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Trechos
do livro A Conturbada História das Bibliotecas,
de Matthews Battles
CAPÍTULO
2
Alexandria em chamas
João,
o Gramático, era um sacerdote copta que morava em Alexandria
quando os árabes tomaram a cidade em 641 d.C. Aos seus
olhos, o conquistador muçulmano Amr deve ter parecido
um tanto quanto surpreendente. Nomeado conselheiro do general,
ficou maravilhado ao descobrir que, contrariamente ao que
se esperaria de um bárbaro, o novo governante da cidade
não era completamente insensível à música,
à poesia e à erudição. Não
custou muito para que João reunisse suficiente audácia
(e esperança) e fosse perguntar a Amr o que deveria
ser feito daqueles "doutos livros" conservados nos
"tesouros reais" - a famosa biblioteca do palácio
dos ptolomeus. Com certeza, João esperava que a biblioteca
fosse entregue a seus cuidados, mas o general respondeu que
não poderia determinar o destino dos livros sem antes
fazer uma consulta ao califa Omar. A resposta deste, mencionada
em Arab conquest of Egypt de Alfred J. Butler, ficou tristemente
famosa: "Com relação aos mencionados livros,
se o que vem dito neles concorda com o Livro de Deus, eles
são desnecessários; se discorda, são
indesejáveis. Destrua-os, portanto". Reza a tradição
que os rolos foram atados em feixes e levados para servirem
de combustível nos banhos públicos da cidade,
onde teriam alimentado as fornalhas durante seis meses.
É
pena que uma história tão pitoresca, bem ao
gosto de As mil e uma noites, contenha apenas vestígios
de veracidade. Tal como a conhecemos, ela talvez seja invenção
de um certo Ibn alQifti, cronista sunita do século
XII. Segundo o classicista egípcio Mostafa el-Abbadi,
al-Qifti pode ter inventado essa história para justificar
os atos de Saladino, governante sunita que vendeu bibliotecas
inteiras para financiar sua luta contra os cruzados. De qualquer
forma, a despeito de sua provável origem islâmica,
no Ocidente ela foi sendo transmitida como uma espécie
de lamento pelo destino da sabedoria helênica no Oriente
pagão.
Quando os exércitos do califa chegaram a Alexandria,
no século VII d.C., a lendária biblioteca já
havia sofrido pelo menos um incêndio de grandes proporções.
Aliás, não houvera uma biblioteca apenas, mas
duas. A maior delas foi construída no século
III a.C., no interior do Mouseion, ou templo das Musas. Sua
"irmã" menor foi criada um século
depois, no interior do templo de Serápis, deus egípcio
helenizado e padroeiro da sincrética Alexandria, cuja
proteção os ptolomeus, sempre habilidosos no
trato de questões teológicas, invocavam para
si. Ambas as coleções estavam localizadas no
Brucheion, parte da cidade onde ficavam os palácios
reais, e é comum que se fale a respeito delas como
se fossem uma coisa só. Fora dali, pelos quatro cantos
da cidade, era possível encontrar uma grande quantidade
de livros. Berço da manufatura do papiro, Alexandria
foi o centro do comércio livreiro do Mediterrâneo
praticamente desde a sua fundação até
o terceiro século da nossa era.
Quando em 48 a.C. Júlio César veio auxiliar
Cleópatra em sua guerra contra o jovem Ptolomeu XIII,
as bibliotecas da cidade já contavam quase trezentos
anos. César ateou fogo aos navios ancorados no porto
de Alexandria para impedir seu inimigo de tomar a cidade pelo
mar. De acordo com Sêneca, isso provocou uma conflagração
que destruiria 40 mil livros de uma só vez. outros
afirmam que o fogo teria atingido apenas os livros estocados
num armazém, onde ficavam antes de serem levados às
estantes. O mais provável é que fossem livros
que César mandara despachar para Roma e que estivessem
ali aguardando o momento do embarque. Seja como for, mesmo
se a estimativa de Sêneca estiver correta, a perda terá
sido relativamente pequena. Calcula-se que só a biblioteca
principal, do Mouseion, abrigasse mais de 70 mil rolos. São
mencionados incêndios ulteriores, mas relatos de pessoas
que estiveram em Alexandria após a morte de César
indicam que as bibliotecas continuavam existindo. Estrabão,
que escreveu no tempo de Augusto e do nascimento de Cristo,
parece ter conhecido uma biblioteca alexandrina em pleno funcionamento.
Havia uma lenda segundo a qual Marco Antônio teria oferecido
a Cleópatra os livros de Pérgamo (a grande rival
de Alexandria, localizada na atual província turca
de Izmir) a título de compensação pela
perda de sua biblioteca, mas Plutarco põe em dúvida
a veracidade do episódio. Suetônio escreve que
Domiciano, imperador romano do século II d.C., empregou
sábios de Alexandria para repor os textos perdidos
num incêndio ocorrido na biblioteca do palácio
de Augusto. isso parece indicar a presença continuada
em Alexandria de uma comunidade intelectual que conservava
consigo textos preciosos, que eventualmente poderiam ser usados
na produção de cópias. É provável
que aquilo que restou das bibliotecas tenha sido destruído
completamente no século III d.C., quando o Brucheion
foi devastado na guerra que o imperador Aureliano empreendeu
contra a famigerada Zenóbia, rainha de Palmira. Por
essa época, no entanto, a expansão do cristianismo
foi fazendo com que as bibliotecas entrassem num processo
de decadência. Triunfando culturalmente sobre pagãos,
judeus e neoplatônicos, os cristãos passaram
a sentir os tesouros helênicos das bibliotecas como
uma herança incômoda. No século IV d.C.,
o sentimento chegaria ao ponto de ebulição.
Teófilo, patriarca de Alexandria, desejava construir
uma igreja no terreno ocupado pelo templo de Serápis.
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