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Especial Um
novo velho mundo Cruzada mostra
que é possível fazer um épico sem sacrificar a história,
e confirma o talento singular de Ridley Scott para recriar o passado

Isabela Boscov
Divulgação  |
O rei incógnito
No papel do cristão Balduíno IV, que morreu devorado pela
lepra, Edward Norton se esconde atrás de uma máscara de metal lavrado:
detalhes visualmente esplêndidos são a marca registrada do diretor
que também fez Blade Runner e Gladiador |
Desde que
o inglês Ridley Scott exumou os épicos com Gladiador, há
cinco anos, fizeram-se várias outras tentativas ambiciosas, mas de resultados
pífios, de replicar seu êxito caso de Tróia, Rei
Arthur e Alexandre. Com a estréia de Cruzada (Kingdom
of Heaven, Estados Unidos/Inglaterra/Espanha, 2005) em todo o mundo, nesta
sexta-feira, pode-se constatar que só Scott foi capaz de copiar Scott.
O que o separa dos outros diretores é, antes de mais nada, a riqueza de
sua concepção. Filmes como Alien, Blade Runner, Gladiador
e o próprio Cruzada são prova de que a criação
visual, para ele, não só antecede todo o resto, como é a
razão primordial para que a fita exista. No momento em que começa
a rodar, ele está apenas dando forma ao que já estava vivo e completo
em sua imaginação. Quando um diretor tem uma formação
assim sólida no caso de Scott, sete anos na Real Academia de Arte
e uma visão tão coesa, é difícil que ele cometa
erros flagrantes. Mesmo quando outras circunstâncias o desfavorecem, como
o roteiro irregular de 1492 A Conquista do Paraíso ou a confusa
posição política de Falcão Negro em Perigo,
resta ali uma vitalidade que se sobrepõe aos desacertos.
No visualmente esplêndido Cruzada, os acertos superam, em muito,
as falhas. A começar pela escolha do tema: o momento das Cruzadas, em 1187,
em que uma détente real poderia ter prevalecido e a partir
de uma crise. Na década de 1180, o Reino Latino de Jerusalém atravessava
uma fase delicada. O rei Balduíno IV (Edward Norton, coberto por uma máscara)
estava sendo devorado pela lepra e desafiado por um baronato cada vez mais manhoso.
Os muçulmanos, pressentindo essa fraqueza, mantinham a pressão no
máximo. Qualquer passo em falso seria catastrófico para os cristãos.
E não tardou para que ele fosse dado, pelo cavaleiro Reynald de Châtillon
(Brendan Gleeson), que atacou uma caravana na qual viajava a irmã do sultão
Saladino. Na confusão que se seguiu, Saladino convocou uma jihad,
exterminou os exércitos inimigos numa batalha estupidamente provocada pelo
sucessor de Balduíno e cercou Jerusalém. No interior das muralhas
havia cerca de 60.000 pessoas e praticamente nenhum cavaleiro além de Balian
de Ibelin (Orlando Bloom). Balian sagrou algumas dezenas de cavaleiros às
pressas e comandou uma resistência engenhosa, cujo propósito era
tão-somente conduzir Saladino à mesa de negociações
e entregar Jerusalém em troca da vida dos sitiados.
O curioso dessa sinopse é que ela corresponde, tal e qual, à história
caso inédito na Hollywood de orçamentos milionários.
A maior escapadela do roteiro de William Monahan é a romantização
das origens de Balian, até porque pouco se sabe sobre ele. E seu maior
achado é ressaltar a admiração, de estadista para estadista,
que equilibrou o jogo entre Balduíno e Saladino. "O que o filme pode fazer
é mostrar que a diplomacia ainda é a solução mais
benéfica para os conflitos do Oriente Médio", diz o ator e dramaturgo
sírio Ghassan Massoud, que se revela uma presença magnética
no papel de Saladino. Massoud é apenas um entre o grande contingente de
atores e figurantes recrutados no mundo árabe para Cruzada. Uma
das exigências de Scott foi que os personagens muçulmanos fossem,
sem exceção, entregues a atores da mesma fé. Massoud, em
especial, foi de enorme valia para o diretor. "Ao ensaiarmos cada cena, ele nos
instruía em questões relativas a atitude, motivação
ou protocolo. Sua participação foi muito além da atuação.
Foi indispensável", disse Scott a VEJA. É
inevitável que Cruzada venha a ser comparado a Gladiador,
e que Orlando Bloom bem mais arrebatador no papel de Balian do que seu
desempenho em Tróia dava a esperar seja medido contra Russell
Crowe. Se Cruzada perde essas batalhas contra seu antecessor, ganha, por
outro lado, toda uma guerra ao provar que é possível fazer aventura
sem sacrificar a inteligência ou a história.
| Do
Marrocos a Jerusalém Entre as
mais de 1 000 tomadas de Cruzada completadas ou retocadas em computador,
sobressaem aquelas que recriam Jerusalém e seus arredores no século
XII. É o caso daquelas em que o cavaleiro Balian (Bloom) se aproxima da
cidade (no alto) e, depois, sobe ao Gólgota (acima), onde
Jesus foi crucificado. Nos dois casos, o cenário artificial foi adicionado
a imagens reais filmadas no Marrocos | |
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