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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
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É o PT na fita

Gravações mostram que o dinheiro
do jogo do bicho pode ter passado
pela campanha de Olívio Dutra

Diogo Schelp

do jogo do bicho pode ter passado
pela campanha de Olívio Dutra

Diogo Schelp

Gravado em fita ou em CD, o discurso do PT do Rio Grande do Sul é muito diferente daquela aura de santidade que o partido exibe no horário político da televisão. Nas últimas duas semanas, uma lufada de gravações vem complicando a vida do PT. São conhecidas até agora três gravações de diálogos sobre finanças, financiadores e polícia com a participação de militantes do partido. Uma, cuja íntegra ainda estava inédita até a véspera do feriado de sexta-feira, contém declarações do ex-secretário de Finanças do PT gaúcho Jairo Carneiro dos Santos nas quais ele diz que a compra de uma sede para o partido foi feita com dinheiro do jogo do bicho, com autorização do governador Olívio Dutra.

Jairo dos Santos negou essa história quando falou do caso na CPI da Segurança Pública, instaurada em abril na Assembléia Legislativa do Estado, mas sua voz está num CD que os deputados gaúchos já tinham ouvido. "Fizeram uma janta com o Olívio", ele conta na gravação. "O Olívio relutou muito. Acabou autorizando." O ex-secretário de Finanças é um personagem que se tem de ouvir com cuidado, porque antes que tudo isso acontecesse ele foi expulso do partido, por desvio de recursos. Só que sua versão dos fatos – a gravada – bate com outra gravação que chegou à CPI, bem mais apimentada. Nesta, feita em 1999, o delegado Luiz Fernando Tubino, então chefe de polícia, foi flagrado conversando com Diógenes Oliveira, arrecadador de campanhas petistas e presidente de uma entidade inventada para arrecadar dinheiro, o Clube de Seguros da Cidadania. Diógenes Oliveira aparece dizendo que, por delegação do governador, deve pedir docilidade à polícia no trato com os bicheiros. "Dei um carteiraço, falei indevidamente em nome do governador", ele afirma agora, sem negar a conversa.

A história tem outros detalhes que deixam o PT em má situação. Primeiro porque Diógenes conta na fita que o PT gastou 5 milhões de reais na última campanha ao governo do Estado – mas o partido só prestou contas de 2 milhões. Depois porque esse Clube da Cidadania comprou um prédio para servir de sede do PT, em 1998, misturando ao dinheiro investido também doações que recebeu supostamente para aplicar em projetos sociais. Por fim, a ligação entre as pontas da história leva à suspeita de que o dinheiro dos bicheiros abasteceu campanhas políticas do partido, no passado, e também foi usado na compra da sede. Em troca, os contraventores ganharam liberdade para explorar o jogo do bicho sem ser importunados pela polícia. De acordo com a gravação de Jairo dos Santos, "eram 600.000 (reais) a contribuição dos bicheiros". Quatro delegados afirmaram à CPI ter ouvido o colega Tubino dizer, em 1999, que a propina do jogo do bicho, antes destinada a policiais, passaria a ser direcionada toda para obras do governo do Estado. Ele nega ter afirmado isso.

É tal a confusão que uma empresa que doou legalmente dinheiro para a campanha petista, a fábrica de ônibus Marcopolo, agora está vendo surgir cópias de recibos de donativos que jamais fez para o Clube da Cidadania. "Nós nem sabíamos que esse clube existia", diz Carlos Zignani, diretor corporativo da Marcopolo. O Clube da Cidadania foi criado pelos petistas para contornar a legislação que proíbe sindicatos de fazer doações para partidos, entre outras atividades. De um lado, o clube pode receber das instituições de classe. De outro, pode dar dinheiro a partidos. "O clube foi criado para arrecadar recursos para o PT", admite Daniel Gonçalves, um dos diretores. "Era para conseguir também lucros com seguros, mas isso não deu muito certo." Diante do teor corrosivo dos fatos para a imagem do governador Olívio Dutra, a cúpula petista preparou um coro que tenta salvar-lhe a pele. "Quem andou falando com bicheiros em nome do PT e do governador não será poupado", prometeu o presidente do partido, José Dirceu.

Com essa posição, vai para a fogueira outra figura histórica do PT gaúcho. Diógenes, um ex-militante do grupo Vanguarda Popular Revolucionária, foi preso durante o regime militar, acabou solto por exigência dos seqüestradores do cônsul japonês em São Paulo, em março de 1970, e viveu no exílio até 1984. Conforme os próximos capítulos do seriado em fitas no Rio Grande do Sul, ele poderá ter outros companheiros enfrentando a comissão de ética partidária. Já se sabe há tempos de uma gravação em que o secretário de Segurança, José Paulo Bisol, afirma a policiais envolvidos num homicídio que podia aliviar suas punições se eles entregarem superiores. O delegado Tubino contou a um amigo que tem mais duas fitas. E o advogado Wilson Müller, que não conta a quem representa, informa que tem mais quatro. Pelo visto, o mate está fervendo na cuia usada pelo Palácio Piratini. Mas pode ferver também no Norte. Um assessor do governador do Acre, o petista Jorge Viana, caiu num grampo, legal, quando conversava com um empresário que tentava acelerar o recebimento de créditos e cobrava o cumprimento de "acordos"com o governo.

 

CONVERSA GRAVADA

Trechos da fita gravada em 1999, na qual um dos arrecadadores de dinheiro do PT gaúcho, Diógenes Oliveira, pede ao então chefe de polícia liberdade de ação para bicheiros

"O Olívio pediu para aproximar as relações deles na área (...) Nós sempre tivemos uma relação muito boa, muito estreita, com esse pessoal do Carnaval e do jogo do bicho (...) Nós achamos que não tem de reprimir esta gente!"
Diógenes Oliveira, presidente do Clube de Seguros da Cidadania

  "Conversei com o Bisol. Eles que estabelecem a política de segurança e eu executo. Eu não sei qual é o interesse dele, qual é a, vamos dizer assim, o objetivo. É para reprimir, não é pra reprimir?"
Luiz Fernando Tubino, delegado


 
 
   
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