilo das empresas estatais. Os próprios
protegidos de astros da casa, como Gabriela Duarte e Marcelo
Fariaa - filhos de Regina Duarte e Reginaldo Faria -, passaram
pelo vídeo também em Top Model como quem
atravessa uma rua em hora de movimento - incógnitos.
Para completar, os cursos para iniciantes que a Globo mantém
também não estão rendendo os resultados
esperados.
Narizinho arrebitado -
Enquanto isso, primeiro em Kananga do Japão e
agora em Pantanal, a Manchete joga na praça
um punhado de artistas novos que têm o que dizer ao
público. O principal deles é a atriz Cristiana
Oliveira, a morena monumental de traços finos e olhar
penetrante.O elenco de apoio também exibe novidades,
como a gaúcha Luciene Adami, de 26 anos, que interpreta
a sensual e insinuante Guta, a moça da cidade grande
que choca o Pantanal com seus hábitos avançados
e encanta os telespectadores; com seus cabelos curtos e o
narizinho tão arrebitado quanto o restante de seus
dotes físicos, fartamente exibidos em cenas de nudez
explícita. Luciene só está na Manchete
porque foi dispensada pela Globo. Ela fez testes para a novela
Ti Ti Ti, de Cassiano Gabus Mendes, e chegou a gravar
várias cenas. Uma semana antes de a novela entrar no
ar, foi informada de que seria substituída porque seu
sotaque sulista era muito forte.
Entre os rostos masculinos,
Pantanal serviu para uma outra revelação
além de Paulo Gorgulho: o ator Marcos Winter. No papel
de Jove, com a dura tarefa de substituir na qualidade de principal
atração masculina a arrasadora mistura de machismo
e ingenuidade apresentada por Gorgulho como o José
Leôncio da primeira fase, o magricela Winter desempenha
com desenvoltura o menino mimado da cidade grande que aporta
no Pantanal disposto a reencontrar o pai.
Quem ganha - Enquanto
assiste às concorrentes alterar suas programações
e prepara novas investidas; para preservar o terreno conquistado,
a Manchete saboreia o sucesso. "Hoje a novela Pantanal
representa 30% de todo o faturamento publicitário
da rede", informa David Elkind, diretor financeiro da
emissora. "Em televisão, o que existe é
novela, telejornal e o resto", ele avalia. Com faturamento,
em abril, de 8,4 milhões de dólares, a diretoria
da Manchete garante que está afastada a hipótese,
levantada há mais de um ano, da venda da emissora ou
de parte de suas ações.
Embora exulte com o sucesso
de sua novela, a Manchete sabe que é impossível
abater a liderança da Globo com um tiro só.
Se depois de Pantanal ela apresentar uma novela do
quilate de Carmem (uma das piores coisas já
exibidas na televisão brasileira, quiçá
mundial), seu triunfo hoje não terá conseqüências.
Nos escalões superiores da Globo, porém, o sucesso
atual de Pantanal serviu de alerta para o fato singelo
de que o público aceita bons programas em qualquer
emissora. Nos escalões inferiores da Globo, principalmente
entre atrizes e atores, a moda é elogiar Pantanal,
com a torcida para que a Manchete obtenha cada vez mais sucesso.
Com isso, raciocina-se, abre-se um outro mercado de trabalho.
Faz sentido, mas na mente de muitos integrantes do elenco
global, no entanto, esconde-se uma velha esquizofrenia: a
de ter vergonha de falar mal da empresa que lhes paga ótimos
salários no final do mês. Nessa turma estão
aqueles que, na campanha eleitoral, apareciam no horário
gratuito do PT fazendo gracinhas com a linguagem da Globo
para atacar Collor e, minutos depois, estavam na tela da emissora
cantando que "a Globo 90 é nota 100".
Para Silvio Santos, mesmo que
o sucesso no momento esteja com a Manchete, ele se entusiasma
com o abalo na Globo e sem um pingo de maldade ou ressentimento.
" O ideal seria que todas as redes e emissoras apresentassem
bons programas, os empresários tivessem bons lucros
e os funcionários recebessem ótimos salários",
diz o empresário do SBT. "É o que acontece
nos Estados Unidos, onde as redes CBS, NBC e ABC disputam
a audiência palmo a palmo, há TV a cabo e não
falta dinheiro para ninguém. "No Brasil, o tiro
certo de Pantanal e a preocupação das
redes com o sucesso da novela e a competição
para cativar a audiência oferecem uma imagem das virtudes
da existência de concorrência. E quem sai ganhando
com essa concorrência, em primeiro lugar, é o
telespectador.
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