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1º de setembro de 2004
 
 

Leia trecho de Chic[érrimo] Moda e etiqueta em novo regime de Gloria Kalil

NOVOS TEMPOS, NOVOS CÓDIGOS

Apesar do atual "momento umbigo", temos também que reconhecer os enormes progressos que fizemos, ao menos no campo jurídico, em favor de uma vida melhor e mais justa. Bem ou mal, vivemos num mundo mais igualitário: a escravidão foi abolida, é crime e dá cadeia discriminar por questões de cor, sexo, classe social. Até nos elevadores há placas com essas advertências. Diante de tantas transformações, é natural que os códigos, o comportamento, as regras de etiqueta também mudassem.
Cada vez que o mundo passa por grandes transformações, ele tem que se adaptar e fazer uma revisão dos antigos códigos. Os comportamentos entram em novos regimes.

Um dos primeiros best-sellers do mundo foi um manual de etiqueta. Em 1530, o pensador Erasmo de Rotterdam publica um manual de etiquetas para crianças: De civilitate morum puerilium [Sobre a civilidade no comportamento das crianças]. Teve uma circulação imensa: em seis anos, mais de trinta reedições - e, até o século XVIII, 130 edições. É praticamente ilimitado o número de traduções feitas até hoje. Por que tamanho interesse?
O que Erasmo fez foi delimitar o modo como as pessoas deveriam se comportar nas principais situações da vida social, numa época em que começava a surgir uma nova classe - a burguesia comercial que transitava por toda a Europa e, depois, América e o resto do mundo. "O estranho que chega ao país enfrenta tempos especialmente difíceis. Os outros olham-no fixamente, como se ele fosse um animal fabuloso vindo da África. Além do mais essas pessoas reconhecem como seres humanos apenas os nobres de seu país" - justifica Erasmo em escritos anteriores.
Então, como essa gente nova deveria comer na casa de um nobre? Como um nobre deveria cumprimentar este burguês de quem começava a depender para obter inúmeros serviços e mercadorias? Como os jovens da província deveriam se comportar na capital, nas grandes cidades, onde tudo passou a acontecer? Cidade e civilidade estão unidas desde o princípio, e não é por acaso que têm a mesma raiz etimológica.
Erasmo ensina, por exemplo, as pessoas a assoar o nariz com o lenço, em vez de usar os dedos. Explica que é feio lamber os dedos gordurosos ou secá-los no casaco: melhor usar a toalha da mesa ou o guardanapo. Ou que não se deve palitar os dentes com a faca com que se cortam alimentos, matam porcos ou inimigos. Dá para imaginar o cenário daquele momento?

Guilhotina já!

Centenas de tratados vão ser escritos durante o Antigo Regime, do século XV ao XVIII, para comentar as mudanças dos hábitos, as roupas e os modos dessa época em que a burguesia ameaçou (e conseguiu) desbancar a hegemonia da nobreza. E foi um avanço, pois nunca a moda e a etiqueta haviam estado tão a serviço da exclusão e da discriminação. Basta ver que em 1533 "só podiam ter seda em suas roupas os gentlemen de renda maior que 20 libras anuais. Já os assalariados que não ganhassem mais do que 2 libras por ano não podiam usar
boné ou camisa importados".
Nesta clara disputa por poder, bastava que uma moda proposta por um nobre fosse adotada por um burguês esperto para que outra surgisse no dia seguinte e a antiga perdesse a pose. Apropriar-se dos códigos de moda e etiqueta foi para esse burguês fator de ascensão social, uma arma para substituir o poder do título pelo poder do dinheiro.
E, por mais escandaloso que possa parecer, o poder do dinheiro é mais democrático que o dos títulos de nobreza. Qualquer um pode chegar a ganhar dinheiro, ao passo que sangue azul só se tem por direito de nascimento. É verdade que o sonho de igualdade, liberdade e fraternidade do novo regime pode não ter se realizado completamente, mas nos livrou de muitos dos códigos discriminatórios que uma sociedade de condições impõe.
No Antigo Regime a etiqueta existia para preservar as hierarquias (lembre-se de Luis XIV, em Versalhes). Depois passou a existir para permitir a melhor convivência da vida civil entre cidadãos iguais.
Hoje parece que andamos para trás nesse jogo social. O "momento umbigo" que vivemos parece ter despertado o desejo dos privilégios e a prática de um sistema de exclusões de que a humanidade demorou tanto para se livrar. Só faltava essa: fazer uma caricatura dos hábitos aristocráticos que há muito perderam o sentido. É só pensar nessa gracinha de ter porteiros de boate que deixam algumas pessoas entrar e barram outros porque "não pertencem", caricatura do desprezo dos nobres pelos sine nobilitate. Quantos pescoços reais rolaram por representar esses valores! Para esses esnobes, guilhotina já!

Esnobe. Quem? Eu?

Houve tempo em que reis eram reis, nobres eram nobres e povo era povo. Não havia a menor hipótese de um camponês se tornar um nobre. Não havia sequer casamento entre eles. Eram mundos estanques e rigorosamente separados, onde cada qual representava seu papel, sem qualquer chance de mobilidade. Numa sociedade democrática, há possibilidade de mudar de posição, de sair da condição de operário para a de mandatário de um país, por exemplo.
A possibilidade de subir socialmente - e também de decair de um momento para outro - numa sociedade móvel e competitiva é um campo aberto para o fenômeno do esnobismo. Se por um lado temos igualdades conquistadas no plano jurídico, é difícil imaginar uma sociedade sem ordens e hierarquias (reais ou imaginárias), que acabam dando em privilégios.
Neste cenário, quem não está contente com sua posição no mundo vai a qualquer custo tentar a famosa "escalada social". A situação é feita sob medida para o comportamento esnobe.
Quem é o esnobe? É a pessoa que pratica e vibra com o sistema de exclusão e discriminação. "O Snob só tem um parâmetro - o da comparação", com os de baixo e os de cima.
A única maneira de ele se sentir superior é menosprezando os outros. Faz isso com aquele olhar de cima para baixo, torcendo a boca, com ironia e sarcasmo. Ou silenciosamente, sem confessar para ninguém - nem para si próprio.
Todo mundo julga as pessoas que considera diferentes. Julga pelo tipo de carro que tem, pelo livro que lê, pelas opiniões políticas, pela roupa que usa, pelo cabelo, pelo jeito de apertar a mão, pelo andar, pelo tom da voz. E até pela universidade que freqüenta.
Você, inclusive.
Até aí, tudo bem. Julgar, todo mundo julga. O problema existe quando o julgamento dispara um sistema cruel que desclassifica, despreza e descarta as pessoas, numa imitação grotesca do comportamento arrogante dos nobres. Esnobismo é o comportamento que faz com que se anule ou se acolha uma pessoa por uma roupa, uma opinião, um sotaque. Quando o julgamento vira uma discriminação próxima do preconceito. Você se achar melhor do que alguém que prefere carro a literatura - ou vice-versa.
Como conviver com essa praga? Como sobreviver numa época em que o esnobismo parece ter chegado ao seu ponto máximo?
Primeiro: sabendo o que é o esnobismo, divirta-se com ele; não
se deixe ameaçar.
Segundo: busque conhecer os códigos de comportamento e tenha
consciência de suas escolhas. Capriche nelas, naturalmente: se você
for educado, informado, tiver estilo, que esnobe vai te derrubar?
Terceiro: aceite tranqüilamente a idéia de que você não acerta sempre, e nem todos vão admirar ou aplaudir tudo o que você faça. Não caia na armadilha do esnobismo.
Agora, se você não conseguir fazer nada disso, não tem jeito. Você também é um esnobe da melhor espécie. Não é vítima: é um parceiro e tanto para esse joguinho sadomasoquista.

Códigos: seja livre.. . Com eles

Conhecer os códigos da etiqueta e da moda dará a você mais liberdade para se situar num mundo cheio de sinais contraditórios.
1. Se o convite é para uma festa que pede traje social e você vai com um lindo vestido preto com pérolas, ou um terno escuro, está sinalizando que está entre iguais, e que compartilha com eles os mesmos valores.
2. Se você dá uma quebrada no traje estipulado no convite, com uma mistura inesperada - como uma jaqueta esportiva em cima do seu lindo vestido preto ou o terno escuro usado com um sapato bem moderno - é porque já faz questão de dizer que compartilha valores dos presentes, mas... nem tanto. Seu depoimento é de adesão ao grupo, mas com algumas diferenças e reservas.
3. Você está careca de saber que é para ir com uma roupa formal e, ainda assim, resolve encarar a ocasião com o seu jeans mais detonado. Você sabe que está transgredindo, e resolveu ir assim mesmo, na boa - então não vai se sentir incomodado com os olhares dos outros. Ao contrário, está sinalizando conscientemente que não compartilha em nada os valores das pessoas que estão lá. Seu depoimento pessoal afirma que você é bem diferente deles.

Moral da história: se você conhece os códigos, pode até transgredi-los.

Se você foi com seu jeans rasgado a um jantar formal porque quis, faz sentido. Agora, se foi de jeans porque não sabia o que queria dizer "traje social", vai se sentir mal e fora do tom. Seu jeans não foi um depoimento de independência. Foi um erro.

Também não é preciso entrar em paranóia e imaginar que tem de conhecer todas as maneiras de se comportar, de se vestir, e pensar o tempo todo na aparência e na imagem que quer projetar. O bom é transitar pelos códigos da moda e da etiqueta com naturalidade, sem parecer que está num campo minado.
Não é um vexame usar o talher errado para comer um molusco raro que você nunca viu mais gordo; ou não ter uma panela de fondue em casa para ser usada numa única noite de inverno. Bom humor e simplicidade resolvem qualquer situação; pergunte como comer aquele bicho esquisito, e improvise uma panela para a fondue. Vexame é se atrapalhar por tão pouco.
O sucesso de uma festa, por exemplo, não se garante só porque os anfitriões estão bem vestidos, porque há lindos castiçais na mesa ou porque a casa está bem decorada. O que mede realmente o sucesso de uma festa é se ela foi animada, se você encontrou gente interessante, se a conversa foi boa, se você dançou à vontade, se as pessoas saíram de lá com a sensação de que se divertiram ou aprenderam alguma coisa.
Querer dar conta de todas as expectativas, sentir-se na obrigação de ter todos os utensílios do mundo é uma missão impossível, uma obsessão sem fim. Em vez de chic, você cai no excesso, na caricatura de chic.
Fui uma vez com amigos passar um fim de semana na casa de praia de uma pessoa tão preocupada em ser perfeita que nos deixou sem jeito e incomodados. Deveríamos avisar o horário em que queríamos ser acordados para que o sistema de telefonia entrasse em ação; deveríamos, pela manhã, especificar o vinho que íamos tomar com o peixe do almoço para que ele fosse retirado da adega a tempo; teríamos também que saber onde íamos querer passear de lancha para que o marinheiro preparasse as geladeiras do barco, e assim por diante. Como se não bastasse, nos armários dos banheiros havia remédios para todas as possíveis doenças e produtos de beleza para cobrir qualquer esquecimento. A cada momento, empregados munidos de walkie-talkies nos perseguiam para saber se estávamos sentindo falta de alguma
coisa ou se tínhamos alguma reclamação a fazer. Passamos o final de semana nos divertindo em marcar encontros secretos nos cantos do jardim e na ponta da praia para fugir do assédio e relaxar!
Ser bem-educado, capaz de receber os outros e tornar o ambiente agradável é chic. Não basta ter a panela de fondue, uma supercasa de praia ou saber manejar a aterrorizante pinça do escargot.

Etiqueta, batata frita e salto alto

Uma travessa de batatas fritas, douradas e sequinhas, atiça o que o ser humano tem de pior. Dá vontade de avançar, empurrar as crianças, dar cotoveladas em quem estiver do lado, agarrar o prato e comê-lo inteiro com as mãos, até a última lasca salgada e crocante. Quem não passou pela agonia de ter que se controlar e esperar com dignidade a hora de se servir, enquanto vê as batatas desaparecendo rapidamente da travessa, sinal de que sobrariam muito poucas ou nenhuma na sua vez? É. Não é nada fácil ser civilizado.
Mas, sem civilização, sem códigos de convivência, seria a barbárie, a lei do mais forte, do salve-se quem puder, e a vida nas cidades ou em qualquer agrupamento se tornaria impossível. Por isso as leis, por isso a etiqueta. Funcionou a partir das cavernas, funciona até hoje.
Do mesmo modo que a etiqueta, a moda também tem suas perversidades.
Por que usar salto alto ou gravata? Deus do céu, não é muito mais gostoso ficar de pijama? Não foi o que aconteceu. O homem sempre inventou uma coisinha para se diferenciar, para mostrar sua posição no mundo: um osso no nariz, uma pele rara, uma renda, uma cor, um jeito assim ou assado de se vestir.
A moda, em vez de orientar, anda deixando as pessoas ainda mais desamparadas e sem saber como lidar com ela. Ninguém mais tem certeza do que está ou não na moda. A lista dos elegantes traz nomes que, para você, deveriam estar na lista dos malucos ou em alguma ala de escola de samba. São tantas as informações, são tantas as possibilidades, que às vezes a impressão que se tem é de que vale tudo. No entanto... nem pense nisso.
Gostemos ou não, viver em grupo exige regras. Estamos sempre sendo avaliados - seja pela nossa aparência ou pelo modo como nos comportamos. Por isso, o conhecimento dos códigos pode facilitar muito a vida.
O problema é: onde estão esses códigos? Quem ensina?
Antigamente era em volta da mesa que se aprendia a comer de boca fechada, a usar os talheres, a tomar sopa sem fazer barulho (e não avançar na batata frita). Era também o lugar onde se discutiam os problemas da escola, as brigas com os colegas, as cenas vistas nas ruas, nos escritórios, a roupa certa para um casamento, para uma festa, e todos os dilemas éticos que surgiam nos relacionamentos. Com a correria dos dias de hoje, esse ritual tão comum foi praticamente abandonado.
As famílias ficaram pequenas, todo mundo trabalha até tarde; os fornos de microondas permitem esquentar pratinhos individuais que serão comidos em frente da tevê ou do computador. Não tem mais mesa, não tem mais muita conversa - e, apesar do afeto e impressão de proximidade, a verdade é que quase não há mais trocas de valores e de experiências. Sem mencionar os pais modernos, que não educam, com medo de reprimir.
O caso é que, um dia, para grande surpresa de todos, as regras começam a fazer falta; descobrimos, em pânico, que não sabemos o que vestir e como nos portar num jantar de lugar marcado, quando somos obrigados a comer e conversar com gente que não se conhece, diante de pratos com nomes impossíveis de decifrar.
Calma. É justamente nessas horas que é preciso parar para reavaliar os parâmetros de comportamento, manter os que ainda fazem sentido e assimilar os novos. É tempo de recuperar o prazer da civilidade - ao menos para os que teimam em acreditar que a civilização é uma necessidade e um prazer sofisticado.
É tempo de um novo regime.

 

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