| Trecho
do livro Santo
Agostinho – Uma Biografia,
de Peter Brown 1.
África Quando
Agostinho ali nasceu, em 354, a cidade de Tagaste (moderna Suq Ahras, na Argélia)
tinha 300 anos. Era um dos muitos núcleos de flagrante amor-próprio
que os romanos haviam espalhado por todo o norte da África: dava a si mesma
o nome de "mui resplandecente" conselho de Tagaste.2
Desde
o século I a.C., um "milagre econômico" havia transformado
a região interiorana da África setentrional.3 Nunca mais a prosperidade
voltaria a se estender de maneira tão eficaz por uma área tão
vasta. No século III d.C., as campinas e vales do planalto — a antiga Numídia
— em que Agostinho nascera tinham sido cultivados com cereais, atravessados por
uma rede de estradas e povoados por cidades. Mais ao sul, além das montanhas
Aures, uma cadeia de fortes guardava a fronteira entre o cultivo intensivo e a
ausência dele, bem na orla do Saara. Nessa época de fartura, os habitantes
da área de Thysdrus, a moderna El-Djem, haviam instalado no meio da planície
aberta um anfiteatro quase do tamanho do Coliseu de Roma; porém o memorial
mais típico desse período de "surto de crescimento" é
uma inscrição em Timgad, cidade bem ao sul de Tagaste, no que hoje
são as desoladas terras altas do sul da Argélia: "A caça,
os banhos, os jogos e o riso: eis a vida para mim!"4 No
século IV, a expansão original chegara a uma estagnação
sinistra. Os projetos de construção haviam cessado, os velhos monumentos
públicos começavam a ruir e "favelas" tão caóticas
quanto as ruelas sinuosas dos bazares das cidades árabes haviam começado
a se comprimir em torno do xadrez de avenidas das antigas cidades romanas. A riqueza
da África mudara-se para longe de seus antigos centros. Florestas de oliveiras
passaram a cobrir as encostas das montanhas da Numídia meridional. Na África,
Agostinho podia trabalhar a noite inteira, abastecendo sua lamparina com um estoque
abundante do tosco óleo africano — um conforto do qual sentiria falta durante
sua temporada na Itália.5 Esse óleo vinha de homens humildes, de
aldeias que não tinham a presunção das cidades romanas. Esses
lavradores vigorosos, desconfiados do mundo externo e vivendo em comunidades muito
unidas, cujos hábitos pouco se haviam alterado desde tempos pré-históricos,
haviam-se tornado os árbitros da prosperidade da África: "Aqui
jaz Dion, um homem devoto; viveu 80 anos e plantou 4.000 árvores."6 A
Tagaste de Agostinho empoleirava-se num planalto na orla dessa nova África.
Era administrada a partir de Cartago, mas havia pertencido ao antigo reino da
Numídia. Nossa imaginação é dominada pela África
de Cartago, a África da costa do Mediterrâneo. Agostinho, entretanto,
cresceu a mais de 300 quilômetros do mar e 610 metros acima dele, separado
do Mediterrâneo por grandes florestas de pinheiros e por vales altos, cobertos
de milharais e olivais. Quando menino, só lhe era possível imaginar
como seria o mar olhando para o interior de um copo d’água.7 Era
um mundo de lavradores. A cidade era um símbolo de civilização;
não era uma unidade distinta da zona rural. Apesar de todo o seu orgulho,
essas pequenas Romas deviam ter populações de apenas alguns milhares
de habitantes, que viviam da terra, exatamente do mesmo modo que os atuais habitantes
de um pueblo espanhol ou de um município do sul da Itália.
Era na terra que se buscavam os prazeres da vida, quando se dispunha de meios
para custeá-los. Nos mosaicos podemos ver as grandes casas de campo dos
romanos africanos: mansões de dois andares, cercadas por campos de pasto
para os cavalos, lagos para criação de peixes e bosques ornamentais
de ciprestes. Seus donos são mostrados, nos mantos esvoaçantes da
época, caçando a cavalo e recebendo homenagens de camponeses subservientes.
Esses homens eram os patroni, os "protetores" de suas comunidades,
tanto na cidade quanto no campo. Quando perambulavam pelo foro com seus grandes
séquitos, convinha ao homem pobre erguer-se e curvar-se numa profunda reverência
a seu senhor.8 A
miséria também fazia parte da terra: a miséria das "costas
recurvadas", da quase inanição, de uma brutalidade semelhante
à da Rússia czarista. Dez anos antes do nascimento de Agostinho,
a Numídia meridional havia assistido a uma revolta de camponeses, matizada,
significativamente, por uma forma combativa de cristianismo. Agostinho, como membro
respeitável de uma cidade romana, foi protegido dessa miséria. Aliás,
como diretor de escola e, mais tarde, na condição de bispo, ele
fazia parte de uma pequeníssima classe de homens que não tinham
contato direto com a terra: podia até dar-se ao luxo de falar com nostalgia
da criação de hortas e de encarar a agricultura como um "exercício
revigorante".9 Preso a sua escrivaninha em anos posteriores, pôde abrigar
apenas lembranças distantes dos longos dias em que havia perambulado pelo
campo, à caça de passarinhos.10 Para
ser membro pleno de uma cidade romana, Agostinho tinha que ser livre e civilizado:
não precisava ser rico. Seu pai, Patrício, era um homem pobre, um
tenuis municeps, cidadão de recursos escassos.11 Agostinho cresceria
num mundo duro e competitivo, em meio a membros orgulhosos e empobrecidos da classe
alta. A educação clássica era um dos únicos passaportes
para o sucesso entre esses homens, e por pouco ele não perdeu até
este. Seu começo de vida seria marcado pelos sacrifícios feitos
por seu pai para lhe dar essa educação vital: Patrício e
sua família andavam malvestidos;12 ele era obrigado a raspar o fundo do
tacho para sobreviver; durante um ano desastroso, Agostinho viu-se condenado a
abandonar os estudos numa agradável "cidade universitária",
Madaura (ou Madauros, a moderna Mdaourouch), e a crescer sem instrução
na primitiva Tagaste.13 Seus primos tiveram menos sorte: continuaram sem instrução
adequada,14 e devem ter enfrentado a pobreza e o tédio de um mundo tacanho,
feito de pequenos proprietários iletrados.
Mas Patrício,
talvez na condição de parente, pôde reivindicar a proteção
de um poderoso do lugar, Romaniano.15 Romaniano costumava ir com freqüência
à Itália para defender sua propriedade na corte imperial. Voltava
a Tagaste para exibir seu poder, oferecendo espetáculos com animais selvagens
e protegendo rapazes como Agostinho. Ganhava discursos e estátuas de seus
concidadãos. E podia esperar títulos e cargos administrativos do
imperador.16 No mundo muito flexível do século IV, a sorte e o talento
podiam eliminar o abismo entre um Patrício e um Romaniano. Em 385, Agostinho
seria professor de retórica em Milão; estaria em condições
de acalentar a perspectiva de desposar uma herdeira rica e obter um cargo de governador
provincial.17 Nessa época, é bem possível que tenha refletido
como outro africano bem-sucedido de sua idade: "Cresci no interior, filho
de pai pobre e sem instrução: com o tempo, graças à
minha busca de educação, passei a levar a vida de um nobre."18 Pois
não era à toa que homens como Patrício e Romaniano pensavam
em si mesmos como "romanos". É sumamente improvável que
Agostinho falasse qualquer língua que não o latim. Entre a cultura
exclusivamente latina em que fora educado com tanto sucesso e qualquer tradição
"nativa" preexistente, estendia-se o incomensurável abismo qualitativo
que separa a civilização de sua ausência. O que não
era romano na África só podia ser concebido por um desses homens
em termos romanos. Agostinho usaria a palavra "púnicos" para
descrever os dialetos nativos que muitos homens do campo deviam falar, em caráter
exclusivo, e que muitos cidadãos urbanos compartilhavam com o latim. Não
que esses homens falassem a língua dos antigos cartagineses. Antes, que
Agostinho, como homem instruído, aplicava instintivamente esse termo tradicional
e indiferenciado a qualquer língua falada no norte da África que
não fosse o latim.19 Todavia,
até o africano plenamente latinizado do século IV continuava um
tanto estrangeiro. A opinião do mundo externo era unânime: a África,
em sua visão, era desperdiçada com os africanos.20 Na
época de sua opulência, nos séculos II e III, a cultura romana
tomara um rumo significativamente diferente. Eles mais nos parecem "barrocos"
do que homens da era clássica.21 O africano de talento, por exemplo, comprazia-se
com o simples jogo de palavras, com trocadilhos, rimas e charadas: como bispo,
Agostinho seria imensamente admirado por sua congregação por ser
esplendidamente capaz de proporcionar uma exibição de fogos de artifício
verbais.22 Um homem assim precisava da controvérsia. Prosperava na justificação
de si mesmo. Almejava impressionar seus companheiros por intermédio de
formulações excêntricas, de símiles vívidos
e exagerados. Aos 70 anos de idade, essa mesma fogueira africana ainda arderia
com vigor em Agostinho: um adversário lhe dera a impressão de admitir
algo por puro embaraço, e ele retrucou: "Ora, parece que sua própria
tinta transformou-se em carmesim!"23 Os mosaicos encomendados por tais homens
eram luminosos, cheios de detalhes minuciosamente observados da vida cotidiana,
um tanto grotescos.24 Homens desse tipo eram capazes de escrever romances: o olho
infalível para o detalhe, para o picaresco, assim como o interesse pelos
alvoroços do coração, fizeram com que os dois únicos
livros de literatura latina que o homem moderno é capaz de situar com facilidade
ao lado da ficção de hoje fossem escritos por africanos — O asno
de ouro, de Apuleio, e... as Confissões de Agostinho. Agostinho
fora levado a chorar aos borbotões ao ouvir a história de Dido e
Enéias, um interlúdio sumamente africano na vida do honrado fundador
de Roma;25 e seria um poeta africano que iria retificar as omissões de
Virgílio, escrevendo as cartas de amor da rainha abandonada.26 Os
grandes escritores africanos, contudo, foram meteoros repentinos. O africano médio
era mais célebre como advogado. Agostinho poderia ter seguido essa carreira:
"é esplêndido dispor da eloqüência que exerce grande
poder, manter os clientes atados a cada palavra do discurso bem formulado de seu
protetor, a lhe fixar na boca as esperanças que alimentam..."27 Como
os litigiosos fidalgos rurais da era elisabetana, o "bom fazendeiro"
da África também precisava ser "versado na lei dos tribunais";28
e, tal como entre os elisabetanos, o legalismo seco e selvagem, a dedicação
apaixonada à manipulação das formas públicas da vida
pela argumentação nos tribunais era um complemento eficiente, na
maioria desses homens, para a fantasia e a sensibilidade da minoria. Exatamente
na mesma época, os líderes da Igreja cristã na África
haviam incorporado esse vigor a suas controvérsias. Uma cultura jurídica,
obstinada e implacável, havia proliferado em seu novo ambiente clerical.
Visto por um bispo italiano que o conhecia bem e era intensamente avesso a sua
teologia, Agostinho era meramente o exemplo mais recente de uma figura conhecidíssima
— o Poenus orator, "o jurista africano".29 Agostinho,
entretanto, decidiu que preferia ser professor. Também nisso os africanos
haviam mostrado seu entusiasmo característico. Adoravam a instrução:
homens simples cobriam seus túmulos de inscrições em versos
precários; o neto de um soldado mouro gabava-se de agora ser "professor
de letras romanas"; outro se denominara "o Cícero" de sua
cidadezinha. Na África, a educação romana significava status
para uma multidão de homens insignificantes. Era uma atmosfera hostil
ao talento verdadeiro. Na Aquitânia e no Alto Egito, os séculos IV
e V foram marcados por súbitas "explosões" de talento
literário.30 Na África, em contraste, a poeira da erudição
depositava-se pesadamente em inúmeros livros didáticos clássicos,
escritos por professores africanos.31 Esses homens eram capazes de pronunciar
"homo" corretamente;32 um deles escreveu um livro sobre "O
casamento de Mercúrio com a filologia"; outro provou sua superioridade
a Agostinho ao censurá-lo por ter escrito "donatista", quando
o homem educado dizia "donaciano".33 De algum modo, a abundância
de energia dos séculos II e III tinha sido interrompida: a África
do século IV tornara-se um remanso de estagnação e riqueza.34 Em
Tagaste, pelo menos, esses filhos de uma pequena aristocracia austera e empobrecida
uniam-se, logo no início da vida, numa busca comum de progresso. Por trás
da biografia singular de Agostinho podemos também vislumbrar essa "biografia
plural" — os destinos de um grupo notável de jovens, decididos a escapar
da inércia de uma cidadezinha africana. Muitos desses amigos costumavam
ficar juntos vida afora; o grupinho de estudantes sérios iria se tornar,
na meia-idade, um impressionante grupo de bispos, que controlavam os destinos
da Igreja católica na África. Dulcissimus concivis, "meu
dulcíssimo concidadão":35 essa expressão, usada por
Agostinho quando bispo, levaria a antiga linguagem da vida pública romana
para o novo mundo da hierarquia católica.
No entanto, na geração
de Agostinho, esses antigos padrões não estavam conseguindo satisfazer
os homens. O rico senhor de terras, o estudante aventureiro e o bispo litigioso
ainda tinham que "zarpar" para a Itália de tempos em tempos:
navigare é um tema constante nos textos de Agostinho.36 Mas suas
ambições não eram satisfeitas com tanta facilidade. Todos
os jovens ambiciosos de Tagaste retornariam, passando o resto de suas vidas num
ambiente totalmente provinciano, como bispos de pequenas cidades africanas. Pois
os imperadores não necessitavam dos serviços desses sulistas. Eles
precisavam guardar uma fronteira setentrional ameaçada. Sua corte mudava-se
com os exércitos entre a Gália, o norte da Itália e as províncias
do Danúbio. Para eles, a África era simplesmente uma fonte confiável
de impostos, o celeiro pesadamente administrado de Roma. Os homens de Tagaste,
Romaniano e seu grupinho de clientes, viriam a se descobrir indesejados: como
os anglo-irlandeses do fim do século XVIII, esses representantes de uma
sociedade altamente civilizada e próspera descobriram-se condenados a ver
seu país mergulhar na condição de mera "colônia",
administrada por estrangeiros do outro lado do oceano.37 Os
tempos haviam mudado. No século IV, o Império Romano enfrentava
as tensões da guerra perpétua.38 Caía presa de bandos de
bárbaros ao norte e era contestado pelo reino bem organizado e militarista
da Pérsia, no Leste. Os imperadores patrulhavam suas fronteiras à
frente de regimentos de cavalaria pesada. Eram aclamados, com um entusiasmo que
aumentava a cada desgraça, como "os Sempre Vitoriosos", "os
Restauradores do Mundo". Os impostos haviam duplicado ou até triplicado
em tempos ainda vivos na memória. Os pobres eram vitimados por uma inflação
insana. Os ricos se defendiam promovendo uma acumulação ímpar
de propriedades. O próprio imperador tornou-se uma figura distante que
inspirava reverência. Seus editos eram redigidos em papel dourado ou púrpura;
eram recebidos com as mãos reverentemente cobertas, "adorados"
e, em geral, contornados. Seus servidores só podiam governar pelo terror.
Um homem dotado de respeito próprio, como Patrício, vindo de uma
classe acostumada a ser líder inconteste de sua localidade, via-se apequenado
pelos grandes nouveaux riches e importunado pelos funcionários imperiais.
E era ameaçado pelo mais ominoso de todos os sintomas numa sociedade civilizada:
um embrutecimento espetacular do código penal. Ele poderia ser açoitado.
Uma ofensa ao imperador ou a seus servidores podia acarretar a destruição
para toda uma comunidade de aldeães respeitáveis: poderia deixá-los
mutilados pela tortura ou reduzidos à condição de mendigos
por multas incapacitantes.39 Todavia,
como muitas vezes acontece, esse mundo à beira da dissolução
acostumara-se a acreditar que duraria para sempre. Os Jeremias do Império
Romano em declínio só viriam a surgir na velhice de Agostinho; e
não há como não nos impressionarmos com o otimismo dos homens
da juventude de Agostinho. As inscrições da África falavam
em "tempos dourados por toda parte",40 no "vigor juvenil do nome
romano".41 Um bispo cristão encararia o cristianismo e a civilização
romana como co-extensivos: como se alguma virtude cristã pudesse existir
entre os bárbaros!42 Um administrador poético pôde escrever
que Roma, "por ter vivido muito, aprendeu a desdenhar da finalidade".43
Roma, com efeito, ainda era o "Império do Meio". É que,
tal como na antiga China, os homens cultos não conheciam nenhum outro Estado
civilizado. O Império Romano ainda era sustentado pela lealdade indubitável
de uma classe que se assemelhava aos "mandarins" da China imperial,
por senadores cultos e por burocratas a cujas fileiras Agostinho tinha a esperança
de se ligar. Mas
foi exatamente nesse aspecto da vida romana que se deu a mudança mais profunda
de todas. Os antigos padrões da vida civilizada romana já não
satisfaziam inteiramente os homens cultos. Eles chegavam até a se vestir
de maneira diferente. A impecável toga romana, por exemplo, ainda aparecia
nas estátuas de autoridades e de grandes homens. Mas os grandes homens,
eles mesmos, usavam um traje tão vistoso quanto qualquer dos usados nas
Mil e uma noites: uma túnica justa que chegava aos joelhos, ricamente
bordada nas barras; meias brilhantes; uma enorme capa, presa no alto do ombro
direito com um broche de origem bárbara, com sua seda ondeante costurada
com fios de ouro e decorada com faixas de cor apropriada à categoria do
portador, ou com figuras, dragões voadores e, no caso dos cristãos
devotos, cenas da Bíblia. Eles tampouco viviam nas casas do passado, construídas
num quadrado perfeito em torno de um pátio, mas em palácios intricados,
que reluziam com incrustações de mármore e mosaicos nas cores
do arco-íris, construídos de dentro para fora, a fim de transmitir,
com suas galerias, seus salões em níveis diferentes, seus tetos
abobadados e uma proliferação de cortinas pesadas, uma nova idéia
de privacidade e de mistério opulento. As expressões dos homens
do baixo Império Romano, em suas estátuas, amiúde deixam
transparecer a mais profunda de todas as mudanças. Esses já não
são retratos realistas: seus olhos erguidos e imóveis e suas feições
alongadas mostram uma preocupação com o outro mundo, com a vida
interior, que teríamos mais facilidade de associar a um santo romanesco. Para
o jovem Agostinho, a vida tradicional seria apenas um verniz. No auge de sua carreira
de professor de retórica clássica, parte dele, pelo menos, daria
ouvidos aos ensinamentos de Mani, um visionário persa. Sua vida seria modificada
pela leitura das obras de Plotino, um filósofo "(que) parecia envergonhar-se
de estar no corpo".44 Um grande senador pagão, Pretextato, falaria
de seus títulos romanos tradicionais como "falidos" e de sua
iniciação mística como "a verdadeira bênção".45 Ambrósio,
enviado a Milão como governador romano, seria ordenado como o bispo católico
da cidade. Outro nobre, Paulino, desapareceria subitamente da vida protegida da
Aquitânia para se tornar monge, deixando intrigado seu amigo e antigo professor,
Ausônio. Esses incidentes foram presságios do futuro de Agostinho;
ele seria um professor tradicional durante onze anos de sua vida, e monge e bispo
pelos 44 restantes. Como escreveu São Jerônimo sobre uma criança
pequena nessa nova era, "Em tal mundo nasceu Pacatula. Os desastres a cercam
enquanto ela brinca. Ela conhecerá o choro antes do riso. (...) Esquece-se
do passado, foge do presente e espera com ansiedade pela vida que virá". |