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Por coincidência,
foi justamente durante o segundo mandato como governador que Brizola novamente
incorporou uma grande quantidade de terras a sua propriedade. Desta vez
comprou, num período de três anos, nada menos que 2.160
hectares. Uma aquisição avaliada hoje em 1,1 milhão
de dólares, ou 3 milhões de reais. O sucesso na vida pessoal
não fazia eco nos corredores do Palácio Guanabara. O segundo
mandato de Brizola foi marcado por problemas. A começar pelo surgimento
de uma lista de propinas da contabilidade do bicheiro Castor de Andrade
em que figuravam vários nomes da equipe do governo. Brizola deixara
o cargo havia poucos dias para concorrer à Presidência da
República. A denúncia se estendeu sobre o governo do PDT
como uma sombra de suspeita. Eram muito fortes as suspeitas de envolvimento
do Palácio Guanabara com a contravenção. A revelação
foi especialmente constrangedora para o governo porque entre os nomes
figuravam o do governador empossado e o de um dos filhos de Brizola, o
então deputado federal José Vicente, além de dois
outros deputados do PDT e vários policiais civis. Em 1992, o Rio
de Janeiro tornou-se campeão mundial em casos de seqüestros,
com 123 pessoas levadas a cativeiro. Foi também campeão
nacional de roubo de automóveis: 160 por dia. Foi nesse período
que os índices de popularidade de Brizola despencaram a minguados
14%. Desde então, ele não conseguiu ascender a nenhum cargo
eletivo. Foi acusado de leniência com os bicheiros e com o tráfico
de drogas nas favelas. Denúncias, é bem verdade, nunca provadas.
Terminada a campanha presidencial, Brizola fez novas aquisições
de terras em Durazno. Em 1995, comprou 856 hectares. A promessa de compra
da maior parte dos terrenos foi firmada em janeiro daquele ano.
Hangar
particular Para garantir a transparência exigida por
um cargo público, um político é obrigado a apresentar,
antes de cada eleição, uma declaração de todos
os seus bens à Justiça Eleitoral. É um documento
importantíssimo. Brizola, como todos os seus pares, apresentou
regularmente esse documento ao TRE. VEJA analisou essa papelada. Um detalhe
chama a atenção. A declaração entregue em
1982 difere completamente de todas as outras. Talvez por ser a primeira
no período após o exílio, foi redigida de forma muito
mais direta e simples. Não há rodeios nem precauções
jurídicas no papel. Em todas as declarações posteriores,
passou a constar um cabeçalho em que o candidato informa que seus
bens são todos provenientes da venda de quatro propriedades recebidas
como herança por sua mulher. Estaria tudo em ordem, não
fosse por um detalhe: da herança restaram apenas o dinheiro suficiente
para comprar dois apartamentos e 1.514 hectares
de terra no Uruguai, além de uma pequena quantia em dinheiro em
depósitos bancários, como afirmou o candidato em 1982.
Gil Pinheiro
 |
| João
Goulart e Brizola: relação abalada por questões
financeiras |
A vida de exilado político, um tormento em qualquer caso, foi especialmente
difícil para a família Brizola. Além da angústia
natural de se ver proibido de visitar sua terra natal, e da traumática
expulsão do Uruguai, em 1977, por pressão dos militares
brasileiros, havia a falta de dinheiro. Entre 1967 e 1972, Brizola emitiu
várias procurações para providenciar a venda de seus
bens. Os documentos, obtidos por VEJA no Cartório de Registro de
Títulos e Documentos e das Pessoas Jurídicas de Porto Alegre,
revelam a preocupação de se desfazer dos bens deixados no
Brasil antes que o governo militar os confiscasse, o que aumentaria as
dificuldades. Emitiu também uma procuração para que
fosse vendido um hangar que construiu em terreno cedido pelo Ministério
da Aeronáutica nas dependências do Aeroporto Salgado Filho,
na capital gaúcha.
Os amigos
de Brizola lhe fizeram contribuições que eram enviadas ao
Uruguai para ajudar em sua sobrevivência no exílio. A vida
nesse período se tornara um pouco mais amarga porque as relações
entre Brizola e o irmão de sua mulher, o ex-presidente João
Goulart, estavam estremecidas. Aos amigos que o visitavam em seu apartamento
às margens do Rio da Prata, Brizola chegou a fazer desabafos de
sua mágoa pela forma como Jango geriu o patrimônio da família.
Os problemas familiares teriam origem no fato de Jango ter ficado com
terras em São Borja e, em troca, ter cedido uma casa, na Rua Tobias
da Silva, em Porto Alegre, e terras no Bacopari, próxima ao litoral
do Estado, uma região então inóspita, onde Brizola
pôs em prática seu projeto de reforma agrária quando
governou o Rio Grande do Sul. As terras de São Borja seriam mais
férteis e, portanto, mais valorizadas. Jango pagou pelas terras
de dona Neusa a metade do valor da avaliação oficial feita
à época, para efeito de impostos. A rusga, sempre atribuída
a motivos políticos, escondia um atrito familiar de motivação
bem menos nobre: divergências sobre dinheiro.
Marcelo Carnaval
 |
| João
Otávio: de funcionário público a bem-sucedido
empresário nos Estados Unidos |
Das dificuldades desse período, marcado por perseguições
de militares, nasceu um Brizola mais cauteloso, cioso de seus bens e com
mania de segurança. Pode ser esse um dos motivos de Brizola evitar,
até hoje, revelar a existência de dois outros imóveis
ocupados por ele, no edifício da Rua Xavier da Silveira, número
12. Esses dois apartamentos, o 803 e o 804, embora estejam em outro prédio,
são colados ao apartamento em que Brizola mora desde 1980, na Avenida
Atlântica. Ficam na mesma direção e altura. Brizola
abriu uma porta entre os dois prédios e ligou os três apartamentos.
Com isso, ampliou sua casa para um imóvel de quase 700 metros quadrados.
Esses dois outros imóveis, um conjugado de 50 metros quadrados,
com vista para o mar, avaliado hoje em 120 000 reais, e outro de dois
quartos, avaliado em 180 000 reais, não constam de nenhuma declaração
de bens do candidato. Como não estão em seu nome, e a inscri Atlântica. Ficam na mesma direção e altura. Brizola
abriu uma porta entre os dois prédios e ligou os três apartamentos.
Com isso, ampliou sua casa para um imóvel de quase 700 metros quadrados.
Esses dois outros imóveis, um conjugado de 50 metros quadrados,
com vista para o mar, avaliado hoje em 120 000 reais, e outro de dois
quartos, avaliado em 180 000 reais, não constam de nenhuma declaração
de bens do candidato. Como não estão em seu nome, e a inscrição
oficial do imóvel apresenta números incompletos, esses bens
não foram considerados no cálculo de patrimônio do
ex-governador. VEJA conversou com os vizinhos e com a família de
um dos antigos proprietários. Brizola é sempre apontado
como o dono dos apartamentos. Mas, como acontece com a maior parte de
seu patrimônio, paira uma bruma sobre a propriedade. Procurado por
VEJA em seis oportunidades desde quarta-feira passada, Brizola não
quis pronunciar-se sobre esta reportagem. Não se sabe exatamente
se por estar desinteressado. Esta é outra das qualidades do caudilho
de 79 anos de idade, que por vezes confunde seus interlocutores com uma
característica desconcertante: a de parecer o que não é
e ser o que não parece.
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Fax
de Brizola para VEJA

Recebi
as informações que a VEJA me transmitiu por intermédio
de minha assessoria. Encontro-me, como sabe, em viagem pelo interior
do Rio Grande do Sul. Estou à sua disposição,
logo que retorne ao Rio de Janeiro, para conversar sobre este assunto.
Posso adiantar, entretanto, que o que me foi informado não
corresponde à verdade. Tudo o que possuo foi arrolado quando
do inventário feito após a morte da minha esposa Neusa,
há 8 anos. Nada me preocupa, mas lamento que se lance mão
de agressões perversas, certamente inspiradas pelo PT gaúcho
e pelo próprio Palácio Piratini, que estão
buscando encobrir-se das graves situações de corrupção
que estão dissolvendo o PT no Sul. Faço um apelo para
que a Revista VEJA, antes de ouvir-me pessoalmente, não publique
informações inverídicas. Já tive muitos
confrontos de natureza política com a VEJA e com o grupo
Civita. Não desejo mais um, nem mesmo de natureza judicial,
no qual venha a buscar a responsabilização de natureza
moral e material por afirmações descabidas e injuriosas.

Resposta
de VEJA

VEJA
já fez chegar ao seu conhecimento, desde quarta-feira à
tarde, através de sua assessoria de imprensa, todos os elementos
básicos sobre a reportagem que pretende publicar a respeito
da evolução de seu patrimônio nos últimos
20 anos. O senhor dispõe, portanto, de elementos para conversar
sobre a reportagem. Entretanto, o senhor só se manifestou,
por fax, no dia seguinte. VEJA entende que, por ser desnecessário
um prazo tão extenso, a demora soa como manobra protelatória
que só atende a seus interesses pessoais de adiar a publicação
da reportagem.
Enfatizamos
o que já dissemos por telefone à sua assessoria
pessoal que estamos aqui à sua disposição
para ouvi-lo por telefone, atendendo ao seu direito de pronunciar-se
sobre as informações contidas na reportagem. Nos colocamos
à disposição para quaisquer outros esclarecimentos
que o senhor julgue necessários. Se, por acaso, precisar
de mais elementos, nós os forneceremos. Apenas julgamos não
ser necessário adiar a publicação da reportagem,
que se baseia em farta documentação. Estamos à
sua disposição. Consideramos que o telefone é
um instrumento perfeitamente adequado para a entrevista sobre o
assunto.
Estaremos
aguardando seu contato pessoal até as 18 horas desta quinta-feira,
horário de fechamento desta edição. Se preferir
que esta conversa se dê pessoalmente, poderemos providenciar
para que ela aconteça hoje à tarde, em Porto Alegre.
Ou mesmo no Rio de Janeiro, onde teremos prazer de recebê-lo
em nossa sucursal.
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