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trecho de Chic[érrimo] Moda e etiqueta em novo regime de Gloria Kalil NOVOS
TEMPOS, NOVOS CÓDIGOS Apesar
do atual "momento umbigo", temos também que reconhecer os enormes
progressos que fizemos, ao menos no campo jurídico, em favor de uma vida
melhor e mais justa. Bem ou mal, vivemos num mundo mais igualitário: a
escravidão foi abolida, é crime e dá cadeia discriminar por
questões de cor, sexo, classe social. Até nos elevadores há
placas com essas advertências. Diante de tantas transformações,
é natural que os códigos, o comportamento, as regras de etiqueta
também mudassem. Cada vez que o mundo passa por grandes transformações,
ele tem que se adaptar e fazer uma revisão dos antigos códigos.
Os comportamentos entram em novos regimes. Um
dos primeiros best-sellers do mundo foi um manual de etiqueta. Em 1530, o pensador
Erasmo de Rotterdam publica um manual de etiquetas para crianças: De civilitate
morum puerilium [Sobre a civilidade no comportamento das crianças]. Teve
uma circulação imensa: em seis anos, mais de trinta reedições
- e, até o século XVIII, 130 edições. É praticamente
ilimitado o número de traduções feitas até hoje. Por
que tamanho interesse? O que Erasmo fez foi delimitar o modo como as pessoas
deveriam se comportar nas principais situações da vida social, numa
época em que começava a surgir uma nova classe - a burguesia comercial
que transitava por toda a Europa e, depois, América e o resto do mundo.
"O estranho que chega ao país enfrenta tempos especialmente difíceis.
Os outros olham-no fixamente, como se ele fosse um animal fabuloso vindo da África.
Além do mais essas pessoas reconhecem como seres humanos apenas os nobres
de seu país" - justifica Erasmo em escritos anteriores. Então,
como essa gente nova deveria comer na casa de um nobre? Como um nobre deveria
cumprimentar este burguês de quem começava a depender para obter
inúmeros serviços e mercadorias? Como os jovens da província
deveriam se comportar na capital, nas grandes cidades, onde tudo passou a acontecer?
Cidade e civilidade estão unidas desde o princípio, e não
é por acaso que têm a mesma raiz etimológica. Erasmo ensina,
por exemplo, as pessoas a assoar o nariz com o lenço, em vez de usar os
dedos. Explica que é feio lamber os dedos gordurosos ou secá-los
no casaco: melhor usar a toalha da mesa ou o guardanapo. Ou que não se
deve palitar os dentes com a faca com que se cortam alimentos, matam porcos ou
inimigos. Dá para imaginar o cenário daquele momento? Guilhotina
já! Centenas
de tratados vão ser escritos durante o Antigo Regime, do século
XV ao XVIII, para comentar as mudanças dos hábitos, as roupas e
os modos dessa época em que a burguesia ameaçou (e conseguiu) desbancar
a hegemonia da nobreza. E foi um avanço, pois nunca a moda e a etiqueta
haviam estado tão a serviço da exclusão e da discriminação.
Basta ver que em 1533 "só podiam ter seda em suas roupas os gentlemen
de renda maior que 20 libras anuais. Já os assalariados que não
ganhassem mais do que 2 libras por ano não podiam usar boné
ou camisa importados". Nesta clara disputa por poder, bastava que uma
moda proposta por um nobre fosse adotada por um burguês esperto para que
outra surgisse no dia seguinte e a antiga perdesse a pose. Apropriar-se dos códigos
de moda e etiqueta foi para esse burguês fator de ascensão social,
uma arma para substituir o poder do título pelo poder do dinheiro. E,
por mais escandaloso que possa parecer, o poder do dinheiro é mais democrático
que o dos títulos de nobreza. Qualquer um pode chegar a ganhar dinheiro,
ao passo que sangue azul só se tem por direito de nascimento. É
verdade que o sonho de igualdade, liberdade e fraternidade do novo regime pode
não ter se realizado completamente, mas nos livrou de muitos dos códigos
discriminatórios que uma sociedade de condições impõe.
No Antigo Regime a etiqueta existia para preservar as hierarquias (lembre-se
de Luis XIV, em Versalhes). Depois passou a existir para permitir a melhor convivência
da vida civil entre cidadãos iguais. Hoje parece que andamos para trás
nesse jogo social. O "momento umbigo" que vivemos parece ter despertado
o desejo dos privilégios e a prática de um sistema de exclusões
de que a humanidade demorou tanto para se livrar. Só faltava essa: fazer
uma caricatura dos hábitos aristocráticos que há muito perderam
o sentido. É só pensar nessa gracinha de ter porteiros de boate
que deixam algumas pessoas entrar e barram outros porque "não pertencem",
caricatura do desprezo dos nobres pelos sine nobilitate. Quantos pescoços
reais rolaram por representar esses valores! Para esses esnobes, guilhotina já!
Esnobe. Quem? Eu? Houve
tempo em que reis eram reis, nobres eram nobres e povo era povo. Não havia
a menor hipótese de um camponês se tornar um nobre. Não havia
sequer casamento entre eles. Eram mundos estanques e rigorosamente separados,
onde cada qual representava seu papel, sem qualquer chance de mobilidade. Numa
sociedade democrática, há possibilidade de mudar de posição,
de sair da condição de operário para a de mandatário
de um país, por exemplo. A possibilidade de subir socialmente - e também
de decair de um momento para outro - numa sociedade móvel e competitiva
é um campo aberto para o fenômeno do esnobismo. Se por um lado temos
igualdades conquistadas no plano jurídico, é difícil imaginar
uma sociedade sem ordens e hierarquias (reais ou imaginárias), que acabam
dando em privilégios. Neste cenário, quem não está
contente com sua posição no mundo vai a qualquer custo tentar a
famosa "escalada social". A situação é feita sob
medida para o comportamento esnobe. Quem é o esnobe? É a pessoa
que pratica e vibra com o sistema de exclusão e discriminação.
"O Snob só tem um parâmetro - o da comparação",
com os de baixo e os de cima. A única maneira de ele se sentir superior
é menosprezando os outros. Faz isso com aquele olhar de cima para baixo,
torcendo a boca, com ironia e sarcasmo. Ou silenciosamente, sem confessar para
ninguém - nem para si próprio. Todo mundo julga as pessoas que
considera diferentes. Julga pelo tipo de carro que tem, pelo livro que lê,
pelas opiniões políticas, pela roupa que usa, pelo cabelo, pelo
jeito de apertar a mão, pelo andar, pelo tom da voz. E até pela
universidade que freqüenta. Você, inclusive. Até aí,
tudo bem. Julgar, todo mundo julga. O problema existe quando o julgamento dispara
um sistema cruel que desclassifica, despreza e descarta as pessoas, numa imitação
grotesca do comportamento arrogante dos nobres. Esnobismo é o comportamento
que faz com que se anule ou se acolha uma pessoa por uma roupa, uma opinião,
um sotaque. Quando o julgamento vira uma discriminação próxima
do preconceito. Você se achar melhor do que alguém que prefere carro
a literatura - ou vice-versa. Como conviver com essa praga? Como sobreviver
numa época em que o esnobismo parece ter chegado ao seu ponto máximo?
Primeiro: sabendo o que é o esnobismo, divirta-se com ele; não
se deixe ameaçar. Segundo: busque conhecer os códigos de
comportamento e tenha consciência de suas escolhas. Capriche nelas,
naturalmente: se você for educado, informado, tiver estilo, que esnobe
vai te derrubar? Terceiro: aceite tranqüilamente a idéia de que
você não acerta sempre, e nem todos vão admirar ou aplaudir
tudo o que você faça. Não caia na armadilha do esnobismo.
Agora, se você não conseguir fazer nada disso, não tem
jeito. Você também é um esnobe da melhor espécie. Não
é vítima: é um parceiro e tanto para esse joguinho sadomasoquista.
Códigos:
seja livre.. . Com eles Conhecer
os códigos da etiqueta e da moda dará a você mais liberdade
para se situar num mundo cheio de sinais contraditórios. 1. Se o convite
é para uma festa que pede traje social e você vai com um lindo vestido
preto com pérolas, ou um terno escuro, está sinalizando que está
entre iguais, e que compartilha com eles os mesmos valores. 2. Se você
dá uma quebrada no traje estipulado no convite, com uma mistura inesperada
- como uma jaqueta esportiva em cima do seu lindo vestido preto ou o terno escuro
usado com um sapato bem moderno - é porque já faz questão
de dizer que compartilha valores dos presentes, mas... nem tanto. Seu depoimento
é de adesão ao grupo, mas com algumas diferenças e reservas.
3. Você está careca de saber que é para ir com uma roupa
formal e, ainda assim, resolve encarar a ocasião com o seu jeans mais detonado.
Você sabe que está transgredindo, e resolveu ir assim mesmo, na boa
- então não vai se sentir incomodado com os olhares dos outros.
Ao contrário, está sinalizando conscientemente que não compartilha
em nada os valores das pessoas que estão lá. Seu depoimento pessoal
afirma que você é bem diferente deles. Moral
da história: se você conhece os códigos, pode até transgredi-los.
Se você
foi com seu jeans rasgado a um jantar formal porque quis, faz sentido. Agora,
se foi de jeans porque não sabia o que queria dizer "traje social",
vai se sentir mal e fora do tom. Seu jeans não foi um depoimento de independência.
Foi um erro. Também
não é preciso entrar em paranóia e imaginar que tem de conhecer
todas as maneiras de se comportar, de se vestir, e pensar o tempo todo na aparência
e na imagem que quer projetar. O bom é transitar pelos códigos da
moda e da etiqueta com naturalidade, sem parecer que está num campo minado.
Não é um vexame usar o talher errado para comer um molusco raro
que você nunca viu mais gordo; ou não ter uma panela de fondue em
casa para ser usada numa única noite de inverno. Bom humor e simplicidade
resolvem qualquer situação; pergunte como comer aquele bicho esquisito,
e improvise uma panela para a fondue. Vexame é se atrapalhar por tão
pouco. O sucesso de uma festa, por exemplo, não se garante só
porque os anfitriões estão bem vestidos, porque há lindos
castiçais na mesa ou porque a casa está bem decorada. O que mede
realmente o sucesso de uma festa é se ela foi animada, se você encontrou
gente interessante, se a conversa foi boa, se você dançou à
vontade, se as pessoas saíram de lá com a sensação
de que se divertiram ou aprenderam alguma coisa. Querer dar conta de todas
as expectativas, sentir-se na obrigação de ter todos os utensílios
do mundo é uma missão impossível, uma obsessão sem
fim. Em vez de chic, você cai no excesso, na caricatura de chic. Fui
uma vez com amigos passar um fim de semana na casa de praia de uma pessoa tão
preocupada em ser perfeita que nos deixou sem jeito e incomodados. Deveríamos
avisar o horário em que queríamos ser acordados para que o sistema
de telefonia entrasse em ação; deveríamos, pela manhã,
especificar o vinho que íamos tomar com o peixe do almoço para que
ele fosse retirado da adega a tempo; teríamos também que saber onde
íamos querer passear de lancha para que o marinheiro preparasse as geladeiras
do barco, e assim por diante. Como se não bastasse, nos armários
dos banheiros havia remédios para todas as possíveis doenças
e produtos de beleza para cobrir qualquer esquecimento. A cada momento, empregados
munidos de walkie-talkies nos perseguiam para saber se estávamos sentindo
falta de alguma coisa ou se tínhamos alguma reclamação
a fazer. Passamos o final de semana nos divertindo em marcar encontros secretos
nos cantos do jardim e na ponta da praia para fugir do assédio e relaxar!
Ser bem-educado, capaz de receber os outros e tornar o ambiente agradável
é chic. Não basta ter a panela de fondue, uma supercasa de praia
ou saber manejar a aterrorizante pinça do escargot. Etiqueta,
batata frita e salto alto Uma
travessa de batatas fritas, douradas e sequinhas, atiça o que o ser humano
tem de pior. Dá vontade de avançar, empurrar as crianças,
dar cotoveladas em quem estiver do lado, agarrar o prato e comê-lo inteiro
com as mãos, até a última lasca salgada e crocante. Quem
não passou pela agonia de ter que se controlar e esperar com dignidade
a hora de se servir, enquanto vê as batatas desaparecendo rapidamente da
travessa, sinal de que sobrariam muito poucas ou nenhuma na sua vez? É.
Não é nada fácil ser civilizado. Mas, sem civilização,
sem códigos de convivência, seria a barbárie, a lei do mais
forte, do salve-se quem puder, e a vida nas cidades ou em qualquer agrupamento
se tornaria impossível. Por isso as leis, por isso a etiqueta. Funcionou
a partir das cavernas, funciona até hoje. Do mesmo modo que a etiqueta,
a moda também tem suas perversidades. Por que usar salto alto ou gravata?
Deus do céu, não é muito mais gostoso ficar de pijama? Não
foi o que aconteceu. O homem sempre inventou uma coisinha para se diferenciar,
para mostrar sua posição no mundo: um osso no nariz, uma pele rara,
uma renda, uma cor, um jeito assim ou assado de se vestir. A moda, em vez
de orientar, anda deixando as pessoas ainda mais desamparadas e sem saber como
lidar com ela. Ninguém mais tem certeza do que está ou não
na moda. A lista dos elegantes traz nomes que, para você, deveriam estar
na lista dos malucos ou em alguma ala de escola de samba. São tantas as
informações, são tantas as possibilidades, que às
vezes a impressão que se tem é de que vale tudo. No entanto... nem
pense nisso. Gostemos ou não, viver em grupo exige regras. Estamos
sempre sendo avaliados - seja pela nossa aparência ou pelo modo como nos
comportamos. Por isso, o conhecimento dos códigos pode facilitar muito
a vida. O problema é: onde estão esses códigos? Quem ensina?
Antigamente era em volta da mesa que se aprendia a comer de boca fechada,
a usar os talheres, a tomar sopa sem fazer barulho (e não avançar
na batata frita). Era também o lugar onde se discutiam os problemas da
escola, as brigas com os colegas, as cenas vistas nas ruas, nos escritórios,
a roupa certa para um casamento, para uma festa, e todos os dilemas éticos
que surgiam nos relacionamentos. Com a correria dos dias de hoje, esse ritual
tão comum foi praticamente abandonado. As famílias ficaram pequenas,
todo mundo trabalha até tarde; os fornos de microondas permitem esquentar
pratinhos individuais que serão comidos em frente da tevê ou do computador.
Não tem mais mesa, não tem mais muita conversa - e, apesar do afeto
e impressão de proximidade, a verdade é que quase não há
mais trocas de valores e de experiências. Sem mencionar os pais modernos,
que não educam, com medo de reprimir. O caso é que, um dia,
para grande surpresa de todos, as regras começam a fazer falta; descobrimos,
em pânico, que não sabemos o que vestir e como nos portar num jantar
de lugar marcado, quando somos obrigados a comer e conversar com gente que não
se conhece, diante de pratos com nomes impossíveis de decifrar. Calma.
É justamente nessas horas que é preciso parar para reavaliar os
parâmetros de comportamento, manter os que ainda fazem sentido e assimilar
os novos. É tempo de recuperar o prazer da civilidade - ao menos para os
que teimam em acreditar que a civilização é uma necessidade
e um prazer sofisticado. É tempo de um novo regime. |