|
|
|
Edição
1 656 -5/7/2000
|
|
|
Principal peça do escândalo
que Daniela Pinheiro p>
Num intervalo de apenas dois dias, a trajetória
de vida do senador Luiz Estevão de Oliveira sofreu
uma reviravolta espetacular. Envolvido no mais rumoroso
caso de corrupção da História recente
do país, ele teve o mandato parlamentar cassado pelo
Senado na quarta-feira passada. Só poderá
retornar à vida pública em 2014, aos 64 anos
de idade. Na sexta-feira, Estevão foi preso
e obrigado a dormir numa cela de 12 metros quadrados na
Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
A cela possui uma pia, um vaso sanitário sem tampa
e um colchão disposto sobre uma base de cimento.
O "chuveiro" é um cano d'água próximo
à latrina. Devidamente instalado na cela, de onde
poderá sair caso seus advogados consigam um habeas-corpus,
Estevão recebeu um chamado pelo celular que pode
ser considerado histórico. Era Fernando Collor, afastado
da presidência em 1992, após as denúncias
de corrupção feitas a VEJA por seu irmão,
Pedro Collor. Os dois são amigos íntimos desde
a juventude. O primeiro presidente impichado da República
queria confortar o primeiro senador cassado da República.
"Escovão", disse Collor usando um apelido que o senador
tinha na juventude, "seja forte". Luiz Estevão agradeceu
a chamada e prometeu: "Vou sair logo daqui" O caso envolvendo a cassação e a prisão
do senador Luiz Estevão coloca uma pergunta-chave:
com tantas denúncias de corrupção pipocando
no noticiário, o que se deve pensar? O Brasil está
apodrecendo de vez? A resposta será sim, o país
poderá estar apodrecendo de vez, se se imaginar que
a corrupção se alastrou tanto que até
um sujeito bem-apessoado, rico, inteligente e poderoso acabou
por se envolver num caso de desvio de verbas. E põe
desvio nisso! O Ministério Público e a CPI
do Judiciário descobriram que, do total de 231 milhões
de reais liberados para a construção da nova
sede do TRT em São Paulo, 169 milhões foram
desviados. Desse dinheiro, localizaram-se 62 milhões
de reais em contas bancárias mantidas por empresas
de Estevão. Mas há uma segunda resposta possível
e, provavelmente, mais próxima da realidade. Ao contrário
do que pode parecer à primeira vista, o Brasil poderá
estar se renovando. A corrupção continua a
ser um problema nacional, um desafio a ser vencido. No entanto,
aquele sujeito que acabou envolvido no mais rumoroso caso
de desvio de verbas dos últimos tempos foi cassado
e preso mesmo sendo bem-apessoado, rico, inteligente
e poderoso. "O processo de transformação de uma sociedade
é lento, tão lento que faz as pessoas desenvolverem
certo mau humor social", afirma o cientista político
Sérgio Abranches. "Elas são tentadas a achar
que a nação está entregue à
corrupção e que a cassação do
senador foi um episódio isolado, um acidente", diz
Abranches. "Mas é com pequenos passos como esse que
o Brasil vai avançar para um futuro verdadeiramente
democrático", conclui. A cassação do
senador é um marco da política nacional que
contém grandes ensinamentos. Um deles: o Brasil ficou
menor para empresários espertalhões que constroem
fortuna fazendo negócios altamente suspeitos com
o Estado e depois buscam um mandato que funcione como escudo
contra as ações na Justiça. De acordo
com a lei, o cargo eletivo bloqueia a tramitação
dos processos.
A fortuna de Luiz
Estevão
19 empresas
que faturam 300 milhões de reais por
ano Observe-se o caso de Luiz Estevão. Dono de uma
fortuna avaliada em 400 milhões de reais, o ex-senador
controla um império de dezenove empresas, incluindo
um banco, e mora numa mansão com 2.800
metros de área construída, estimada em 7 milhões
de reais. Possui ainda um jatinho de 17 milhões de
reais, cuja compra foi sugestão de um amigo, o ex-tesoureiro
de Fernando Collor, PC Farias. Parte desse patrimônio
foi erguida com o lucro obtido em transações
com fundos de pensão estatais. Em uma dessas operações,
vendeu para os fundos um prédio inteiro construído
com dezenas de irregularidades, inclusive um andar a mais,
numa das áreas nobres de Brasília. Em outra
transação com o governo, iniciou a construção
de um shopping center no Distrito Federal. Seus parceiros
no negócio eram o atual deputado Paulo Octávio
e o empresário Sérgio Naya. Sim, o construtor
do Edifício Palace II, que desabou no Rio de Janeiro,
matando oito pessoas. De acordo com o contrato, se os empreendedores
não concluíssem a obra em trinta meses, deveriam
devolver o terreno ao dono: o governo. Não conseguiram
cumprir o prazo e, para fazer a devolução,
passaram a exigir o pagamento de 22 milhões de reais.
Ainda estão aguardando o dinheiro.
Candidato a senador por Brasília em 1998, fez uma
campanha milionária e obteve 460.000
votos um recorde na história da cidade. No
ano da eleição, a fundação que
ele mantém distribuiu 2,4 milhões de copos
de leite e alimentou com sopa 5.700
famílias. Também doou 2,5 milhões de
cadernos escolares e prestou atendimento odontológico
gratuito a 40.000 pessoas. Eleito,
catorze processos judiciais ficaram parados. Com a cassação,
as ações voltaram a tramitar, inclusive aquela
que gerou seu pedido de prisão preventiva
referente a fraudes ocorridas na década de 90 num
consórcio de carros de sua propriedade. Os advogados
de Estevão esperam novos pedidos de prisão
na semana que vem.
De tanto fazer negócios com o Estado, o empresário
desenvolveu um interesse notável pela máquina
pública. Na semana que vem, o colunista social brasiliense
Marconi Formiga lança uma biografia não-autorizada
de Luiz Estevão. Intitulada O Homem que Queria
Ser Rei, descreve a vida daquele que é considerado
por muitos o personagem mais polêmico de Brasília,
desde sua fundação. No livro, Formiga narra
um episódio contado a ele por um funcionário
público que em sua opinião resume a paixão
de Estevão pelo poder. No dia da posse de Collor
no Palácio do Planalto, em 1990, enquanto o presidente
recebia os cumprimentos, Estevão se dirigiu ao gabinete
presidencial e se sentou na cadeira mais poderosa do país.
"Ele ficava rodando, rodando na cadeira sozinho", relata
o funcionário. O desejo de se tornar governador e
até presidente da República era compartilhado
com alguns convivas mais íntimos. Nessas ocasiões,
Estevão costumava dizer que "era um Collor que daria
certo", pois jamais delegaria funções-chave
a outras pessoas, como fez o ex-presidente com PC Farias
e diversas figuras da famosa República das Alagoas.
Cumpriu o que prometeu. Cometeu todos os erros pessoalmente.
COMEÇOU
ASSIM
O empresário
distribui sopa a pobres de Brasília:
campanha milionária ao Senado
TERMINOU
ASSIM
O
prédio do TRT: Ministério Público
vê o senador por trás de toda a
operação
Outro grande ensinamento que se pode tirar do caso Luiz
Estevão diz respeito ao comportamento institucional
do Senado Federal. Até não muito tempo atrás,
reinava na mais alta Casa do Parlamento um sistema de proteção
cujo objetivo era manter intocados os integrantes da Casa,
ainda que as denúncias contra eles fossem pesadas.
Com o tempo, os políticos perceberam que a melhor
maneira de defender o Parlamento era afastar os maus elementos.
O processo de transformação começou
na Câmara dos Deputados, que desde 1988 já
cassou quinze de seus integrantes, entre eles os anões
do Orçamento, o deputado traficante Hildebrando Pascoal
e até um presidente da Casa, Ibsen Pinheiro. No Senado,
onde a renovação é historicamente mais
lenta, os vícios da política tradicional foram
mantidos por mais tempo até a semana passada.
"O Congresso aprendeu que não fica mais forte quando
protege os corruptos, fica mais fraco", diz o cientista
Abranches. A vida de Estevão tornou-se um inferno porque à
mudança detectada no Congresso Nacional se aliou
um motor antiimpunidade: o Ministério Público.
Uma nova geração formada por uma tropa aguerrida
de promotores atuou exemplarmente nesse caso, levantando
provas e ajudando o Congresso a desmentir cada mentira inventada
pelo ex-senador. A partir de agora, na condição
de ex-parlamentar, Luiz Estevão vai ter de se explicar
a essa turma. Não será fácil enganá-los
(veja reportagem). Quem
sabe, agora, o país possa mudar de patamar e ressarcir
os cofres públicos do dinheiro desviado.
Estevão foi o último a perceber que as coisas
haviam mudado. Com a ajuda do líder do seu PMDB,
Jader Barbalho, ele tentou transformar a discussão
num debate partidário. "O PFL de Antonio Carlos Magalhães
quer me destruir para atingir o Jader", dizia Estevão
aos interlocutores. Para montar sua defesa e tentar convencer
os senadores de sua inocência, calcula-se que ele
tenha gasto mais de 300.000 reais.
Só por um parecer do ex-ministro do Supremo Tribunal
Federal Paulo Brossard, o senador pagou 60.000
reais. Também preparou uma estratégia de choque
para convencer seus colegas. Enquanto ele os visitava, sua
mulher, Cleucy, encarregou-se de convencer as mulheres dos
senadores. Cleucy procurou a mulher de pelo menos quinze
senadores. Na casa de Pedro Simon, conversou com a mulher
dele, Ivete. Chorando muito, pediu a ela que intercedesse
junto ao marido. Os argumentos eram que Estevão estava
sendo injustiçado, que eles passavam por um inferno,
que os seis filhos não dormiam mais. E tudo molhado
por choro. Muito choro. Uma das pessoas que conversaram
com Cleucy, a ex-primeira-dama Rosane Collor ficou impressionada
com seu estado de ânimo. "Ela está arrasada.
Mas eu disse a ela: 'Minha filha, fique calma. Mais achincalhados
do que nós fomos, vocês não vão
ser. Tudo isso passa. Olhe para mim, hoje, estou felicíssima
da vida'", disse Rosane a VEJA.
Com reportagem de
Marcello Sigwalt, de Brasília |
|
|||||||||||||||||||||||||||