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A
era da corrupção
De
onde ela veio? Para onde
nos levará? 1994 vai mostrar se
o Brasil consegue libertar-se ou
se continuará a afundar-se nela

Roberto
Pompeu de Toledo
Ó
dúvida cruel! O ano de 1993 deixa em seu rastro uma
dura questão. Terá sido um dos melhores anos
da História do Brasil? Ou, ao contrário, terá
sido um dos piores? A favor da tese de que terá sido
um dos melhores temos:
Estourou-se
uma rede de corrupção situada no coração
do sistema, envolvendo parlamentares, burocratas e empresários;
O
grau de intolerância do público obrigou que se
desse conseqüência à descoberta, e o Congresso
reagiu encetando um inédito trabalho de auto-investigação;
As
próprias vísceras do sistema vieram à
luz, em conseqüência, deixando claro como nele
operam a safadeza e a roubalheira e tornando muito mais difícil
a repetição de tais práticas.
A
favor da tese de que foi um dos piores anos temos:
Estourou-se
uma rede de corrupção situada no coração
do sistema, envolvendo parlamentares, burocratas e empresários;
Mais
uma vez o Brasil foi exposto à execração
internacional, em conseqüência, e, internamente,
seu sistema de governo caiu mais ainda no descrédito
do público;
Fizeram-se
investigações e desvendaram-se os podres do
poder, mas não se deu um passo no sentido das transformações
que a situação exige.
1993
será lembrado como o ano da redenção
ou aquele em que nos demos conta de que estávamos irremediavelmente
perdidos? Eis a questão. O ex-ministro Mario Henrique
Simonsen expressou dúvida semelhante, em artigo na
revista Exame. Escreveu ele:
"Há
duas maneiras de interpretar a atual maré de escândalos
que inunda a política brasileira. Uma delas, altamente
otimista e amplamente sublinhada pela imprensa, exalta a nossa
democracia pela capacidade que vem revelando em identificar
corruptos e defenestrá-los. (...) Uma outra leitura,
insidiosa mas não menos lógica, é que
uma democracia que produz tantos casos de corrupção
e que só aumentou a inflação e a recessão
é um projeto fracassado".
A
corrupção será o tema destas linhas.
De onde ela veio? Para onde nos levará? Numerosas perguntas
afloram junto a esse tema tão insistente e capital
na História do Brasil contemporâneo. Onde foi
que erramos, para que nos transformássemos num país
tão corrupto? Antes de prosseguir, porém, façamos
uma pausa. Recuemos ao ano de 1970, para observar o que se
passava no bairro do Tucuruvi, na Zona Norte de São
Paulo.
Vivia-se
a época mais obscura do regime militar, com as prisões
cheias e a tortura aplicada sem inibições, mas
não é isso que nos interessa. Interessa uma
mocinha de 15 anos, 1,59 metro de altura, terceira dos cinco
filhos de um casal de evangélicos. Os cabelos negros,
repartidos ao meio, quase lhe chegavam à cintura, e
seus vestidos, beges ou amarelos, além de compridos
nas mangas, nunca terminavam acima do joelho. Ela era filha
do pastor da Igreja Assembléia de Deus no bairro do
Tucuruvi. Duas vezes por semana ia à igreja, às
quartas e aos domingos, e cantava no coro.
Naquele
ano de 1970 apareceu na vida da mocinha um rapaz de cabelos
curtos, magro, tímido, quase sempre de terno escuro
e que, segundo parecia à mocinha, se perfumava excessivamente.
Recém-chegado de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba,
onde deixara a Aeronáutica como sargento, tinha 21
anos e conseguira um bom emprego em São Paulo: meteorologista
na torre de comando do Aeroporto de Congonhas. O rapaz foi
morar no bairro de Santana e, sendo também evangélico,
logo tratou de saber qual a igreja mais próxima. Era
a do Tucuruvi. Passou a freqüentá-la e não
tardou a demonstrar interesse, ainda que distante, pela mocinha
de cabelos longos.
"Para
namorar alguém da igreja, só se for a filha
do pastor", disse uma vez o rapaz a um amigo. "Qual
filha?" "Aquela amarelinha", especificou o
rapaz, referindo-se às roupas e à palidez da
menina. "Mas ela é muito criança",
objetou o amigo. "Não tem problema. Eu crio ela."
Interrompamos a história. O leitor adiante saberá
o que ela faz aqui. Lembremos alguns fatos do ano relacionados
ao tema que nos interessa, o da corrupção:
Este foi o ano em que ficamos sabendo que o Departamento Nacional
de Obras contra a Seca, DNOCS, tinha - ou tem - por especialidade
cavar poços em propriedades particulares. Não
deu em nada;
Foi o ano em que uma pessoa acusada de homicídio foi
nomeada ministro da Agricultura. Descobriu-se e a pessoa foi
desnomeada;
Foi o ano em que Fernando Collor teve confirmada a cassação
de seus direitos políticos, mas também em que
sua esperteza quase pegou. Quatro ministros do Supremo Tribunal
Federal levaram a sério a história da renúncia
antes do impeachment, como se ela tivesse se efetivado com
a melhor das intenções;
Foi o ano em que a juíza Denise Frossard, num gesto
de audácia e de sobranceira pontualidade no cumprimento
do dever, determinou a prisão dos cabeças do
jogo do bicho no Rio de Janeiro;
Foi o ano que se escoou inteiro sem que o processo por corrupção
contra Collor, PC Farias e companhia sequer demarrasse no
Supremo Tribunal Federal.
Ano
da redenção ou da perdição? Com
os indicadores de alento contrabalançados pelos de
desalento, continuamos com o placar empatado. O grande progresso
foi no diagnóstico. Hoje sabemos, sem sombra de dúvida,
que a corrupção faz parte de nosso sistema de
poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições.
Essa evidência já aflorara no ano anterior, o
do impeachment de Collor, e tornou-se gritante em 1993. "Quem
faz o Orçamento da República são as empreiteiras",
dissera, ainda em 1992, o então ministro da Saúde,
Adib Jatene. "Se a frase de Jatene tivesse sido pronunciada
por um esquerdista, alguns meses antes, diriam que era delírio
conspiratório", diz o historiador Luiz Felipe
de Alencastro. Hoje é aceita como um truísmo.
Com
base nas pesquisas que realizou junto ao povo hausa, um dos
mais importantes da Nigéria, o antropólogo holandês
Nuradeen Auwal arrolou, no ensaio The Language of Corruption
(A Linguagem da Corrupção), 23 vocábulos
ou expressões, no idioma hausa, para designar a corrupção.
Assim como, num país que tem muito bicho, haverá
muito nome de bicho, assim também num país onde
há muita roubalheira, como é notoriamente o
caso da Nigéria, haverá muitos nomes para ela.
No
Brasil, igualmente, não seriam poucas as palavras que
se encontrariam para designar corrupção, ou
suborno, ou negociata. Exemplos: cervejinha, molhar a mão,
lubrificar, lambileda, mata-bicho, jabaculê, jabá,
capilé, conto-do-paco, conto-do-vigário, mamata,
negociata, por fora, PF, "taxa de urgência",
propina, peita. Luís Inácio Lula da Silva contribuiu,
na última campanha eleitoral, com "maracutaia".
Fernando Collor alegou uma "operação Uruguai",
que, da mesma forma como "Panamá", em várias
línguas, virou sinônimo de negociata, depois
da roubalheira ligada à construção do
canal do mesmo nome, hoje também pode designar uma
operação escusa. Houve tempo em que os brasileiros
falavam com orgulho de "jeitinho". Hoje, e isso
é um sinal positivo, "jeitinho" começa
a ser olhado com suspeição.
Para procurar as origens remotas da corrupção
no Brasil, é mister recuar aos tempos do descobrimento.
(Nos rodapés destas páginas, textos de autores
de diversas épocas fornecem uma amostra da corrupção
ao longo da História brasileira.) Dois historiadores
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, João Fragoso
e Manolo Florentino, escreveram no Jornal do Brasil um artigo
em que comparam o período colonial e o atual. Em fins
do período colonial, dizem, os 10% mais abastados detinham
cerca de dois terços da riqueza nacional. Hoje os 10%
mais ricos controlam cerca da metade. "Essas cifras demonstram
que as mudanças estruturais se processam de maneira
a reiterar a diferenciação excludente",
comentam os autores. No jargão acadêmico, o que
eles repetem é a célebre frase que Tomasi di
Lampedusa colocou na boca do príncipe siciliano Fabrizio
de Salina, no romance O Leopardo: "É preciso mudar
para que tudo fique igual". A conclusão dos dois
autores é de gelar os ossos:
"Se
a História ensina algo, pode-se, generalizando, inferir
que corrupção, fome, perversa concentração
de renda e privatização do Estado nunca indicaram
que o Brasil estivesse fora de rumo. Ao contrário,
ele está, desde séculos atrás, exatamente
onde imaginaram suas elites. Porque no substancial é
este, exatamente, o projeto".
Deixemos
o passado remoto. Fiquemos na única discussão
histórica que no fundo ainda interessa e polariza:
se a corrupção atual, em seus presentes níveis
e modalidades, tem suas origens no regime militar ou no período
de redemocratização. O deputado Delfim Netto,
que serviu ao regime militar, situa essas origens no período
da redemocratização: "A meu ver, a corrupção
ficou muito mais generalizada depois do Plano Cruzado, com
as reformas que começaram a desmantelar todas as estruturas
de controle interno do governo. A reforma administrativa do
governo Collor completou o estrago. Antes do ministro Dilson
Funaro, todos os ministros tinham um sistema de controle pelo
Ministério da Fazenda, que inclusive reportava ao Tribunal
de Contas".
Outros
lembrariam o numeroso elenco dos escândalos ou quase
escândalos do regime militar. As obras faraônicas,
que sempre se desconfiou escondessem vultosas negociatas:
Transamazônica, Itaipu, Rodovia do Aço, Ponte
Rio-Niterói. Os estouros financeiros: caso Delfin,
caso Lutfalla, caso áurea, caso Halles. Escreveu o
antigo chefe da Casa Civil de João Goulart, hoje senador
pelo Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro: "Essa modalidade
de ladroagem patricial (a que é exercida pelos detentores
dos cargos-chave) floresceu muito com a ditadura militar discricionária
e corrupta, que entregou a condução da economia
brasileira a este tipo de tecnocrata que acha legítimo
lucrar no exercício das funções públicas".
Bem
pesadas as coisas, está-se diante de uma falsa dicotomia.
Enxergue-se o período militar e o da redemocratização
como um conjunto só, marcado mais por continuidades
do que rupturas, e talvez se tenha explicação
mais coerente para a corrupção endêmica
que caracteriza a vida pública brasileira atual. No
regime militar o crescimento da economia fez-se aos saltos.
O PIB progredia a níveis recordes, e com grande rapidez.
"A roubalheira acontece quando existe muita mobilidade
de riqueza", diz o cientista político Bolívar
Lamounier. "Quando as pessoas podem se tornar ricas com
muita rapidez e quando os patrimônios não estão
tão seguros como no passado."
Acrescente-se
que o Estado cresceu em proporções similares.
O regime militar foi a época áurea das estatais,
assim como dos projetos gigantes, e também dos controles
e regulamentações que exigiam uma atuação
estatal ativa e permanente sobre a economia. Daí resultou
uma poderosa burocracia, com decisivo poder de intermediação
no destino das verbas públicas. Mas isso não
é tudo. Menos mensurável, mas com certeza não
menos importante, era uma certa atmosfera cínica que
reinava na fase dourada do milagre econômico. Como na
China de Deng Xiaoping, a ordem era: "Enriqueçam".
Enriqueçam não importa como, acrescentava-se,
dizendo sem dizer. A moral estava em férias nos negócios
públicos. Para completar o quadro, lembre-se que a
censura tampava tudo o que o Estado julgasse inconveniente
saber-se.
Na
redemocratização, muitas das antigas tendências
não sofreram descontinuidade. O Estado continuou grande,
a burocracia poderosa, os escrúpulos miúdos,
e a esse quadro acrescentou-se um ator que no período
anterior gozara de licença compulsória: os políticos.
Eles voltaram com tudo.
O
historiador Luiz Felipe de Alencastro gosta de lembrar que,
quando se fala em "políticos", neste país,
fala-se de uma numerosa categoria de profissionais. As câmaras
de vereadores, dependendo da população do município,
são formadas por um mínimo de nove e um máximo
de cinqüenta integrantes. Digamos que a média
seja de dez por município. Somado esse número
pelos 5.000 municípios brasileiros, temos 50.000 vereadores.
Acrescentem-se os prefeitos, os deputados estaduais. Tudo
considerado, temos uma "classe" política
mais numerosa, ou tão numerosa quanto, digamos, os
petroleiros, que são 59.000.
Estes
são os atores que ingressaram no cenário para
assumir o papel de intermediários das verbas públicas,
ou, pelo menos, para dividi-lo com as autoridades do Executivo
e os burocratas. Eles entraram em campo beneficiados, por
um lado, por um sistema completamente frouxo de filtros e
controles. Por outro - e aqui não se está falando
de todos, naturalmente, mas de um número significativo
o bastante para contaminar a reputação do conjunto
-, chegaram embalados por uma volúpia renovada e uma
característica falta de senso moral.
Lembre-se,
para completar, que a lógica maluca do sistema prevê
eleições caras. Estava aberta a porta para a
grande usina de ladroagem dos últimos anos que são
as campanhas eleitorais. "Os custos das campanhas excedem
o que os empresários podem dar por altruísmo
aos candidatos, por maior que seja a simpatia política
ou ideológica que tenham por eles", diz o ex-ministro
Simonsen.
O
sistema brasileiro apresenta perversões tão
fantásticas quanto esta, descoberta pelo cientista
político Wanderley Guilherme dos Santos: a escassez
dos serviços públicos serve de escada eleitoral
aos políticos. Se os serviços chamados "públicos"
fossem realmente públicos, eficientes e universais,
eles não teriam valor eleitoral, porque todo mundo
teria água, luz, rua asfaltada, escola e segurança.
Como não são, o político se apropria
da parte que está a seu alcance e passa a utilizá-la
como moeda, em troca de votos. Diz Wanderley Guilherme dos
Santos: "Como há escassez dos serviços
públicos, eles viram mercadoria e os políticos
podem privatizá-los, selecionando quem, ou que lugar,
que curral eleitoral, vai recebê-los. Essa é
uma das molas mestras da corrupção. Ela lhes
garante o sucesso e a perpetuação eleitoral".
Falou-se
de como a corrupção nasceu, nos atuais níveis
e nas atuais modalidades, à sombra do regime militar,
e de como ela cresceu, com a redemocratização.
Ficou faltando abordar um outro importante ângulo da
questão: a omissão dos bons. Tão espantoso
quanto o Congresso se mover, agora, no sentido de investigar
e propor-se a punir a corrupção, é o
fato de antes, e durante anos, não ter feito nada.
É como se a maioria considerasse aquilo inevitável
tal um fenômeno da natureza, algo com que se precisava
aprender a conviver tal se convive com as estações
do ano.
Todo
mundo sabia, no Congresso, há muito, que havia algo
de podre no reino da Comissão de Orçamento.
E no entanto ninguém fazia nada. Um dos maiores sintomas
de que algo de errado havia, ou há, com o Parlamento
brasileiro é o fato de nunca, em sua história,
ter abrigado tantos economistas de primeira plana, e no entanto
nenhum deles fazer parte da Comissão de Orçamento.
Sabia-se que lá não era lugar para gente honrada.
A
omissão dos bons não é uma tragédia
apenas porque os mais honestos e bem preparados deixam de
agir. É uma tragédia, também, porque
acoberta os desonestos, e assim os incentiva a prosseguir.
Escreveu o cientista político Francisco Weffort, num
artigo publicado na Folha de S.Paulo: "...centenas de
parlamentares, na maioria sérios e honestos, funcionam
como proteção de algumas dezenas de outros que,
em circunstâncias normais, teriam que ser tratados como
réus da Justiça comum". Weffort referia-se
não apenas aos ladrões da Comissão de
Orçamento. Falava do conjunto dos deputados acusados
de crimes, alguns tão graves como tentativa de homicídio,
e que são protegidos pelo instituto da imunidade parlamentar.
Nos cálculos do cientista político, modestos,
a "bancada do crime", como a designou, somaria uns
10% da Câmara dos Deputados. "Alguém dirá
que, em termos estatísticos, não é muito",
escreveu Weffort. "O que preocupa, porém, é
outra coisa: por que os restantes 90% deixaram as coisas chegar
a esse ponto?"
No
mesmo artigo, Weffort lembra que o senador Pedro Simon admitiu,
no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo,
ter conhecimento há muito de que se praticavam falcatruas
na Comissão de Orçamento. "Se políticos
como Simon sabiam, por que não denunciaram?",
pergunta Weffort. E acrescenta, lembrando que o escândalo
todo veio à tona por artes de um acusado, entre outros
crimes, de matar a própria esposa: "O homem honesto
calou-se, o criminoso denunciou". Há algo de terrível,
nesta frase.
Por que a omissão dos bons? Uma resposta possível
talvez a tenha o cientista político Bolívar
Lamounier, quando afirma que no Brasil, pelo menos até
há pouco, nunca houve ética pública.
"A ética era privada, se tanto. Era só
para a família." No extremo, a falta de ética
política pode transformar-se no elogio da falta de
ética. Veja-se que exemplo fascinante nos oferece a
senhora Maria Helena Guinle, uma socialite carioca, numa entrevista
que concedeu à revista Interview, em dezembro de 1992.
Na
época, ainda não tinha estourado o escândalo
do Orçamento, mas estava fresco o escândalo Collor.
A certa altura, a senhora Guinle passa a elogiar o ex-presidente,
"uma pessoa fascinante", que "se veste bem,
sabe falar" e que, como presidente, "só nos
orgulhava". A senhora mantém essa opinião
mesmo depois do impeachment?, pergunta o repórter.
Vem então a seguinte e extraordinária resposta:
"Deslizes acontecem a vida inteira. No momento em que
você ocupa um cargo que te favoreça de alguma
forma, acho até um pouco de burrice não aproveitar
a situação".
Silêncio.
Pausa. O leitor que recupere o fôlego. Prossiga-se.
Se
nos falta, ou faltava, uma ética pública, é
algo que depende de comprovação, mas não
deixa de ser curioso que os dois grandes escândalos
da vida brasileira em todos os tempos, um logo em seguida
ao outro - o de Collor e o do Orçamento -, tenham tido
em sua origem um episódio privado. O caso Collor começou
com uma briga de irmãos. O do Orçamento, com
o desaparecimento de uma mulher. Ambos, episódios da
vida em família, que revolvem sentimentos íntimos
- nada a ver com política.
Estamos
nos aproximando de um ponto perigoso. Primeiro identificamos
as origens do atual nível de corrupção
pelo efeito conjugado do regime militar e do desastrado período
de redemocratização. Depois selecionamos um
fator - a omissão dos bons - que nos conduz à
constatação de que reina um ambiente de tolerância
para com a corrupção, quando não de compreensão
e até incentivo a ela, como na tese da senhora Guinle.
O passo seguinte é concluir que há todo um ambiente
contaminado. "Somos todos corruptos", dizia o ex-presidente
da Fiesp Mario Amato. Será que o povo é culpado?
Chegaremos a esse tema, mas antes voltemos à história
de amor que deixamos abandonada lá atrás, localizada
no bairro do Tucuruvi.
"Ouro e dádivas secretas"
"Com
peitas, ouro e
dádivas secretas
Conciliam da terra os
principais."
Camões, Lusíadas
"Em quase todas as épocas da História portuguesa
uma carta de bacharel valeu tanto quanto uma carta de recomendação
nas pretensões a altos cargos públicos. No século
XVII, a crer no que afiança a Arte de Furtar, mais
de 100 estudantes conseguiram colar grau na Universidade de
Coimbra todos os anos, a fim de obterem empregos públicos,
sem nunca terem estado em Coimbra."
Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
"Corria
na Europa, durante o século XVII, a crença de
que aquém da linha do Equador não existe nenhum
pecado: Ultra aequinoxialem nom pecari. Barlaeus, que menciona
o ditado, comenta-o dizendo: 'Como se a linha que divide o
mundo em dois hemisférios também separasse a
virtude do vício".
Sérgio
Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
"Por que não roubou?"
"Quando
Rio Pardo, o antigo ministro da Guerra, que se mantivera fiel
até o último momento, e teve de fugir porque
a sua vida corria perigo, chegou a bordo, dom Pedro soltou
grandes gargalhadas e caçoou do fugitivo. Paranaguá,
antigo ministro da Marinha, tendo de se esconder pelo mesmo
motivo, apresentou-se a bordo. Dom Pedro disse-lhe que dele
não se podia encarregar. Respondeu-lhe o outro que,
neste caso, só lhe restava tornar a Portugal, onde
tinha direito a uma pequena aposentadoria. Disse-lhe o ex-imperador:
'Espero que não irá a Portugal antes de minha
filha estar estabelecida no trono'. 'Mas, senhor, que quer
que eu faça? Não tenho fortuna, só tinha
meu subsídio.' 'Faça o que quiser, não
é da minha conta; por que não roubou, como Barbacena?
Estaria bem, agora'."
(Episódio ocorrido a bordo do Warspite, navio em que
dom Pedro I zarparia para a Europa depois da abdicação,
em 1831)
Octávio Tarquínio de Souza, A Vida de D.
Pedro I
"Raposas nos gabinetes"
"O
Segundo Reinado será o paraíso dos comerciantes,
entre os quais se incluem os intermediários honrados
e os especuladores prontos para o bote à presa, em
aliança com o Tesouro. A velha dupla, estamento e comércio,
dá-se as mãos, modernizadora nos seus propósitos,
montada sobre a miragem do progresso. Os agricultores vergados
ao solo, os industriais inovadores servem, sem querer, aos
homens de imaginação forjada de golpes, hábeis
no convívio com os políticos, astutos nas empreitadas.
As raposas se infiltram nos gabinetes, contaminando, com sua
esperteza, o tipo social do político. O progressismo,
como muito mais tarde o desenvolvimentismo, fará da
modernização um negócio de empréstimos,
subvenções e concessões, entremeado com
o jogo da bolsa, sob os auspícios do Estado. (...)
Ninguém quer matar a galinha dos ovos de ouro, senão
viver à custa dela, submissa, calada e recolhida, mas
prolífica."
Raymundo Faoro, Os Donos do Poder
O mar de lama, mês a mês
Janeiro
A Polícia Federal conclui que houve irregularidades
na compra da Vasp por Wagner Canhedo. Como garantia para um
financiamento do Banco do Brasil, o empresário apresentou
uma fazenda estimada em quinze vezes o valor real.
Fevereiro
PC Farias é indiciado em dez inquéritos, por
corrupção ativa, emissão de notas frias,
falsidade ideológica, evasão de divisas e exploração
de prestígio.
Março
Livro do ex-porta-voz Claudio Humberto Rosa e Silva, Mil Dias
de Solidão, conta histórias escabrosas do governo
Collor.
Carro oficial do ministro do Tribunal de Contas da
União, Homero Santos, é flagrado pegando seus
netos na escola.
Quatro delegados de polícia do Rio são
afastados por envolvimento com quadrilhas de ladrões
de carros.
O presidente da Câmara, Inocêncio Oliveira,
é pego usando equipamentos do Departamento Nacional
de Obras contra a Seca para perfurar poços de água
em suas propriedades.
Abril
Acuado
pelas denúncias de corrupção, Orestes
Quércia renuncia à presidência do PMDB.
Investigação revela que as fraudes na
Previdência engolem US$ 1,5 bilhão por ano.
Livro de Pedro Collor, Passando a Limpo - A Trajetória
de um Farsante, traça o perfil do irmão como
desequilibrado metido em farras com drogas e prostitutas em
Maceió.
Inocêncio é envolvido em outro escândalo,
desta vez pela instalação de telefone comunitário
em uma de suas fazendas.
A Câmara despreza as acusações contra
Inocêncio.
Maio
O
ministro da Fazenda, Eliseu Resende, é acusado de ajudar
a Odebrecht, da qual foi alto funcionário durante sete
anos, a ganhar um financiamento para uma obra de irrigação
no Peru.
O ex-secretário particular de Zélia Cardoso
de Mello confirma que pagou despesas da ex-ministra com dinheiro
do esquema PC.
O governador gaúcho Alceu Collares leva vinte
pessoas para uma viagem à Europa com diárias
de 350 dólares pagas com dinheiro público.
Eliseu Resende deixa o Ministério da Fazenda.
Junho
Descobre-se
que Nuri Andraus, nomeado para o Ministério da Agricultura,
responde a um processo por homicídio.
Uma boate, uma escola de elite e entidades fantasmas
criadas por parlamentares estão entre os beneficiários
de verbas sociais aprovadas no Orçamento da União.
Descoberta de um rombo de 104 milhões de dólares
no Banespa piora a situação de Quércia
e de Fleury, envolvidos no escândalo das compras superfaturadas
de equipamentos de Israel.
PC Farias desaparece na véspera da decretação
de sua prisão preventiva.
A facilidade da fuga de PC provoca crise na Polícia
Federal.
Julho
Descobre-se
que a PM de Alagoas deu cobertura à fuga de PC.
O
chefe da alfândega no Aeroporto de Guarulhos é
exonerado sob suspeita de irregularidades.
Estoura o escândalo Paubrasil, com a apreensão,
na firma do pianista João Carlos Martins, de livros
contábeis do caixa dois das campanhas eleitorais de
Maluf.
A PF conclui que Claudio Humberto recebeu dinheiro de
fantasmas do esquema PC como pagamento por intermediar verbas
de publicidade no governo Collor.
Agosto
João
Carlos Martins admite que participou "intensamente"
das campanhas de Maluf em 1990 e 1992.
Um repórter da TV Bandeirantes descobre que PC
esteve em Assunção, no Paraguai, de onde teria
ido para Buenos Aires.
Setembro
Dois
brasileiros juram ter visto PC, acompanhado de uma loira,
numa loja em Frankfurt, Alemanha.
Calim Eid, coordenador das campanhas de Maluf, confessa
que imóveis alugados pela Paubrasil foram usados como
comitês eleitorais.
Acusado de corrupção, o governador do
Amapá, Aníbal Barcellos, é afastado por
120 dias por decisão da Assembléia Legislativa.
Os deputados Onaireves Moura e Nobel Moura são
apanhados oferecendo dinheiro a colegas de outros partidos
para que se filiassem ao PSD.
O deputado Itsuo Takayama confessa ter entrado para
o PSD em troca de dinheiro e compara seu caso ao dos jogadores
de futebol que recebem gratificação quando mudam
de time.
Fleury acusado de estar por trás da compra de
mandatos.
Outubro
Escândalo
no Orçamento: José Carlos Alves dos Santos,
alto funcionário do Congresso, denuncia rede milionária
de corrupção envolvendo deputados, senadores,
ministros, governadores e empreiteiras.
José Carlos, acusado de ter assassinado a esposa,
explica que os 3,7 milhões de dólares achados
em sua casa se devem a propinas que recebeu por incluir no
Orçamento emendas do interesse de políticos
e de empreiteiras.
Instalada uma CPI para investigar o escândalo,
que envolve principalmente os integrantes da Comissão
de Orçamento da Câmara, o grupo apelidado de
sete anões.
O deputado João Alves, principal acusado, atribui
seu patrimônio de 5 milhões de dólares
ao fato de ter ganhado muitas vezes na loteria. "Deus
me ajudou", disse.
Registros da CEF provam que João Alves perdeu
mais do que ganhou, reforçando as evidências
de lavagem de dinheiro através da loteria.
Henrique Hargreaves, um dos dois ministros acusados,
deixa a chefia da Casa Civil.
O outro ministro, Alexandre Costa, da Integração
Regional, permanece no cargo.
PC Farias é entrevistado em Londres por um jornalista
da Rede Globo.
Novembro
O
deputado Ricardo Fiúza sai-se bem na CPI do Orçamento,
mas não explica como ganhou 5,6 milhões de dólares
entre 1988 e 1992.
Cid Carvalho, deputado que desviou 60.000 dólares
através de uma entidade fantasma, é surpreendido
na CPI pela apresentação de dois cheques de
João Alves em seu nome.
O deputado Manoel Moreira é denunciado como corrupto
por sua ex-mulher, Marinalva Soares da Silva.
O deputado Genebaldo Corrêa justifica 1,6 milhão
de dólares depositados na sua conta como "sobras
de campanha".
Por causa do escândalo, Genebaldo é afastado
da liderança do PMDB na Câmara.
A CPI descobre na conta do deputado Ibsen Pinheiro quantidades
de dinheiro incompatíveis com seu salário e
três cheques de Genebaldo, no valor de 35.000 dólares.
Ibsen se afasta do cargo de relator do regimento interno
da revisão constitucional.
O deputado Fabio Raunheitti se atrapalha diante das
provas de que enviou a faculdades e hospitais de sua propriedade
15 milhões de dólares em verbas sociais.
O deputado José Geraldo Ribeiro se desmoraliza
ao ser confrontado com cheque com sua assinatura comprovando
a compra de fazenda cuja existência disse não
conhecer.
Comprovado o desvio, pe lo suplente de deputado Feres
Nader, de 2 milhões de dólares em subvenções
sociais para entidades fantasmas no Rio.
José Sarney aparece como beneficiário
de serviços da construtora Servaz.
A PF apreende 40 quilos de documentos na casa do diretor
da Odebrecht em Brasília Ailton Reis.
A polícia encontra o corpo de Ana Elizabeth,
mulher de José Carlos Alves dos Santos, que é
denunciado pelos assassinos como o mandante do crime e tenta
o suicídio.
Descobre-se que o governador Joaquim Roriz recebeu 1,9
milhão de dólares entre janeiro e novembro de
1989. "Não é proibido ser rico", defende-se
Roriz.
O presidente do Sindicato dos Motoristas do ABCD denuncia
a ajuda da entidade a candidatos a vereador pelo PT e pelo
PSDB.
Maluf denuncia irregularidades nos contratos entre a
prefeitura de São Paulo, durante a gestão de
Luiza Erundina, e a empresa Nutrícia, para fornecimento
de merenda escolar.
PC Farias é preso na Tailândia.
Dezembro
PC
desembarca e fica preso na PF em Brasília.
Os documentos apreendidos da Odebrecht sugerem a existência
de um cartel das grandes empreiteiras para fraudar as licitações
de obras públicas.
Empata o julgamento, pelo STF, do mandado de segurança
contra a suspensão dos direitos políticos de
Collor.
Três juízes do Superior Tribunal de Justiça,
aos quais foi transferida a decisão sobre Collor, confirmam
a cassação do ex-presidente.
João Carlos Martins diz que repassou através
da Paubrasil 19 milhões de dólares arrecadados
de empresários para comitês de Maluf.
Flávio Maluf, filho do prefeito, depõe
no caso Paubrasil.
A Câmara cassa o mandato de Onaireves, Nobel e
Takayama por tráfico de filiações partidárias.
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