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Reportagem
publicada em 2/1/1991
A
febre dos negócios na Flórida
40
milhões de turistas por ano injetam bilhões de
dólares e fazem a riqueza do Estado americano
Flávia
Sekles, de Miami
Antes
que as férias de verão acabem, 80.000 brasileiros
terão carimbado seus passaportes no aeroporto de Miami, a
porta de entrada do ensolarado Estado americano da Flórida.
Semanalmente, saem do país 35 vôos com destino a Miami,
o mais intenso foco internacional de atração de viajantes
brasileiros, seguido de Buenos Aires, Nova York, Paris e Lisboa.
Os brasileiros, como milhões de viajantes de todo o mundo,
vão em busca das atrações da única porção
de terra tropical do planeta instalada num país de Primeiro
Mundo - na mesma latitude da Flórida estão o norte
do México, a Argélia e o conflagrado Golfo Pérsico.
A civilização tropical que se ergue na Flórida
e que se amplia a cada ano é uma organização
social única na Terra. A cada ano, 40 milhões de turistas
- 34 milhões americanos e os outros 6 milhões estrangeiros
- vão à Flórida e ali gastam cerca de 25 bilhões
de dólares, quase um quarto da dívida externa brasileira.
Mais
de 1.000 americanos mudam-se para lá a cada dia, e nesse
ritmo, na virada do século, o Estado que hoje tem 12,8 milhões
de habitantes será o mais populoso do país. Junte-se
aos dólares gerados pelo turismo um clima generoso, a população
crescente, os impostos baixos e a mão-de-obra mais barata
dos Estados Unidos para se ter a receita de ebulição
econômica que está revolucionando a região.
"A Flórida é a Califórnia dos anos 90",
diz Joe Wells, presidente do Sun Trust Bank, uma instituição
financeira com fortes raízes na região. Essa constatação
significa que a Flórida continuará sendo um forte
pólo de atração turística baseado principalmente
nos parques da Disney World, em Orlando, mas sofrerá os espasmos
produtivos de uma febre de negócios que toma forma em seu
território transformando-lhe a paisagem. Os cerca de 20.000
brasileiros que moram legalmente na Flórida - calcula-se
que existam outros 10.000 clandestinos - já perceberam essas
transformações e sentem-se à vontade nessa
nova terra das oportunidades.
CLIMA
ENSOLARADO - Ser a Califórnia da década que se inicia
significa também atrair investimentos da indústria
cinematográfica e de empresas de alta tecnologia. Em volta
de Cabo Canaveral, onde fica a base de lançamento de foguetes
dos Estados Unidos, cresce um cinturão de fornecedores de
equipamentos de alta tecnologia para a Nasa, a agência espacial
americana - entre elas a principal, Martin Marietta, cujos técnicos
conceberam o traje espacial voador que permite aos astronautas abandonar
a nave e movimentar-se livremente no cosmos. Empresas da Flórida
especializadas em raios laser já concorrem em quantidade
e qualidade com as do famoso Vale do Silício na Califórnia,
o enclave de tecnologia de ponta do oeste americano, e com as empresas
da região de Boston. "Mais alguns anos e Orlando vai
encostar em Boston", diz Peter Baker, diretor do Laser Institute
of America, que se mudou para a Flórida no ano passado. Mais
da metade dos empregos gerados na região de Orlando e Cabo
Canaveral depende das indústrias de alta tecnologia. Outro
pilar da economia da Flórida, o cinema, também não
pára de crescer. Orlando encarna o maior fenômeno urbanístico
do século nos Estados Unidos: a transformação
de uma comunidade pastoril e agrária numa cidade que tem
mais quartos de hotel do que Nova York. O fenômeno de transformação
da Flórida nada mais é do que a diluição
do que se passou em Orlando - o desenvolvimento industrial, social,
tecnológico e comercial impulsionado num primeiro instante
pelos dólares gerados pelo turismo.
A MGM
e a Universal já fazem mais da metade de suas produções
na Flórida. Pequenas e médias produtoras de televisão
e de comerciais mudam-se para a Flórida num ritmo frenético,
atraídas pelo clima ensolarado. Miami Beach, especialmente
seu famoso quarteirão art déco com prédios
antigos pintados com as cores pastéis características
da região - rosa e verde cítrico -, tomou-se o cenário
mais procurado por produtores de moda dos Estados Unidos. Todos
os grandes estúdios, mesmo os que ainda não se mudaram
para a Flórida, vão ambientar em 1991 algum filme
no Estado. "Já se fala numa Hollywood do leste que em
vinte anos deverá estar quase do mesmo tamanho da original
e muito maior que o pólo cinematográfico de Nova York",
diz Norm Rice, vice-presidente da Universal, que inaugurou seus
estúdios em Orlando no ano passado. Em 1988, foram feitos
115 filmes em Nova York e apenas 43 na Flórida. "Essa
proporção deve se inverter em alguns anos", diz
Rice.
Durante
décadas a Flórida marcou passo. Indecisa entre ser
um enclave da América Latina nos Estados Unidos ou um prolongamento
das benesses do Primeiro Mundo projetando-se para as latitudes mais
baixas rumo ao Trópico de Câncer, ao Caribe e à
América Central. Foi no decorrer da última década
que o Sunshine State, o Estado do Sol Brilhante, firmou sua vocação
de progresso. Desde que o espanhol Ponce de León embrenhou-se
em seu interior no ano de 1513 em busca da mitológica fonte
da juventude, a região vive sob o estigma da miscigenação
étnica. Os espanhóis enfrentaram invasões de
franceses, que logo foram assediados pelos interesses ingleses na
região. Dois séculos mais tarde, as aventuras de um
comandante espanhol, Bernardo de Galvez, faria a região retomar
ao domínio espanhol. Só em 1818 os americanos tomariam
de novo a Flórida pela força, anexando-a oficialmente
um ano mais tarde pelos termos de um tratado diplomático
assinado com a Espanha.
REINO
CONTURBADO - Em Miami, onde se concentra, além dos cubanos,
a maior parte dos refugiados políticos da América
Latina que, ao chegar aos Estados Unidos, preferem ficar no sul
da Flórida a qualquer outro Estado devido à hispanidade
da região, os cubanos são reis. Mas o reino anda conturbado.
Haitianos, nicaragüenses, salvadorenhos e os negros americanos
vivem dentro de um caldeirão à beira da fervura. A
fricção entre os mais pobres e os mais ricos é
constante e costumam explodir quebra-quebras. Se um policial de
origem cubana mata um negro, ou, numa ocorrência mais inocente,
um alfaiate cubano se recusa a atender um freguês haitiano,
a confusão é imediata. Quando o líder negro
sul-africano Nelson Mandela visitou os Estados Unidos e anunciou
que Castro constava entre seus amigos, Miami fechou suas portas
e deu a Mandela a recepção mais fria de sua visita.
Os negros reagiram promovendo um boicote ostensivo a Miami, que
já causou à cidade prejuízo de 5 milhões
de dólares em convenções canceladas.
A Flórida
certamente não é apenas o mundo encantado de Disney.
Fora do turismo, o Estado tem problemas. Mas a diferença
fundamental de outras regiões dos Estados Unidos é
que ali as dificuldades são menores e parecem ter solução
mesmo que o país caminhe para uma recessão. Apenas
14% da população acredita que a situação
financeira do Estado piorou nos últimos anos, enquanto 41%
acredita que as coisas estão melhorando financeiramente.
A Flórida enfrenta com vigor seus graves problemas nas áreas
de crime, drogas e educação. Em 1988, por exemplo,
houve um assassinato a cada oito horas e 42 minutos, e um carro
foi roubado a cada oito minutos e 22 segundos - números que
rivalizam com os de Nova York. Em 1988, a Flórida liderou
nos Estados Unidos com o maior número de pessoas postas em
liberdade condicional, com 204.000, ou um sétimo do número
total do país. Quase metade da população, segundo
pesquisas, diz temer caminhar numa área mais distante que
1 quilômetro de suas residências. Miami Vice, o seriado
da televisão sobre o tráfico de drogas na Flórida,
exibido no Brasil pela Rede Globo, pode exagerar na violência,
mas, na realidade, mais de 70% da cocaína que entra nos EUA
passa pela Flórida. As drogas são o problema mais
crítico do Estado - segundo uma pesquisa de opinião
pública da Florida International University, 70% da população
acredita que o problema está piorando. Estatisticamente a
situação é muito melhor do que na década
de 70, quando os legisladores trouxeram de volta a pena de morte
ao Estado. Ela continua em pleno vigor e, no mês passado,
levou à cadeira elétrica Robert Raymond Clark. Ele
foi condenado à pena capital pelo assassinato de um comerciante
de quem tentou extorquir 5.000 dólares. Foi o quinto executado
apenas no ano de 1990.
EXPERIÊNCIA
CULTURAL - Os viajantes apressados correm o risco de reduzir a Flórida
ao roteiro Flagler Street, em Miami, a rua das lojas de brasileiros
especializadas em tênis e produtos eletrônicos, e aos
parques da Disney World, em Orlando. A Flórida é muitíssimo
mais rica que esses lugares. Em Miami Beach, por exemplo, fica um
dos shopping centers mais exclusivos dos Estados Unidos, o Bal Harbour,
que abriga uma belíssima loja da Saks, que ficou famosa primeiro
em Nova York. Também no shopping de Bal Harbour há
outra loja famosa nos Estados Unidos, a Neimann Marcus. Um pouco
mais ao norte fica o Aventura Mall, que tem uma loja da Macy's,
outra marca preferida pelos americanos. No extremo sul de Miami
estão outras lojas de excelente qualidade, como a Bloomingdale's
do shopping Falls. Saks, Bloomingdale's, Neimann Marcus e Macy's
são lojas dedicadas a vender para os americanos - e é
sempre uma experiência cultural a mais numa viagem experimentar
o modo de vida dos habitantes do país visitado. Comprar na
Flagler Street pode ser muito bom para donos de butiques no Brasil
interessados apenas em quantidades e pronto atendimento. Para o
viajante curioso e cuidadoso, comprar nas lojas tradicionais dos
americanos pode ser muito mais instrutivo e rico.
RECURSOS
NATURAIS - Do ponto de vista histórico, há coisas
lindas para ver na região. A cidade de Saint Augustine, no
litoral norte, é o primeiro assentamento populacional europeu
na América do Norte. Lá estão a casa e a escola
mais antigas dos Estados Unidos. Há guias especializados
e roteiros enriquecedores sobre a colonização espanhola
e os primórdios da vida dos primeiros imigrantes europeus
no continente. A Flórida é também o ponto de
partida privilegiado para passeios e cruzeiros pelo Caribe. De Miami
se podem conseguir no mesmo dia quaisquer tipos de passeio pelas
ilhas caribenhas. As estradas são invariavelmente de ótima
qualidade, o que é um incentivo para se alugar um carro.
Um roteiro imperdível é uma viagem até Cabo
Canaveral e, de volta a Miami, pela costa, passando por Palm Beach,
Fort Lauderdale com suas mansões cinematográficas
à beira-mar. O mais interessante: pelos preços atuais,
uma viagem pela Flórida custa menos do que uma temporada
em Recife ou Maceió.
A Flórida
atrai um em cada cinco turistas que desembarcam nos Estados Unidos.
Quase metade dos latino-americanos que pisam em terra americana
passa por lá e 30% dos ingleses que visitam sua antiga colônia
ficam parte de suas férias na Flórida - seguidos de
milhares de outros europeus que invadiram o Estado em ritmo de avalanche
desde que o dólar começou a perder valor com relação
às moedas européias, em 1985. Hoje, passar férias
nos Estados Unidos é 500% mais barato para quem tem moeda
forte no bolso. Os próprios americanos, que antigamente tinham
o luxo de poder escolher a Europa como destino, são forçados
a se contentar com o sol quente e usufruir - se não dos parques
automatizados de Orlando - as dezenas de outros recursos naturais
que a Flórida oferece. Entre as praias e parques naturais
se encontram, por exemplo, os Keys da Flórida, onde se situa
o primeiro parque submarino dos Estados Unidos - 75 milhas quadradas
no Oceano Atlântico preservadas -, a única formação
de coral viva na costa norte do Atlântico. Com mais de quarenta
espécies de coral e 600 de peixe, é um verdadeiro
paraíso para o mergulhador. Na costa oeste, o Everglades
- o maior "Rio de Grama" na face da Terra conhecido como
o rio mais largo e raso dos Estados Unidos (atinge 80 quilômetros
de largura), chega a fazer inveja ao Pantanal em termos de variedade
de fauna e flora. A receita da Flórida de construir um paraíso
de negócios e lazer nos trópicos revela-se um sucesso.
É de prever também que o fluxo de brasileiros rumo
ao Estado aumente e que, para um bom número deles, tomar
o rumo da Flórida vá significar mais do que pegar
um bronzeado e passar alguns dias de lazer. Pode ser que os brasileiros
possam ser vistos nos vôos para Miami como os executivos na
ponte aérea Rio-São Paulo - se cumprimentando com
o tradicional "bons negócios".
Nova
terra prometida
A
vida dos brasileiros que trocaram a crise
e a recessão do Brasil pelos dólares de Miami
Entre
as levas coloridas de turistas brasileiros que todos os anos escolhem
a Flórida para passear, há um número crescente
de pessoas que não enxergam aquele pedaço ensolarado
do território americano apenas como um parque de diversões,
mas como um lugar para morar, fazer bons negócios, fixar
e ampliar uma carreira artística. Há alguns anos predominavam
os que descobriam essa potencialidade quando passavam por ali com
visto de turista e procuravam ficar de qualquer maneira, inclusive
na clandestinidade. As levas mais recentes de brasileiros voam para
a Flórida rigorosamente dentro da lei, levando um projeto
definido de negócio. E é cada vez maior o numero de
brasileiros que aparecem simplesmente para comprar um imóvel
de férias ou abrir uma conta em dólar com rendimentos
reais de 8,5% ao ano. O principal objetivo desses brasileiros é
ter um pé em terra firme de um Primeiro Mundo ensolarado,
protegidos por uma economia desenvolvida e saldos bancários
livres de confiscos.
O cordão
de brasileiros interessados em negócios começou a
se formar no início dos anos 80, depois do Edge Act, de 1978,
quando a Flórida baixou uma legislação ampliando
as possibilidades de abertura de filiais de instituições
financeiras estrangeiras. Seis agências de bancos brasileiros
já funcionam ali e uma sétima se encontra em fase
de instalação. "Após a aprovação
dessa lei, o comércio entre nossos países disparou",
diz o americano John Motion, do Escritório para a América
Latina do Departamento do Comércio da Flórida. "Há
dois anos, o Brasil ultrapassou a Venezuela e se tornou o nosso
principal parceiro de negócios na América Latina."
O comércio entre a Flórida e o Brasil é atualmente
de mais de 2 bilhões de dólares anuais, um volume
quatro vezes superior ao faturamento do maior exportador privado
do Brasil, a Fiat Automóveis.
"Fomos
os últimos latino-americanos a descobrir a Flórida,
mas já estamos imprimindo a nossa marca", diz Bruno
Borghini, gerente-geral da Varig em Miami. A maré brasileira
registra fluxos e refluxos. Em duas ocasiões, levas de dinheiro
nacional foram parar na Flórida. A primeira ocorreu em 1989,
antes da eleição de Fernando Collor de Mello, e se
deveu ao medo de que Lula chegasse à Presidência da
República. A segunda começou depois do Plano Collor,
quando a segurança do dinheiro aplicado em caderneta de poupança
se evaporou da noite para o dia. "A Flórida é
um paraíso para se viver ou fazer negócios, onde a
rigidez americana foi suavizada pela presença de muitos imigrantes
latinos", diz Marcelo Sabino, que ali chegou há sete
anos como representante do Banco Rural.
Dono,
em Miami, de uma empresa chamada American Supply, o empresário
paulista Marcos Machado foi um dos primeiros brasileiros a descobrir
isso. Em 1983, ele desembarcou na Flórida como funcionário
de uma empresa nacional de importação e exportação.
"Encontrei aqui uma América Latina com infra-estrutura",
define ele. Em 1986, Machado abriu seu próprio negócio.
Começou importando materiais de construção.
Hoje, atua no ramo imobiliário. Um de seus empreendimentos
é o Bay Harborview, um edifício de apartamentos quase
terminado, com preços entre 150.000 e 250.000 dólares,
e já completamente vendidos.
SALTOS
INIMAGINÁVEIS - Outro é um conjunto de casas no sul
de Miami, um empreendimento no qual foram investidos 16 milhões
de dólares. "Os brasileiros também estão
comprando cada vez mais apartamentos na Flórida porque sabem
que, aqui, um imóvel é sempre um grande negócio",
diz a decoradora mineira Adriana Sabino, outra que escolheu Miami
para viver e trabalhar. Adriana recusa-se a dizer quem são
seus clientes brasileiros. É sabido, porém, que os
empresários Silvio Santos e Roberto Marinho têm propriedades
em Miami. Luciano do Valle, outro empresário do ramo das
comunicações, promotor de lutas de boxe e torneios
de futebol, está estudando a possibilidade de comprar uma
casa em Miami. Ele acaba de instalar ali o ramo americano de sua
empresa, a Luqui.
A lista
das empresas nacionais que já se estabeleceram na Flórida
inclui a estatal Embraer, as companhias aéreas Varig e Transbrasil,
as construtoras Andrade Gutierrez, Norberto Odebrecht e Tratex e
até uma locadora de automóveis, a Unidas de São
Paulo. São empresas brasileiras perfeitamente ambientadas
à oxigenada economia americana e que combatem no território
adversário de acordo com as leis de mercado - e estão
vencendo. "Para nós, da Embraer, os Estados Unidos representam
o futuro", diz Renê Duvekot, representante da empresa,
que investiu 30 milhões de dólares em suas instalações
entre Miami e Orlando, sede da Disney World, onde faz manutenção
de aviões e vende peças de reposição.
Algumas dessas firmas dão saltos inimagináveis no
atual período de aperto recessivo que vive o Brasil. A filial
da locadora Unidas de Miami, por exemplo, inaugurada em janeiro
do ano passado, pode ser considerada uma colecionadora de sucessos.
"Em apenas doze meses de atuação, já conquistamos
o nosso espaço", festeja Dalmo Ferreira, seu gerente.
A Unidas, que abriu com 350 automóveis, fechou 1990 com 1.040
carros. Ferreira sonha longe. Em 1991, planeja abrir duas outras
lojas na Flórida e, em 1992, pretende se expandir para outros
Estados americanos. Uma das razões para atrair essa clientela
é o leque de modalidades de pagamento que oferece ao cliente.
A Unidas aceita até cartões de crédito brasileiros,
como o American Express e Diners.
VOLTA
MAIOR - Os negócios na Flórida mostram que se foi
o tempo em que era considerado impatriótico brasileiro investir
no exterior. "Finalmente, está mudando aquela idéia
arcaica de que aplicar dinheiro aqui fora é uma traição
à pátria", celebra Clovis Estorilio, vice-presidente
para a América Latina do Southeast Bank, um dos mais antigos
da Flórida. A única dificuldade das empresas brasileiras,
ao chegar na Flórida e antes de firmar o nome na praça,
é conseguir créditos nos bancos locais. "A imagem
de nosso país no exterior funciona como empecilho",
explica Ferreira, da Unidas. Sua empresa é um exemplo. Só
para começar e comprar os primeiros automóveis, a
Unidas precisava de 10 milhões de dólares. "Para
viabilizar a empresa, tivemos de fazer aplicações
no Brasil, em bancos que possuem agências aqui, e utilizar
aquele dinheiro no exterior", diz Ferreira. Hoje, como já
é conhecida, crédito não é mais problema
para a Unidas.
Chegar
em Miami, ou em qualquer outro lugar da Flórida, e comprar
um apartamento ou uma casa é bem menos complexo. Basta ter
no bolso dólares suficientes para pagar pelo menos 30% do
valor do imóvel escolhido. "O resto é muito simples",
explica a advogada Hilary Langen, uma inglesa nascida no Brasil
que se ocupa de assessorar investidores brasileiros na Flórida.
Dada a entrada mínima de 30%, estipulada para estrangeiros
- dos americanos se exige 20% -, basta conseguir financiamento num
dos bancos locais. Há empréstimos de até trinta
anos, a juros de 9% ao ano. "Quem tem cartões de crédito
e negócios no exterior só precisa ter sempre pago
as suas contas em dia", adverte Hilary, que já deixou
de realizar uma venda quando se descobriu que seu cliente brasileiro
deixara de pagar, anos antes, uma multa de estacionamento de menos
de 10 dólares, numa viagem à Califórnia.
CABEÇAS
DE CAVALO - "Vivo sempre numa ponte aérea Miami-São
Paulo-Miami", diz Luciano do Valle. De 18 a 27 deste mês,
ele comanda em Miami o III Mundialito de Futebol Masters, a Copa
Pelé 91. "Na Flórida é onde o futebol
mais tem se desenvolvido", afirma Luciano, exemplo do brasileiro
que constrói uma ponte em Miami para ampliar negócios
bem-sucedidos. Casos como o seu são freqüentes. Mas
casos de pessoas que não possuíam nada no Brasil e
construíram tudo o que têm na Flórida não
são raros. Em apenas cinco anos, o artista plástico
Romero Britto, 27 anos, fixou sua reputação. Uma de
suas telas aparece estampada atualmente em 62 revistas americanas,
num anúncio da vodca sueca Absolut, outra se encontra pendurada
na Casa Branca e uma terceira foi parar numa das paredes da casa
de Mike Tyson. Ele abriu uma rede de lojas para vender suas obras.
Além de ficar milionário, Miami já é
sua do ponto de vista do prestígio nas rodas sociais. Na
Flórida, os brasileiros descobriram que bastam boas idéias
e senso de oportunidade para se amealhar dinheiro. Teresa, mulher
do piloto Emerson Fittipaldi, passou a morar na cidade para dali
acompanhar o marido na Fórmula Indy. No dia em que Emerson
venceu as 500 Milhas de Indianápolis, em 1989, Teresa usava
um par de brincos no formato de duas pequenas cabeças de
cavalo. Espalhou-se que aquele seu adorno dava sorte. A mulher de
Emerson fundou a Teresa Fittipaldi Inc. e já vendeu mais
de 1.000 brincos com o formato de cabeças de cavalo, a 375
dólares o par. "A sorte se materializou", diz ela.
Agora, prepara-se para lançar uma linha não só
de brincos mas também de pulseiras e colares, e se tomar
mais uma brasileira a fazer negócios vitoriosos na Flórida.
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