Auto-retrato
2 de março de 2005
 
 

Νntegra da entrevista

A vida de Pedro Braule Pinto, de 19 anos, mudou drasticamente em 2002, quando ele descobriu que Vilma Martins Costa não era sua mãe verdadeira e o havia seqüestrado ainda bebê de uma maternidade em Brasília. No texto abaixo, Pedrinho fala mais sobre o impacto da notícia, a decisão de morar com os pais verdadeiros e o relacionamento com as irmãs.

VEJA — Por que você decidiu morar com seus pais verdadeiros?

Pedrinho — Eu estava morando sozinho em Goiânia, para colocar minha cabeça no lugar, e já freqüentava a casa deles, em Brasília. Durante essas visitas, a gente conversava muito sobre minha situação. Um dia, eles propuseram que eu fosse viver lá sem compromisso. Eles chegaram a perguntar se eu queria morar sozinho em Brasília, caso não me sentisse bem com eles. Eu disse que não precisava disso e que estava disposto a ficar na casa deles. Era uma experiência, eu decidi tentar.

VEJA — Você disse que reconheceu em Lia e Jayro algumas manias iguais às suas. Quais são elas?

Pedrinho — Meu pai costuma olhar por cima e franzir a testa quando vai ouvir ou falar alguma coisa. É igualzinho ao que eu faço. Minha mãe é muito calma, fala de forma muito tranqüila, assim como eu. Essas pequenas coisas foram me conquistando aos poucos. A cada festinha, a cada comemoração, a cada almoço em que todos sentávamos juntos e começávamos a rezar, eu me sentia mais próximo da família. Eu também me dou bem com meus irmãos, a gente é muito parecido. É uma coisa mágica, hoje é como se eu nunca tivesse saído de lá.

VEJA — Como é o seu dia-a-dia com eles?

Pedrinho — No começo, acho que minha mãe dava mais atenção pra mim que para os outros filhos, mas agora acho que não, ela trata todo mundo por igual.

VEJA — Qual das duas você considera sua mãe de verdade, a Lia ou a Vilma?

Pedrinho — Hoje é a Lia que eu considero mãe de coração. Não só pelo fato de ela ser minha mãe biológica, mas também pela convivência diária e por tudo o que fiquei sabendo sobre a Vilma.

VEJA — Por que você decidiu mudar de nome?

Pedrinho — De repente, eu fiquei com dois nomes. Eu nunca gostei de Osvaldo, mas gostava que me chamassem de Junior. Minha idéia inicial foi continuar só Junior, com o sobrenome dos meus pais verdadeiros. Mas eu senti que minha mãe ficou triste com essa minha decisão, então resolvi manter o Pedro.

VEJA — Você viveu dezesseis anos em Goiânia, sem saber de nada. Em algum momento você desconfiou que não era filho verdadeiro de Vilma?

Pedrinho — Nunca imaginei, foi um susto pra mim.

VEJA — Você já tinha ouvido falar do caso antes?

Pedrinho — Quando os policiais me levaram à delegacia pela primeira vez, eles perguntaram se eu sabia da história, disseram que o caso era muito divulgado, mas eu nunca havia ouvido falar dele. Nunca imaginei que alguém seria capaz de fazer isso, de roubar um bebê do hospital e se fazer passar pela mãe verdadeira.

VEJA — Em algum momento você teve medo de conhecer seus pais verdadeiros?

Pedrinho — Era tudo muito novo para mim e não foi fácil descobrir de uma hora para outra que eu não era filho legítimo da Vilma. Mas eu quis conhecer meus pais verdadeiros desde o início, porque sabia que eles não haviam me abandonado, pelo contrário.

VEJA — Qual foi o momento mais difícil para você?

Pedrinho — Foi quando minha mãe declarou que a assistente social que havia me roubado do hospital era mesmo a Vilma. Aqueles dias foram os mais difíceis, fiquei muito atordoado até decidir morar sozinho, num apartamento em Goiânia. Se eu ficasse com a Vilma, a tendência era que eu acreditasse que não havia sido ela, e eu não tinha certeza de mais nada naquele momento. A Vilma insistiu para eu não ir, mas eu disse que não tinha jeito, eu precisava daquele tempo. No dia em que eu saí da casa da Vilma, ela foi presa.

VEJA — Quando você se deu conta de que era realmente a Vilma que havia seqüestrado você?

Pedrinho — Pouco depois de me mudar para o apartamento. Juntei os fatos: o que meus pais verdadeiros haviam contado, o que saiu no notíciário, o que os policiais tinham me falado. Tive certeza de que havia sido a Vilma mesmo, que foi uma maldade o que ela fez, e isso doeu muito. Ainda é difícil falar sobre isso.

VEJA — Você perguntou para a Vilma por que ela havia te seqüestrado?

Pedrinho — Até aquele momento ela negava tudo. Só depois que ela estava na cadeia é que a verdade veio à tona. Mas eu nunca perguntei e ela também nunca confirmou a história para mim, pessoalmente.

VEJA — Você vai visitá-la na prisão?

Pedrinho — Assim que ela foi presa, eu ia sempre. Eu evitava tocar no assunto porque ela estava muito estressada e doente. Quando eu decidi morar em Brasília, ela ficou muito mal, então eu evitava falar. A última vez que fui visitá-la foi no Natal, há um ano.

VEJA — Como é a sua relação com suas irmãs de Goiânia?

Pedrinho — É como se fôssemos irmãos de sangue, mesmo. Quando decidi morar com meus pais verdadeiros, elas respeitaram minha decisão. Eu sempre me dei muito bem com a minha irmã Cristiane. Antes de tomar qualquer decisão, desde o início da história, eu a consultava. Até hoje peço conselhos a ela.

VEJA — O exame de DNA comprovou que sua irmã Roberta também havia sido seqüestrada, mas ela optou por continuar morando em Goiânia. Vocês conversam sobre isso?

Pedrinho — Eu sempre vou visitá-la em Goiânia, e conversamos sobre tudo, menos sobre isso. Eu não falo nada sobre o que aconteceu comigo, nem ela sobre o que ocorreu com ela. Se você me perguntar por que ela optou em ficar do lado da Vilma e não ir morar com a mãe verdadeira, eu não vou saber responder.

VEJA — Você é religioso?

Pedrinho — Sim. Eu sempre fui católico, mas comecei a freqüentar a igreja e a rezar mais depois do que aconteceu, até por influência dos meus pais, que são muito religiosos. A maior proximidade com a religião me ajudou a não me desesperar e a me confortar naqueles momentos mais difíceis. Afinal, depois de um tempo, percebi que a minha história foi um milagre e passei a acreditar que milagres acontecem.

VEJA — Você é reconhecido na rua?

Pedrinho — Já fui mais, mas ainda sou reconhecido, sim. Tem gente que manda um abraço para minha mãe, dizendo que admira muito a coragem dela, ou para meu pai. Também me dão os parabéns por eu ter ido morar com eles. Geralmente quem fala isso são pessoas mais velhas. Os mais jovens ficam olhando, mas raramente vêm falar comigo

 

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