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A máquina
de fraudes
do ex-senador
Papéis,
disquetes e depoimentos mostram
que Estevão falsificou, coagiu, sonegou...
Malu Gaspar e Policarpo Junior
Desde
junho do ano passado, quando perdeu seu mandato de senador por envolvimento
no desvio de verbas da obra do Tribunal Regional do Trabalho de São
Paulo, Luiz Estevão passou a suscitar uma dúvida: ele perdeu
o mandato, é verdade, mas ficará livre, leve e solto ou
será condenado à prisão? De lá para cá,
o ex-senador já foi detido duas vezes, embora nunca tenha ficado
mais de quatro dias na prisão. Na semana passada, voltou a ser
detido e ficou apenas sete horas na carceragem da Polícia Federal,
em Brasília, depois de chamar um policial de "palhaço".
Nunca enfrentou, até agora, evidências sólidas o bastante
para acabar no xilindró por alguns anos. Isso pode mudar. Na semana
passada, VEJA teve acesso a um conjunto de indícios clamorosos
contra o ex-senador. Alguns aparecem nas cinqüenta caixas de documentos,
apreendidas na sede de sua empresa em Brasília, o Grupo OK. Outros
estão nos arquivos dos 27 computadores, também recolhidos
na semana passada. Por fim, há mais indícios nos depoimentos
de seus funcionários e ex-funcionários ao Ministério
Público. Isso tudo junto sugere que o ex-senador montou uma máquina
de fraudes: teve contas secretas no exterior, fez remessas ilegais de
dinheiro, falsificou documentos, sonegou impostos, ocultou sociedades,
coagiu testemunhas e até patrocinou um incêndio criminoso.
Confrontando os documentos das cinqüenta caixas, os arquivos de computador
e os depoimentos, descobre-se de tudo. Há papéis mostrando
que o ex-senador possui pelo menos quatro contas secretas no exterior
duas em Nova York, uma na Pensilvânia e outra em Nassau,
no paraíso fiscal das Bahamas. Nenhuma jamais foi declarada à
Receita. Segundo o depoimento de ex-funcionários do Grupo OK, uma
das contas bancárias, aberta no Bank of New York, era usada por
Luiz Estevão para custear despesas com tratamento de saúde
de seu pai, numa clínica de Houston, nos Estados Unidos. Em seu
período mais farto, o saldo dessa conta chegou a 3,5 milhões
de dólares. A descoberta dos documentos bancários também
ajudará a completar o rastreamento do dinheiro surrupiado do TRT
paulista e a fortalecer as evidências de participação
do ex-senador no caso. Numa operação bancária feita
no Brasil, os procuradores encontraram uma carta do Grupo OK autorizando
a remessa de 515.000 reais para a conta 001-8 da agência central
do banco BCN-Barclays, em São Paulo. A coincidência é
que, no rastro do dinheiro desviado do TRT, os procuradores já
sabiam que parte dos recursos passara pela conta 001-8. Agora, apareceu
o primeiro vínculo com Luiz Estevão.
Os depoimentos mostraram, também, o uso de métodos heterodoxos
pelo Grupo OK. No ano passado, em função das investigações
do TRT, a Receita decidiu fiscalizar as contas da Saenco, uma das empresas
do conglomerado de Luiz Estevão. Os fiscais examinaram algumas
despesas da Saenco e desconfiaram que eram fictícias. Preparavam-se,
então, para pedir as notas fiscais correspondentes aos gastos,
já certos de que poriam as mãos em documentos frios. Luiz
Estevão, bem informado, soube da intenção dos fiscais
com antecedência. Misteriosamente, em 24 de agosto do ano passado,
o depósito de documentos da Saenco pegou fogo. Dias depois, chegou
à empresa o pedido da Receita para que apresentasse as notas fiscais.
A resposta foi singela: infelizmente, as notas haviam sido queimadas num
incêndio acidental. Com a destruição dos documentos
pelo fogo, nunca se soube se as notas queimadas eram mesmo frias ou não.
Agora, com o depoimento de funcionários de Luiz Estevão,
a suspeita de que o incêndio foi intencional ganhou consistência.
"Eram notas frias que justificavam despesas operacionais inexistentes",
afirma Jesuína Varandas Ferreira.
Clique
no documento para vê-lo ampliado
Ana Araujo
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| Jesuína,
a quem os amigos chamam de Tereza, e um documento endereçado a ela
mandando fazer mudanças contábeis: 125 livros falsos |
Jesuína Ferreira é personagem nova e central na história.
Aos 62 anos, mãe de vinte filhos, dos quais dezoito adotados, ela
deixou há um mês as empresas de Luiz Estevão, onde
trabalhou como contadora durante dezenove anos. Nesse longo período,
Jesuína e o ex-senador se tornaram amigos e se tratavam por apelidos
carinhosos "meu negão" e "mãezona" , mas na
hora da demissão os dois se desentenderam. Ela diz que o ex-senador
não lhe pagou os direitos trabalhistas e mandou-a ir à Justiça.
Pois Jesuína, discretamente, atendeu ao pedido do ex-patrão.
Só que resolveu procurar o Ministério Público. Esteve
três vezes por lá, a última em 17 de agosto, contando
aos procuradores o que vira nas duas últimas décadas na
contabilidade das empresas do ex-senador. É coisa de assustar.
Em seus depoimentos, Jesuína disse, por exemplo, que, de abril
de 1999 em diante, Luiz Estevão arregimentou um grupo de cinco
contadores para falsificar nada menos que 125 diários com a movimentação
financeira do Grupo OK. A falsificação pretendia ludibriar
os senadores que, na época, investigavam o envolvimento do então
senador com a Incal, a empresa responsável pela obra do TRT.
Foi
uma operação e tanto. Quando o Senado descobriu que Luiz
Estevão recebera uma notável quantidade de cheques da Incal,
a faina falsificadora entrou em ação. Nos livros contábeis
do Grupo OK, o dinheiro recebido da Incal entrava na rubrica "empresas
coligadas". Como Luiz Estevão garantia que não era sócio
nem dono da Incal, tratava-se de uma informação fatal. Mostrava
que Luiz Estevão era o verdadeiro dono da Incal na medida em que
ela era tratada nos registros contábeis como uma "empresa coligada".
A mutreta extinguiu esse dado dos papéis. Na versão falsificada,
os cheques da Incal sumiam do item "empresa coligada" e reapareciam como
contratos de mútuo ou vendas de imóveis entre Incal e Grupo
OK. Os contadores arrancaram as folhas originais dos livros e substituíram-nas
pelas páginas falsas. Em alguns livros, eram apenas poucas páginas.
Em outros, era todo o miolo. Tiveram o cuidado, até, de usar papéis
e impressoras antigas. Só eram preservadas as primeiras páginas
dos livros, nas quais aparece a autenticação da Junta Comercial.
A operação era feita em gráficas de Brasília
e de São Paulo. Isso significa que, quando chegou ao Senado com
um carrinho cheio de documentos para apresentar sua defesa, no primeiro
semestre de 2000, Luiz Estevão estava carregando uma pilha de falsificações.
O depoimento de Jesuína Ferreira mostrou que é antiga a
prática do Grupo OK de desviar dinheiro de obras públicas.
A Saenco, uma de suas construtoras, aplicou o mesmo golpe na construção
do Centro Administrativo de Goiânia, que começou a ser erguido
em 1997. A obra, um complexo de seis edifícios, foi orçada
em 19,7 milhões de reais e deveria ter sido concluída em
dezembro do ano passado. A Saenco já recebeu 12 milhões
de reais pela obra ou 61% do custo total e até hoje
só concluiu um dos seis prédios previstos. A ex-contadora
contou aos procuradores que, dos 12 milhões que recebeu, a Saenco
só usou 3 milhões de reais na obra. O resto escorreu para
o caixa dois. Picaretagem semelhante foi feita no metrô de Brasília,
uma obra que deveria custar 600 milhões de reais, já custou
o dobro e ainda está pela metade. Mas com uma diferença:
a mamata em Brasília começou no início dos anos 90,
durante o governo Joaquim Roriz, e se mantém até hoje, de
novo sob o governo de Roriz. No caso do metrô, Luiz Estevão
criou uma empresa que acabou subcontratada para a obra. Só em 1994,
segundo documentos em poder do Ministério Público, a empresa
de Luiz Estevão recebeu 22 milhões de reais. "O serviço
que a empresa presta é colocar três vigias na obra", diz
a ex-contadora.
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| A
maquete da obra em Goiás: o ex-senador já recebeu 61%
do dinheiro, mas a obra não
andou |
Conhecida
entre os colegas como Tereza, nome que sua mãe escolheu, mas não
foi registrado oficialmente, Jesuína Ferreira teve um gesto corajoso
ao depor. Em abril de 1999, o então senador desconfiou que Jesuína
estava vazando informações confidenciais à imprensa.
Numa discussão, ele torceu-lhe o dedo indicador a ponto de fazê-la
curvar-se ela só se livrou da tortura depois de desferir-lhe
uma bofetada no rosto. Daí em diante, sua vida virou um inferno.
Passou a receber constantes ameaças por telefone. "Luiz Estevão
disse que eu me daria muito mal se abrisse a boca", lembra. Demitida,
ela recebeu ameaças de morte de um segurança do ex-senador.
Não era para menos. Além do Grupo OK, Jesuína também
foi contadora da Ecal, outra empreiteira. A Ecal era a dona da casa que
o ex-secretário-geral da Presidência da República
Eduardo Jorge Caldas Pereira morou por dois anos, supostamente em regime
de aluguel, embora a contabilidade da empresa não registre o ingresso
de um único centavo a esse título. Jesuína também
foi quem elaborou a declaração de bens que Luiz Estevão
apresentou à Justiça Eleitoral quando se candidatou ao Senado,
em 1998 outra peça que a ex-contadora diz ter sido fraudada.
"Ele listou apenas uma conta no exterior com um saldo equivalente a 10.000
reais", revela. O Ministério Público acredita que, ao descobrir
Jesuína Ferreira, encontrou a testemunha que faltava, pelo volume
de informações que ela detém e por ter trabalhado
no coração das fraudes do senador cassado. "Foi assim que
Al Capone foi parar na cadeia", diz o procurador Luiz Francisco de Souza,
um dos investigadores do caso. O ex-senador diz que Jesuína nunca
foi sua contadora. Para "negão", o negócio de "mãezona"
é grana.

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