Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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Especial
Um novo velho mundo

Cruzada mostra que é possível fazer
um épico sem sacrificar a história, e
confirma o talento singular de Ridley
Scott para recriar o passado


Isabela Boscov


Divulgação
O rei incógnito
No papel do cristão Balduíno IV, que morreu devorado pela lepra, Edward Norton se esconde atrás de uma máscara de metal lavrado: detalhes visualmente esplêndidos são a marca registrada do diretor que também fez Blade Runner e Gladiador

NESTA EDIÇÃO
Choque de civilizações
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Desde que o inglês Ridley Scott exumou os épicos com Gladiador, há cinco anos, fizeram-se várias outras tentativas ambiciosas, mas de resultados pífios, de replicar seu êxito – caso de Tróia, Rei Arthur e Alexandre. Com a estréia de Cruzada (Kingdom of Heaven, Estados Unidos/Inglaterra/Espanha, 2005) em todo o mundo, nesta sexta-feira, pode-se constatar que só Scott foi capaz de copiar Scott. O que o separa dos outros diretores é, antes de mais nada, a riqueza de sua concepção. Filmes como Alien, Blade Runner, Gladiador e o próprio Cruzada são prova de que a criação visual, para ele, não só antecede todo o resto, como é a razão primordial para que a fita exista. No momento em que começa a rodar, ele está apenas dando forma ao que já estava vivo e completo em sua imaginação. Quando um diretor tem uma formação assim sólida – no caso de Scott, sete anos na Real Academia de Arte – e uma visão tão coesa, é difícil que ele cometa erros flagrantes. Mesmo quando outras circunstâncias o desfavorecem, como o roteiro irregular de 1492 – A Conquista do Paraíso ou a confusa posição política de Falcão Negro em Perigo, resta ali uma vitalidade que se sobrepõe aos desacertos.

No visualmente esplêndido Cruzada, os acertos superam, em muito, as falhas. A começar pela escolha do tema: o momento das Cruzadas, em 1187, em que uma détente real poderia ter prevalecido – e a partir de uma crise. Na década de 1180, o Reino Latino de Jerusalém atravessava uma fase delicada. O rei Balduíno IV (Edward Norton, coberto por uma máscara) estava sendo devorado pela lepra e desafiado por um baronato cada vez mais manhoso. Os muçulmanos, pressentindo essa fraqueza, mantinham a pressão no máximo. Qualquer passo em falso seria catastrófico para os cristãos. E não tardou para que ele fosse dado, pelo cavaleiro Reynald de Châtillon (Brendan Gleeson), que atacou uma caravana na qual viajava a irmã do sultão Saladino. Na confusão que se seguiu, Saladino convocou uma jihad, exterminou os exércitos inimigos numa batalha estupidamente provocada pelo sucessor de Balduíno e cercou Jerusalém. No interior das muralhas havia cerca de 60.000 pessoas e praticamente nenhum cavaleiro além de Balian de Ibelin (Orlando Bloom). Balian sagrou algumas dezenas de cavaleiros às pressas e comandou uma resistência engenhosa, cujo propósito era tão-somente conduzir Saladino à mesa de negociações e entregar Jerusalém em troca da vida dos sitiados.

O curioso dessa sinopse é que ela corresponde, tal e qual, à história – caso inédito na Hollywood de orçamentos milionários. A maior escapadela do roteiro de William Monahan é a romantização das origens de Balian, até porque pouco se sabe sobre ele. E seu maior achado é ressaltar a admiração, de estadista para estadista, que equilibrou o jogo entre Balduíno e Saladino. "O que o filme pode fazer é mostrar que a diplomacia ainda é a solução mais benéfica para os conflitos do Oriente Médio", diz o ator e dramaturgo sírio Ghassan Massoud, que se revela uma presença magnética no papel de Saladino. Massoud é apenas um entre o grande contingente de atores e figurantes recrutados no mundo árabe para Cruzada. Uma das exigências de Scott foi que os personagens muçulmanos fossem, sem exceção, entregues a atores da mesma fé. Massoud, em especial, foi de enorme valia para o diretor. "Ao ensaiarmos cada cena, ele nos instruía em questões relativas a atitude, motivação ou protocolo. Sua participação foi muito além da atuação. Foi indispensável", disse Scott a VEJA.

É inevitável que Cruzada venha a ser comparado a Gladiador, e que Orlando Bloom – bem mais arrebatador no papel de Balian do que seu desempenho em Tróia dava a esperar – seja medido contra Russell Crowe. Se Cruzada perde essas batalhas contra seu antecessor, ganha, por outro lado, toda uma guerra ao provar que é possível fazer aventura sem sacrificar a inteligência ou a história.

 

Do Marrocos a Jerusalém


Fotos divulgação
ação

Entre as mais de 1 000 tomadas de Cruzada completadas ou retocadas em computador, sobressaem aquelas que recriam Jerusalém e seus arredores no século XII. É o caso daquelas em que o cavaleiro Balian (Bloom) se aproxima da cidade (no alto) e, depois, sobe ao Gólgota (acima), onde Jesus foi crucificado. Nos dois casos, o cenário artificial foi adicionado a imagens reais filmadas no Marrocos

 

 
 
 
 
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