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Trecho
do livro Por que Amamos,
de Helen Fisher
1
"Que êxtase impetuoso": apaixonar-se
"O
mundo, para mim, e tudo que ele abarca
É cercado por teus braços; para mim ali jaz,
Nas luzes e sombras de teus olhos,
A única beleza que jamais envelhece."
James
Weldon Johnson
"A beleza que jamais envelhece"*
"O
fogo atravessa meu corpo — a dor de amar a ti. A dor atravessa
meu corpo com as chamas de meu amor por ti. A enfermidade
ronda meu corpo com meu amor por ti. A dor como de uma pústula
prestes a se romper com meu amor por ti. Consumido pelo fogo
de meu amor por ti. Lembro-me do que disseste a mim. Estou
pensando em teu amor por mim. Eu me dilacero por teu amor
por mim. Dor e mais dor. Para onde vais com meu amor? Disseram-me
que ias partir. Disseram-me que me deixarias aqui. Meu corpo
está entorpecido de pesar. Lembra-te do que eu disse,
meu amor. Adeus, meu amor, adeus."1 Assim falou um índio
kwakiutl do sul do Alasca em seu poema arrebatador, transcrito
da língua nativa em 1896.
Quantos
homens e mulheres amaram-se em todas as épocas que
antecederam a mim e a você? Quantos de seus sonhos foram
realizados; quantas de suas paixões desperdiçadas?
Com freqüência, quando caminho ou me sento para
meditar, maravilho-me com todos os casos de amor que este
planeta absorveu. Felizmente, homens e mulheres de todo o
mundo nos deixaram muitas provas de sua vida romântica.
De
Uruk, um sumério antigo, chegam poemas em tábuas
cuneiformes que saúdam a paixão de Inanna, rainha
da Suméria, por Dumuzi, um pastor. "Meu amado,
o deleite de meus olhos", lamenta Inanna para ele mais
de quatro mil anos atrás.2
Os
textos védicos e outros textos indianos, os mais antigos
datando de 1000 e de 700 a.C., falam de Shiva, o mítico
Senhor do Universo, que se apaixonou por Sati, uma jovem indiana.
O deus reflete que "viu Sati e a si mesmo no pináculo
de uma montanha/ enlaçados em amor".3
Para
alguns, a felicidade jamais chegaria. Assim foi para Qays,
filho de um chefe tribal na antiga Arábia. Uma lenda
árabe, datando do século VII d.C., diz que Qays
era um rapaz bonito e brilhante — até conhecer Laila,
que significa "noite", devido a seus cabelos pretos
como azeviche.4 Qays ficou tão inebriado que um dia
saltou de sua carteira escolar para correr pelas ruas gritando
o nome dela. Desde então ele ficou conhecido como Majnun,
ou louco. Logo Majnun começou a vagar pelas areias
do deserto, morando em cavernas com os animais, cantando versos
a sua amada, enquanto Laila, enclausurada na tenda do pai,
escapulia à noite para atirar bilhetes de amor ao vento.
Um transeunte solidário levaria estes apelos ao jovem
poeta desgrenhado e seminu. Sua paixão mútua
por fim levaria à guerra entre as duas tribos — e à
morte dos amantes. Só o que restou foi esta lenda.
Meilan
também sobreviveu à própria morte. Na
fábula chinesa do século XII d.C. "A Deusa
de Jade", Meilan era a filha mimada de 15 anos de um
alto funcionário de Kaifeng — até se apaixonar
por Chang Po, um rapaz vivaz com dedos longos e finos e um
dom para entalhar o jade. "Desde que céu e terra
foram criados, você foi feita para mim e eu fui feito
para você e não a deixarei partir", declarou
Chang Po a Meilan certa manhã no jardim da família
dela.5 Mas estes amantes eram de classes diferentes na rígida
hierarquia social da China. Desesperados, eles fugiram — e
logo foram encontrados. Ele escapou. Ela foi enterrada viva
no jardim do pai. Mas a história de Meilan ainda assombra
a alma de muitos chineses.
Romeu
e Julieta, Páris e Helena, Orfeu e Eurídice,
Abelardo e Heloísa, Tróilo e Créssida,
Tristão e Isolda: milhares de poemas, canções
e histórias românticas atravessaram séculos,
vindos da Europa ancestral, bem como do Oriente Médio,
do Japão, China, Índia e de cada sociedade que
deixou registros escritos.
Mesmo
quando não possuem documentos escritos, os povos deixaram
evidências de sua paixão. Na verdade, em um levantamento
de 166 culturas variadas, antropólogos encontraram
provas do amor romântico em 147, quase 90% delas.6 Nas
19 sociedades restantes, os cientistas simplesmente não
conseguiram examinar este aspecto da vida das pessoas. Mas
da Sibéria ao interior da Austrália e à
Amazônia, as pessoas cantavam canções,
compunham poemas de amor e contavam mitos e lendas do amor
romântico. Muitas fazem a magia do amor — levando amuletos
e encantamentos ou servindo condimentos ou preparados para
estimular o ardor romântico. Alguns matam os amantes.
Outros se matam. Muitos adoecem de uma tristeza tão
profunda que mal podem comer ou dormir.
A
partir da leitura de poemas, canções e histórias
de povos de todo o mundo, passei a acreditar que a capacidade
para o amor romântico está firmemente entrelaçada
no tecido do cérebro humano. O amor romântico
é uma experiência humana universal.
O
que é este sentimento volátil, com freqüência
incontrolável, que se apodera da mente, trazendo alegria
em um momento e desespero no outro?7
O
estudo do amor
"Oh,
diga-me a verdade sobre o amor", exclamou o poeta W.
H. Auden. Para entender o que realmente leva a esta profunda
experiência humana, investiguei a literatura psicológica
sobre o amor romântico, selecionando aquelas características,
sintomas ou problemas físicos que foram repetidamente
mencionados. Não é de surpreender que este poderoso
sentimento seja um complexo de muitas características
específicas.8
Depois,
para me convencer de que estas características da paixão
romântica são universais, eu as usei como a base
para um questionário que planejei sobre o amor romântico.
E com a assistência de Michelle Cristiani, na época
aluna de pós-graduação na Universidade
Rutgers, e da Dra. Mariko Hasagawa e do Dr. Toshikazu Hasagawa,
da Universidade de Tóquio, distribuí este levantamento
entre homens e mulheres na Universidade Rutgers, em Nova Jersey,
e na Universidade de Tóquio.
A
pesquisa começava: "Este questionário trata
de ‘estar amando’, as sensações de estar enfeitiçado,
apaixonado, ou ter uma forte atração romântica
por alguém.
"Se
você não está atualmente ‘amando’ alguém,
mas se sentiu muito apaixonado por alguém no passado,
por favor responda às perguntas com esta pessoa
em mente." Os participantes eram depois indagados
sobre várias questões demográficas, idade,
situação financeira, religião, etnia,
orientação sexual e estado civil. Também
perguntei sobre seus casos de amor. Entre as perguntas: "Quanto
tempo você ficou apaixonado?" "Qual o percentual
diário, em média, que você pensa nesta
pessoa?" E "Você às vezes se sente
como se seus sentimentos estivessem fora de seu controle?"
Depois
vinha o corpo do questionário (ver Apêndice).
Continha 54 afirmativas, como: "Tenho mais energia quando
estou com ______." "Meu coração dispara
quando ouço a voz de _______ ao telefone." E "Quando
estou em aula/no trabalho, minha mente vagueia para _______."
Elaborei estas perguntas para que refletissem as características
mais comumente associadas com o amor romântico. Os participantes
tinham de indicar a que ponto concordavam com cada pergunta
numa escala de sete pontos que ia de "discordo enfaticamente"
a "concordo enfaticamente". Um total de 437 americanos
e 402 japoneses responderam ao questionário. Depois
os estatísticos MacGregor Suzuki e Tony Oliva reuniram
os dados e fizeram uma análise estatística.
Os
resultados foram assombrosos. Idade, gênero, orientação
sexual, afiliação religiosa, grupo étnico:
nenhuma destas variáveis humanas fizeram muita diferença
nas respostas.
Por
exemplo, pessoas de diferentes grupos etários responderam,
sem nenhuma diferença estatística significativa,
a 82% das afirmativas. As pessoas com mais de 45 anos relataram
estar tão apaixonadas quanto aquelas que tinham menos
de 25 anos. Heterossexuais e homossexuais deram respostas
semelhantes em 86% das questões. Em 87% das perguntas,
os homens e mulheres americanos responderam praticamente da
mesma forma: havia poucas diferenças de gênero.
Americanos "brancos" e "outros" responderam
similarmente em 82% das perguntas: a raça quase não
tinha importância no ardor romântico. Católicos
e protestantes não exibiram variação
significativa em 89% das afirmativas: a afiliação
a igrejas não tinha importância. E quando os
grupos mostraram diferenças "estatisticamente
significativas" em suas respostas, em geral um grupo
era um pouco mais apaixonado do que o outro.
As
maiores diferenças estavam entre os americanos e os
japoneses. Em mais de 43 questões onde mostraram variações
estatísticas significativas, uma nacionalidade simplesmente
expressou uma paixão romântica um pouco maior.
E todas as 12 perguntas que mostravam diferenças drásticas
pareciam ter explicações culturais óbvias.
Por exemplo, somente 24% dos americanos concordaram com a
afirmativa: "Quando estou falando com _____, com freqüência
tenho medo de dizer alguma coisa errada", enquanto colossais
65% de japoneses concordaram com esta declaração.
Suspeito que esta variação específica
tenha ocorrido porque os jovens japoneses em geral têm
relações mais formais com o sexo oposto do que
os americanos. Assim, considerando tudo, nestas duas sociedades
muito diferentes, homens e mulheres eram muito semelhantes
em seus sentimentos de paixão romântica.
Amor
romântico. Amor obsessivo. Amor apaixonado. Paixão.
Chame como quiser, homens e mulheres de cada época
e cultura foram "enfeitiçados, amolados e aturdidos"
por este poder irresistível. Estar apaixonado é
universal à humanidade; faz parte da natureza humana.9
Além
disso, esta magia ataca a cada um de nós praticamente
da mesma maneira.
"Significado
especial"
Uma
das primeiras coisas que acontecem quando você se apaixona
é que você vive uma mudança drástica
na consciência: seu "objeto de amor" assume
o que os psicólogos chamam de "significado especial".
Seu amado torna-se singular, único e sumamente importante.
Como disse um enamorado, "Todo o meu mundo se transformou.
Eu tinha um novo centro, e este centro era Marylin".10
Romeu, de Shakespeare, expressou este sentimento mais sucintamente,
dizendo de sua adorada: "Julieta é o Sol".
Antes
que o relacionamento se desenvolva para o amor romântico,
você pode se sentir atraído por vários
indivíduos diferentes, voltando sua atenção
para um, depois para outro. Mas por fim você começa
a concentrar a paixão em apenas um. Emily Dickinson
chamou este mundo particular de "o reino do você".
Este
fenômeno está relacionado com a incapacidade
humana de sentir paixão romântica por mais de
uma pessoa ao mesmo tempo. Em meu levantamento, 79% dos homens
e 87% das mulheres disseram que não iriam a um encontro
amoroso com outra pessoa se seu amado não estivesse
disponível (Apêndice, nº 19).
Atenção
concentrada
A
pessoa possuída pelo amor concentra a atenção
quase completamente no amado, com freqüência em
detrimento de tudo e todos em torno dela, inclusive trabalho,
família e amigos. Ortega y Gasset, o filósofo
espanhol, chama isto de "um estado anormal de atenção
que ocorre em um homem normal". Esta atenção
concentrada é um aspecto essencial do amor romântico.
Homens
e mulheres apaixonados também se concentram em todos
os acontecimentos, canções, cartas e outras
coisinhas que eles associaram com o amado. O tempo que parou
no parque para mostrar a ela uma flor; a noite em que ela
atirou limões para ele preparar as bebidas: para o
possuído pelo amor, estes momentos casuais estão
vivos. Setenta e três por cento dos homens e 85% das
mulheres em meu levantamento lembraram-se de coisas banais
que seu amado disse e fez (Apêndice, nº 46). E 83% dos
homens e 90% das mulheres reprisam estes episódios
preciosos em sua mente enquanto refletem sobre seus amados
(Apêndice, nº 52).
Bilhões
de outros amantes provavelmente sentiram um surto de ternura
quando pensaram nos momentos passados com um namorado. Um
exemplo asiático tocante disto vem de um poema chinês
do século IX, "A Esteira de Bambu", de Yuan
Chen. Chen angustiou-se: "Não suporto guardar/
a esteira de bambu:/ na noite em que te trouxe para casa,/
eu te vi desenrolá-la."11 Para Chen, um objeto
cotidiano tinha adquirido um poder icônico.
O
conto do século XII, Lancelot, de Chrétien
de Troyes, ilustra este mesmo aspecto da paixão romântica.
Neste épico, Lancelot encontra o pente da rainha Guinevere
na estrada depois que ela e seu cortejo passam. Vários
de seus cabelos dourados estão emaranhados nos dentes.
Como escreveu de Troyes, "Ele começou a adorar
os cabelos dela; mil vezes ele os tocou com os olhos, a boca,
a testa e a face".12
Engrandecendo
o amado
O
apaixonado também começa a superdimensionar,
até a exagerar aspectos minúsculos do adorado.
Se pressionados, quase todos os amantes podem relacionar as
coisas de que não gostam em seu amor. Mas eles deixam
estas percepções de lado ou se convencem de
que os defeitos são únicos e encantadores. "Assim
os amantes governam a causa de sua paixão/ para amar
suas damas por suas falhas", refletiu Molière.
Concordo. Alguns chegam a adorar seus amados por seus defeitos.
E
os amantes idolatram as qualidades positivas de seus amados,
desprezando flagrantemente a realidade.13 É a vida
através de lentes cor-de-rosa, o que os psicólogos
chamam de "efeito da lente cor-de-rosa". Virginia
Woolf descreveu vividamente esta miopia ao dizer: "Mas
o amor (...) é apenas uma ilusão. A história
que alguém compõe mentalmente sobre outra pessoa.
E sabe-se o tempo todo que não é verdade. É
claro que se sabe; por que o eterno acalentar não destrói
a ilusão".
Nossa
amostra de americanos e japoneses certamente ilustra este
efeito da lente cor-de-rosa. Cerca de 65% dos homens e 55%
das mulheres no levantamento concordaram com a afirmativa:
"______ tem alguns defeitos, mas eles não me incomodam
de jeito nenhum" (Apêndice, nº 3). E 64% dos homens
e 61% das mulheres concordaram com a afirmativa: "Eu
amo tudo em ______" (Apêndice, nº 10).
Como
nos iludimos quando amamos. Chaucer estava certo: "O
amor é cego."
"Pensamento
intrusivo"
Um
dos principais sintomas do amor romântico é a
meditação obsessiva sobre o amado. É
conhecida pelos psicólogos como "pensamento intrusivo".
Você simplesmente não consegue tirar o amado
da cabeça.
Exemplos
de pensamento intrusivo abundam na literatura mundial. O poeta
chinês do século IV, Tzu Yeh, escreveu: "Como
posso não pensar em ti...".14 Um poeta japonês
do século VIII lamentou: "Meu desejo não
tem tempo, embora cesse". Giraut de Borneil, um trovador
da França do século XII, cantou: "Por amar
demais (...) Tão terrivelmente meus pensamentos me
atormentam".15 E o nativo maori da Nova Zelândia
expressou seu sofrimento com estas palavras: "Deito-me
acordado toda noite,/ Para o amor me pilhar em segredo."
Mas
talvez o exemplo mais admirável de pensamento intrusivo
venha da obra-prima medieval de Wolfram von Eschenbach, Parzival.
Nesta história, Parzival estava a meio galope em seu
corcel quando viu três gotas de sangue na neve de inverno,
vertido por um pato selvagem que tinha sido ferido por um
falcão. Isto o recordou da tez carmim e alabastro de
sua esposa, Condwiramurs. Petrificado, Parzival senta-se em
contemplação, congelado em seus estribos. "E
assim ele refletiu, perdido em pensamentos, até que
seus sentidos/ desertaram-no. O poderoso amor o fez escravo."16
Infelizmente,
Parzival segurava sua lança erguida — um sinal cavalheiresco
de desafio. Logo depois, cavaleiros que estavam acampados
em uma campina próxima com o rei Artur perceberam e
galoparam para um combate com ele. Foi somente quando os seguidores
de Parzival colocaram um cachecol sobre as gotas de sangue
que ele se sacudiu de seu transe de amor, abaixou a arma e
evitou uma batalha mortal.
Poderoso
é o amor. Não é de surpreender que 79%
dos homens e 78% das mulheres em meu levantamento tenham relatado
que quando estão em aula ou no trabalho sua mente se
volta continuamente para o amado (Apêndice, nº 24).
E 47% dos homens e 50% das mulheres concordaram que "Não
importa por onde comece, minha mente sempre termina pensando
em ______" (Apêndice, nº 36). Outras pesquisas
relatam descobertas semelhantes. Os participantes dizem que
pensam em seu "objeto de amor" por mais de 85% das
horas de vigília.17
Como
Milton foi perspicaz em Paraíso perdido ao colocar
Eva dizendo a Adão: "Contigo conversando, esqueço-me
de todo o tempo".
Fervor
emocional
Dos
839 participantes americanos e japoneses de meu levantamento
do amor romântico, 80% dos homens e 79% das mulheres
concordaram com a declaração: "Quando tenho
certeza de que _____ está apaixonado por mim, me sinto
mais leve do que o ar" (Apêndice, nº 32).
Nenhum
aspecto isolado de "estar apaixonado" é tão
familiar ao amante do que a torrente de emoções
intensas que inundam sua mente. Alguns se tornam dolorosamente
envergonhados ou desastrados quando na presença do
amado. Alguns ficam pálidos. Alguns ruborizam. Alguns
tremem. Outros gaguejam. Alguns suam. Alguns ficam com os
joelhos frouxos, sentem-se tontos, ou têm "borboletas
no estômago". Outros relatam uma respiração
acelerada. E muitos dizem sentir o coração em
brasa.
Catulo,
o poeta romano, certamente foi arrebatado. Escrevendo para
sua amada, ele disse: "Você me enlouquece./ Ver
você, Minha Lésbia, tira-me o fôlego./
Minha língua congela, meu corpo/ enche-se de chamas".18
Ono No Komachi, uma poetisa japonesa do século IX,
escreveu: "Deito-me desperta, quente/ as chamas crescentes
da paixão/ explodindo, inflamando meu coração".19
A mulher do Cântico dos Cânticos, a carta de amor
hebreu composta entre 900 e 300 a.C., lamentava: "Desfaleço
de amor".20 E o poeta americano Walt Whitman descreveu
este turbilhão emocional perfeitamente, ao dizer: "Esta
furiosa tempestade galopa por mim — tremo apaixonadamente".21
Os
amantes cavalgam um jaguar de contentamento tão veloz
que muitos acham difícil comer ou dormir.
Energia
intensa
A
perda de apetite e sono tem uma relação direta
com outra das sensações esmagadoras do amor:
uma enorme energia. Como disse a um antropólogo um
jovem da ilha de Mangaia, no Pacífico Sul, quando pensava
em sua amada ele "se sentia como se saltasse no céu!"22
Sessenta e quatro por cento dos homens e 68% das mulheres
de nosso levantamento também relataram que o coração
acelerava quando ouviam a voz do amado ao telefone (Apêndice,
nº 9). E 77% dos homens e 76% das mulheres disseram ter uma
explosão de energia quando estavam com o amado (Apêndice,
nº 17).
Bardos,
menestréis, poetas, dramaturgos, romancistas: homens
e mulheres cantaram por séculos esta química
energizante, bem como a gagueira desconcertante e o nervosismo,
o coração martelando e a falta de fôlego
que podem acompanhar o amor romântico. Mas de todos
os que discutiram este pandemônio físico e psíquico,
ninguém foi tão ilustrativo como Andreas Capellanus,
ou André Capelão, um erudito francês da
década de 1180 que circulava nas altas rodas cortesãs
e escreveu Tratado do amor cortês, um clássico
literário de todos os tempos.
Foi
naquele século que surgiu a tradição
do amor cortês na França. Este código
prescrevia a conduta do amante em relação à
amada. O amante era freqüentemente um trovador — um poeta
muito culto, músico e cantor, com freqüência
das fileiras da cavalaria. Em muitos casos sua amada era uma
mulher casada com o senhor de uma família distinta
da Europa. Estes trovadores compunham e depois cantavam versos
muito românticos para idolatrar e lisonjear a senhora
da casa.
Todavia
esperava-se que aqueles "romances" fossem castos
— e observassem rigidamente os códigos complexos da
conduta cavalheiresca. Assim, em seu livro, Capelão
codificou as regras do amor cortês. Sem saber, ele também
relacionou muitas das principais características do
amor romântico, entre elas a turbulência interior
do amante. Como ele expressou adequadamente, "ao ter
um vislumbre súbito de sua amada, o coração
do amante começa a palpitar". "Todo amante
regularmente empalidece na presença de sua amada."23
E "Um homem atormentado pelo pensamento do amor come
e dorme muito pouco".24
O
clérigo sofisticado também falou do pensamento
intrusivo que vivem os amantes, declarando: "tudo o que
um amante faz termina na idéia de sua amada".
E "Um verdadeiro amante está contínua e
ininterruptamente obcecado pela imagem da amada". Ele
também reconheceu claramente que o amante concentra
toda sua atenção em uma só pessoa quando
ama, ao dizer: "Ninguém pode amar duas pessoas
ao mesmo tempo".25
Os
aspectos fundamentais do amor romântico não mudaram
em quase mil anos.
Oscilações
de humor: do êxtase ao desespero
"Ele
deriva pela água azul/ sob a lua clara,/ pegando lírios
brancos no Lago Sul./ Cada flor de lótus/ fala de amor/
até seu coração se despedaçar."26
Para o poeta chinês do século VIII Li Po, o romance
era doloroso.
As
sensações do amor vão às alturas
e despencam. Se o amado inunda o amante de atenção,
se ele liga regularmente, escreve
e-mails afetuosos ou se une ao amante para uma tarde ou
noitinha de comida e diversões, o mundo irradia. Mas
se o adorado parece indiferente, aparece tarde ou sequer aparece,
deixa de responder aos e-mails, telefonemas ou cartas,
ou manda algum sinal negativo, o amante começa a se
sentir desesperado. Apáticos, deprimidos, estes galanteadores
ficam melancólicos até que consigam explicar
satisfatoriamente seus atos, aliviar seus corações
menosprezados e renovar a caça.
A
paixão romântica pode produzir uma variedade
de mudanças estonteantes de humor que vão da
exultação, quando o amor é retribuído,
à ansiedade, desespero ou até raiva quando o
ardor romântico é ignorado ou rejeitado. Como
coloca o escritor suíço Henri Frederic Amiel,
"Quanto mais um homem ama, mais ele sofre". Os povos
tâmeis do sul da Índia chegam a ter um nome para
esta enfermidade. Eles chamam este estado de sofrimento amoroso
de "mayakkam", que significa intoxicação,
tonteira e ilusão.
Não
chega a me surpreender que 72% dos homens e 77% das mulheres
em meu levantamento discordem da afirmativa: "O comportamento
de ______ não tem nenhum efeito sobre meu bem-estar
emocional" (Apêndice, nº 41). E 68% dos homens
e 56% das mulheres apóiam a afirmativa: "Meu estado
emocional depende de como _______ se sente em relação
a mim" (Apêndice, nº 37).
O
desejo de união emocional
"Venha
a mim em meus sonhos, e então/ De dia eu estarei novamente
bem./ Pois assim a noite compensará/ o desejo desesperançado
do dia".*27 Os amantes anseiam por união emocional
com um amado, como sabia o poeta Matthew Arnold.28 Sem esta
conexão com um amado, eles se sentem incompletos ou
vazios, como se lhes faltasse uma parte essencial de si mesmos.
Esta
necessidade assoberbante de união emocional, tão
característica do amante, é memoravelmente expressa
em O banquete, o relato de Platão de um jantar
em Atenas em 416 a.C. Nesta noite festiva, algumas das mentes
mais brilhantes da Grécia clássica reuniram-se
para jantar na casa de Agaton. Enquanto se reclinam em seus
divãs, um convidado propõe que se divirtam com
um tópico de discussão, apenas esportivamente:
cada um deles deveria descrever e louvar o Deus do Amor.
Todos
concordaram. A flautista foi dispensada. Depois, um por um,
eles usaram sua vez para louvar o Deus do Amor. Alguns consideraram
esta figura sobrenatural a mais "antiga", a mais
"honrada" ou a menos "preconceituosa"
de todos os deuses. Outros sustentaram que o Deus do Amor
era "jovem", "sensível", "poderoso"
ou "bom". Mas não Sócrates. Ele começou
sua homenagem contando o diálogo que teve com Diotima,
a esposa sábia de Mantinea. Falando do Deus do Amor,
ela disse a Sócrates: "Ele sempre vive em um estado
de necessidade".29
"Um
estado de necessidade." Talvez nenhuma expressão
em toda a literatura tenha apreendido com tanta clareza a
essência do amor romântico apaixonado: Necessidade.
Em meu levantamento, 86% dos homens e 84% das mulheres concordaram
com a afirmativa: "Eu espero de todo coração
que _______ esteja tão atraído(a) por mim como
estou por ele/ela" (Apêndice, nº 30).
Este
desejo de se fundir com o amado permeia a literatura mundial.
O poeta romano do século VI d.C. Paulo Silentiarius
escreveu: "E ali repousam os amantes, os lábios
selados/ delirantes, infinitamente sedentos,/ cada um deles
esperando para entrar completamente no outro".30 Yvor
Winters, poeta americano do século XX, escreveu: "Possam
nossos sucessores nos selar em uma só urna,/ Um só
espírito nunca retorna".*31 E Milton expressou
isto perfeitamente em Paraíso perdido quando
Adão diz a Eva: "Nós somos um,/ Uma carne;
perder-te é perder a mim mesmo".
O
filósofo Robert Solomon acredita que este desejo intenso
é a principal razão para o amante dizer "eu
te amo". Isto não é uma declaração
do fato, mas um pedido de confirmação. O amante
quer ouvir aquelas poderosas palavras, "eu também
te amo".32 Tão profunda é esta necessidade
de união emocional com o amado que os psicólogos
acreditam que o senso de identidade do amante se tolda. Como
disse Freud, "A esta altura, o estado de ser no amor
ameaça obliterar as fronteiras entre ego e objeto".
A
romancista Joyce Carol Oates apreendeu vividamente esta sensação
de jubilosa fusão quando escreveu: "Se eles se
virarem de repente para nós, recuaremos/ a pele se
arrepia úmida, sutilmente/ seremos rasgados em duas
pessoas?"
À
procura de pistas
Quando
os amantes não sabem se seu amor é apreciado
e retribuído, eles se tornam hipersensíveis
aos sinais enviados pelo adorado. Como escreveu Robert Graves,
"Ouvindo uma batida na porta, esperando por um sinal".
Em meu levantamento, 79% dos homens e 83% das mulheres relataram
que quando se sentem fortemente atraídos por alguém,
dissecam os atos do amado, procurando por pistas sobre seus
sentimentos em relação a ele (Apêndice,
nº 21). E 62% dos homens e 51% das mulheres disseram que às
vezes procuraram por significados alternativos para as palavras
e gestos do amado (Apêndice, nº 28).
Mudança
de prioridades
Muitos
apaixonados também mudam o estilo do guarda-roupa,
os maneirismos, os hábitos, às vezes até
os valores para conquistar o ser amado. Um novo interesse
por golfe, aulas de tango, colecionar antigüidades, um
novo corte de cabelo, Mozart em vez de música country,
até se mudar para uma nova cidade ou dar início
a uma nova carreira: homens e mulheres fisgados pelo amor
formam todo tipo de novos interesses, crenças e estilos
de vida para agradar aos seus amados.
O
campeão do amor cortesão do século XII,
André Capelão, resumiu este impulso escrevendo
as palavras: "O amor não pode negar nada ao amor".33
Enquanto um americano embriagado de amor coloca isso rudemente:
"O que quer que ela gostasse, eu gostava".34 Ele
era um entre muitos. Setenta e nove por cento dos americanos
e 70% das americanas em nosso levantamento concordaram com
a afirmativa: "Gosto de manter minha programação
em aberto para o caso de ______ estar livre e podermos nos
ver" (Apêndice, nº 47).
Os
amantes reorganizam a vida para acomodar o ser amado.
Dependência
emocional
Os
amantes também se tornam dependentes do relacionamento,
muito dependentes. Como o Marco Antônio de Shakespeare
declarou a Cleópatra, "Tinha eu o coração
atado por fios a teu leme". Um antigo poema hieroglífico
egípcio descrevia a mesma dependência ao dizer:
"Meu coração é um escravo/ se ela
me abraça".35 O trovador do século XII
Arnaut Daniel escreveu: "Sou dela da cabeça aos
pés".36 Mas Keats foi o mais apaixonado, escrevendo:
"Em silêncio, para ouvir teu terno respirar,/ E
assim viver para sempre — ou desvanecer até a morte".*
Como
os amantes são tão dependentes de um amado,
eles sofrem uma terrível "ansiedade de separação"
quando não estão em contato. Um poema japonês,
escrito no século X, padece deste desespero. "A
manhãzinha cintila/ no brilho difuso/ da primeira luz.
Sufocado de tristeza,/ Eu te ajudo com tuas roupas."37
Os
amantes são marionetes que balançam das cordas
do coração do outro.
Empatia
Conseqüentemente,
os amantes sentem uma enorme empatia pelo amado. Em meu levantamento,
64% dos homens e 76% das mulheres concordaram com a afirmativa:
"Fico feliz quando _____ está feliz e triste quanto
ele/ela está triste" (Apêndice, nº 11).
O
poeta e. e. cummings escreveu encantadoramente sobre isso,
dizendo: "ela ria sua alegria ela chorava sua tristeza".
Muitos amantes chegam a se dispor a se sacrificarem por seu
amado. Talvez o sacrifício de Adão por Eva seja
a oferta mais dramática de toda a literatura universal.
Como Milton a descreveu, depois de descobrir que Eva havia
comido da maçã proibida, Adão decide
comer ele mesmo da maçã — o que ele sabe que
levará à expulsão deles do Jardim do
Éden e à morte. Adão diz: "pois
contigo/ por certo minha resolução é
morrer".38
A
adversidade aumenta a paixão
A
adversidade com freqüência alimenta a chama. Chamo
este curioso fenômeno de "frustração-atração",
mas é mais conhecido como "efeito Romeu e Julieta".
Os obstáculos sociais ou físicos acendem a paixão
romântica.39 Permitem que a realidade seja descartada
e que nos concentremos nas enormes qualidades do outro. Até
as discussões ou rompimentos temporários podem
ser estimulantes.
Um
dos exemplos mais divertidos da literatura de como a adversidade
aumenta o romance é a peça de um ato de Tchekov,
O urso.40
Neste
drama, um proprietário de terras mal-humorado, Grigori
Stepanovitch Smirnov, aparece na casa de uma jovem viúva
para pegar um dinheiro que o marido morto devia a ele. A mulher
se recusa a pagar um cópeque que seja. Ela está
de luto, explica, e grita bruscamente para ele: "Não
estou com espírito para me preocupar com questões
monetárias". Isto lança Smirnov num discurso
contra todas as mulheres — chamando-as de hipócritas,
falsas, cruéis e ilógicas. "Brrrr!",
ele diz com veemência, "Tremo de fúria".
A raiva dele incita a dela e eles começam a trocar
insultos aos gritos. Logo ele apela para um duelo. Aflita
para fazer um buraco na cabeça dele, a viúva
pega as pistolas do marido morto e eles tomam posições.
Mas
à medida que o rancor cresce, aumenta também
o respeito mútuo — e a atração. De repente
Smirnov exclama: "Agora, isto é que é mulher!
Eu bem vejo! Uma mulher de verdade! Não é uma
choramingas, não é uma covarde, é um
meteoro, um foguete, é uma arma de fogo! É uma
vergonha ter de matá-la!" Um minuto depois ele
declara um amor imortal e pede a ela que seja esposa dele.
Quando os criados dela correm para a sala para defender sua
senhora com machados, ancinhos e forcados, tropeçam
nos amantes — empolgados num abraço louco.
Esta
estranha relação entre a adversidade e o ardor
romântico é vital em todos os amantes das grandes
lendas do mundo. Se incitados por dificuldades de um ou outro
tipo, eles só se amam ainda mais.
A
história ocidental mais conhecida desse tipo, é
claro, é a tragédia de Shakespeare Romeu
e Julieta. Aqueles jovens amantes da Verona do século
XVI são apanhados em uma disputa amarga entre duas
poderosas famílias, os Montéquio e os Capuleto.
Romeu é um Montéquio, Julieta uma Capuleto.
Todavia Romeu se apaixona por Julieta no momento em que a
vê em uma festa da família, exclamando: "Oh,
ela ensina o archote a luzir!/ Conheceria meu coração
até hoje o amor? Abjure-o, olhe!/ Nunca soube até
esta noite o que era a beleza".41 Julieta também
sucumbe à flecha do Cupido. Quando Romeu parte do banquete,
ela pergunta à ama: "Vai perguntar como se chama.
Se for casado,/ Meu túmulo será meu leito nupcial".42
A peça se desenrola numa série de obstáculos
e confusões que só intensificam a paixão
dos dois.
Sessenta
e cinco por cento dos homens e 73% das mulheres em meu levantamento
concordaram com a afirmativa: "Eu nunca desisto de amar
_____, mesmo quando as coisas ficam ruins" (Apêndice,
nº 26). E 75% dos homens e 77% das mulheres concordaram com
a afirmativa: "Quando o relacionamento com _____ tem
um contratempo, eu me esforço mais para que as coisas
dêem certo" (Apêndice, nº 6).
Um
dos resultados inesperados de meu levantamento quase certamente
pode ser atribuído ao papel da adversidade no amor.
Os participantes homossexuais, tanto homens como mulheres,
relataram mais turbilhão emocional do que os heterossexuais.
Estes indivíduos eram mais atormentados pela insônia,
perda de apetite e o desejo de união emocional com
um amado. Acho que este sofrimento físico ocorre, pelo
menos em parte, devido aos obstáculos sociais que devem
ser superados por muitos amantes homossexuais.
Os
que responderam a meu questionário enquanto pensavam
num ex-amante também pareciam mais frágeis emocionalmente.
Também eles tiveram dificuldades para comer e dormir.
Ficavam mais tímidos e desajeitados perto de seu antigo
amado. Sofriam mais de "pensamento intrusivo" e
mais oscilações de humor. E com mais freqüência
relataram ter um coração acelerado quando pensavam
em sua antiga chama. Suspeito de que muitos destes participantes
foram rejeitados pelo ser amado — e esta adversidade aumentou
seu ardor romântico.
Como
barcos a remo em um mar turbulento, homens e mulheres viajam
pelas ondas da angústia e da alegria que são
o amor romântico. E os obstáculos intensificam
estas emoções. Se seu amado é casado
com outra pessoa, se ele mora em outro continente, se vocês
falam línguas diferentes, provêm de grupos étnicos
diferentes ou de diferentes partes da cidade, este obstáculo
pode aumentar a paixão romântica. Dickens disse
sobre isso: "O amor com freqüência cresce
de forma mais abundante na separação e sob as
circunstâncias mais difíceis". É
bem verdade.
Esperança
"Digamos
que eu pudesse viver em esperança", argumenta
o rei Pirro com Andrômaca no drama de amor e morte de
Racine. Por que os amantes devem continuar a ter esperança,
mesmo quando os dados lançados pela vida saem incansavelmente
contra eles? A maioria ainda espera que o relacionamento renasça
— até anos depois de ter terminado amargamente. A esperança
é outra característica predominante do amor
romântico.
Um
poema encantador do século XVI, de Michael Drayton,
expressa este otimismo. Ele começa: "Como não
há remédio, vem, beijemo-nos e digamos adeus!/
Não, nada mais tenho, não terás mais
nada de mim;/ E estou feliz, sim, de todo coração,/
Por me libertar assim tão honestamente/ Eternos apertos
de mãos, anulem-se os votos;/ E quando nos reencontrarmos
um dia,/ Que não se veja em teu semblante,/ que resta
um mínimo de amor em nós". Com estas palavras
Drayton declara, com aparente confiança, que o caso
está finalmente acabado. Mas, no final do poema, ele
de repente muda de tom. Vencido pela esperança, ele
afirma que o "Amor" ainda pode ser salvo: "Se
tivesses entregado tudo a ele,/ Da morte à vida, ainda
assim o redimirias."*43
Acho
que esta tendência à esperança se tornou
arraigada no cérebro humano eras atrás para
que nossos antepassados buscassem obstinadamente parceiros
em potencial até que expirasse a última faísca
de possibilidade.
Uma
ligação sexual
"Eu
preferia morrer cem vezes a ficar sem o teu doce amor. Eu
te amo. Eu te amo desesperadamente. Eu te amo como amo minha
própria alma."44 Assim declarou Psiquê ao
marido, Eros, em O asno de ouro, romance do século
II de Apuleio. "Ardendo de desejo", continua a história,
"ela se inclinou e o beijou impulsivamente, impetuosamente,
com um beijo depois de outro depois de outro beijo, temerosa
de que ele despertasse antes que ela tivesse terminado."45
A
poesia de todo o mundo atesta o intenso anseio do amante por
união sexual com o amado, outra característica
básica do amor romântico.
No
Cântico de Salomão, a mulher evoca: "Oh
vento norte, desperta. /Vento sul, levanta-te./ Soprai em
meu jardim/ e levai minhas fragrâncias./ Deixai que
meu amor entre neste jardim/ e coma de seu doce fruto".46
Inanna, rainha da antiga Suméria, ficou extasiada com
a sexualidade de Dumuzi, dizendo: "Oh, Dumuzi! Sua plenitude
é meu deleite!"47 Mas o mais doce para meus ouvidos
é o poema inglês anônimo que lamenta: "Vento
oeste, quando deixarás de soprar?/ a chuva fina pode
cair,/ Cristo, se minha amada estivesse em meus braços/
E eu novamente em minha cama!"
Freud,
assim como muitos eruditos e leigos, sustentava que o desejo
sexual é um componente central do amor romântico.48
Não era uma idéia nova. Quem estudou o Kama
Sutra, o manual do amor da Índia do século V,
sabe que a palavra "love", "amor", vem
do sânscrito "Lubh", que significa "desejar".
Certamente
faz sentido que as sensações do amor romântico
sejam entrelaçadas com o desejo sexual. Afinal, se
a paixão romântica evoluiu entre nossos antepassados
para motivá-los a concentrar sua energia para o acasalamento
em um indivíduo "especial" pelo menos
até que a inseminação tenha sido concluída
(como sustentarei nos capítulos subseqüentes),
então a paixão romântica deve estar relacionada
com o desejo sexual.
Os
resultados de meu levantamento apóiam esta proposição.
Substanciais 73% dos homens e 65% das mulheres têm devaneios
com fazer sexo com o amado (Apêndice, nº 34).
Exclusividade
sexual
Os
amantes também querem exclusividade sexual. Eles não
desejam ter seu relacionamento "sagrado" maculado
por terceiros. Quando alguém vai para a cama com "apenas
um amigo", ele com freqüência não se
preocupa muito se o parceiro sexual também está
copulando com outro. Mas uma vez que um homem ou uma mulher
se apaixonam e começam a ansiar por união emocional
com um amado, querem profundamente que seu parceiro permaneça
sexualmente fiel — a eles.
Muitas
das histórias de amor do mundo refletem esta possessividade
sexual, bem como o desejo do amante de manter sua fidelidade
sexual. Por exemplo, enquanto separado de Isolda, a Justa,
Tristão casou-se com outra mulher com o mesmo nome,
Isolda das Brancas Mãos — em grande parte porque esta
mulher lhe trazia muito do apelo da amada. Mas Tristão
não consegue consumar o casamento. Quando, na lenda
árabe, Laila fica noiva de alguém que não
era seu amado Majnun, ela também evita o leito nupcial.
E cerca de 80% dos homens e 88% das mulheres em meu levantamento
concordaram com a afirmativa: "Ser sexualmente fiel é
importante quando você está apaixonado"
(Apêndice, nº 42).
De
todas as propriedades do amor romântico, este anseio
por exclusividade sexual é o mais interessante para
mim. Provavelmente evoluiu por dois motivos essenciais: para
proteger os homens ancestrais de serem traídos e criarem
o filho de outro; e para proteger as mulheres ancestrais de
perderem para uma rival um marido em potencial e pai para
seus filhos. Este desejo por exclusividade sexual permitiu
que nossos antepassados protegessem seu precioso DNA enquanto
gastavam quase todo o seu tempo e energia cortejando alguém
que adoravam.
Mas,
junto com o impulso para garantir a fidelidade sexual durante
a corte, veio uma característica menos atraente do
amor romântico. O "monstro de olhos verdes"
de Shakespeare, o ciúme.
Ciúme:
a "ama-de-leite do amor"
Em
seu livro sobre as regras do amor cortês, Capelão
escreveu: "Quem não sente ciúme não
é capaz de amar". Ele chamava o ciúme de
"ama-de-leite do amor" porque acreditava que ele
nutria a chama romântica.49
O
sagaz clérigo, como sempre, estava certo. Em toda sociedade
em que os antropólogos estudaram a paixão romântica,
os dois sexos eram ciumentos, muito ciumentos.50 Como alertou
o I Ching, o livro chinês da sabedoria escrito mais
de três mil anos atrás, "Um vínculo
estreito somente é possível entre duas pessoas;
um grupo de três engendra ciúme".
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