| Trecho
do livro Beethoven, a Música e a Vida, de Lewis Lockwood O
MUNDO INTERIOR E O MUNDO EXTERIOR DE BEETHOVEN Isolamento
e surdez Dois
elementos da vida doméstica de Beethoven preencheram os últimos
dez anos como motivos persistentes de uma das suas obras mais importantes: o isolamento
e a obsessão. À medida que seu ouvido se deteriorava, ele não
podia mais compreender o que as pessoas diziam sem a ajuda de uma corneta acústica,
e, mesmo assim, às vezes, de maneira precária. Acabou surgindo a
necessidade de as pessoas escreverem o assunto e o propósito de suas conversas
com ele. Então, a partir de 1818, Beethoven manteve blocos de papel e lápis
prontos para os visitantes e os amigos registrarem suas declarações,
mensagens e questões, em lugar de gritá-las. Beethoven lia o que
eles escreviam e, em geral, respondia verbalmente, não escrevendo, a menos
que eles quisessem que o comentário permanecesse confidencial, como ele
mesmo queria de vez em quando. De uma maneira geral, os "Cadernos de Conversação",
como foram chamados, consistiam em comunicações de mão única.
Beethoven e aqueles que ficavam ao seu lado conseguiram juntar muitos desses cadernos
ao longo dos anos, entre 1818 e 1827, e mesmo em sua forma unilateral eles fornecem
uma reflexão sobre sua vida privada e os tópicos de interesse, dele
e do seu círculo. Eles abordam com assuntos pessoais e gerais, desde música
até política, de preços de vinhos a planos de publicação,
de mexericos a opiniões sérias, emitidas pelo compositor e por aqueles
que o cercavam. Como exemplo, em fevereiro de 1820, Carl Bernard, jornalista que
freqüentava o círculo de Beethoven, escreveu que "a ópera
de Meyerbeer (Emma von Leicester) fracassou feio - é pura imitação
de Rossini". Uns meses depois, o mesmo Bernard deu a Beethoven sua opinião
de que lorde Byron "certamente tem mais imaginação e sentimentos
mais profundos do que qualquer outro poeta vivo. The Corsar (O corsário),
sobretudo, daria uma boa ópera".1 Em 1826 está registrada uma
conversa notável - ou melhor, um lado dela - entre Beethoven e Karl Holz
sobre o "caráter" na música instrumental: Isso
é algo de que sempre sinto falta na música instrumental de Mozart. [
---- ] Especialmente a música instrumental. [ ---- ] Um caráter
específico numa obra instrumental, ou seja, não encontramos em suas
obras uma representação análoga a um estado mental, como
encontramos na sua. [ ---- ] Eu sempre me pergunto, quando escuto algo,
o que isso significa? [ ---- ] Suas obras têm um caráter
realmente exclusivo, do princípio ao fim. [ ---- ] Eu explicaria
a diferença entre a obra instrumental de Mozart e a sua desta forma: um
poeta poderia escrever somente um poema para uma das suas obras; enquanto poderia
escrever três ou quatro poemas análogos para uma obra de Mozart.2
Algumas
vezes Beethoven usava as folhas como memorandos, ou para anotar assuntos que encontrava
nos jornais da época. Em outros momentos, anotava listas de artigos que
precisava comprar, ou escrevia notas curtas para si mesmo sobre coisas a serem
lembradas. Por exemplo, em 1820, "perguntar a Schlemmer [seu copista de longa
data] onde ele consegue afiar suas facas", seguido por "inquirir sobre
o custo mensal de um quarto no Oliva's" e, até mesmo, "o que
eles usam atualmente por baixo, no lugar de camiseta". O
destino dos "Cadernos de Conversação"está estreitamente
ligado à reputação póstuma do secretário e
primeiro biógrafo de Beethoven, Anton Schindler, que veio a possuí-los
após a morte do compositor, em março de 1827, e depois os manteve
por muitos anos antes de vendê-los à Biblioteca Real de Berlim, em
1846. Nos anos 1970, o crítico musical e erudito inglês Peter Stadlen
estabeleceu que um bom número de anotações dos cadernos tinha
sido forjado por Schindler depois da morte de Beethoven. Toda a extensão
das falsificações de Schindler foi mais tarde documentada por uma
equipe de estudiosos, que trabalharam numa edição completa dos textos
alemães dos "Cadernos de Conversação". Os itens
forjados foram então identificados e listados retroativamente, começando
com o volume 7 dos dez volumes da edição padrão dos textos
em alemão. Embora
a surdez de Beethoven para a conversa estivesse se tornando pior, ele ainda conseguia
improvisar, e podia tentar reger uma de suas obras orquestrais que estivesse sendo
produzida, podendo até mesmo seguir o som de um quarteto de cordas - talvez
somente quando era tocada uma obra sua, mas não podemos ter certeza. Há
uma história notável sobre o seu Quarteto Opus 127, quando, depois
de uma estréia malsucedida, liderada por Schuppanzigh em março de
1825, foi novamente interpretado na presença de Beethoven. O novo primeiro
violino, Joseph Böhm, escreveu mais tarde: O
infeliz estava tão surdo que não podia mais ouvir o som celestial
das suas composições. E, mesmo assim, ensaiar em sua presença
não era fácil. Com uma atenção cerrada, seus olhos
seguiam os arcos, e assim ele era capaz de notar as menores flutuações
no tempo ou no ritmo, e corrigi-las na hora. No fechamento do último movimento
desse quarteto havia um meno vivace que me parecia enfraquecer o efeito geral.
No ensaio, conseqüentemente, avisei que o tempo original deveria ser mantido,
o que foi feito, para melhorar o efeito. Beethoven, agachado num canto, não
ouviu nada, mas olhava com concentrada atenção. Depois do último
toque do arco, ele disse laconicamente: "Que permaneça assim",
foi até as estantes e riscou a anotação meno vivace nas quatro
partes."5 Recentemente,
um estudioso de medicina encontrou evidências de que a surdez de Beethoven,
mesmo nos últimos anos, não era absoluta, mas flutuava consideravelmente.6
A utilização de uma placa de ressonância no piano, juntamente
com a corneta auditiva quando tocava e improvisava, é confirmada por Friedrich
Wieck, que o visitou em 1826. A "placa de ressonância" era um
dispositivo condutor de som que amplificava os sons quando colocado no piano,
embora pudesse causar um efeito embaralhado quando as cordas eram tocadas. Uma
famosa revelação pública da surdez de Beethoven aconteceu
na primeira apresentação da Nona sinfonia, em 7 de maio de 1824,
no Kärntnerthortheater. Na presença de uma grande audiência,
que incluía a família real, Beethoven tentou reger a sinfonia, enquanto
os músicos concordaram secretamente em não seguir sua marcação,
mas a de Ignaz Umlauf, que estava de pé, onde os interpretes podiam vê-lo.
Ou no final do scherzo, ou no final da sinfonia (não temos certeza de quando),
em meio a um aplauso estrondoso, Beethoven se manteve debruçado sobre sua
partitura, até que o contralto, Caroline Unger, puxou sua manga e apontou
para a animada platéia - então ele se virou e se curvou diante de
todos. O
declínio progressivo da saúde de Beethoven ocorria paralelamente
ao seu crescente retraimento psicológico e ao aprofundamento da sua ansiedade.
O retraimento para dentro de si mesmo e para o mundo interior da sua música
foi provocado parcialmente pelas exigências intelectuais e emocionais que
continuou a fazer a si mesmo para compor as ultimas sonatas para piano, a Nona
sinfonia, a Missa solemnis e os últimos quartetos. Mas foi também
um ato de autodefesa contra o mundo exterior, que agora o perseguia mais avidamente
do que nunca, à medida que sua fama continuava a se expandir e sua reclusão
se tornava parte da sua lenda crescente. Os visitantes o procuravam em Viena ou
nos balneários onde ele se refugiava, ansiosos para estar entre aqueles
que viram e falaram com o grande mestre enquanto ele ainda estava vivo. A "peregrinação
a Beethoven", como o jovem Wagner mais tarde a chamou, tornou-se uma experiência
ansiada em Viena, uma aventura altamente valorizada pelos músicos, pelas
pessoas cultivadas e instruídas, e por aqueles que queriam a notoriedade
de escrever sobre uma eventual visita a Beethoven em qualquer periódico
cultural. Wagner denunciou essa prática num panfleto de 1840, "Uma
peregrinação a Beethoven", onde vilipendiou e difamou um inglês
imaginário que queria a glória de visitar Beethoven apesar de não
entender nada do que fosse importante sobre Beethoven como artista.9 dos membros
regulares do círculo de Beethoven de 1820 em diante faziam parte, em épocas
variadas, seu irmão Johann, seu sobrinho Karl, o onipresente Schindler,
o violinista Karl Holz (que conseguiu desalojar Schindler como confidente íntimo)
e vários escritores, músicos e editores cujos nomes aparecem nos
"Cadernos de Conversação". Entre os visitantes, para mencionar
somente aqueles registrados nas anotações, incluíam-se os
compositores Ludwig Spohr, Carl Maria von Weber e Gioacchino Rossini; entre aqueles
que não foram registrados, talvez o jovem Schubert, que vivia e trabalhava
reverenciando Beethoven durante os anos em que morou na sua vizinhança,
em Viena.10 Entre os visitantes da Inglaterra incluíam-se Sir George Smart,
Sir John Russell, Cipriani Potter e Richard Ford, e, das fileiras literárias,
Ludwig Rellstab e Franz Grillparzer, cuja oratória fúnebre para
Beethoven defendeu o compositor da acusação de misantropia, que
deve ter sido um mexerico familiar em Viena. Em
1817, Beethoven escreveu para Wilhelm Girard, um poeta amador, dizendo que suas
doenças crônicas haviam piorado nos últimos quatro anos.11
Ele teve várias doenças em certos períodos de tempo: durante
quatro meses no final de 1816 e início de 1817, novamente em 1819, e por
muitas semanas em 1821 e 1822. 12 No início de 1823 ele começou
a ter problemas com a visão e sofreu com sintomas de resfriados e dores
reumáticas, e começaram a aparecer sinais de icterícia, manifestada
pelo tom amarelo da sua pele. Suas cartas falam mais e mais sobre sofrimentos
físicos, e transmitem uma atmosfera de crescente enfermidade durante o
período entre 1825 e 1826, quando estava trabalhando com intensa concentração
nos últimos quartetos, a epítome da sua vida artística. Nos
três anos anteriores à sua morte, em março de 1827, os intervalos
entre as doenças se tornaram mais curtos. Como Edward Larkin explicou em
seu equilibrado relatório sobre o histórico médico de Beethoven,
"durante 1825, repentinamente ele começou a parecer muito mais velho,
e sua pele se tornou permanentemente amarelada".13 Em dezembro de 1826, ele
começou a sofrer de graves sintomas de doença do fígado e
sangramento intestinal. Os médicos não conseguiram encontrar tratamento
adequado, e ele morreu em 26 de março de 1827, depois de uma doença
final de quatro meses. Sua
progressiva instabilidade se tornou grotesca naqueles anos. Uma vez, no início
dos anos 1820, saindo para uma caminhada, ele seguiu um caminho adjacente a um
canal e, finalmente, sem saber aonde estava indo e sem nada para comer, continuou
caminhando até uma pequena represa do canal, em Ungerthor. Confuso e cansado,
começou a olhar através das janelas de algumas casas, e, como estava
vestido muito pobremente, alguns moradores, alarmados, chamaram a polícia.
Quanto mais ele afirmava que era Beethoven, menos eles acreditavam: "Você
é um vagabundo; Beethoven não tem essa aparência", disse
o policial, e o prendeu. Finalmente, chamaram o diretor musical da pequena cidade
vizinha de Wiener Neustadt, um certo Herzog, que o identificou, e então,
com piedade e tristeza, eles lhe deram umas roupas decentes e o mandaram para
casa.14 Do mesmo jeito, quando Beethoven foi visitar seu sobrinho Karl no hospital,
em 1826, foi confundido com um "velho camponês", por causa das
roupas surradas e da aparência decrépita.
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