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Reportagem publicada em 17/7/1996

A Miami do Brasil

A Flórida é a nova fronteira
dos brasileiros, que já são 200.000
e faturam 5 bilhões por ano

Miami, como milhões de brasileiros já sabem por experiência própria, é o ensolarado balneário americano que fica no sul da Flórida, a 7 000 quilômetros de São Paulo e do Rio de Janeiro. Uma passagem aérea para lá custa entre 800 e 1 000 dólares, e carimbar o passaporte com o visto do consulado americano dá um enorme trabalho. Apesar da distância e do preço, há bastante tempo Miami virou a meca de turistas e sacoleiros do Brasil, que invadem a cidade periodicamente à caça de perfumes, computadores, telefones celulares e outras mercadorias cujo preço é a metade daquele cobrado no Brasil. Neste ano, estimulados pelos Jogos Olímpicos, estima-se que os viajantes brasileiros com destino à Flórida sejam 600 000. Os ingressos para os Jogos estão esgotados.

Ricaços brasileiros também estão fugindo dos balneários da pátria, como Angra, Guarujá, Búzios. Milionários como Xuxa, Silvio Santos e a dupla caipira Chitãozinho e Xororó têm mansões em condomínios fechados como os de Star Island e Key Biscayne. Nessas ilhas, miss Xuxa e mister Xororó são vizinhos de personalidades como Elizabeth Taylor e Sylvester Stallone e não sofrem o assédio de farofeiros, como no Brasil. Entre os caça-badulaques, os turistas de classe média e os milionários com suas mansões, vive e trabalha na Grande Miami uma comunidade de 100 000 brasileiros.

É isso que faz de Miami uma cidade especial, pela ótica do Brasil. O balneário americano está-se transformando no mais potente ímã de migrantes brasileiros. Essa comunidade verde-amarela cresceu 20% ao ano, desde 1990, mais do que qualquer metrópole dentro do Brasil. Em 1991, eram apenas 40 000 pessoas. Agora, milhares chegam todo ano a Miami para viver, trabalhar e criar os filhos. Os brasileiros, aliás, estão atacando em todas as frentes, na Flórida (veja mapa na pág. 52). Montam negócios em Orlando, os mais grã-finos compram casas bonitas em Boca Raton, os pobres dividem apartamento em prédios decadentes de Pompano Beach. Em todo o Estado da Flórida, devem ser 200 000, dizem comerciantes, empresários, consultores e pastores evangélicos que trabalham para essa comunidade.

Os brasileiros da Flórida não podem mais ser ignorados, nem pelos americanos. Com suas empresas e seu trabalho, eles movimentam 5 bilhões de dólares por ano, de acordo com o Beacon Council, entidade privada de fomento a investimentos. O Brasil já é o parceiro comercial número 1 daquele Estado, em boa parte graças a eles. A exportação e a importação entre Brasil e Flórida põem em movimento outros 5 bilhões por ano. Em 1995, os turistas e os sacoleiros gastaram mais de meio bilhão de dólares no Estado. Já há uma preocupação do governo da Flórida e de grandes empresas, como AT&T, American Express e Burger King, de conhecer melhor essa gente que fala português. “Os brasileiros estão-se transformando num dos fatores econômicos mais fortes para o desenvolvimento da Flórida”, diz Manuel Mencia, vice-presidente do Beacon Council.

PORTUINGLÊS - Mas o que é que Miami tem, que atrai tanto brasileiro? Muita coisa. Miami tem sol e praia, dizem o gaúcho, o nordestino, o paulista e o carioca que vivem lá. Sol o ano inteiro e 21 quilômetros de praia. Miami tem economia forte e próspera, que cresce acima da média das cidades americanas. Portanto, há muita oportunidade de trabalho e de negócios. O custo de vida é mais baixo do que nas grandes cidades brasileiras. Um litro de gasolina custa 34 centavos de dólar (66 centavos, no Brasil). Um telefone é instalado dois dias depois do pedido e só se pagam as ligações feitas, nada mais. Um BMW novinho sai por 39 000 dólares. No Brasil, o mesmo carro custa 82 000. Os restaurantes têm ar condicionado, dão nota fiscal sem que seja preciso pedir e conseguem cobrar a metade do preço dos brasileiros.

O migrante que está com os documentos em ordem tem todas as facilidades da vida americana, como hospitais e escolas públicas de boa qualidade. A ambulância e o carro de polícia chegam cinco minutos depois de chamados. São essas comodidades que estão atraindo tantos brasileiros. Há outra, muito importante. Miami é a cidade mais latina dos Estados Unidos. De seus 2 milhões de habitantes, metade é de origem hispânica. Os cubanos formam o grupo maior. Os brasileiros são a segunda comunidade latina mais ampla. Depois, vêm jamaicanos, nicaragüenses, porto-riquenhos, colombianos, peruanos e haitianos.

Portanto, a cidade fala espanhol, o que torna a vida do imigrante brasileiro muito mais fácil. É só entortar um pouco a boca que o comerciante cubano entende. O espanhol está tão presente na vida da cidade que, desde o ano passado, a lei americana permite que se façam contratos também nessa língua. Agora, em menor proporção, o português também está sendo falado em Miami. É o americano, o cubano ou o jamaicano que se aproximam do cliente brasileiro com um portuinglês muito engraçado. Nos lugares mais freqüentados por brasileiros é comum ouvir a frase enrascada de um garçom misturando inglês, português e espanhol. “O brasileiro prefere Miami porque tem mais segurança com a língua. É muito diferente de viver em Boston”, diz o antropólogo James Ito Adler, estudioso da comunidade brasileira nos Estados Unidos. Ele mesmo é um falante de portuinglês.

O outro fator atrativo é a própria colméia brasileira. O sujeito que embarcou para a Flórida e conseguiu firmar-se depois levou o primo, o irmão e o amigo. Atrás dos brasileiros, vão mais brasileiros para trabalhar na empresa dos que estão lá ou para engraxar os seus sapatos. “Esse é o verdadeiro fenômeno. Como já há uma rede de contatos na Flórida, a migração fica mais fácil e a comunidade cresce cada vez mais rápido”, diz o professor Adler.

MUAMBAGEM - A colméia é uma miniatura do Brasil. Vivem na Flórida pessoas de todas as classes sociais. A grande maioria é de trabalhadores sem boa qualificação profissional, gente que trabalha com o braço, não fala inglês e ganha mal para os padrões americanos. O salário desse grupo varia muito, vai de 500 a 1 000 dólares. Normalmente, o ofício é de peão da construção civil, empregado de lava-rápido, entregador de comida. A maior parte tem o 2º grau, o que, nos Estados Unidos, não cria nenhuma vantagem profissional. Num patamar melhor estão os garçons, que chegam a ganhar 2 000 dólares por mês, contando gorjetas. A gorjeta, nos EUA, não é obrigatória, mas constitui grande indelicadeza não premiar o garçom com 15% do valor da conta.

Há um número muito menor de aventureiros que se mudaram para Miami e têm rendimento à altura da classe média americana, de 5 000 dólares mensais para cima. Eles trabalham como executivos em bancos e empresas americanas com interesses no Brasil ou na comunidade brasileira, são professores, tradutores, donos de pequenas lojas e agências de turismo. Moram em bairros bonitos, como Coral Gables ou Coconut Grove. São aquelas regiões atraentes de Miami, com ruas enfeitadas com coqueiros, casas bem cuidadas, sem muro e com gramado vistoso na frente. Essas casas custam, em média, 250 000 dólares e podem ser compradas com financiamento de quinze anos (para americanos são trinta anos), com juros de 8% ao ano. “É muito mais fácil comprar uma casa aqui. Os bancos não exigem muito e os 8% podem ser abatidos do imposto de renda”, diz José Augusto Nunes, proprietário da Algebra, corretora de imóveis cujos clientes são brasileiros. Os brasileiros, numa evidência de que foram para ficar, são donos de 15 000 imóveis em Miami e arredores e compram num ritmo de 1 000 casas por ano.

No estrato dos ricos existem poucos brasileiros, mas mesmo esse grupinho está crescendo e são vários os empreendedores que já faturam alguns milhões de dólares. Na página dos negócios, a comunidade está estourando e o turista ou o sacoleiro já sabem disso. Basta andar pelo centro de Miami. Ele é formado por cinco quarteirões tomados principalmente por lojas de aparelhos eletrônicos e muambagem em geral, as commodities preferidas. Os brasileiros já são donos de 100 lojas nesses cinco quarteirões. Na fachada, eles pregam bandeiras do Brasil e de times de futebol, fazem liquidações e queimas de estoque anunciadas em cartazes coloridos, em português. Contando restaurantes e lanchonetes e quiosques que vendem café, misto-quente, pão de queijo, bolo de fubá, são 200 estabelecimentos com bandeira, só no centro de Miami.

AJUDA DE COLLOR - Calcula-se que, hoje, os brasileiros com negócios em Miami sejam 3 000. Aí se inclui todo tipo de coisa. Existem corretoras de imóveis, postos de gasolina, escritórios de advocacia e de contabilidade, brechós e lojas que vendem biquínis “from Brazil”, menores do que os americanos. Há também auto-escolas, fabriquetas de lingüiça, ópticas. Até padarias, nos moldes das que se encontram em São Paulo, estão aparecendo. O número surpreende. Dez anos atrás, havia pouco mais de uma dúzia de empresários brasileiros estabelecidos em Miami. “Éramos tão poucos que todos se conheciam”, conta Domingos Trofino, um deles. Trofino migrou para Miami em 1986. Montou um pequeno escritório para exportar computadores. Hoje ele tem duas lojas em Miami, faturou 94 milhões de dólares em 1995 e vive muito bem, obrigado. Seu hobby é pescar marlim azul nas ilhas da costa de Miami Beach. O pescador dá um conselho aos que estão querendo montar empresa em Miami. O sucesso na Flórida nunca é rápido. Ele só chega se a pessoa, além de competente, for perseverante. “No Brasil, nós temos uma sensação de pressa. Aqui, isso não existe. O afobado acaba voltando.”

A viagem sem volta dos brasileiros para a Flórida começou em meados da década de 80. Antes disso, iam apenas os turistas e os aprendizes de contrabandista. Essa data coincide com a fase em que a economia entrou num parafuso incontrolável no Brasil. A migração, tanto do empreendedor quanto do trabalhador, aumentou muito depois que Fernando Collor aplicou aquele inesquecível confisco nas contas correntes e nos investimentos, em março de 1990. “Eu devia enviar um cheque de agradecimento ao Collor. Ele foi a pessoa que mais me mandou clientes em vinte anos de trabalho”, diz o advogado Eduardo Fernandez, um cubano especialista em imigração. Hoje, ele trata da abertura de dez empresas brasileiras por mês.

Os brasileiros estão no pequeno comércio, vendendo pão de queijo, e no comando de empresas cujo produto é de alta tecnologia. O empresário paulista Charles Finkel abriu sua empresa em Miami há cinco anos, logo depois do calote de Collor. “Eu já estava cansado de tanta intranqüilidade, de gente pedindo propina, de todos aqueles planos econômicos. Mas o calote encheu a medida”, lembra. Finkel é dono da Ensec, companhia que produz e vende sistemas informatizados de segurança, e faturou 25 milhões de dólares no ano passado. Já vendeu sistemas até para o governo americano. Quando entrou na lista de fornecedores do governo, sua firma sofreu uma devassa do FBI, de alto a baixo.

Em 1989, ano em que a inflação chegou a taxas de 70% ao mês, o empresário Antonio Correa vendeu sua rede de dez lojas de produtos eletrônicos no Brasil e tomou o jato para a Flórida. Sua rede era famosa na época. Chamava-se Áudio - “a lógica do som”. Não existe mais. O dinheiro da Áudio foi empregado numa cadeia semelhante em Miami, a Victor’s, com três lojas. É a maior rede de eletroeletrônicos do centro de Miami. A Victor’s, sob franquia, já opera no Brasil. Correa faturou 70 milhões no ano passado e não pensa em voltar. “O Brasil ficou inviável, e eu precisei mudar para poder crescer”, diz.

DISCRIMINAÇÃO - Quem já tentou abrir e operar uma empresa no Brasil sabe como é complicado. E é pena que um país necessitado de capital e de capitalistas os esteja exportando para os Estados Unidos. Abrir empresa na Flórida é uma barbada. Um advogado faz o serviço por 1 000 dólares e a papelada sai em 48 horas. Alugar um escritório com ar-condicionado, serviço de limpeza, condomínio e telefone fica mais em conta que no Rio de Janeiro e em São Paulo. Um escritório de 150 metros quadrados sai por 1 200 ao mês, um terço do preço em São Paulo.

Operar uma empresa, seja ela do tamanho que for, já é uma coisa mais difícil. A competição é tremenda. “Eu já vi mais de 1 000 empresas de brasileiros quebrarem nos últimos cinco anos”, conta Jair de Almeida, ex-vice-presidente do Citibank para a América Latina. Hoje ele é dono de uma trading que faz negócios com o Brasil. Americano não aceita produto com defeito, atraso na entrega, cor diferente daquela que viu na vitrine. Erros assim dão processo na Justiça, e a indenização é caríssima. Atrasar contas, nem pensar. Demitir um funcionário sem uma razão muito boa é coisa complicada. Discriminação com mulher, negro, latino ou deficiente físico é receita de encrenca na Justiça.

Aquele que pretende migrar para a Flórida, como empresário ou trabalhador, deve pesar bem as dificuldades. Ao lado dos casos de sucesso existem os de fracasso, e a adaptação, mesmo dentro da própria comunidade, não é fácil (leia reportagens nas páginas 58, 60, 62 e 64). Mas a colméia brasileira se ajeita, e muito bem. É até difícil sentir-se longe do Brasil estando em Miami. A colméia é servida por sessenta vôos semanais para São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Recife. Há sete bancos brasileiros, 66 igrejas evangélicas, duas católicas, dez centros espíritas kardecistas, um templo maçônico e um da seicho-no-ie, inaugurado recentemente. Uma novidade são as academias de capoeira, oito em toda a Flórida. Os capoeiristas estão fazendo sucesso, em céu aberto ou em shows de boate. Por mês, só com os shows, os capoeiristas ganham 1 000 dólares cada um. A capoeira é mais rebuscada do que aquela que se faz no Brasil e deixa o público americano tonto. Mas as academias, até agora, só atraem mesmo estudantes brasileiros.

Dá para viver em Miami sem se privar do gosto e dos sons do Brasil. Quem quer comprar carne-seca encontra. Guaraná, bombom Sonho de Valsa, feijão-preto, discos, jornais, fitas de vídeo com novelas que estão passando - tudo isso dá para comprar. Uma das grandes diferenças com relação ao Brasil é a convivência difícil com cubanos e americanos, populações predominantes na Flórida. Os cubanos imigraram para Miami, em massa, na década de 60, fugindo do regime de Fidel Castro. Só agora eles começaram a sair de seus guetos e integrar-se à comunidade americana. Com os brasileiros, migrantes mais novos, o contato é tenso e distante. O moreno, lá, mesmo que tenha corpo de mister mundo, é olhado de viés pela loira americana. “Não é fácil namorar. O latino é discriminado, e mais ainda se falar com sotaque”, observa José Roberto Carvalho, executivo de uma financeira brasileira.

CHURRASCADA - Entre vizinhos, o contato também não é simples, mesmo que brasileiros e americanos estejam no mesmo nível social. Há dois anos, o comerciante Maurício Carneiro mudou-se para um bairro de classe média em Fort Lauderdale, cidade com população predominantemente americana. Os vizinhos não aceitaram muito bem as coisas. Reclamavam do excesso de barulho. Quando Carneiro fez a sua primeira churrascada para os amigos, a fumaça indignou os americanos. “Até hoje, não existem gestos de simpatia. Eles só falam comigo para reclamar de tudo, até da forma como estaciono o carro”, confessa.

Há problemas até no interior da comunidade brasileira. Os migrantes mais novos reclamam da falta de solidariedade por parte dos mais velhos. Eles estariam ficando tão distantes quanto os americanos. “Não é mais como no Brasil. Aqui, é cada um por si”, avalia Anice Batista de Souza. Anice é do Espírito Santo, ex-operária da fábrica de chocolates Garoto e vive em Miami há dois anos. Não tem autorização para trabalhar e espera conseguir uma casando com um americano. Ela ficou decepcionada com os brasileiros e se recusa a trabalhar para eles. “Nunca recebi nenhuma ajuda, nem quando eu mais precisei”, conta Anice. A rede de socorro na qual muitos imaginam apoiar-se, apenas porque são brasileiros, não existe. Pior do que isso: é fácil comprar, de um brasileiro, um carro usado como se fosse novo. Acontece até de alguém ser denunciado às autoridades de imigração como clandestino por outro brasileiro com quem brigou no bar. Essas coisas feias acontecem, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Só que lá elas doem bem mais, especialmente se a pessoa chegou a Miami cheia de ilusões a respeito da vida nos Estados Unidos, em companhia de seus irmãos compatriotas.

A questão dos brasileiros clandestinos está preocupando o consulado local do Brasil. Sem números oficiais, estima-se que o total de ilegais chegaria fácil a 60 000 brasileiros, na Flórida. É uma das piores situações em que a pessoa pode se meter. O clandestino, se quebra um dedo e não tem dinheiro para o hospital particular, recebe tratamento em clínica pública e é imediatamente deportado. O salário dificilmente passa dos 800 dólares por mês, o suficiente para bancar o aluguel e passar o mês no sufoco. E não há nenhuma segurança quanto ao trabalho.

A situação ficou pior nos últimos anos porque a polícia e o departamento de imigração estão fazendo blitz nos lugares onde se empregam imigrantes clandestinos. Existem leis tramitando no Congresso para dificultar ainda mais a vida dessas pessoas. Uma delas obriga a escola a expulsar os filhos de trabalhador irregular. Por essas razões, o consulado brasileiro está fazendo uma campanha para regularizar documentos. O consulado identifica empresas que dão trabalho a brasileiros em situação ilegal. Depois, pede que essas empresas solicitem o visto de trabalho ao governo americano. “Muitos brasileiros até têm condição de trabalhar, mas ficam com medo de procurar as autoridades e o seu próprio consulado”, afirma Luiz Fernando Benedini, o cônsul.
Para o americano de Miami, de Orlando ou de Tampa, o brasileiro é aquele povo exótico, barulhento, que joga bola com o pé, vai para a praia quase sem roupa e fala um dialeto derivado do espanhol. Os imigrantes brasileiros, que estão formando uma bolha no território da Flórida, ainda não decepcionaram. A criminalidade é muito baixa dentro da colônia. No ano passado, houve apenas oito prisões por tráfico ou uso de drogas e três acusações de homicídio. Por outro lado, começa-se a perceber que o brasileiro tem certas qualidades muito procuradas. Trabalha mais do que outros imigrantes, e mais também do que os próprios americanos. A força dos empresários brasileiros também impressionou. A comunidade verde-amarela está se firmando na Flórida. Faz muito tempo que o êxodo começou daqui para lá. Durante todos esses anos, brasileiros que se imaginam chiques olharam com certa superioridade os que iam a Miami fazer compras ou trabalhar. Está na hora de rever esse esnobismo de Terceiro Mundo.


O pesadelo americano

Iludidos com promessas de fartura,
muitos imigrantes viram mão-de-obra barata,
sofrem com o preconceito e correm da polícia

A crônica dos brasileiros que tentam a sorte em Miami tem o seu lado amargo, formado por uma fieira de gente que foi, tentou e fracassou. Aquele que amealhou um capital e está pensando em emigrar para a Flórida e abrir uma empresa deve prestar atenção ao seguinte: é tamanha a competição em Miami que, segundo dados da associação comercial da cidade, de cada dez empresas abertas oito desaparecem em menos de cinco anos. Até mesmo casos de sucesso no Brasil, como a locadora de automóveis Unidas Rent a Car e a doceira paulista Amor aos Pedaços, não são garantia de bom desempenho em Miami. Nem a Unidas nem a Amor aos Pedaços deram certo na Flórida. Os americanos são exigentes, detestam improviso e não perdoam deslizes. Quem atrasa na entrega de mercadorias ou manda algo diferente do que prometeu está fora do jogo. “Quem chega pensando que isto aqui é o Brasil se dá mal. Aqui é preciso andar na linha”, diz Jair de Almeida, dono de uma empresa que exporta produtos americanos para o Brasil.
Além dos exigentes americanos, os empresários brasileiros enfrentam um jogo duro com cubanos, jamaicanos e colombianos, três comunidades importantes no tabuleiro dos negócios. Ultimamente, eles andam denunciando à polícia os comerciantes brasileiros que contratam funcionários sem os documentos de imigração em ordem. Pilhado com um empregado clandestino dentro da firma, o empresário é multado em 10 000 dólares por cabeça.

No capítulo do fracasso figuram principalmente aqueles que viajam sem dinheiro e sem documento e vão trabalhar em empregos humildes. Esses são os brasileiros clandestinos, condenados a passar a vida fugindo das autoridades da imigração. “Vejo gente que desembarca no aeroporto achando que dólar nasce feito grama. Terminam sem dinheiro para comprar a passagem de volta”, diz o pastor evangélico Maciel Pereira, um carioca que prega há dois anos na Flórida. Aos patrícios mais necessitados Maciel distribui cestas básicas. Em média, são 100 cestas por semana.

“INDOCUMENTADOS” - Segundo uma estimativa informal, para cada dois brasileiros em situação legal existe um outro, clandestino, na Flórida. Dentro da própria comunidade, eles são conhecidos como “indocumentados” - aqueles que não têm documento para mostrar à polícia se forem apanhados. Seriam cerca de 60 000 indocumentados brasileiros, boa parte na Grande Miami. São pessoas que aceitam serviços que os americanos desprezam, como faxina, limpeza de carros ou bicos na construção civil. Em geral, eles conseguem entrar no país fingindo que querem apenas fazer turismo.

O fluminense Sidésio Marques, 53 anos, chegou à Flórida em abril, sem falar uma palavra de inglês. Era camelô em Niterói, Rio de Janeiro, e foi ser faxineiro de um cinema com dez salas. Trabalha todos os dias, da meia-noite às 10 da manhã, em troca de 750 dólares por mês. É um ótimo salário para faxineiro, segundo o padrão brasileiro. Pelo critério americano, Sidésio ganha pouco. Só de aluguel ele gasta 425 dólares, para morar numa quitinete.

“Para conseguir um emprego decente aqui é preciso falar inglês, entender de computador e ter os documentos em ordem”, diz Ana Bastos, uma paulista que montou uma agência de empregos, a Brazcon, que se dedica a candidatos brasileiros. Das quinze pessoas que costuma entrevistar por dia, consegue vaga para cinco. Quem não fala inglês, independentemente da formação que tenha, geralmente pega trabalho secundário. Ela já empregou um administrador de empresas como garçom, um advogado como motorista de madame e uma psicóloga como recepcionista. Pela sua agência já passaram engenheiros e médicos à procura de trabalho braçal.

A carioca Bárbara de Souza, 27 anos, formada em relações públicas, está há um ano em Miami em situação ilegal. Para continuar nos EUA, ela distribui folhetos na rua, uma atividade proibida por lei. Se for apanhada, leva multa de 500 dólares e pode ser presa. Bárbara faz o serviço por algo como 150 dólares por semana. Distribui papel nas esquinas porque, como clandestina, não arruma outra colocação. “Quando não fujo da polícia, fujo da imigração”, diz ela. Bárbara vive num apartamento alugado por um consórcio de moças clandestinas. São três, e sua vida não é fácil. Uma das colegas de Bárbara trabalhou tempos como doméstica na casa de brasileiros. Ganhava 150 dólares por semana, estava proibida de usar o telefone e, quando a família saía, a moça era trancada dentro de casa.

DEPORTAÇÃO - Não, viver na clandestinidade não é fácil. A maior parte dos clandestinos mora em Pompano Beach, cidade ao norte de Miami. Estima-se que nesse foco existam cerca de 12 000 brasileiros, a maior parte sem documentação. Os brasileiros vivem em regiões degradadas de Pompano Beach, em prédios velhos e estragados. É normal encontrar cinco ou seis pessoas morando precariamente em quitinetes, alugadas por cerca de 300 dólares. O clandestino não tem segurança. Na hora em que o proprietário quer ele vai para a rua.

Esse tipo de imigrante nem pode ficar doente. Ele não tem direito à rede pública de hospitais e as consultas médicas particulares são mais caras do que no Brasil. Um plano de saúde de qualidade média custa 500 dólares por mês. Os clandestinos também não podem queixar-se à polícia. No ano passado, o consulado brasileiro registrou 276 roubos e assaltos e treze agressões contra brasileiros. A maioria não deu queixa. O pior mesmo é quando um carro de patrulha se aproxima. Se o guarda resolve parar e pedir os documentos, a aventura na Flórida acaba em deportação. Ou em cadeia, se os documentos forem falsos.

O preço da entrada

A chave mágica que transforma o brasileiro ilegal em residente nos Estados Unidos chama-se green card. Com ele, o estrangeiro não precisa correr da polícia. Pode trabalhar, morar e ter acesso ao sistema de saúde público. Por isso o green card é objeto de culto dos clandestinos, uma obsessão.

Para ter o documento, o estrangeiro precisa passar cinco anos trabalhando nos Estados Unidos. “Qualquer pessoa pode tirar um visto de trabalho, desde que tenha ficha limpa e documento provando que tem um emprego garantido”, diz o advogado Eduardo Fernandez, especialista em imigração. É preciso ainda pagar de 4 000 a 5 000 dólares, entre taxas e honorários de advogado. Esse preço é uma complicação. Boa parte dos brasileiros que emigram quer melhorar sua situação financeira e não tem esse dinheiro logo na chegada.

DOCUMENTOS FALSOS - No mercado negro, os falsificadores vendem green cards fajutos por 400 dólares. Uma falsificação de melhor qualidade sai por 700. Descoberto, porém, o portador do documento falso é preso, deportado depois do julgamento e proibido de entrar novamente nos EUA por dez anos. Há maneiras mais rápidas de obter o documento. Uma delas é casar com um americano ou uma americana. Essa alternativa virou um negócio. Um casamento de conveniência custa de 5 000 a 10 000 dólares. De olho na malandragem, a imigração fixou algumas normas para comprovar que o casamento é de verdade. O casal deve apresentar-se à imigração e passar por uma entrevista. Os fiscais também costumam visitar a casa onde moram para saber se marido e mulher vivem sob o mesmo teto.

MARACUTAIA LEGAL - Para os empresários que resolvem levar dinheiro graúdo para os Estados Unidos, o green card vem de brinde. Quem investe 500 000 num negócio tem direito a receber o documento. Na prática, até para esses empresários já existe um jeitinho mais barato de conseguir o green card. Há advogados que, em nome deles, compram ações de empresas americanas no valor de 125 000 dólares. Entram na Justiça com o pedido do documento alegando que, ao longo dos próximos cinco anos, esse dinheiro vai gerar tantos empregos quanto os 500 000 investidos. Se a argumentação é boa, o green card é concedido. No correr dos cinco anos, o advogado embolsa os dividendos das ações. No fim do prazo, as próprias ações ficam para o espertalhão. É uma maracutaia para a qual o governo americano ainda não está dando muita atenção.