
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Ele fez fortuna
Apesar
da labuta política,
Leonel
Brizola conseguiu, em vinte anos,
juntar dinheiro para alcançar
um
patrimônio de 15
milhões de reais

Ronaldo
França
Paulo Jares
 |
Entre as
qualidades do ex-governador Leonel Brizola, uma chama a atenção:
a capacidade de não descuidar das finanças pessoais mesmo
quando mantém dedicação integral à política.
Nos últimos vinte anos, ele esteve envolvido em nada menos que
onze eleições, sendo que em seis delas diretamente como
candidato. Nas outras cinco trabalhou na costura de apoios e alianças
capazes de levar adiante seu projeto de criar um partido político
forte e chegar à Presidência da República. Registre-se
que nesse intervalo ocupou por duas vezes a cadeira de governador do Rio
de Janeiro. Apesar de tanta labuta, nos últimos tempos vem colhendo
mais insucessos que êxitos. Para sua sorte, as dificuldades se dão
apenas na política. No plano pessoal, vive uma surpreendente prosperidade.
Foi justamente nesses anos atribulados que Brizola realizou uma façanha
inatingível para a maioria dos brasileiros: a de erigir um magnífico
patrimônio. Mesmo sem despender a mesma energia que dedicou aos
palanques e sem chamar a atenção , ele costurou
um pé-de-meia de pelo menos 15 milhões de reais em terras
e imóveis. Em outras palavras, Brizola tornou-se um abastado senhor
de terras.
É
bem verdade que uma parte de seus bens veio da herança recebida
por sua mulher, Neusa, já falecida. Mas muito do que o casal recebeu
acabou se perdendo. As dificuldades do exílio obrigaram Brizola
a se desfazer da maior parte dos imóveis. Restaram apenas, a valores
de hoje, 4,3 milhões de reais. Ou seja, em vinte anos, ele quase
quadruplicou sua fortuna. Quando assumiu o governo do Rio, em 1983, a
declaração de bens que entregou à Justiça
Eleitoral registrava em seu nome apenas dois apartamentos e 1.514
hectares de terra, no Estado uruguaio de Durazno, localizado na região
central daquele país. Na época, pesava sobre parte da propriedade
rural uma hipoteca, assumida em 1981. A hipoteca total era de pouco mais
de 1,3 milhão de reais. Ou seja, quase um quarto de tudo o que
possuía estava comprometido como garantia de pagamentos. Pois,
sem precisar sair de seu confortável apartamento na Avenida Atlântica,
na Zona Sul do Rio, Brizola comandou um crescimento vertiginoso em suas
terras e engordou o patrimônio. Foram acrescidos, entre 1984 e 1995,
5.200 novos hectares a suas fazendas. Nem tudo
figura em seu nome. Com a morte da mulher, em 1993, dividiu os bens com
seus três filhos, José Vicente, João Otávio
e Neusa Maria, a Neusinha. Muitos ele recomprou. Outros ainda estão
em nome dos filhos. Mas foi ele certamente o responsável por garantir
à família um futuro tranqüilo. Sua propriedade uruguaia
tem hoje uma área equivalente a 39 parques Ibirapuera ou um terço
da cidade do Recife. Ou ainda, vista de outro ângulo, é do
tamanho de 4,5 milhões de dólares. Algo como 12,3 milhões
de reais.
Carlos Garcia
 |
Oscar Cabral
 |
| Fazenda
de Brizola: crescendo sem o olho do dono para engordar os bois
|
A
residência no Rio: apartamento ampliado para o prédio
vizinho |
Esse é
o valor das terras segundo as avaliações feitas por VEJA
com base em documentos oficiais obtidos na Direção Geral
de Registro de Propriedades do Uruguai. Para chegar a essas cifras, VEJA
procurou escritórios de negócios rurais, consultorias agropecuárias
e técnicos do Ministério da Pecuária e Agricultura,
pasta encarregada da atividade rural uruguaia. A avaliação
de terras leva em conta não apenas a dimensão dos terrenos.
É feita baseada em um complexo modelo de valoração,
que inclui cálculos de índices de produtividade de cada
pedaço do terreno. O Uruguai é dos poucos países
do mundo em que a terra está quase inteiramente mapeada, com a
qualidade e o tipo de cada solo registrados pelo governo. É possível
saber quanto de carne bovina, ovina e lã se pode extrair de cada
lote que se destina à pecuária. O rebanho estimado de Brizola
é de 6.000 cabeças de gado bovino,
das raças Aberdeen Angus e Hereford, e 10.000
ovelhas, da raça Corriedale. Por não dispor de informação
atualizada, VEJA não considerou toda essa manada de 16.000
cabeças um número em constante alteração
no cálculo do patrimônio de Leonel Brizola. Vacas
e ovelhas ficaram fora da conta. Caso fossem incluídas, elevariam
esse patrimônio para as vizinhanças de 19,5 milhões
de reais.
É
surpreendente constatar que Brizola conseguiu amealhar todo seu esplêndido
patrimônio com um salário mensal líquido equivalente
hoje a 12.755 reais. Esse é o resultado
da soma de suas três pensões: 5.600
reais como ex-governador do Rio Grande do Sul, 6.175
reais como ex-governador do Rio provento interrompido a cada vez
que exerceu um cargo eletivo e uma outra renda de 980 reais, por
ter sido duas vezes deputado federal, embora não tenha concluído
nenhum de seus mandatos. É uma excelente aposentadoria para os
padrões brasileiros. Principalmente porque, somando-se o tempo
necessário para conquistá-la, Brizola conta apenas catorze
anos de serviço. Hoje, o ex-governador leva uma vida tranqüila.
Seus dias são dedicados a contatos políticos por telefone,
na casa sempre movimentada pela presença dos velhos companheiros
e netos. Atualmente, apóia as pretensões de Itamar Franco
em sua possível candidatura à Presidência.
Carlos Garcia
 |
Oscar Cabral
 |
| Apartamento
em Montevidéu: de frente para o mar |
A
casa em Itaipava: comprada à vista durante o primeiro governo
|
É
um desafio entender como Brizola, com um salário de 12.755
reais, pôde acumular, em apenas vinte anos, um patrimônio
de 10,7 milhões de reais, que é a diferença entre
o que ele possui e o valor de seus bens no início da década
de 80. Para ser mais preciso, foram onze anos, já que é
no intervalo entre 1984 e 1995 que se concentram todas as aquisições.
Caso não gastasse um único centavo em despesas pessoais
ou com a família, seriam necessários setenta anos de poupança
contínua. Não poderia nem mesmo comprar presentes para os
netos no Natal. Seriam anos penosos. Caso não tivesse todas as
suas contas pagas pelo Estado, nos oito anos em que foi governador, teria
economizado 1,3 milhão de reais. Muito menos do que amealhou.
Foi justamente
nos anos em que ocupou o Palácio Guanabara, a sede do poder fluminense,
que teve seus períodos mais prósperos, tanto profissional
quanto pessoalmente. No primeiro mandato, de 1983 a março de 1987,
Brizola marcou sua administração com grandes obras. Entre
elas, a construção do Sambódromo, no centro do Rio
de Janeiro, e o projeto dos Centros Integrados de Educação
Pública (Cieps). As 506 escolas foram edificadas ao custo de 1
milhão de dólares cada uma. O projeto dos Cieps foi questionado
principalmente porque acabou por priorizar a engenharia. Para executar
a tarefa de colocar de pé os prédios de concreto armado,
Brizola recrutou seu filho mais novo, o também engenheiro João
Otávio Brizola, que deixou o emprego público de 3.000
reais, em valores da época, como funcionário da Companhia
Municipal de Conservação e Obras Públicas do Rio
de Janeiro, para se tornar um abastado empresário da construção
civil na Califórnia. Foi quem geriu as obras das escolas nos dois
governos.
Em seu segundo
ano do primeiro mandato, Brizola realizou o sonho de nove entre dez cariocas:
comprou um sítio na região serrana do Rio, em Itaipava,
um distrito da cidade imperial de Petrópolis. A propriedade
144.000 metros quadrados numa das mais privilegiadas
regiões da cidade é um naco de paraíso onde
o então governador passou a descansar nos fins de semana. A casa
está localizada estrategicamente no alto de um monte. Da varanda
se domina a visão de todo o terreno e de uma paisagem deslumbrante.
Além de uma belíssima casa, tem ainda piscina e heliponto.
Tamanha excelência tem seu preço: 1,2 milhão de reais.
Com o metro quadrado cotado a 5 reais, somente o terreno vale 700.000
reais. A compra do sítio, em agosto de 1984, foi à vista,
como informa a escritura do 10º Registro de Imóveis de Petrópolis.
Na exclusivíssima tranqüilidade da serra, o ex-governador
passa seus fins de semana acompanhado da família e dos amigos,
muitos deles inseparáveis desde os tempos em que vivia no Rio Grande
do Sul.
Depois de
chacoalhar a administração estadual com obras grandiosas,
Brizola pôde voltar sua atenção para Durazno. Oito
meses após deixar o cargo, em março de 1987, registrou a
compra de 1.092 hectares. Tudo em nome de sua
mulher. Foi um negócio e tanto. São terras perfeitas para
o plantio de eucaliptos, avaliadas, a preços de hoje, em 2,1 milhões
de reais. O reflorestamento é uma atividade lucrativa no Uruguai
porque conta com um generoso subsídio governamental e um mercado
internacional forte. Os 900.000 pés
de eucalipto de Brizola podem render, no mínimo, 1,6 milhão
de reais aliás, é esperado o abate das árvores
para os próximos meses, a primeira leva desde que Brizola as plantou.
Exatamente em função das possibilidades de grandes lucros,
um solo que se preste ao plantio de eucaliptos chega a ser avaliado em
2.000 dólares, ou 5.400
reais, o hectare. Principalmente se, como os de Brizola, estiverem próximos
ao leito de um rio. A compra de 1987 coroa um período próspero
de Brizola como fazendeiro, embora durante os quatro anos anteriores se
tivesse dedicado apenas a governar o Rio.
|
|
 |