Cartas
1º de setembro de 2004
 
 

Outras opiniões de leitores sobre o artigo "Baleias não me emocionam"

Ponto de vista, 25 de agosto,
escrito por Lya Luft

Há muito eu não lia um artigo tão sóbrio sobre o tratamento do ser humano com os animais. Ao escrever sobre a baleia encalhada no Rio, Lya Luft encontrou o ponto certo: não se trata de desconsiderar os animais, mas apenas de priorizar o ser humano. Parabéns, Lya Luft, pelo equilibrado artigo.
José Augusto Hey
Curitiba, PR

Comungo com Lya Luft em sua opinião sobre os animais. Compartilho respeito e amor por eles e abomino o trato de gente que tantos bichos recebem enquanto seres humanos não recebem a ínfima parte desse trato. Comovem-me, sim, notícias como a de seres humanos queimados vivos por viverem nas ruas à falta de um teto. Entristece-me, sim, saber que tantos passam frio, não têm o que comer, o que vestir ou que não têm acesso a assistência médica. Quanta criança privada de futuro por já nascer condenada, excluída da sociedade, sem direito a um lar, alimentação, creche, escola, educação... As prisões aí estão abarrotadas e, dentro delas, quantos artistas, médicos, professores, mecânicos, comerciantes, empresários que não tiveram o direito de "nascer" pela falta de mínimas oportunidades. Enquanto isso, verdadeiras somas são direcionadas aos animais... O que é isso? Que inversão é essa? Se a sociedade fosse realmente tão boa e solidária quanto acredita ser, pelo que oferece de amor e dinheiro aos animais, certamente colocaria as prioridades humanas num plano de maior respeito.
Diolásia de Lima Cheriegate
Rio de Janeiro, RJ

Conterrânea Lya, entre a angústia de um indivíduo sensível sobre "a qual causa, dentre todas as que me solicitam, devo doar minha contribuição?", e o erro filosófico de hierarquizar sofrimentos, corre um oceano. Neste oceano, com uma angústia apenas doméstica, podemos auxiliar a encalhar o trabalho de muitas gerações para expandir a consciência sobre o meio ambiente e o valor da vida em si - animal, vegetal, mineral. Para a questão sobre qual sofrimento será mais urgente ou importante, temos que assumir um distanciamento olímpico e suportar a ausência de respostas cabais. Hierarquia de sofrimentos é um critério filosoficamente insustentável. Sugiro chorar por todos os sofrimentos, sem pudores.
Euthalia Xavier
Porto Alegre, RS

Atualmente, centenas de profissionais bem sucedidos, sobretudo jovens, trocam seus empregos estáveis em grandes empresas pelo trabalho em ONGs que promovem a capacitação profissional de adolescentes de favela, que levam saúde, educação e arte para populações carentes. O voluntariado é um dos movimentos que mais crescem no país. Há vinte anos, uma baleia encalhada não causaria comoção alguma, como também seria considerada excêntrica uma pessoa que optasse pelo Terceiro Setor. O aumento da solidariedade humana em relação aos animais é proporcional ao aumento da solidariedade entre os humanos. O que a escritora não compreendeu é que as pessoas que se comoveram com o sofrimento da baleia encalhada são as mesmas que lutam, na prática, de verdade, para acabar com o sofrimento dos humanos - ao contrário dos que ficam em suas casas confortáveis, escrevendo pontos de vista superficiais sobre assuntos que desconhecem.
Valeria Serra Cordeiro
Rio de Janeiro, RJ

A espécie humana apresenta a característica de defender os membros dos grupos a que pertencem, criados em função de raça, credo, classe, nacionalidade e, por que não, espécie. Estas diferenças vêm, ao longo dos séculos, justificando agressões intermináveis entre e dentro dos grupos. Os homens dispõem de diversos "Greenpeaces" ("Crianças Esperanças", milhares de ONGs, governos, etc) para se defenderem de si próprios. As outras formas de vida, no entanto, não conseguem se articular contra a multiplicação descontrolada de uma espécie, que surgiu em um planeta onde já existia vida há milhões de anos e a está depredando em poucas centenas. Humanos se emocionarem com o sofrimento de um outro ser vivo, capaz inclusive de sofrer e de expressar sentimentos, é um reconhecimento de que todos fazemos parte do mesmo mundo, uns dependendo dos outros. Se emocionar com as baleias é se emocionar com a vida, condição indispensável para reduzir as diferenças entre os seres humanos.
Carlos Eduardo Lessa Brandão
São Paulo, SP

A escritora Lia Luft parece desconhecer e não compreender, pelo menos, as diferenças (e interesses) políticas, estratégicas, financeiras e históricas, sem comentar agora as de imprensa e propaganda, envolvidas em questões ambientais e sanitárias (uma baleia ou outro animal - sobretudo do tamanho de um grande cetáceo - moribundo ou não, em área urbana pode ser causador ou vetor de zoonoses) comparadas às de educação escolar e discrepância sócio-econômica, entre outras, causadoras dos meninos de rua, mendigos, etc, nas palavras da escritora. Encalhes da baleias vivas reportados são raros na costa brasileira, sobretudo comparados ao numero de mendigos e meninos de rua pedindo dinheiro na porta de seu carro (no Rio de Janeiro e em São Paulo, e claro). Estes encalhes permitem obter muitos dados científicos aos ainda raros pesquisadores desta área, apesar da enorme dificuldade financeira e logística que estes enfrentam em sua batalha. Aliás, deveríamos ter muito mais recursos humanos, logísticos e financeiros para a pesquisa de cetáceos no país. Estes encalhes possibilitam também ao grande publico conhecer um pouco de uma das nossas maiores riquezas, nossa fauna silvestre, que invariavelmente, sobretudo no caso das baleias jubarte e franca, foram exploradas até a beira da extinção. Acho totalmente aceitável e correto as pessoas não se emocionarem com o encalhe de um cetáceo pré adolescente (o caso daquela baleia no Rio de Janeiro). Mas misturar isto com problemas resultantes de nossa já conhecida e não combatida histórica e maquiavélica diferença sócio-econômica é, no mínimo, falta de visão.
Paulo A.C. Flores
Florianópolis, SC

Eu me considero privilegiada pela minha capacidade de amar todos os seres vivos, de sentir compaixão, de me
deleitar com o pôr-do-sol, com o canto dos pássaros, com a plenitude da vida. Além disso, sempre acreditei que o respeito pelos mais fracos e pelos necessitados fosse um bom exemplo para os mais jovens. Na sua opinião, o esforço em resgatar a baleia jubarte foi um exemplo negativo para os jovens carentes e desesperançados deste país? Eu creio justamente no
contrário! Minha vida sempre foi dura, e desde cedo aprendi que vale a pena lutar, mesmo quando estamos encalhados e em agonia. Meus parabéns para aqueles que lutaram pelo animal que sofria. Meus pêsames a quem não sabe dar valor a gestos tão nobres.
Sílvia Luiza lakatos
São Paulo, SP

É de surpreender que a escritora, à essa altura da própria vida, tenha cometido tamanho despropósito com esse artigo. O eufemismo que pratica em seu texto não encobre por completo a pequeneza de sua dispensável opinião: ventos nórdicos e almas não têm ligação qualquer com tamanha falta de senso. O posicionamento da escritora em nada contribui para se decodificar e solucionar problemas como a violência humana e a preservação ambiental como um todo. Lamentável colocar na mesma seara baleias e crianças, que, apesar de mamíferos, não são a mesma coisa. A tentativa de conexão dos assuntos - da maneira que foi proposta - é quase infantil. Talvez a escritora não entenda nada de baleias, crianças, mendigos, imprensa, simpatia e bom senso.
Celso Eduardo Coutinho Chagas
Rio de Janeiro, RJ

A senhora Lya Luft sequer é original quando picha a conservação da fauna marinha brasileira - Rachel de Queiroz também abominava a natureza. Felizmente, os defensores da natureza proliferam a olhos vistos.
José Truda Palazzo Jr.
Porto Alegre, RS

A exemplo de tantas outras espécies, as baleias cada vez mais encalham nas praias de todos os lugares, mais por conseqüências das ações dos homens do que por seus instintos ou mera fatalidade. Nossos oceanos estão se tornando verdadeiras latas de lixo; empresas e governos realizam testes submarinos cada vez mais intensivos que desnorteiam baleias e outras espécies e a senhora acha que tentar salvar as que encalham é coisa de quem não tem mais o que fazer. Ora, que demagogia achar que devemos abandonar causas que protegem os animais por achar que poderíamos agir mais a favor do ser humano. Um erro não justifica outro. Não é porque há miseráveis e crianças abandonadas que devemos deixar os animais à mercê de sua própria sorte. Toda vida merece ser salva. O homem extermina a natureza e animais por ações criminosas, mas aceitáveis na sociedade, tudo em nome do progresso humano que, infelizmente resume-se aos interesses do poder econômico. Devemos sim, cuidar dos nossos irmãos humanos, porém, jamais abandonar nossos irmãos irracionais, não medindo esforços nem sacrifícios para servir tanto a um quanto a outro, porque todo problema requer cuidados, seja ele qual for. Os animais, como seres espirituais em evolução, são nossos companheiros de jornada, merecendo ser respeitados e, sobretudo, amados.
Sylvia Gatto
Itanhaém, SP

As emoções brotam nas pessoas por razões diferentes. Há quem chore ao ver um quadro de Picasso e quem não liga a mínima. Eu prefiro baleias a Picasso. Se uma baleia encalhasse na praia onde moro eu ficaria torcendo por sua volta ao mar. Só vi duas até hoje, mesmo assim ao longe. Sei que são enormes e que empurrá-las de volta ao mar exige força, trabalho em equipe, decisão e compaixão. Se encalhasse um ser desses por dia a rotina mataria a emoção e trataríamos baleias como tratamos os velhos, os pobres, os loucos, os doentes... Torçamos para que isso não aconteça. Há algum tempo um tubarão (ou seria um golfinho?) foi morto a pauladas numa praia do Rio. Pergunto-me por que alguém deu a primeira paulada. Não é de assustar? Por que o enjôo com quem se dispõe a salvar, seja lá o que for? É doloroso saber da fome das pessoas e é possível, ao mesmo tempo, se comover com baleias, pessoas e até com corujas condenadas a ausência do par. Os sentimentos não se excluem e envolvem muitos outros detalhes. Vamos torcer pelas baleias e por quem as salva. Torcer pelos que nada têm e pelos que os ajudam. Sobre a coruja de sua infância, prisão é prisão. Coruja quer viver com coruja, solta na mata.
Georgeta Gonçalves
São Sebastião, SP

Não admira que a comoção da escritora Lya Luft seja difícil de ser alcançada, pois desde muito jovem conviveu com o sofrimento de animais silvestres sem se atentar para isso. Corujas em gaiolas e veados em ilhas de jardim são realmente uma grande demonstração da crueldade com animais que presenciamos todos os dias. Não só a crueldade com os animais precisa ser barrada em nossa sociedade mas também os efeitos catastróficos da ação humana sobre os ecossistemas. As baleias, assim como outras espécies que compõe estes ecossistemas, estão sobre constante ameaça de desaparecerem do nosso planeta. Ações como as da mobilização para o salvamento de uma baleia são de extrema importância para que nossas crianças cresçam não só com todo o amor e atenção que merecem mas também com uma visão do mundo muito melhor do que a presenciada pela escritora.
Leonardo F. Machado
Itajaí, SC

Campanhas em favor dos animais não têm efeito apenas imediato e individual. Funcionam sobretudo a longo prazo, para beneficiar e conscientizar também as futuras gerações. É inegável a necessidade de se prestar mais assistência a seres humanos. Mas é igualmente importante (e humano) salvar animais e despertar a consciência ecológica na população. Uma coisa não exclui a outra. Sob a bandeira da prioridade às pessoas acomodam-se aqueles que não fazem nada, nem por gente nem por bichos. Em vez de pedir perdão seria mais prudente abster-se de publicar opiniões inconseqüentes. Não basta a indiferença ao sofrimento dos bichinhos em experiências científicas que beneficiam apenas o homem?
Celia Flores Gangl
Brasília, DF

Num país com deficiência de cultura ambiental como o nosso, qualquer coisa escrita neste sentido vale muito, principalmente em veículos de comunicação tão importantes quanto a revista VEJA. Será que nos falta conhecimento ou sensibilidade? A primeira delas é mais fácil conseguir e espero que não seja lendo este tipo de matéria, que mais me parece um discurso de imediatismo. Ora, vamos morrer mesmo, para que deixar alguma coisa para os outros... e essas baleias, com certeza, só servem mesmo para atrapalhar nosso banho de sol quando atolam e morrem na praia. Elas vêm aqui para "atolar" mesmo, não sei nem para que existem! Em um país onde o ambiente não é prioridade, profanações descabidas como esta caem tão bem quanto uma luva. Só espero que, a infinidade de leitores desta revista não acredite que as baleias sejam a causa da desigualdade social neste país e, estas palavras que tive o desprazer de ler, sirvam para aumentar a vontade da população de segurar um pouco a biodiversidade deste planeta, respeitando-o um pouco mais.
Alexandre Lorenzetto
Curitiba, PR

A senhora Lya Luft talvez tenha se esquecido que animais procriam por instinto, não sabem pedir socorro, não têm o hábito de caçar homens para traficá-los, tirar suas peles e fazer casacos, abrir-lhes as entranhas ainda vivos em laboratórios para se produzir perfumes. Creia senhora Lya, baleias não encalham por estar praticando algum esporte radical. Na minha opinião, estrume de gado tem mais utilidade do que certos seres humanos que habitam este planeta; pode adubar um jardim, por exemplo.
João Ezídio Gomes
Ribeirão Preto, SP

 

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