"Os Oba! são
otimistas, alegres e donos de
um caráter flexível. Os Epa!, por outro lado,
são censuradores, precavidos e facilmente
escandalizáveis. Os brasileiros sempre foram
esmagadoramente Oba!. Somos uma espécie
de paradigma universal do Oba!, com focos
isolados e desorganizados de Epa!"
"O mundo se divide
em dois tipos de pessoas: as que gritam Oba! e as que exclamam
Epa!". Quem disse isso? Demócrito? Santo Agostinho?
Leibniz? Nietzsche? Nenhum deles: foi Ivan Lessa, no Pasquim.
A frase resume tudo o que conseguimos aprender até
hoje sobre o ser humano. De acordo com Ivan Lessa, os Oba!
são otimistas, alegres, aproveitadores, oportunistas,
barulhentos e donos de um caráter flexível.
Os Epa!, por outro lado, são censuradores, precavidos,
desconfiados, facilmente escandalizáveis, dotados de
um caráter rígido e de pouquíssimo senso
de humor.
A popularidade
de Lula já foi analisada sob diferentes prismas. Faltou
um: o que aplica à realidade política a tipologia
do Oba! e do Epa!. Os brasileiros sempre foram esmagadoramente
Oba!. Somos uma espécie de paradigma universal do Oba!,
com focos isolados e desorganizados de Epa!. O grande mérito
do lulismo foi separar claramente as duas categorias: uma
para cá, outra para lá. Tome-se a última
pesquisa CNT-Sensus, publicada alguns dias atrás. Entre
os eleitores que ganham até 380 reais, 72,3% festejam
Lula com um alegre e ruidoso Oba!. Entre os que ganham mais
de 7 600 reais, há apenas 31,7% de Oba! e uma arrasadora
maioria composta de 65,9% de censuradores e escandalizados
Epa!.
É bom que
os que ganham até 380 reais estejam dizendo Oba!. Podemos
parar de nos preocupar com eles. Quanto menos a gente se preocupar
com eles, melhor para eles e melhor para nós. Agora
que o lulismo reintroduziu no Brasil uma pitada de identidade
de classe, contrapondo ricos e pobres, temos de encontrar
um jeito de preservá-la. Quando um jornalista do Oba!
Oba! vier pedir anúncios à sua empresa, diga
Epa! e mande-o procurar o governo. Quando um ator ou cantor
do Oba! Oba! aparecer pleiteando patrocínio para seu
espetáculo, diga Epa! e nem o receba. Quando um professor
universitário tentar doutrinar seu filho com o Oba!
Oba! de Mészáros, Guattari ou Sachs, diga Epa!,
tire seu filho da universidade e arrume-lhe um emprego. Quando
um diretor de TV propuser uma minissérie esteticamente
arrojada a partir da obra do Oba! Oba! Ariano Suassuna, diga
Epa!, mude de canal e veja um enlatado americano.
É assim
que eu protesto contra a turma do Oba!: todos os dias, às
4 da tarde, interrompo minhas atividades para ver a reprise
de um episódio de The Office, a prova mais evidente
da superioridade moral e intelectual da turma do Epa!. De
tanto assistir a The Office, é capaz que um
dia eu ainda consiga derrubar Lula. Reinaldo Azevedo, em seu
blog, comparou os antilulistas àqueles cavaleiros medievais
do Monty Python que acreditam poder derrotar seus inimigos
berrando um estridente Ni!. É verdade. Se 100.000 pessoas
se reunissem na Candelária e berrassem juntas Ni! ou
Epa!, o governo cairia na hora. O problema é que a
turma do Epa! jamais conseguiria se organizar para reunir
100.000 pessoas num mesmo lugar. É bem melhor ficar
em casa vendo TV e zombando da turma do Oba!.