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Turismo
Brinde brasileiro
Os espumantes de qualidade
fazem de Garibaldi um novo
destino no Rio Grande do Sul

Roberta Salomone, de Garibaldi
Fotos Oscar Cabral
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ral
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| Fábrica da Peterlongo (à esq.),
a mais antiga vinícola da cidade, e o enólogo argentino Adolfo
Lona, que está iniciando sua própria produção: região em alta
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Distante pouco mais de 100 quilômetros
de Porto Alegre, Garibaldi é uma cidade aparentemente sem
encantos num estado cheio de atrações turísticas
como o Rio Grande do Sul. Não tem o charme de Gramado e Canela,
a natureza estonteante do Parque Nacional dos Aparados da Serra
ou o apelo histórico das Missões Jesuítas de
Santo Ângelo. Mas em 2004 recebeu cerca de 100.000 pessoas,
número cinco vezes maior que o de quatro anos atrás.
O motivo está nas quinze produtoras de espumantes que funcionam
na cidade e seus arredores. Com pouco menos de 30 000 habitantes,
Garibaldi detém mais da metade da produção
de espumantes do país, que estão cada vez mais em
alta no exterior, e começa a rivalizar com a vizinha Bento
Gonçalves, que fez fama como capital brasileira do vinho.
Segundo os experts, o lugar tem características especialíssimas
para a produção da bebida. O terroir (combinação
de clima, solo e, para alguns, tradição) da Serra
Gaúcha é considerado um dos melhores do mundo para
a uva utilizada na elaboração de espumantes. "Começamos
a nos conformar que nunca vamos conseguir fazer vinhos tintos excepcionais,
mas já conseguimos acreditar que vamos nos igualar aos espumantes
franceses em breve", diz, otimista, o enólogo argentino Adolfo
Lona.
Há 32 anos, Lona desembarcou
com a família no Rio Grande do Sul. Contratado por uma fábrica
de bebidas, foi morar em Garibaldi. A adaptação a
um novo país não foi fácil. Nas vinícolas
que já existiam ali os recursos técnicos eram extremamente
limitados e as instalações, inadequadas. Ainda assim,
Lona, de 57 anos, não arredou pé da cidade. Assistiu
de perto ao crescimento da produção local, tornou-se
um enólogo respeitado na região e ministrou cursos
de degustação para quase 19.000 pessoas. No ano passado,
decidiu investir tudo o que tinha na própria marca de vinhos.
Com uma produção pequena e um investimento inicial
de 520.000 reais, está apostando todas as fichas em dois
espumantes que desenvolveu e também no potencial de crescimento
da cidade como pólo produtor.
Entre as vinícolas de
Garibaldi está a Chandon, do maior conglomerado de artigos
de luxo do mundo, o Moët Hennessy Louis Vuitton. Instalada
ali desde 1973, a empresa deixou de fabricar vinhos tintos há
sete anos, quando se deu conta de que seria impossível disputar
mercado com os produtos dos vizinhos Chile e Argentina. Hoje, seus
cinco tipos de espumante garantem 29% do mercado nacional. "Sempre
acreditei no potencial da região", diz o francês Philippe
Mével, enólogo da Chandon que mora em Garibaldi faz
quinze anos.
Fotos Oscar Cabral
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abral
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| Maria-fumaça na estação de Garibaldi
e o enólogo francês Philippe Mével (à dir.): o
turismo quintuplicou |
A convicção de Mével
em relação ao espumante nacional, no entanto, só
ganhou adeptos mais recentemente, quando o Brasil começou
a participar de importantes concursos internacionais. Os resultados
foram positivos. Os produtores brasileiros já ganharam mais
de vinte medalhas no Vinalies Internationales, que é considerado
uma espécie de Oscar dos vinhos. Na soma dos resultados das
últimas edições do Effervescents du Monde,
Chardonnay du Monde e Muscats du Monde, garantiram o segundo lugar
perdendo, obviamente, para a França. "Os espumantes
brasileiros são comparáveis a alguns dos melhores
do mundo", elogia Béatrice Da Ros, diretora da União
de Enólogos da França e do concurso Vinalies Internationales.
O reconhecimento da qualidade fez crescer as vendas no mercado interno
e abriu a porta para a exportação. Os números
das vendas até agosto são um terço maiores
do que os do mesmo período do ano passado, e até o
fim do ano estima-se que sejam vendidos mais de 6 milhões
de litros da bebida. Nos últimos dez anos, a produção
brasileira aumentou 150%.
O cenário é bem
diferente daquele do início do século passado, quando
a primeira vinícola de Garibaldi foi fundada. De maneira
artesanal e sem grandes recursos, o imigrante italiano Manoel Peterlongo
começou a plantar uvas e a produzir vinho até desenvolver
aquele que seria o primeiro champanhe brasileiro. Fez tanto sucesso
que o ex-presidente Getúlio Vargas chegou a visitar o lugar,
tornando a bebida popular e obrigatória em solenidades do
governo. A empresa sobreviveu à chegada de concorrentes de
peso, como Chandon e Georges Aubert, e é uma das únicas
por aqui a usar a palavra champanhe em seus rótulos
exceção à norma que permite que o termo seja
utilizado para identificar apenas produtos fabricados na região
de Champagne, na França. Hoje, a vinícola produz 400.000
garrafas e fatura 15 milhões de reais por ano.
A visita à cidade inspira-se
no modelo que transformou as caves européias, principalmente
as francesas, em destinos turísticos obrigatórios.
O que atrai os visitantes é a oportunidade de ver de perto
a elaboração do vinho, caminhar entre videiras e conhecer
os diferentes tipos de uva. Um trem ao estilo das antigas marias-fumaças
faz o circuito que começa em Bento Gonçalves, passa
por Garibaldi e vai até Carlos Barbosa, num passeio de duas
horas. Depois das explanações dos guias, passeios
entre enormes tonéis de madeira e de alumínio e apresentações
com músicos da região, chega a hora preferida dos
visitantes: a degustação (de graça) dos espumantes.
Em Garibaldi, o orgulho pelo produto é tão grande
que há quem afirme que o espumante está à mesa
durante as refeições de grande parte das famílias
que vivem ali. Na maioria dos bares e restaurantes, a bebida já
substitui a cerveja. "Nem me lembro mais da última vez em
que bebi água", exagera Célio Sganzerla, da Vinícola
Garibaldi.
O consumo da bebida vem crescendo
gradualmente no Brasil. Nas grandes cidades, como São Paulo,
Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília, as champanherias
conquistam os mais jovens e o produto nacional já é
o preferido por mais da metade dos consumidores, até pelo
preço. Toma-se um bom espumante nacional por um terço
do preço de um produto estrangeiro de qualidade equivalente.
"Agora, só falta fazer com que o brasileiro crie o costume
de beber espumante com mais freqüência", afirma Deyse
Tanuri, presidente da Rota dos Espumantes, associação
que reúne as principais vinícolas da cidade. Este
é, no entanto, apenas o começo de um longo caminho
que inclui mudanças de antigos e arraigados hábitos.
Pesquisas mostram que o francês bebe em média seis
garrafas de champanhe por ano e, ainda assim, os produtores investem
sempre na divulgação da bebida. No Brasil, o consumo
de espumantes engatinha. Não passa ainda de parcos 50 mililitros
por pessoa.
Fotos Royalty Free/Keystone
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