Trechos de Nos Passos
de Hannah Arendt, de Laure Adler
I CRIANÇA FEBRIL
Hanover,
Baixa Saxônia, janeiro de 2004. O avião sobrevoa a cidade cercada
pelas curvas do rio Leine, cavalos galopam pelos prados de um verde terno iluminado
pelo sol de inverno. O contraste com a descoberta da cidade será ainda
mais brutal. Uma longa rua de pedestres, uma sucessão de edifícios
de concreto, bancos, corretoras. A cidade natal de Hannah Arendt, onde Leibniz
se estabeleceu a partir de 1676 como bibliotecário e historiador na corte
do ducado, foi destruída pelos bombardeios na Segunda Guerra Mundial. 1
Hannah Arendt nasceu em Linden em 1906, nos arredores de uma cidade que foi arrasada.
Será essa a razão de nunca mais ter desejado retornar a seu local
de nascimento nas diversas visitas à República Federal da Alemanha
depois de dezembro de 1949? Ela passou a infância, desde os dois anos, e
a adolescência em outra cidade, igualmente destruída, a cidade de
Kant: Königsberg, na época pertencente à Prússia Oriental,
hoje, Kaliningrado. Hanover se lembra
dela. Uma rua e uma escola têm o seu nome. Todos os anos, a universidade
organiza "jornadas Hannah Arendt", nas quais filósofos do mundo
inteiro vêm comentar a sua obra. Uma sala consagrada a ela - com objetos
pessoais: sua maleta de couro marrom com suas iniciais em dourado, suas canetas,
seus diplomas e suas condecorações (protegidos com vidro, o prêmio
da universidade de Copenhague, o prêmio Sigmund Freud, o certificado da
academia de Darmstadt e a medalha da Universidade de Chicago) e todos os seus
livros traduzidos para o alemão - acaba de ser inaugurada no primeiro andar
da biblioteca municipal da cidade. Que ironia do destino para uma mulher que não
gostava dos símbolos ostentatórios de reconhecimento! Num
café no centro do bairro de pedestre, os professores Detlef Horster e Peter
Brokmeier me explicam o interesse dos estudantes por Hannah Arendt. O primeiro,
nascido em 1942, é professor de filosofia moral, o segundo, nascido em
1935, de ciências políticas. Todos os dois ministram cursos sobre
Hannah Arendt. Brokmeier lembra que em Berlim Ocidental, no final dos anos 1960,
sua reputação era péssima: "Fazíamos parte de
um grupo da esquerda radical. Depois de tê-la ignorado durante longo tempo,
até porque não era possível encontrar suas obras nas prateleiras
da biblioteca da universidade onde eu trabalhava, tive vontade de saber o que
escrevia essa mulher de quem meus camaradas falavam tão mal. Eles me diziam
que ela colocava o comunismo e o nazismo no mesmo nível. Acrescentavam
que ela confundia todos os valores e que era uma ideóloga perigosa. De
tanto ouvir falar mal, acabei ficando interessado em saber mais: quis ir às
fontes. Descobri seu livro Origens do totalitarismo. Parei logo de lê-lo.
Estava escandalizado. Foi preciso muito tempo e um longo desvio pela história
das idéias políticas para retomá-lo. Minha incompreensão
não vinha dos textos de Hannah Arendt, mas dos meus preconceitos marxistas.
Eu havia pesquisado durante longo tempo as possibilidades de tornar o marxismo
sensato. Já tinha entendido que seria difícil. Até o dia
em que percebi que seria impossível. Graças a Hannah Arendt. Foi
um pouco antes da queda do Muro." Sua
obra é incômoda, tão forte que pode mudar nossa visão
de mundo e nossas tomadas de posição, abrir portas, dar impulso.
Mas é também impossível de ser apoderada. Em movimento permanente,
o pensamento de Arendt nunca se deixa reduzir a uma opinião, uma categoria,
uma ideologia. Não se deixa fechar num grupo político. Ela mesma
tentou redefinir e circunscrever o que é a política: "A política
baseia-se na pluralidade dos homens", escreve ela em 1950. "[...] o
homem é a-político. A política surge no entre-os-homens;
portanto totalmente fora dos homens. Por conseguinte, não existe nenhuma
substância política original."2 Ela própria não
se importava em ser rotulada como de direita ou de esquerda e dava a impressão
de não se preocupar com isso. Qual era, então, a sua preocupação?
Poder pensar com toda a liberdade, alimentar-se de leituras até não
poder mais, como testemunha a sala que lhe é dedicada na biblioteca de
Hanover. Nas prateleiras, inúmeros
livros, algumas correspondências, o exemplar original de Eichmann em Jerusalém,
minuciosamente anotado, com correções em alemão e em inglês
em mais de um terço do livro - prova, caso houvesse necessidade, de que
levou em conta certas críticas que lhe foram dirigidas e de que verificou
algumas de suas afirmações após a tempestade de ódio
desencadeada pelo texto. É na
época do processo Eichmann, na primavera de 1961, que o jovem Horster escuta
pela primeira vez o nome de Hannah Arendt. Ele descobre, com o processo, a existência
dos campos de concentração. Transtornado, quer saber as razões
do silêncio familiar: "Perguntei à minha mãe: 'Por que
você nunca me falou dos campos?' Ela me respondeu gritando: Nunca falaremos
sobre isso em casa.' No dia seguinte, triunfante, minha avó diria que,
no processo, uma jornalista americana chamada Hannah Arendt acabava de explicar
que os judeus também eram culpados. 'Enfim uma mulher que diz a verdade.'"
Horster ficou sabendo nesse mesmo dia que sua mãe e sua avó haviam
pertencido ao partido nazista. Linden,
o local de nascimento de Hannah, é hoje um subúrbio próximo
de Hanover. Antes da Primeira Guerra Mundial, Linden era um grande povoado de
mais de vinte mil habitantes, onde vivia uma população operária.
Atualmente, Linden se tornou um bairro chique, meio burguês, onde vendedores
de frutas e legumes orgânicos dividem a paisagem com galerias de arte contemporânea.
Linden foi poupada durante a guerra e o edifício burguês dos anos
de 1880 onde Hannah nasceu, na pequena praça do mercado, não foi
restaurado. Uma placa comemorativa foi pendurada, mas aqui ninguém sabe
quem é Hannah. Tive uma idéia de como era o bairro na época
de seu nascimento conversando com o farmacêutico que mora no térreo
do imóvel. Ele some nos fundos da loja e volta com uma foto sépia
do edifício no início do século. À exceção
das charretes e da arquitetura rococó do quiosque do jornaleiro, nada mudou
nesse ambiente sossegado e pequeno-burguês onde Hannah viveu seus dois primeiros
anos de vida. De seu pai, Paul Arendt,
sabe-se que trabalhou numa usina de máquinas agrícolas de Linden.3
Ele deixara sua cidade natal de Königsberg para ir a Berlim, onde viveu os
primeiros anos de seu casamento. Paul fizera seus estudos na Albertina, a prestigiosa
universidade de Königsberg, de onde saiu formado. Único filho homem,
ele tinha uma irmã, Henriette, que Max tivera em seu primeiro casamento,
com Johanna. Depois da morte desta, Max casara com sua cunhada Klara, conhecida
pelo mau-caráter, a intolerância e a arrogância. Terá
sido para fugir dessa madrasta, que era também sua tia, que Paul propôs
à sua jovem esposa, Martha, deixar o ambiente, sem dúvida protetor,
esclarecido, culto, porém pesado, de sua própria família
para ir morar em Linden? Martha também nasceu em Königsberg. Seu pai,
Jacob Cohn, nascido na atual Lituânia em 1830, imigrou em 1852 e, uma vez
que Königsberg se tornava um ponto estratégico para o comércio
de chá, abriu uma sociedade de importação. Jacob revelou
um grande talento comercial, optando por importar chás russos em vez de
ingleses, que estavam na época em posição de força
no mercado. Foi assim que a Sociedade J. N. Cohn se tornou a primeira sociedade
de chá da cidade. Sua mãe, Fanny Spiero, era uma emigrante russa
com quem Jacob casou-se em segundas núpcias. Ele teve três filhos
do primeiro casamento, e quatro com Fanny. Que tribo! Quando morreu, em 1906,
deixou um capital de peso para a avó de Hannah e seus sete filhos. Fanny
falava alemão com um forte sotaque russo. Pode-se vê-la vestida com
roupas eslavas bem rústicas nas raras fotografias do álbum de família
que Edna, a sobrinha de Hannah, me autorizou a consultar. Martha tem o jeito de
uma moça firme, decidida, com os pés no chão. Ela não
sorri, e até parece séria demais. Ao seu lado, Fanny. A avó
e a mãe de Hannah eram e continuaram sendo sempre muito próximas.
Todas as duas perderam seus maridos muito jovens. A viuvez as aproximava. A família
de Hannah teve, sob vários aspectos, a aparência de um clã
feminino. Juntas, as mulheres se unem contra a adversidade, vivem juntas, viajam
em férias, dividem tudo. Hannah herdou a personalidade da mãe: corajosa,
independente, orgulhosa, avessa à mentira, às vezes correndo o risco
de chocar, sem medo de nada nem de ninguém. "Temperamento
vivo" Hannah, Johannah no estado
civil, nasce em casa, como de costume na época, em 14 de outubro de 1906,
um domingo, às 21h30, depois de vinte e duas horas de contrações.
A mãe, num caderno intitulado Unser Kind, "Nosso bebê",
conservado nos Arquivos Arendt na Biblioteca do Congresso, em Washington, anotou
a evolução do bebê a partir de 3 de dezembro de 1906. Esse
diário, uma espécie de caderno escolar, é um documento manuscrito
no qual Martha anotava a evolução física e psicológica
da filha. Ele acompanhou Martha aos Estados Unidos, e Hannah Arendt o guardou
preciosamente. Hannah, desde as primeiras semanas de vida, sofre de eczema. A
mãe encontra vários defeitos na filha: mãos e pés
grandes demais, voz rouca e muita excitação. Hannah
dorme profundamente desde o nascimento. Adulta, conservaria o prazer desse sono
pesado. Ela sorri na sexta semana, "brilha" desde a sétima. A
mãe adora essa palavra. Hannah, pequenina, expressa as suas emoções:
ri com as canções alegres, chora com as sentimentais. A mãe
percebe que ela precisa dos outros: "Ela não gosta de ficar sozinha." Aos
onze meses, Hannah cantarola bastante, com uma voz forte. Aos doze, adora ficar
ao lado do piano, escutar e cantar. Aos quinze meses - é cedo! - sabe responder
à pergunta: "Quem é você?" Aos dois anos e meio,
confundem-na com uma criança de quatro anos. Seu temperamento é
muito vivo, muito alegre, e sua curiosidade enorme. A mãe observa o quanto
a pequena, "muito doce", gosta de se encolher em seus braços. Em
1909, a família sai de Linden rumo a Königsberg. Mais tarde, a cidade
mudaria de nome, de população, de configuração: em
1946, data da anexação de uma parte da Prússia Oriental à
União Soviética, passa a se chamar Kaliningrado, em homenagem a
Kalinin, antigo presidente da URSS. Hoje, é um enclave russo cercado pela
Polônia e a Lituânia, países membros da União Européia.
Hannah nunca pôde voltar aos lugares onde passou a infância e a adolescência,
pois a cidade, à beira do mar Báltico, transformada num importante
porto militar, era proibida aos estrangeiros. É preciso ir ao Instituto
Histórico Alemão consultar antigos atlas fotográficos e livros
de história para tentar imaginar a atmosfera dessa cidade provinciana e
sossegada que era Königsberg nos tempos da juventude de Hannah. Num desses
livros de imagens, um pintor de domingo imortalizou uma cena de rua da cidade
no início do século. O tempo está bonito. É verão.
As mulheres vestem saias compridas, camisas de renda, grandes lenços na
cabeça. Os homens estão todos de terno e gravata e chapéu.
No terraço de um café, uma mãe e sua filha têm os lenços
abaixados sobre a nuca mas continuam de luvas. A mãe observa os transeuntes,
a filha lê o jornal. Em Essen,
na Renânia do Norte-Vestfália, na casa de Edna, a sobrinha de Hannah,
encontro num cartão a foto da menina no colo do avô Max, que a adorava:
no pátio em frente à casa, ela sorri para a objetiva nos braços
do ancião. Martha não gosta de se separar da filha. No dia 19 de
fevereiro de 1911, ela anota: "Hannah suporta muito bem o inverno. [...]
Temperamento: muito vivo, interessa-se por tudo o que a rodeia. Nenhum interesse
pelas bonecas [...] Com seus quatro anos, ela é uma pequena tão
grande e segura que as pessoas a tomam por uma menina que vai à escola."4 "Ela
tem cabelos compridos e muito bonitos. É linda e saudável. Canta
muito, quase com paixão, mas com muitas notas falsas [...] Não vejo
nenhum talento artístico e nenhuma habilidade manual: por outro lado, vejo
uma precocidade intelectual e talvez uma capacidade particular, como por exemplo
o senso de orientação, a memória e uma capacidade de observação
afiada. Mas antes de tudo um enorme interesse pelas letras e os livros..." Martha
e Paul se estabelecem em Königsberg em 1910 devido à doença
desse último, que logo o impedirá de trabalhar. Nunca, no caderno
da mãe, o nome da doença é mencionado, e isso por um motivo:
ela é vergonhosa. O clã familiar, tanto do lado do pai quanto do
lado da mãe, será solidário a essa jovem obrigada a tomar
conta do marido dia e noite. As duas
famílias são judias liberais, cultas e com uma boa situação
financeira. Martha, como a maioria das mulheres de sua classe e geração,
fez seus estudos em casa com um preceptor, e depois foi estudar música
e língua na França durante três anos. Apaixonou-se pelas novas
teses sobre educação que preconizavam o respeito pela individualidade
das crianças em vez de aniquilar sua personalidade pela obediência.
Era ligada a um grupo de mulheres que tinham aberto jardins de infância
e escolas de ensino fundamental de um novo modelo. Sem dúvida, é
essa a razão pela qual decide escrever este diário íntimo
sobre a filha, um verdadeiro diário de bordo dos primeiros anos dessa menina
que ela considera, desde cedo, uma pessoa especial. Martha,
como o marido, é mais culta e mais engajada do que os próprios pais.
Todos os dois, socialistas desde a juventude, compartilham o ideal de um mundo
mais igualitário e aderem a um partido ainda ilegal na Alemanha. Paul e
Martha vivem no fervor da alimentação intelectual. Hannah falará
até o fim da vida da dívida com o pai, que lhe permitia pegar os
livros de sua biblioteca, dentre os quais os clássicos gregos e latinos.6
Hannah não tem dificuldade em aprender a ler. A mãe se dá
conta, quando a coloca num jardim de infância, de que ela já havia
aprendido a ler sozinha. Ela passa o tempo imitando a professora, o que deixa
Martha satisfeita. |