Livros
1º de outubro de 2003
 
 

Trechos do livro A Conturbada História das Bibliotecas, de Matthews Battles

CAPÍTULO 2
Alexandria em chamas

João, o Gramático, era um sacerdote copta que morava em Alexandria quando os árabes tomaram a cidade em 641 d.C. Aos seus olhos, o conquistador muçulmano Amr deve ter parecido um tanto quanto surpreendente. Nomeado conselheiro do general, ficou maravilhado ao descobrir que, contrariamente ao que se esperaria de um bárbaro, o novo governante da cidade não era completamente insensível à música, à poesia e à erudição. Não custou muito para que João reunisse suficiente audácia (e esperança) e fosse perguntar a Amr o que deveria ser feito daqueles "doutos livros" conservados nos "tesouros reais" - a famosa biblioteca do palácio dos ptolomeus. Com certeza, João esperava que a biblioteca fosse entregue a seus cuidados, mas o general respondeu que não poderia determinar o destino dos livros sem antes fazer uma consulta ao califa Omar. A resposta deste, mencionada em Arab conquest of Egypt de Alfred J. Butler, ficou tristemente famosa: "Com relação aos mencionados livros, se o que vem dito neles concorda com o Livro de Deus, eles são desnecessários; se discorda, são indesejáveis. Destrua-os, portanto". Reza a tradição que os rolos foram atados em feixes e levados para servirem de combustível nos banhos públicos da cidade, onde teriam alimentado as fornalhas durante seis meses.

É pena que uma história tão pitoresca, bem ao gosto de As mil e uma noites, contenha apenas vestígios de veracidade. Tal como a conhecemos, ela talvez seja invenção de um certo Ibn al­Qifti, cronista sunita do século XII. Segundo o classicista egípcio Mostafa el-Abbadi, al-Qifti pode ter inventado essa história para justificar os atos de Saladino, governante sunita que vendeu bibliotecas inteiras para financiar sua luta contra os cruzados. De qualquer forma, a despeito de sua provável origem islâmica, no Ocidente ela foi sendo transmitida como uma espécie de lamento pelo destino da sabedoria helênica no Oriente pagão.

Quando os exércitos do califa chegaram a Alexandria, no século VII d.C., a lendária biblioteca já havia sofrido pelo menos um incêndio de grandes proporções. Aliás, não houvera uma biblioteca apenas, mas duas. A maior delas foi construída no século III a.C., no interior do Mouseion, ou templo das Musas. Sua "irmã" menor foi criada um século depois, no interior do templo de Serápis, deus egípcio helenizado e padroeiro da sincrética Alexandria, cuja proteção os ptolomeus, sempre habilidosos no trato de questões teológicas, invocavam para si. Ambas as coleções estavam localizadas no Brucheion, parte da cidade onde ficavam os palácios reais, e é comum que se fale a respeito delas como se fossem uma coisa só. Fora dali, pelos quatro cantos da cidade, era possível encontrar uma grande quantidade de livros. Berço da manufatura do papiro, Alexandria foi o centro do comércio livreiro do Mediterrâneo praticamente desde a sua fundação até o terceiro século da nossa era.

Quando em 48 a.C. Júlio César veio auxiliar Cleópatra em sua guerra contra o jovem Ptolomeu XIII, as bibliotecas da cidade já contavam quase trezentos anos. César ateou fogo aos navios ancorados no porto de Alexandria para impedir seu inimigo de tomar a cidade pelo mar. De acordo com Sêneca, isso provocou uma conflagração que destruiria 40 mil livros de uma só vez. outros afirmam que o fogo teria atingido apenas os livros estocados num armazém, onde ficavam antes de serem levados às estantes. O mais provável é que fossem livros que César mandara despachar para Roma e que estivessem ali aguardando o momento do embarque. Seja como for, mesmo se a estimativa de Sêneca estiver correta, a perda terá sido relativamente pequena. Calcula-se que só a biblioteca principal, do Mouseion, abrigasse mais de 70 mil rolos. São mencionados incêndios ulteriores, mas relatos de pessoas que estiveram em Alexandria após a morte de César indicam que as bibliotecas continuavam existindo. Estrabão, que escreveu no tempo de Augusto e do nascimento de Cristo, parece ter conhecido uma biblioteca alexandrina em pleno funcionamento. Havia uma lenda segundo a qual Marco Antônio teria oferecido a Cleópatra os livros de Pérgamo (a grande rival de Alexandria, localizada na atual província turca de Izmir) a título de compensação pela perda de sua biblioteca, mas Plutarco põe em dúvida a veracidade do episódio. Suetônio escreve que Domiciano, imperador romano do século II d.C., empregou sábios de Alexandria para repor os textos perdidos num incêndio ocorrido na biblioteca do palácio de Augusto. isso parece indicar a presença continuada em Alexandria de uma comunidade intelectual que conservava consigo textos preciosos, que eventualmente poderiam ser usados na produção de cópias. É provável que aquilo que restou das bibliotecas tenha sido destruído completamente no século III d.C., quando o Brucheion foi devastado na guerra que o imperador Aureliano empreendeu contra a famigerada Zenóbia, rainha de Palmira. Por essa época, no entanto, a expansão do cristianismo foi fazendo com que as bibliotecas entrassem num processo de decadência. Triunfando culturalmente sobre pagãos, judeus e neoplatônicos, os cristãos passaram a sentir os tesouros helênicos das bibliotecas como uma herança incômoda. No século IV d.C., o sentimento chegaria ao ponto de ebulição. Teófilo, patriarca de Alexandria, desejava construir uma igreja no terreno ocupado pelo templo de Serápis.

 
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