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Leia trechos de Onze Minutos, de Paulo Coelho


Era uma vez uma prostituta chamada Maria.

Um momento. "Era uma vez" é a melhor maneira de come­çar uma história para crianças, enquanto "prostituta" é assunto para adultos. Como posso escrever um livro com esta aparente contradição inicial? Mas, enfim, como a cada instante de nossas vidas temos um pé no conto de fadas e o outro no abismo, vamos manter este início:

Era uma vez uma prostituta chamada Maria.

Como todas as prostitutas, tinha nascido virgem e inocente, e durante a adolescência sonhara em encontrar o homem de sua vida (rico, bonito, inteligente), casar (vestida de noiva), ter dois filhos (que seriam famosos quando crescessem), viver em uma linda casa (com vista para o mar). Seu pai trabalhava como ven­dedor ambulante, sua mãe era costureira, sua cidade no interior do Brasil tinha apenas um cinema, uma boate, uma agência ban­cária, e por causa disso Maria não deixava de esperar o dia em que seu príncipe encantado chegaria sem aviso, arrebataria seu coração, e partiria com ela para conquistar o mundo.

Enquanto o príncipe encantado não aparecia, só lhe restava sonhar. Apaixonou-se pela primeira vez aos onze anos, enquan­to ia a pé de sua casa até a escola primária local. No primeiro dia de aula, descobriu que não estava sozinha em seu trajeto: junto com ela caminhava um garoto que vivia na vizinhança e freqüentava aulas no mesmo horário. Os dois nunca trocaram uma só palavra, mas Maria começou a notar que a parte do dia que mais lhe agradava eram aqueles momentos na estrada cheia de poeira, sede, cansaço, o sol a pino, o menino andando rápido, enquanto ela se exauria no esforço para acompanhar-lhe os passos.

A cena se repetiu por vários meses. Maria, que detestava estudar e não tinha outra distração na vida exceto a televisão, passou a torcer para que o dia passasse rápido, aguardando com ansiedade cada ida à escola e, ao contrário de algumas meninas de sua idade, achando aborrecidíssimos os finais de semana. Como as horas demoram muito mais a passar para uma criança que para um adulto, ela sofria muito, achava os dias longos demais porque lhe davam apenas dez minutos com o amor de sua vida, e milhares de horas para ficar pensando nele, imagi­nando como seria bom se pudessem conversar.

Então aconteceu.

Certa manhã, o garoto veio até ela, pedindo um lápis em­prestado. Maria não respondeu, demonstrou um certo ar de irritação por aquela abordagem inesperada e apressou o passo. Tinha ficado petrificada de medo ao vê-lo andando em sua dire­ção, tinha pavor de que soubesse o quanto o amava, o quanto esperava por ele, como sonhava em pegar sua mão, passar diante do portão da escola e seguir a estrada até o final, onde - diziam -se encontrava uma grande cidade, personagens de novela, artis­tas, carros, muitos cinemas e um sem-fim de coisas boas.

 


Era preciso sempre evitar que ficassem envergonhados. Aqueles homens, tão poderosos e arrogantes em seus trabalhos, lidando sem parar com empregados, clientes, fornecedores, preconceitos, segredos, falsas atitudes, hipocrisia, medo, opressão, terminavam o dia em uma boate, e não se importavam em pagar 350 francos suíços por uma noite.

'Por uma noite? Ora, Maria, você está exagerando. Na verdade, são 45 minutos, e mesmo assim, se descontarmos tirar a roupa, fazer algum falso carinho, conversar alguma coisa óbvia, vestir a roupa, reduziremos este tempo para onze minutos de sexo propriamente dito.'

Onze minutos. O mundo girava em torno de algo que demorava apenas onze minutos.

Alguma coisa andava muito errada com a civilização; e esta coisa não era o desmatamento amazônico, a camada de ozônio, a morte dos pandas, o cigarro, os alimentos cancerígenos, a situação nas penitenciárias, como diziam os jornais.

Era exatamente aquilo em que Maria trabalhava: o sexo."