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Em estado de graça

Em viagem à Europa, FHC esbanja
intimidade com os poderosos. O
país agradece. O eleitorado aplaude

Maurício Lima

Fotos: AFP

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Maurício Lima

Fotos: AFP

FHC discursa na Assembléia Nacional da França: nove interrupções por aplausos

O presidente Fernando Henrique está habituado a fazer sucesso em viagens ao exterior. Na semana passada, superou-se. Seu giro de seis dias pela Europa enfileirou alguns recordes. Na Espanha, fez o discurso mais elogiado entre quinze chefes de Estado que debatiam sobre autoritarismo e democracia. Na França, foi o primeiro presidente da América Latina a ocupar a tribuna da célebre Assembléia Nacional, onde, há mais de 200 anos, se sacramentou a igualdade entre os cidadãos. Foi interrompido nove vezes por aplausos, inclusive da esquerda francesa. Entre um compromisso e outro, foi convidado pelo primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, a dar uma esticada fora do roteiro oficial e pernoitar em Chequers, a tradicional residência campestre dos governantes ingleses. Também foi a primeira vez que um presidente brasileiro recebeu tal deferência. Em Chequers, FHC bebeu uma taça de champanhe Pol Roger, a preferida de Winston Churchill, o primeiro-ministro que comandou os britânicos na II Guerra Mundial, e ficou impressionado com o tamanho da biblioteca e o domínio de Blair sobre a realidade do Afeganistão. À noite, receberam uma visita rápida de Bill Clinton, ex-presidente americano. "Só não podem espalhar que jogamos pôquer", disse Fernando Henrique Cardoso a um interlocutor, que ficou sem saber se era verdade ou piada.

Nunca um presidente brasileiro desfrutou tanta intimidade com os dirigentes mais poderosos do planeta. FHC é recebido com deferência reservada apenas a estadistas de influência mundialmente reconhecida, o que é curioso para um político brasileiro. O Brasil cresceu muito, mas ainda é visto pelo Primeiro Mundo como um país com mais potencial do que realizações maduras nos campos econômico, político e social. Fernando Henrique carrega o lastro de uma nação de destaque entre os países emergentes, mas a atenção que lhe dedicam nas grandes capitais do mundo é desproporcional ao peso brasileiro no cenário internacional. Na semana passada, comprovou-se mais uma vez a razão dessa receptividade calorosa a FHC. Seu pronunciamento na Assembléia Nacional francesa não foi mais um discurso para preencher o tempo numa ocasião de cerimônia. Criticou os países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, pela imposição de suas regras às outras nações e pela maneira como julgam natural uma ordem mundial sem igualdade verdadeira entre os países. Atacou ao mesmo tempo o terrorismo, que vem abalando o mundo desde 11 de setembro, e a intolerância dos países mais ricos e poderosos. Defendeu a criação de um Estado palestino com a autoridade de presidente de um país que, em 1948, apoiou a constituição do Estado de Israel. Seu discurso, severo mas equilibrado, conquistou-lhe elogios numa profusão que no Brasil ele não costuma receber.

 

FHC e Lionel Jospin: convite para discurso foi o primeiro a um presidente latino-americano

Após a turnê diplomática pela Europa, FHC estará na próxima sexta-feira nos Estados Unidos para um encontro com seu colega americano, George W. Bush. No dia seguinte, fará o discurso de abertura da assembléia das Nações Unidas, a mais importante depois dos ataques terroristas aos EUA. Essas viagens fazem bem ao ego do presidente, mas também ao país. Dão mais visibilidade às posições brasileiras e despertam confiança internacional. Se o país é governado por um presidente com o perfil milico-presepeiro do venezuelano Hugo Chávez, a desconfiança é grande. Se é governado por um acadêmico respeitável, o tratamento tende a ser outro. No ano passado, o Brasil recebeu mais de 30 bilhões de dólares do exterior. Evidentemente, o resultado não se deve aos discursos de Fernando Henrique Cardoso. "Mas que ajuda, ajuda", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.

O que faz o presidente de um país periférico desfrutar a intimidade dos grandes? Além da personalidade extrovertida de FHC, de sua cultura acadêmica e de seu gosto por rodar o mundo, existem outros fatores que facilitam a inserção do Brasil nos fóruns de discussão internacional. Na história brasileira houve oportunidades em que presidentes ou ministros gozaram de boa receptividade entre os dirigentes estrangeiros, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. A grande diferença é que o Brasil de Getúlio estava se urbanizando, dando os primeiros passos para formar seu parque industrial, e o Brasil de JK apenas começava a olhar para o mundo. De lá para cá, o mundo se transformou, o Brasil cresceu e deixou de ser o menino espoleta da comunidade financeira internacional. "Se Fernando Henrique tivesse aparecido na década de 30, a receptividade não seria a mesma", diz o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Ele é o homem certo, com os homens certos, na hora certa."

No Brasil, as viagens ao exterior de Fernando Henrique estão longe da unanimidade. Até há pouco tempo, a oposição dizia que FHC viajava para deixar a crise para trás. Desta vez, levou a crise junto: fez-se acompanhar dos presidentes dos partidos da base aliada para tentar alguma paz na aliança com vista à sucessão presidencial. Outra crítica comum é que o presidente fica mais socialista toda vez que entra no avião. "Para mim, ele devia governar do exterior. Ele muda totalmente", diz o deputado petista Aloizio Mercadante. O fato é que o eleitorado, de maneira geral, gosta desse tipo de viagem. O cientista político Marcos Coimbra, do Vox Populi, media por meio de pesquisas a receptividade do eleitorado às viagens do ex-presidente José Sarney. Excetuando-se a viagem a Paris, que ficou marcada como "trem da alegria", quando Sarney levou uma caravana gigantesca para uma esticada na França, os índices de aprovação ao presidente do cruzado cresciam mais de 5 pontos porcentuais depois de excursões como essa. "Bastava uma foto ao lado do Reagan", diz Coimbra. Collor também chegou a índices de aprovação impressionantes com a viagem por dez países antes de assumir o governo. Nesse quesito, o candidato com mais chances nas próximas eleições presidenciais é Ciro Gomes, do PPS. Um levantamento do Vox Populi, feito no fim de setembro, mostra que 55% dos eleitores acham que Ciro Gomes é o candidato que melhor representaria o Brasil no exterior. O ministro José Serra, da Saúde, que pleiteia a candidatura pelo PSDB, contou com a confiança de 48%. Só 37% acham que Lula faria boa figura lá fora.

 

"Lutemos por uma ordem mundial que reflita um contrato entre nações realmente livres, e não apenas o predomínio de uns Estados sobre outros, de uns mercados sobre outros"

"A barbárie não é somente a covardia do terrorismo, mas também a intolerância ou a imposição de políticas unilaterais em escala planetária"

"Nós nos opomos tenazmente ao discurso de que existe um choque de civilização: de um lado, o 'Ocidente' judaico-cristão; de outro, a civilização muçulmana. Heterogêneas como são as duas tradições, a barbárie e o autoritarismo infelizmente brotaram em ambas, mas também mereceram o repúdio dos segmentos mais lúcidos de cada uma delas"

"Não podemos mais suportar a carga de sofrimento, violência e intolerância que há muito impede que se chegue a uma solução justa e duradoura para o conflito entre israelenses e palestinos. Assim como apoiou em 1948 a criação do Estado de Israel, o Brasil hoje reclama passos concretos para a constituição de um Estado palestino democrático, coeso e economicamente viável"


 
 
   
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