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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
Brasil Rio de Janeiro

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Brasil
 

O enriquecimento de Brizola no governo
Maranhão: A farsa das eleições de 1994
Os tentáculos do lobista chegam ao Planalto
Gravações complicam Olívio Dutra
Paulo Renato continua candidato
O sucesso de FHC na Europa
Projeto de Aécio restringe a imunidade

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Por coincidência, foi justamente durante o segundo mandato como governador que Brizola novamente incorporou uma grande quantidade de terras a sua propriedade. Desta vez comprou, num período de três anos, nada menos que 2.160 hectares. Uma aquisição avaliada hoje em 1,1 milhão de dólares, ou 3 milhões de reais. O sucesso na vida pessoal não fazia eco nos corredores do Palácio Guanabara. O segundo mandato de Brizola foi marcado por problemas. A começar pelo surgimento de uma lista de propinas da contabilidade do bicheiro Castor de Andrade em que figuravam vários nomes da equipe do governo. Brizola deixara o cargo havia poucos dias para concorrer à Presidência da República. A denúncia se estendeu sobre o governo do PDT como uma sombra de suspeita. Eram muito fortes as suspeitas de envolvimento do Palácio Guanabara com a contravenção. A revelação foi especialmente constrangedora para o governo porque entre os nomes figuravam o do governador empossado e o de um dos filhos de Brizola, o então deputado federal José Vicente, além de dois outros deputados do PDT e vários policiais civis. Em 1992, o Rio de Janeiro tornou-se campeão mundial em casos de seqüestros, com 123 pessoas levadas a cativeiro. Foi também campeão nacional de roubo de automóveis: 160 por dia. Foi nesse período que os índices de popularidade de Brizola despencaram a minguados 14%. Desde então, ele não conseguiu ascender a nenhum cargo eletivo. Foi acusado de leniência com os bicheiros e com o tráfico de drogas nas favelas. Denúncias, é bem verdade, nunca provadas. Terminada a campanha presidencial, Brizola fez novas aquisições de terras em Durazno. Em 1995, comprou 856 hectares. A promessa de compra da maior parte dos terrenos foi firmada em janeiro daquele ano.

Hangar particular – Para garantir a transparência exigida por um cargo público, um político é obrigado a apresentar, antes de cada eleição, uma declaração de todos os seus bens à Justiça Eleitoral. É um documento importantíssimo. Brizola, como todos os seus pares, apresentou regularmente esse documento ao TRE. VEJA analisou essa papelada. Um detalhe chama a atenção. A declaração entregue em 1982 difere completamente de todas as outras. Talvez por ser a primeira no período após o exílio, foi redigida de forma muito mais direta e simples. Não há rodeios nem precauções jurídicas no papel. Em todas as declarações posteriores, passou a constar um cabeçalho em que o candidato informa que seus bens são todos provenientes da venda de quatro propriedades recebidas como herança por sua mulher. Estaria tudo em ordem, não fosse por um detalhe: da herança restaram apenas o dinheiro suficiente para comprar dois apartamentos e 1.514 hectares de terra no Uruguai, além de uma pequena quantia em dinheiro em depósitos bancários, como afirmou o candidato em 1982.

Gil Pinheiro
João Goulart e Brizola: relação abalada por questões financeiras


A vida de exilado político, um tormento em qualquer caso, foi especialmente difícil para a família Brizola. Além da angústia natural de se ver proibido de visitar sua terra natal, e da traumática expulsão do Uruguai, em 1977, por pressão dos militares brasileiros, havia a falta de dinheiro. Entre 1967 e 1972, Brizola emitiu várias procurações para providenciar a venda de seus bens. Os documentos, obtidos por VEJA no Cartório de Registro de Títulos e Documentos e das Pessoas Jurídicas de Porto Alegre, revelam a preocupação de se desfazer dos bens deixados no Brasil antes que o governo militar os confiscasse, o que aumentaria as dificuldades. Emitiu também uma procuração para que fosse vendido um hangar que construiu em terreno cedido pelo Ministério da Aeronáutica nas dependências do Aeroporto Salgado Filho, na capital gaúcha.

Os amigos de Brizola lhe fizeram contribuições que eram enviadas ao Uruguai para ajudar em sua sobrevivência no exílio. A vida nesse período se tornara um pouco mais amarga porque as relações entre Brizola e o irmão de sua mulher, o ex-presidente João Goulart, estavam estremecidas. Aos amigos que o visitavam em seu apartamento às margens do Rio da Prata, Brizola chegou a fazer desabafos de sua mágoa pela forma como Jango geriu o patrimônio da família. Os problemas familiares teriam origem no fato de Jango ter ficado com terras em São Borja e, em troca, ter cedido uma casa, na Rua Tobias da Silva, em Porto Alegre, e terras no Bacopari, próxima ao litoral do Estado, uma região então inóspita, onde Brizola pôs em prática seu projeto de reforma agrária quando governou o Rio Grande do Sul. As terras de São Borja seriam mais férteis e, portanto, mais valorizadas. Jango pagou pelas terras de dona Neusa a metade do valor da avaliação oficial feita à época, para efeito de impostos. A rusga, sempre atribuída a motivos políticos, escondia um atrito familiar de motivação bem menos nobre: divergências sobre dinheiro.

Marcelo Carnaval
João Otávio: de funcionário público a bem-sucedido empresário nos Estados Unidos


Das dificuldades desse período, marcado por perseguições de militares, nasceu um Brizola mais cauteloso, cioso de seus bens e com mania de segurança. Pode ser esse um dos motivos de Brizola evitar, até hoje, revelar a existência de dois outros imóveis ocupados por ele, no edifício da Rua Xavier da Silveira, número 12. Esses dois apartamentos, o 803 e o 804, embora estejam em outro prédio, são colados ao apartamento em que Brizola mora desde 1980, na Avenida Atlântica. Ficam na mesma direção e altura. Brizola abriu uma porta entre os dois prédios e ligou os três apartamentos. Com isso, ampliou sua casa para um imóvel de quase 700 metros quadrados. Esses dois outros imóveis, um conjugado de 50 metros quadrados, com vista para o mar, avaliado hoje em 120 000 reais, e outro de dois quartos, avaliado em 180 000 reais, não constam de nenhuma declaração de bens do candidato. Como não estão em seu nome, e a inscri Atlântica. Ficam na mesma direção e altura. Brizola abriu uma porta entre os dois prédios e ligou os três apartamentos. Com isso, ampliou sua casa para um imóvel de quase 700 metros quadrados. Esses dois outros imóveis, um conjugado de 50 metros quadrados, com vista para o mar, avaliado hoje em 120 000 reais, e outro de dois quartos, avaliado em 180 000 reais, não constam de nenhuma declaração de bens do candidato. Como não estão em seu nome, e a inscrição oficial do imóvel apresenta números incompletos, esses bens não foram considerados no cálculo de patrimônio do ex-governador. VEJA conversou com os vizinhos e com a família de um dos antigos proprietários. Brizola é sempre apontado como o dono dos apartamentos. Mas, como acontece com a maior parte de seu patrimônio, paira uma bruma sobre a propriedade. Procurado por VEJA em seis oportunidades desde quarta-feira passada, Brizola não quis pronunciar-se sobre esta reportagem. Não se sabe exatamente se por estar desinteressado. Esta é outra das qualidades do caudilho de 79 anos de idade, que por vezes confunde seus interlocutores com uma característica desconcertante: a de parecer o que não é e ser o que não parece.

 

Fax de Brizola para VEJA


Recebi as informações que a VEJA me transmitiu por intermédio de minha assessoria. Encontro-me, como sabe, em viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Estou à sua disposição, logo que retorne ao Rio de Janeiro, para conversar sobre este assunto. Posso adiantar, entretanto, que o que me foi informado não corresponde à verdade. Tudo o que possuo foi arrolado quando do inventário feito após a morte da minha esposa Neusa, há 8 anos. Nada me preocupa, mas lamento que se lance mão de agressões perversas, certamente inspiradas pelo PT gaúcho e pelo próprio Palácio Piratini, que estão buscando encobrir-se das graves situações de corrupção que estão dissolvendo o PT no Sul. Faço um apelo para que a Revista VEJA, antes de ouvir-me pessoalmente, não publique informações inverídicas. Já tive muitos confrontos de natureza política com a VEJA e com o grupo Civita. Não desejo mais um, nem mesmo de natureza judicial, no qual venha a buscar a responsabilização de natureza moral e material por afirmações descabidas e injuriosas.

 

Resposta de VEJA


VEJA já fez chegar ao seu conhecimento, desde quarta-feira à tarde, através de sua assessoria de imprensa, todos os elementos básicos sobre a reportagem que pretende publicar a respeito da evolução de seu patrimônio nos últimos 20 anos. O senhor dispõe, portanto, de elementos para conversar sobre a reportagem. Entretanto, o senhor só se manifestou, por fax, no dia seguinte. VEJA entende que, por ser desnecessário um prazo tão extenso, a demora soa como manobra protelatória que só atende a seus interesses pessoais de adiar a publicação da reportagem.

Enfatizamos – o que já dissemos por telefone à sua assessoria pessoal – que estamos aqui à sua disposição para ouvi-lo por telefone, atendendo ao seu direito de pronunciar-se sobre as informações contidas na reportagem. Nos colocamos à disposição para quaisquer outros esclarecimentos que o senhor julgue necessários. Se, por acaso, precisar de mais elementos, nós os forneceremos. Apenas julgamos não ser necessário adiar a publicação da reportagem, que se baseia em farta documentação. Estamos à sua disposição. Consideramos que o telefone é um instrumento perfeitamente adequado para a entrevista sobre o assunto.

Estaremos aguardando seu contato pessoal até as 18 horas desta quinta-feira, horário de fechamento desta edição. Se preferir que esta conversa se dê pessoalmente, poderemos providenciar para que ela aconteça hoje à tarde, em Porto Alegre. Ou mesmo no Rio de Janeiro, onde teremos prazer de recebê-lo em nossa sucursal.


 
 


   
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