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Minha Vida uma Farsa, de Peter Carey (tradução de Domingos Demasi; Record; 316 páginas; 34,90 reais) – Nos anos 40, uma revista literária australiana publicou poemas supostamente escritos por um mecânico que havia morrido sem que sua obra genial fosse reconhecida. Mais tarde, revelou-se que o tal mecânico não existia e que os poemas eram uma farsa produzida por outro escritor, que desejava desmoralizar as pretensões vanguardistas do editor da revista. O australiano Peter Carey partiu desse evento real para criar um divertido romance sobre as vaidades e mesquinharias que movem o mundo literário. Carey adicionou um elemento fantástico à história original: o poeta inventado ganha existência material e passa a atormentar o autor da fraude.

Leia trecho

Capítulo 1

Conheci John Slater toda a minha vida. Talvez você se recorde da polêmica pública com Dylan Thomas, ou mesmo tenha um exemplar de seu famoso livro de poemas "obscenos". Se for uma edição americana, vai achar, na orelha, uma fotografia do belo autor de cabelos louros vestido com roupas brancas de críquete. Dewsong foi publicado em 1930. Slater tinha vinte anos na época, quase um prodígio.

Nesse mesmo ano, nasci Sarah Elizabeth Jane, de uma bela e impaciente mãe australiana e de um não menos belo mas bem elegante pai inglês, lorde William Wode-Douglass, conhecido normalmente por Boofy.

A própria ascendência de Slater era um tanto duvidosa, mas minha mãe, uma terrível esnobe, era ruim de ouvido, e sei que ela achava Slater o máximo e portanto lhe permitia excessos que não toleraria de um colegial de Chester, o que ele na verdade era.

Foi Slater quem esculpiu com as próprias mãos o bolo do aniversário de trinta anos de meu pai, quem cavalgou com um cavalo pela cozinha, quem trouxe Unity Mitford para jantar na época em que ela costumava roubar papel timbrado do Palácio de Buckingham e carregava na bolsa um pequeno e repelente furão.

Não posso dizer que entendia o papel dele no casamento dos meus pais, e somente quando minha mãe se matou — de forma horrivelmente espetacular — desconfiei de que havia algo errado. Nos últimos minutos de sua vida, vi John Slater envolvê-la em seus braços e finalmente entendi, ou pensei ter entendido.

Daquele momento em diante, detestei tudo nele: seu ensimesmamento, sua beleza agressiva, porém mais do que tudo aqueles eletrizantes olhos azuis que povoavam minha imaginação como a encarnação da mentira.

Quando minha mãe morreu, o pobre Boofy desabou por completo. Bebia, chorava e urrava, e, depois de cair da escada pela segunda vez, ele me despachou para a St. Mary’s Wantage, em Berkshire, do que não gostei nem um pouco. Fugi, fui levada de volta num furgão dos correios, briguei com a diretora e adotei a perversa estratégia de escrever com a mão esquerda, tornando quase ilegíveis meus trabalhos escolares. Estava tão ocupada em ser uma menina má que ninguém notou que eu também tinha um cérebro. Entretanto, mesmo enquanto tirava notas D em inglês, de algum modo conseguia perceber que os festejados versos de Slater nada mais eram do que alcovas construídas por um macho para conseguir sexo. E esta não era minha única opinião e não relutei em deixar o Grande Homem saber exatamente o que eu pensava. Em algum lugar de seus papéis ainda deve haver a prova de minha cuidadosa leitura de "Leste Oriental", com correções impertinentes, dúvidas sobre seus pesados versos quebrados, tudo aquilo que eu maliciosamente esperava que "lhe pudesse ser útil".

Fui, em suma, um terror precoce, e você não ficará nada surpreso com o fato de John Slater e eu não termos nos tornado amigos. Mas, como Londres é Londres, continuei topando com ele através dos anos e, enquanto ele continuou escrevendo poesia e eu acabei como editora da Modern Review, conhecíamos muitas pessoas em comum e tivemos motivo para sentar mais de uma vez à mesma mesa.

O tempo não tornou mais fácil a aproximação. Aliás, à medida que eu ficava mais velha, sua presença física tornava-se cada vez mais perturbadora. Não direi que era obcecada por ele, mas não podia estar no mesmo aposento sem olhá-lo continuamente; ao mesmo tempo, era atraída e repelida por ele. Era um narcisista pavorosamente injustificável e tão cheio de opiniões iconoclastas e entusiasmos territorialistas que não havia um jantar, sempre lotado com os Grandes e os Bons, em que alguém pudesse escapar de sua crescente presença bárdica. Claro que não conseguia olhar para ele sem pensar na minha pobre e infeliz mãe.

Apesar do fato de termos sido tão intimamente ligados, demorou um total de trinta anos para nós nos falarmos com algo mais do que a cortesia superficial. Ele tinha então 62 anos e, embora fosse mais conhecido por seus romances — o Amersham Satyricon fora um enorme best-seller —, continuava sendo comumente chamado de "o poeta John Slater". O que era exatamente como parecia: um tanto selvagem e a pele queimada pelo vento, como se tivesse acabado de retornar de uma caminhada pelos pântanos ou seguido o caminho de Basho até Ogaki.

Slater parece ter cultivado fortemente o lado social da literatura, e era raro um poeta ou romancista inglês a quem ele não pudesse chamar de seu amigo, ou a quem não tivesse, em algum momento, feito um favor. O grupo da Faber ele cultivava particularmente, e foi num jantar da Faber, na residência de Charles Monteith, que finalmente viemos a falar um com o outro. Salvo nossa conversa, não me lembro de muita coisa da noite, exceto que Robert Lowell — o convidado de honra — inadvertidamente revelara que não sabia quem era Slater. Foi por isso, pode-se supor, que Slater resolveu virar-se e falar comigo de modo tão insistente, chamando-me de "Micks", um apelido de minha família e de todo aquele tempo perdido em Allenhurst em High Wycombe.

O que ele tinha a dizer não era nem um pouco pessoal, mas seu uso do apelido já me comovera, e sua voz, talvez em conseqüência do pouco-caso por sua vida manifestado pelo famoso autor americano, adotou um tom saudoso, elegíaco, que achei inesperadamente tocante. Pela primeira vez em anos, olhei-o atentamente: o rosto era balofo, sua cor, incomum, um pouco cinzenta. Quando começou a falar sobre visitar novamente a Malásia, um país onde grande parte de Dewsong e seus sucessores tiveram suas raízes, foi difícil não imaginar que ele poderia estar pondo em ordem sua vida.

Venha comigo, disse ele subitamente.

Dei uma gargalhada penetrante. Ele segurou minha mão e me encarou com aqueles malditos olhos e, é claro, ele era um tão Famoso Sedutor que desviei o olhar, constrangida.

Nós devíamos ir, disse ele. Você não acha?

Era impossível adivinhar o que ele queria dizer com "nós" e "devíamos".

Nós devíamos conversar, insistiu. É muito ruim que nunca tenhamos.

Essa repentina intimidade foi tão desconcertante quanto era de se esperar.

Não tenho dinheiro, falei.

Eu tenho rios.

Olhou-me atentamente enquanto eu servia mais vinho.

Você tem um namorado, insinuou ele.

Eu tenho uma gata muito ciumenta.

Adoro gatos, disse ele. Eu conversarei com ela.

De repente seu táxi chegou e ele teve de ir a uma festa muito glamourosa, onde esperava encontrar John Lennon. Quando ele se levantou, houve uma grita geral de despedidas e percebi que nossa conversa não fora nenhum momento especial — apenas um disfarce para o constrangimento que sofrera nas mãos de Robert Lowell.

Mas ele telefonou para minha casa, em Old Church Street, às oito horas da manhã seguinte e deixou rapidamente claro que a tal viagem não era de todo impulsiva. Já havia conseguido que o consulado britânico pagasse uma passagem, e as duas mil palavras do Nova financiariam a outra. Teria prazer em cobrir todas as minhas despesas.

Meu pai havia morrido apenas um ano antes em circunstâncias nada felizes — minha rabujice me afastara dele — e eu não era nem um pouco imbecil para achar que John Slater estava oferecendo essa viagem como uma oportunidade para conversarmos, para eu entender um pouco melhor a minha própria família infeliz. Claro que ele nunca disse isso, e mesmo agora, tantos anos depois, não consigo ter certeza de qual era sua intenção no início. Certamente não era sexo, que isso fique logo claro. Era notório que eu não tinha nenhum interesse nele.

John, eu disse, sou uma péssima turista. Não tenho intenção de me arrastar pela maldita selva com binóculos. Sou uma editora. É tudo o que eu faço. Eu leio. Não tenho nenhuma outra vida.

Você adora comer, disse ele. Vi como você devorou aquele curry.

Bem, era um excelente curry.

Então Kuala Lumpur será um paraíso para você. Querida, conheço K.L. tanto tempo quanto conheço você.

Claro que ele não me "conhecia" tanto assim.

Qual é a pior coisa que pode acontecer? Eu dar em cima de você? Micks, pelo amor de Deus... é apenas a droga de uma semana de sua vida. Depois, vamos todos apodrecer debaixo da terra mesmo. Por favor, venha.

Foi o que decidiu — o apodrecer. Depois do almoço, assaltei o nosso cofre e peguei o resto do dinheiro miúdo da revista. Na King’s Road, comprei quarenta e cinco libras em cheques de viagem, um par de sandálias e um vestido de verão. Assim preparada, penetrei naquele labirinto do qual, treze anos depois, ainda tento escapar.

Naquela época, era uma viagem de trinta horas de Londres para Kuala Lumpur, mas sofremos um longo atraso em Teerã, devido a um nevoeiro em Dubai, e depois uma espera interminável em Cingapura. Você acharia que 42 horas seriam uma oportunidade suficiente para nós dois iniciarmos nossa conversa, mas, aparentemente, Slater gostava de dormir em aviões, e estava tão dopado com fenobarbital e uísque que, quando pousamos em Cingapura, a comissária de bordo pensou que ele estivesse morto.

Ele passou pela imigração da Malásia em cadeira de rodas e, assim, a minha primeiríssima lembrança de Kuala Lumpur envolve as dificuldades de transportar um homem grandalhão e carnudo até um táxi e de lá para o extraordinariamente kitsch salão do hotel Merlin, e ali sua fama o precedeu, graças a Deus.

Além da horrível decoração dourada e xadrez do hotel, minhas únicas impressões daquela capital estrangeira foram o calor e os cheiros de esgoto, aromas florais, fruta podre e um mofo generalizado que penetrava na minha pele e permeava meu enorme quarto de solteiro onde alguém escrevera "Foda-se Benzinho" com lápis cinza ao lado do vaso sanitário.

No dia seguinte, Slater não atendeu o telefone e fiquei preocupada de que ele realmente pudesse ter morrido. Então, arriscando, verifiquei com a recepção e descobri que sua bagagem havia deixado o hotel. Nenhum recado. Simplesmente se fora.

Imediatamente senti-me como alguém que fora ardorosamente seduzida, comida e abandonada. Já não é uma sensação agradável na melhor das hipóteses e toda a minha velha animosidade contra Slater voltou repentinamente. Estava furiosa demais para ler e agitada demais para dormir, e foi por isso que acabei indo dar uma olhada nos bazares indianos da Batu Road. Gosto de comprar tecidos, mas nada ali me agradou. O batique era um tanto vagabundo e oportunista, nem de perto tão refinado quanto os tecidos indonésios, mas, mesmo assim, comprei um corte, como fazem os turistas. Da Batu Road, continuei vendo vitrines, sem gostar de nada, até me encontrar numa ruidosa rua de lojas chinesas com o improvável nome de Jalan Campbell. Também não gostei muito, embora os prédios oferecessem uma extensa colunata e eu estivesse grata pela sombra, mas não pelas interrupções oferecidas pelos lojistas que carregavam suas cadeiras, martelos e baldes de plástico para a via pública.

Foi ali, observando um tanto irritada o interior de uma lojinha, que vi na escuridão — em meio a um emaranhado de bicicletas, ao lado de uma chinesa que jogava com uma concha brilhantes peixinhos vermelhos em sacos plásticos — um homem branco de meia-idade vestido com um sarongue imundo. Tinha sobrancelhas assimétricas e o cabelo cortado bem curto, o que me fez pensar tanto num prisioneiro como num monge. Entretanto, o que me impressionou particularmente foram as inflamadas chagas vermelhas em suas pernas vigorosas. Estava sentado em uma cadeira de plástico quebrada e olhando para a rua, e não demonstrou, quando o encarei, o menor sinal daquilo que eu só posso chamar de vínculo racial.

Por um breve instante fiquei imaginando como ele teria chegado àquele lugar onde suas feridas não estavam sendo tratadas, mas na verdade eu estava com muito calor e suando, contrariada por aqueles odores de pasta de peixe e mal-humorada demais para ficar imaginando qualquer coisa por muito tempo. Atravessei o enlameado rio Klang e logo estava de volta ao bolorento Merlin com ar-condicionado, outra vez tentando enfrentar a obra de poetas ingleses adequadamente talentosos. Ainda estava nisso às oito horas daquela noite, quando Slater finalmente telefonou.

Micks, berrou. Não é uma cidade maravilhosa?

Como poderia dizer-lhe que esperei o dia todo para vê-lo? Ele me fez sentir patética, infantil.

O que você fez? Conte-me tudo.

Caminhei um pouco, admiti.

Ótimo, ótimo, formidável. Querida, disse ele, eu esperava que a gente pudesse jantar na terça-feira, mas estou meio enrolado aqui. Pode me reservar um espaço na sua agenda para quarta-feira?

John, hoje é segunda-feira.

Sim. Sabe, estou em Kuala Kangsar. Aliás, acabei de chegar. É um povoado afastado, como se diz.

Kuala o quê?

Você sabia que eu iria a Kuala Kangsar.

Ele nada tinha dito sobre tal lugar. Eu sabia disso. Era a primeira vez que eu ouvia aquelas palavras serem pronunciadas, e estava certa na ocasião — e tenho certeza agora — de que, como sempre, ele fora atrás de alguma oportunidade, e nada relacionado à mente. Temeridade e hedonismo haviam alimentado o motor de seu gênio primitivo, mas isso também, no final das contas, havia traído sua promessa. Se ele tivesse escrito mais e se prostituído e bajulado um pouquinho menos, talvez Lowell soubesse exatamente quem ele era.

Bem, disse ele, estarei certamente de volta para o jantar da quarta-feira. Aproveite K.L. Invejo você por estar descobrindo-a.

E foi assim. Nenhuma justificativa. Nenhuma preocupação pelo meu bem-estar. Ao desligar o telefone, entendi finalmente a pobre Lizzie Slater, a segunda mulher, a tal que acabou no St. Bart com intoxicação alcoólica.

O problema, disse-me a pobre, linda e arrasada Lizzie, o problema do meu querido e velho Johnno, meu bem, é que ele faz exatamente a merda que bem entende.

Não sou uma boa turista, como já disse, mas naquela segunda noite estava chateada demais para permanecer no meu cômico hotel. Forcei-me a comer satay em uma rua de feira no chamado Kampong Baru, um bairro malaio a cinco minutos de caminhada do Merlin.

No dia seguinte, outra vez, saí irritada para dar uma olhada nas Batu Caves, na estação de ferro mourisca, nas fedorentas feiras chinesas de animais vivos. Os odores eram o aspecto mais desafiador do meu turismo, não apenas as feiras de animais vivos, mas também a estranha mistura de fumaça e temperos e esgoto e descargas de motos e todo o doce aroma bolorento daquele mato tropical de folhas largas. Eu preferia caminhar pela ruas bem cedo no frescor da manhã enquanto os guardas de banco sikh comiam na rua doces barfi e bebiam seu adorado leite de vaca. As árvores tropicais eram adoráveis, todo o Jalan Treacher carregado de folhas verdes e flores amarelas. Só que a cena de um menino cortando uma bananeira com uma faca lembrou-me de que, menos de três anos antes, os habitantes de sorriso meigo de Kampong Baru haviam massacrado seus vizinhos chineses. Sangue correra por aquelas valas profundas ao lado das quais eu agora caminhava.

Eu perambulava à vontade sem ser incomodada. Estávamos em 1972 afinal de contas, e era preciso que alguém viajasse para a costa leste para encontrar pessoas facilmente acostumadas com o comprimento de um vestido ou a nudez dos ombros de alguém. Além do mais, o passado colonial inglês continuava praticamente presente e alguém podia ir da Batu Road para o Coliseum e encontrar, em cada uma das mesas com toalhas brancas, um vidro de molho inglês. Isso tudo era muito interessante, mas o que dissera a Slater era verdade: eu era uma editora e a Modern Review era a minha vida. Aliás, eu preferia ficar no meu quarto de hotel e ler, não apenas as poesias enviadas para a revista, mas também O paraíso perdido, que sempre me lembrava, apesar do sr. Leavis, os rumos que a minha vida tomava. À tarde prestei novamente um serviço ao mundo redigindo longas cartas aos meus três mais importantes membros do conselho: Lorde Antrim, Wystan Auden e a fabulosa sra. McKay, uma divorciada de um industrial de Manchester cuja generosidade salvara mais de uma vez a revista. Em cada carta, mencionei a nossa vultosa dívida para com a gráfica, mas não esperava realmente que dali saísse alguma coisa. Muitas vezes antes eles enfrentaram as emergências e foram, eu desconfiava, esgotados por uma revista que talvez nunca tenha sido o que todos esperávamos.

Slater apareceu na quinta-feira, inesperadamente caminhando passo a passo a meu lado, enquanto eu atravessava a ponte em direção à Jalan Campbell, onde antecipava a companhia de ébrios agricultores de cara vermelha, os quais eu esperava que fossem dizer coisas estúpidas e intimidadoras.

Ele usava um short e botas pesadas, e continuava tão radiante e impenitente que comecei a me perguntar se havia esquecido de nossa conversa no jantar da Faber, e se imaginava que eu realmente adoraria explorar sozinha uma escaldante cidade asiática.

Micks, disse ele, tenho algo para lhe dizer.

Ah, pensei — e fiquei decepcionada quando ele começou, não um pedido de desculpas, mas um relato bastante detalhado de sua caminhada pela selva com um poeta chinês anglófilo. Enquanto ouvia, imaginava por que um homem usaria short na mata onde sua pele desprotegida poderia ficar seriamente arranhada. Seria para exibir as pernas?

Viu aquilo?, perguntou subitamente. Não? Era Die Sonette an Orpheus, na edição de 1923 da Insel-Verlag. Deve valer cem libras.

Está à venda?

Não seja ridícula. Não naquela horrenda loja ali atrás. Venha. Precisa ver.

Eu não queria de modo algum ser controlada por John Slater, mas ele estava com sua grande pata no meu braço e não tive escolha a não ser dar uma olhada na mesma oficina de consertos de bicicletas que atraíra minha atenção na segunda-feira. O mesmo homem branco com úlceras nas pernas estava sentado na cadeira de plástico quebrada e estava realmente lendo, à luz de uma lâmpada, Sonetos a Orfeu.

Veja, disse Slater.

Ao ouvir isso, o homem branco ergueu os olhos ternos e, depois de examinar Slater por um instante, levantou lentamente o braço num cumprimento.

Meu Deus, exclamou Slater.

Sua mão ainda fechada em volta do meu braço, ele impeliu-me violentamente de volta à rua.

Você o conhece?

Olhou-me com seu enorme queixo agitando-se como se estivesse mastigando algo desagradável. Se o conheço?, falou indignado. Claro que não.

E é aí onde a história começa realmente, pois ficou evidente para mim que ele estava mentindo.


 
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