Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Mentira, de Enrique de Hériz (tradução de Antonio Borges; Relume Dumará; 408 páginas; 49,90 reais) – Isabel, uma antropóloga espanhola, é dada como morta quando fazia uma pesquisa entre povos primitivos na Guatemala. A família chega até a transladar suas cinzas para a Espanha. O problema é que são as cinzas erradas: Isabel continua viva e decide não voltar para casa. A partir dessa mentira inicial, o enredo se desenrola em uma série de outros enganos que envolvem três gerações da família de Isabel. O escritor catalão Enrique de Hériz aproveita o drama de sua personagem para especular, com muita ironia, sobre quanto há de mentira na biografia de qualquer pessoa.

Leia trecho

Quando o ritual acabou, a noite já ia bem adiantada. Deitei-me na choça que eles tinham tido a gentileza de erguer para mim, convicta de que não conseguiria dormir. Estava esgotada, claro, mas também muito excitada. As imagens que tinha

acabado de ver se atropelavam em minha mente, em meio às hipóteses aventadas para explicar aquilo, as dúvidas, a revisão insensata de minhas próprias reações. No entanto, acabei dormindo como um anjinho. Como se o excesso de tensão tivesse levado meu sistema nervoso ao colapso. No dia seguinte, uma surpresa maiúscula me esperava, mais significativa até, e mais importante para mim, do que os acontecimentos da noite anterior. Acordei com a primeira claridade, como sempre, por puro efeito da luz, e quando saí da cabana me senti como se alguém tivesse aproveitado a profundidade de meu sono para me transferir para uma aldeia desconhecida.

Não reconhecia nenhuma das cabanas contíguas à minha. E, se alguma me parecia familiar, era apenas vagamente, porque sua entrada estava num lugar diferente dohabitual. Caminhei pela aldeia sem entender nem mesmo porque a própria rua tinha sido modificada, como se durante a madrugada alguém tivesse desenhado de novo, por lugares diferentes, os caminhos de terra que iam de uma cabana a outra.

A cabana que até a noite anterior tinha sido ocupada pelo morto e por sua família já não existia. Perguntei. Evitei incomodar os familiares, mas perguntei a quem pude. Eles que confirmaram que esse era o costume. Depois do rito funerário, os familiares se deitavam e alguns homens jovens, escolhidos pelo conselho de anciãos,ficavam encarregados de mudar completamente a aparência da aldeia. Quis saber o motivo e eles me deram dois diferentes, igualmente válidos para quem conheça alguma coisa de antropologia. Uma: se o espírito do morto não encontrasse o caminho do rio, onde o grande Towira o esperava, e em sua perturbação decidisse retornar à aldeia, não poderia reconhecê-la. A outra: quando acordassem, os familiares encontrariam a aldeia tão mudada que não teriam em cada canto, em cada cabana, uma lembrança de sua dor. Nem mesmo o lugar onde tinham assado e comido o cadáver era reconhecível. Até as cinzas tinham desaparecido. Absolutamente todos os pertences privados do morto tinham sido lançados ao fogo. Naquela mesma tarde, deramme um facão dele com o pedido de que o levasse comigo quando partisse da aldeia,porque sabiam que o metal não desaparecia quando se queimava. Incendeiam até a colheita plantada pelo morto, por mais necessária que seja para a comunidade.

Hoje em dia, de acordo com o que pude ler em documentos recentes, embora já não lhes permitam comer seus mortos, quando morre uma criança a família pede ao professor que lhes devolva seus trabalhos escolares para queimá-los.

Acho, e escrevi isso a seu tempo, que os uaris compreenderam os mecanismos da memória e do conhecimento melhor do que qualquer outra tribo. Em chacapura, o verbo kerek significa ao mesmo tempo "ver" e "conhecer". Eles sabem que a única maneira de anular a lembrança dos mortos é modificar o rastro da vida.

Para esquecer, são capazes de se reinventarem. Contra o caos da morte, nós nos esforçamos para restabelecer a ordem; eles inventam uma nova, que se diferencia justamente por ser oposta à anterior. Nós reconstruímos o edifício da vida; eles deixam que ele desmorone e depois constroem outro diferente.Nós dizemos que a vida continua; eles a recriam. Nós concebemos a memória como uma homenagem; eles conhecem tão bem os perigos da memória que preferem homenagear com o esquecimento. Encontraram a fórmula do esquecimento ativo, que não se define por deixar de pensar em alguma coisa velha, mas por inventar alguma cosia nova. Só quando a morte visita de novo a aldeia, eles aceitam que a lembrança de seus mortos invada a vida por alguns dias. Podem permitir isso: sabem que quando o último sopro de vento espalhar as cinza novamente tudo voltará a começar. Com isso, prestam um enorme serviço a si mesmos. Mas não sei se têm consciência do efeito final de seus costumes.

Daquilo que me parece o mais importante: os uaris podem viver com a certeza de

que, com sua morte, nada continuará igual. Sabem que sua presença no mundo é

tão importante que, quando desaparecerem, nada mais será o mesmo. Não conheço maior homenagem à vida do que essa. Por isso agora penso neles com inveja. Por isso, ao saber que minha ausência não mudará nada, sinto-me minúscula a seu lado, Isso não é novidade. Já me ocorreu quando os conheci.

A descoberta de sua inteligência, de seu enorme poder de compaixão, veio acompanhada da consciência de minha própria estupidez. Certamente, durante aquelas semanas quase tinha me esquecido de meus seringueiros, de São Paulo, de Barcelona até e de Malespina. De mim mesma. Passei os cinco dias seguintes recolhendo informações, possuída por minha própria descoberta. Soube que, durante muito tempo, os familiares do morto deixam de pronunciar seu nome ou o laço que os unia a eles.

Se não são capazes de evitar falar dele, diluem na coletividade o nexo que os unia: já não dirão nunca mais "meu pai", mas "nosso pai". Soube que, uma vez integrado ao mundo subaquático do grande Towira, o morto só pode voltar em forma de espírito benfeitor, encarnado em algum animal que os habitantes da aldeia se disporão a caçar e comer com a certeza de que o espírito retorna automaticamente ao rio.

Enchi cadernos e cadernos com anotações. Esgotei as pilhas de meu gravador e as fitas virgens. Tirei fotos até do último recanto.

No último dia tomei conhecimento de que os familiares tinham ido à floresta localizar o ponto onde o morto costumava ficar para caçar: queriam capiná-lo e

queimar o chão. Como ficava apenas a uns cem metros da aldeia, decidi ir sozinha ver isso. Enquanto tirava fotos, alguma coisa passou a toda velocidade junto à minha cabeça e foi se cravar no tronco de uma árvore próxima. Abaixei-me. Foi um gesto instintivo, mas salvou minha vida. Uma segunda flecha cruzou imediatamente o espaço que meu corpo ocupava apenas um instante antes. Não precisei ver meus atacantes nem perguntar nada a ninguém para entender o que estava acontecendo.

Os uaris usavam flechas de bambu para caçar. Aquelas não eram de bambu, mas de madeira maciça, com ponta de metal. Os seringueiros. Não precisava ser muito

inteligente para compreender que tentavam se livrar de mim como quem se livra de uma ferramenta de já não tem necessidade. Culpa minha: eu os tinha levado até os uaris.

Voltei correndo e sem fôlego à aldeia. Não sinto vontade de relembrar isso.

Ainda não sei se errei. Às vezes acho que sim e lamento, mas tinha que tomar

decisões. Já tinha cometido o erro mais grave: fornecer aos seringueiros o rastro dos uaris e sua presença naquela região. Pensei que se permanecesse com eles podia em risco uma coisa mais valiosa do que sua segurança: sua vida. Conhecia bem a crueldade dos seringueiros. Sabia de sobra que a suposta boa intenção do SPI era apenas uma fachada para favorecer os interesses dos comerciantes. Era óbvio que tinham podido ver as cenas de canibalismo que eu mesma tinha presenciado dias antes. Estava claro que não iriam interpretá-las como eu. Tinha certeza de que, àquela altura, o relato das práticas desumanas e selvagens já tinha chegado aos ouvidos das devidas autoridades em São Paulo e estas tinham se encarregado de divulgá-lo devidamente enfeitado.Se, ainda por cima, eu permitisse que me matassem na aldeia, eu lhes daria a desculpa perfeita, pois sem dúvida atribuiriam minha morte à perspicácia dos índios. Eu tinha que deixar os uaris. Passei o resto daquele dia fechada em minha cabana e saí da aldeia na manhã seguinte, não sem antes explicar o ocorrido às mulheres com quem eu tinha estabelecido uma relação mais próxima durante minha estada entre elas. Recusei a oferta de um grupo de homens que queria me acompanhar até as margens do Lage. Parti sozinha. Cheguei ao rio naquela mesma tarde. O acampamento continuava ali e aqueles cinco filhos da mãe me receberam com grandes demonstrações de alegria, como se eu tivesse ressuscitado. Sua interpretação não foi muito convincente, embora tenham até fingido acreditar em mim quando lhes contei que tinha me perdido. Reconheço que estava morta de medo. Naquela noite, vivi com eles um terror que jamais havia sentido entre os habitantes das tribos supostamente mais hostis do mundo inteiro. O que me dava mais medo era seus sorrisos cínicos, aquelas gargalhadas venenosas em cujos molares brilhava o ouro de sua cobiça. Naquela noite, dormimos no acampamento

e percebi que não iam fazer nada comigo. Deduzi que, depois de ter deixado a aldeia dos uaris, já não tinham interesse em me matar. Pelo contrário, convinhalhes evitar o possível escândalo e me deixar sã e salva em São Paulo para terem certeza de meu retorno à Espanha. Estava enganada. Provavelmente alguém tinha decidido que convinha adiar só um pouco a minha morte. Fazer com que parecesse um acidente. Cheguei a São Paulo e cumpri com minha obrigação: informei o SPI sobre minha descoberta porque já não fazia sentido esconder, mas procurei ser o mais vaga possível a respeito de sua localização. Expliquei por escrito o novo signi-ficado de seus ritos a partir de minha experiência pessoal. Recomendei muito encarecidamente que se evitasse o contato oficial com eles eles, se isso não fosse possível, que se respeitassem seus costumes. Procurei esclarecer a enorme importância da preservação desses costumes para a ciência em todo o mundo. Concordaram com tudo.

Fui dormir no hotel e algumas horas depois acordei com uma angustiante sensação de sufocamento. Vi as chamas e achei que estava sonhando com os uaris. Por sorte, demorei pouco para compreender que estava bem acordada. Atordoada, mas acordada.

A fumaça enchia completamente o quarto e era tão espessa que assumia formas

sólidas. Consegui sair. Alguém tinha encharcado de combustível algumas toalhas

e ateado fogo nelas dentro do quarto. Havia mais fumaça do que fogo. No dia

seguinte retornei a Barcelona. Publiquei o relatório do acontecido como se costuma fazer nesses casos – quer dizer, com a sensação de estar submetida a uma chantagem cujas conseqüência não seriam pagas por mim, mas pelos uaris. Ou seja, justamente aqueles a quem eu pretendia proteger. Evitei mencionar lugares muito concretos.

Falei de vínculos governamentais, mas não dei nomes. Fiz todo o possível para

reparar meu erro.

Durante cinco anos recebei pelo correio todo tipo de ameaça: cartas vulgares e

desprezíveis, pacotes com restos de ossos. Já não importa. Enfim, claro que importa,mas já não há nada que eu possa fazer. De acordo com o último censo, que data de 1991, restam 1930 uaris em toda a Amazônia. O SPI já não existe há anos. Agora a FUNAI se encarrega dos índios, com melhores intenções, mas submetida a pressões especulativas semelhantes, e às mesmas carências. Os uaris já não comem seus mortos.

Isso, sim, importa. Já não resta nenhum lugar no mundo onde morrer não dê na

mesma, em que quando alguém desaparece a vida lhe preste a homenagem de um novo começo. Restam apenas lugares como este ao qual estou me dirigindo, lugares aos quais nós mortos retornamos para comprovar que nada mudou, que tudo continua igual depois de nossa morte. Já estou quase chegando.

 


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio