Livros
8 de dezembro de 2004
 
 

Trecho do livro Beethoven, a Música
e a Vida,
de Lewis Lockwood

O MUNDO INTERIOR E O MUNDO EXTERIOR DE BEETHOVEN

Isolamento e surdez

Dois elementos da vida doméstica de Beethoven preencheram os últimos dez anos como motivos persistentes de uma das suas obras mais importantes: o isolamento e a obsessão. À medida que seu ouvido se deteriorava, ele não podia mais compreender o que as pessoas diziam sem a ajuda de uma corneta acústica, e, mesmo assim, às vezes, de maneira precária. Acabou surgindo a necessidade de as pessoas escreverem o assunto e o propósito de suas conversas com ele. Então, a partir de 1818, Beethoven manteve blocos de papel e lápis prontos para os visitantes e os amigos registrarem suas declarações, mensagens e questões, em lugar de gritá-las. Beethoven lia o que eles escreviam e, em geral, respondia verbalmente, não escrevendo, a menos que eles quisessem que o comentário permanecesse confidencial, como ele mesmo queria de vez em quando. De uma maneira geral, os "Cadernos de Conversação", como foram chamados, consistiam em comunicações de mão única. Beethoven e aqueles que ficavam ao seu lado conseguiram juntar muitos desses cadernos ao longo dos anos, entre 1818 e 1827, e mesmo em sua forma unilateral eles fornecem uma reflexão sobre sua vida privada e os tópicos de interesse, dele e do seu círculo. Eles abordam com assuntos pessoais e gerais, desde música até política, de preços de vinhos a planos de publicação, de mexericos a opiniões sérias, emitidas pelo compositor e por aqueles que o cercavam. Como exemplo, em fevereiro de 1820, Carl Bernard, jornalista que freqüentava o círculo de Beethoven, escreveu que "a ópera de Meyerbeer (Emma von Leicester) fracassou feio - é pura imitação de Rossini". Uns meses depois, o mesmo Bernard deu a Beethoven sua opinião de que lorde Byron "certamente tem mais imaginação e sentimentos mais profundos do que qualquer outro poeta vivo. The Corsar (O corsário), sobretudo, daria uma boa ópera".1 Em 1826 está registrada uma conversa notável - ou melhor, um lado dela - entre Beethoven e Karl Holz sobre o "caráter" na música instrumental:

Isso é algo de que sempre sinto falta na música instrumental de Mozart.
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Especialmente a música instrumental.
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Um caráter específico numa obra instrumental, ou seja, não encontramos em suas obras uma representação análoga a um estado mental, como encontramos na sua.
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Eu sempre me pergunto, quando escuto algo, o que isso significa?
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Suas obras têm um caráter realmente exclusivo, do princípio ao fim.
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Eu explicaria a diferença entre a obra instrumental de Mozart e a sua desta forma: um poeta poderia escrever somente um poema para uma das suas obras; enquanto poderia escrever três ou quatro poemas análogos para uma obra de Mozart.2

Algumas vezes Beethoven usava as folhas como memorandos, ou para anotar assuntos que encontrava nos jornais da época. Em outros momentos, anotava listas de artigos que precisava comprar, ou escrevia notas curtas para si mesmo sobre coisas a serem lembradas. Por exemplo, em 1820, "perguntar a Schlemmer [seu copista de longa data] onde ele consegue afiar suas facas", seguido por "inquirir sobre o custo mensal de um quarto no Oliva's" e, até mesmo, "o que eles usam atualmente por baixo, no lugar de camiseta".

O destino dos "Cadernos de Conversação"está estreitamente ligado à reputação póstuma do secretário e primeiro biógrafo de Beethoven, Anton Schindler, que veio a possuí-los após a morte do compositor, em março de 1827, e depois os manteve por muitos anos antes de vendê-los à Biblioteca Real de Berlim, em 1846. Nos anos 1970, o crítico musical e erudito inglês Peter Stadlen estabeleceu que um bom número de anotações dos cadernos tinha sido forjado por Schindler depois da morte de Beethoven. Toda a extensão das falsificações de Schindler foi mais tarde documentada por uma equipe de estudiosos, que trabalharam numa edição completa dos textos alemães dos "Cadernos de Conversação". Os itens forjados foram então identificados e listados retroativamente, começando com o volume 7 dos dez volumes da edição padrão dos textos em alemão.

Embora a surdez de Beethoven para a conversa estivesse se tornando pior, ele ainda conseguia improvisar, e podia tentar reger uma de suas obras orquestrais que estivesse sendo produzida, podendo até mesmo seguir o som de um quarteto de cordas - talvez somente quando era tocada uma obra sua, mas não podemos ter certeza. Há uma história notável sobre o seu Quarteto Opus 127, quando, depois de uma estréia malsucedida, liderada por Schuppanzigh em março de 1825, foi novamente interpretado na presença de Beethoven. O novo primeiro violino, Joseph Böhm, escreveu mais tarde:

O infeliz estava tão surdo que não podia mais ouvir o som celestial das suas composições. E, mesmo assim, ensaiar em sua presença não era fácil. Com uma atenção cerrada, seus olhos seguiam os arcos, e assim ele era capaz de notar as menores flutuações no tempo ou no ritmo, e corrigi-las na hora. No fechamento do último movimento desse quarteto havia um meno vivace que me parecia enfraquecer o efeito geral. No ensaio, conseqüentemente, avisei que o tempo original deveria ser mantido, o que foi feito, para melhorar o efeito. Beethoven, agachado num canto, não ouviu nada, mas olhava com concentrada atenção. Depois do último toque do arco, ele disse laconicamente: "Que permaneça assim", foi até as estantes e riscou a anotação meno vivace nas quatro partes."5

Recentemente, um estudioso de medicina encontrou evidências de que a surdez de Beethoven, mesmo nos últimos anos, não era absoluta, mas flutuava consideravelmente.6 A utilização de uma placa de ressonância no piano, juntamente com a corneta auditiva quando tocava e improvisava, é confirmada por Friedrich Wieck, que o visitou em 1826. A "placa de ressonância" era um dispositivo condutor de som que amplificava os sons quando colocado no piano, embora pudesse causar um efeito embaralhado quando as cordas eram tocadas.

Uma famosa revelação pública da surdez de Beethoven aconteceu na primeira apresentação da Nona sinfonia, em 7 de maio de 1824, no Kärntnerthortheater. Na presença de uma grande audiência, que incluía a família real, Beethoven tentou reger a sinfonia, enquanto os músicos concordaram secretamente em não seguir sua marcação, mas a de Ignaz Umlauf, que estava de pé, onde os interpretes podiam vê-lo. Ou no final do scherzo, ou no final da sinfonia (não temos certeza de quando), em meio a um aplauso estrondoso, Beethoven se manteve debruçado sobre sua partitura, até que o contralto, Caroline Unger, puxou sua manga e apontou para a animada platéia - então ele se virou e se curvou diante de todos.

O declínio progressivo da saúde de Beethoven ocorria paralelamente ao seu crescente retraimento psicológico e ao aprofundamento da sua ansiedade. O retraimento para dentro de si mesmo e para o mundo interior da sua música foi provocado parcialmente pelas exigências intelectuais e emocionais que continuou a fazer a si mesmo para compor as ultimas sonatas para piano, a Nona sinfonia, a Missa solemnis e os últimos quartetos. Mas foi também um ato de autodefesa contra o mundo exterior, que agora o perseguia mais avidamente do que nunca, à medida que sua fama continuava a se expandir e sua reclusão se tornava parte da sua lenda crescente. Os visitantes o procuravam em Viena ou nos balneários onde ele se refugiava, ansiosos para estar entre aqueles que viram e falaram com o grande mestre enquanto ele ainda estava vivo. A "peregrinação a Beethoven", como o jovem Wagner mais tarde a chamou, tornou-se uma experiência ansiada em Viena, uma aventura altamente valorizada pelos músicos, pelas pessoas cultivadas e instruídas, e por aqueles que queriam a notoriedade de escrever sobre uma eventual visita a Beethoven em qualquer periódico cultural. Wagner denunciou essa prática num panfleto de 1840, "Uma peregrinação a Beethoven", onde vilipendiou e difamou um inglês imaginário que queria a glória de visitar Beethoven apesar de não entender nada do que fosse importante sobre Beethoven como artista.9 dos membros regulares do círculo de Beethoven de 1820 em diante faziam parte, em épocas variadas, seu irmão Johann, seu sobrinho Karl, o onipresente Schindler, o violinista Karl Holz (que conseguiu desalojar Schindler como confidente íntimo) e vários escritores, músicos e editores cujos nomes aparecem nos "Cadernos de Conversação". Entre os visitantes, para mencionar somente aqueles registrados nas anotações, incluíam-se os compositores Ludwig Spohr, Carl Maria von Weber e Gioacchino Rossini; entre aqueles que não foram registrados, talvez o jovem Schubert, que vivia e trabalhava reverenciando Beethoven durante os anos em que morou na sua vizinhança, em Viena.10 Entre os visitantes da Inglaterra incluíam-se Sir George Smart, Sir John Russell, Cipriani Potter e Richard Ford, e, das fileiras literárias, Ludwig Rellstab e Franz Grillparzer, cuja oratória fúnebre para Beethoven defendeu o compositor da acusação de misantropia, que deve ter sido um mexerico familiar em Viena.

Em 1817, Beethoven escreveu para Wilhelm Girard, um poeta amador, dizendo que suas doenças crônicas haviam piorado nos últimos quatro anos.11 Ele teve várias doenças em certos períodos de tempo: durante quatro meses no final de 1816 e início de 1817, novamente em 1819, e por muitas semanas em 1821 e 1822. 12 No início de 1823 ele começou a ter problemas com a visão e sofreu com sintomas de resfriados e dores reumáticas, e começaram a aparecer sinais de icterícia, manifestada pelo tom amarelo da sua pele. Suas cartas falam mais e mais sobre sofrimentos físicos, e transmitem uma atmosfera de crescente enfermidade durante o período entre 1825 e 1826, quando estava trabalhando com intensa concentração nos últimos quartetos, a epítome da sua vida artística.

Nos três anos anteriores à sua morte, em março de 1827, os intervalos entre as doenças se tornaram mais curtos. Como Edward Larkin explicou em seu equilibrado relatório sobre o histórico médico de Beethoven, "durante 1825, repentinamente ele começou a parecer muito mais velho, e sua pele se tornou permanentemente amarelada".13 Em dezembro de 1826, ele começou a sofrer de graves sintomas de doença do fígado e sangramento intestinal. Os médicos não conseguiram encontrar tratamento adequado, e ele morreu em 26 de março de 1827, depois de uma doença final de quatro meses.

Sua progressiva instabilidade se tornou grotesca naqueles anos. Uma vez, no início dos anos 1820, saindo para uma caminhada, ele seguiu um caminho adjacente a um canal e, finalmente, sem saber aonde estava indo e sem nada para comer, continuou caminhando até uma pequena represa do canal, em Ungerthor. Confuso e cansado, começou a olhar através das janelas de algumas casas, e, como estava vestido muito pobremente, alguns moradores, alarmados, chamaram a polícia. Quanto mais ele afirmava que era Beethoven, menos eles acreditavam: "Você é um vagabundo; Beethoven não tem essa aparência", disse o policial, e o prendeu. Finalmente, chamaram o diretor musical da pequena cidade vizinha de Wiener Neustadt, um certo Herzog, que o identificou, e então, com piedade e tristeza, eles lhe deram umas roupas decentes e o mandaram para casa.14 Do mesmo jeito, quando Beethoven foi visitar seu sobrinho Karl no hospital, em 1826, foi confundido com um "velho camponês", por causa das roupas surradas e da aparência decrépita.

 

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