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O Urso Azul, de Lynn Schooler (tradução de Marcos Santarrita; Objetiva; 302 páginas; 39,90 reais) – Nos anos 90, o fotógrafo japonês Michio Hoshino, reconhecido mundialmente por seus trabalhos em revistas como a National Geographic, fez uma expedição ao Alasca com o objetivo de documentar a vida de uma espécie rara: o urso azul. Teve uma morte trágica nas garras justamente de um urso (não da espécie que procurava). O episódio é a peça central desse livro, escrito pelo guia e também fotógrafo Lynn Schooler, que era seu amigo e o acompanhou na viagem. Schooler fornece visões impressionantes sobre a gélida natureza daquele Estado americano.Trata-se de uma obra de aventura de primeira.

Leia trechos do livro

1. Ruptura

Eu nasci em 1954, na borda do Llano Estacado, no oeste do Texas, um deserto tão vasto e desprovido de pontos de referência que os primeiros exploradores espanhóis cravaram uma linha de estacas de um lado a outro daquela terra para não perder o caminho. Os imigrantes alemães, holandeses e russos que se espalharam pelo oeste do Texas na virada do século, pondo arame farpado e espetando moinhos de vento numa tentativa de submeter a terra cozida pelo sol. Eram em geral uma gente teimosa, avessa a deixar qualquer coisa pela metade. Mas quando meu pai era jovem as coisas já iam mudando, e ele se tornou o primeiro de nossa linhagem a deixar o lar ancestral - uma fazendinha pedregosa aninhada nas montanhas cobertas de algaroba perto de Robert Lee, Texas, onde seu pai e avô haviam sido repetidas vezes vencidos por secas e compradores de gado zuretas. Quando eu nasci, ele pegou a estrada como caixeiro-viajante dos tempos modernos, dirigindo um Fury Plymouth azul milhares de quilômetros por semana, de um lado a outro do Texas; e do Novo México, para vender equipamentos elétricos e ferramentas decadentes às indústrias de petróleo e construção.
Uma tarde em 1969 (eu tinha 15 anos), o Plymouth de papai entrou no pátio esturricado numa pungente nuvem de poeira de álcali. A porta do motorista se abriu enquanto o carro parava derrapando e uma bota pisou no chão. Meu pai endireitou o magro corpo no assento, passou o braço pelo volante e ficou ali sentado, olhando-me por um instante antes de me chamar com um aceno.
- Veja isso - disse, desdobrando um jornal diante do meu rosto. - O que você acha?
Passou a mão pelos cabelos que rareavam, enquanto eu examinava o jornal.
- Bem, o que acha? - Ele sorria. - Descobriram petróleo no Alasca. Montes e montes de petróleo.
Eu não sabia ao certo onde ficava o Alasca, mas era muito longe, disso eu sabia. Muito mais longe que El Paso ou mesmo o Colorado, onde meu amigo Jimmy ia caçar alces com o pai dele. Jimmy ficava uma semana fora quando ia para o Colorado. Se havia petróleo no Alasca, isso na certa significava que papai ficaria fora muito mais tempo.
- Você vai ficar mais tempo fora?
Papai bateu com o jornal em meu ombro, uma pequena teia de rugas franzindo-lhe os cantos dos olhos.
- Bem, acho que é possível - ele disse, dirigindo-se para a casa. Parecia ter pressa, nem sequer fechou a porta do carro. Eu sentia no seu interior o cheiro dos cigarros Carmel que ele fumara.
- Você vai? - gritei às suas costas. - Ficar fora muito mais?
- Não se preocupe, filho. - Já estava na porta da garagem, e desapareceu na fria escuridão, tomando o atalho para a cozinha. Você vem comigo.
Eu entrecerrei os olhos contra o clarão do sol quando olhei nossa terra em volta - pouco mais de meio hectare de compacta terra do Texas, com uma casa pré-moldada bem no meio; uma refinaria de petróleo a 800m de distância, que queimava tanto gás à noite que a chama tornava possível ler sem acender uma lâmpada; o horizonte plano de moitas de algaroba e terra dura, as pás de um moinho ao longe. Quando falei, foi comigo mesmo e alto.
- Por mim, tudo bem.
Qualquer lugar, pensava, provavelmente seria melhor que aquele.

Papai barganhou e engabelou, comprou de um perfurador independente um caminhão Chevrolet próprio para campo de petróleo, de terceira mão e duas toneladas, e ocupou-se em transformá-lo num improvisado caminhão de mudança. Tanques do tamanho de barris pendiam dos dois lados da boléia.
- O combustível é caro, especialmente no Canadá - disse papai, desatarraxando a tampa que cobria a boca de um dos tanques e olhando sua vazia escuridão. - Estes aqui vão nos dar multa autonomia. É uma estrada longa até o Alasca.
Um guindaste giratório, que o proprietário anterior fizera com canos de aço soldados e montara na carroceria para erguer máquinas de soldar, brocas e outros objetos pesados, desabou no chão quando os pinos foram soltos a marteladas. Um esqueleto de pranchas de madeira se ergueu em seu lugar para apoiar uma cobertura de alumínio em forma de caixa, e papai me mostrou como cortar e enfiar folhas de espuma de plástico entre as tábuas, como isolamento.
- Talvez a gente tenha de morar aqui - disse, e imaginei se não estaria brincando. Partir para o Alasca era uma idéia tão louca que morar na traseira de um caminhão talvez não parecesse tão exagerado.
Minha mãe observava de braços cruzados, balançando a cabeça e sorrindo, e depois voltou a embalar as coisas. Sua melhor amiga trouxe uma lata de manteiga de amendoim do tamanho de um balde, e a mãe de Jimmy telefonou para perguntar aonde íamos arranjar verduras quando estivéssemos morando no Alasca. Meus pais passaram os braços em torno um do outro e riram, mas mamãe franzia a boca quando achava que ninguém estava vendo.
Tudo o que possuíamos foi enfiado, empacotado e socado atrás do grande caminhão, e a porta fechada a ferrolho. Meus olhos se ofuscavam e dançavam com o clarão azul do soldador que um amigo de meu pai usou para fazer uma barra de reboque na frente de nossa velha caminhonete Ford. Com a caminhonete rebocada atrás do caminhão de mudança, papai dirigia com cuidado, usando meia embreagem nas longas e lentas elevações, e eu ia sentado ao seu lado, absorto numa pilha de revistas para me poupar do incessante tédio das planícies. Minha mãe e duas irmãs vinham devagar no carro da família atrás, tocando (Sittin'on) The Dock of the Bay, de Otis Redding (a única música com que concordavam), repetidas vezes no toca-fitas quando demos adeus ao oeste do Texas.
Ao passar entre as montanhas do Colorado, nossa lenta caravana voltou-se para a Estrela do Norte sob os vastos céus de Montaria e atravessou aos arrancos a fronteira do Canadá.
Três semanas após deixarmos o Texas, chegamos ao fim do asfalto e entramos na rodovia Alcan, 1.600km de acidentada estrada de cascalho, que serpeava por entre as intermináveis florestas de bétulas e espruces enfezados do Yucon, até alcançar a fronteira do Alasca. Pelas finas paredes de compensado das hospedarias de beira de estrada onde passávamos a noite, eu ouvia o murmúrio de meu pai respondendo às perguntas que minha mãe fazia em voz cada vez mais alta. A tensão de deixar tudo o que possuíamos roía, introduzindo-se na viagem, com dentes tão afiados quanto o crescente frio no ar.
Era janeiro, e jamais imagináramos tamanho frio. A branca geada grudava-se brilhante em toda a superfície, e o vapor de minha respiração pairava imóvel no ar. A temperatura despencara para 57 graus negativos, e de manhã meu pai precisava aplicar um maçarico nas engrenagens e eixos da caminhonete para que pudéssemos seguir caminho. Quanto mais longe íamos, mais fundas se tornavam as rugas em sua testa.
Após 30 dias de viagem, entramos no Alasca. A linha divisória entre os Estados Unidos e o Canadá era delineada por uma larga faixa desmatada nas densas árvores dos dois lados da estrada, e uma fila de tocos marchava pela distância bordejada de gelo, subindo pela floresta adentro até desaparecer. Alguns quilômetros após a fronteira, papai meteu o pé no freio quando um lobo surgiu em pleno galope dos salgueiros que margeavam a estrada. Caminhão e lobo pararam com uma derrapada simultânea. Os enviesados olhos amarelos na cara do animal fitaram sem piscar os meus durante um longo e gelado segundo, antes que ele desse meia-volta e desaparecesse de volta no mato.
Ficamos imóveis e calados, ouvindo o barulho do motor, olhando o ponto na mata que engolira o lobo. Eu percebi que prendia a respiração. Papai curvou-se para a frente, apoiando por um instante os antebraços no volante. Finalmente, voltou-se para mim, uma curiosa expressão no rosto.
- Nós agimos certo - disse. - Não foi?
Eu não pude dizer nada, mas sabia exatamente o que ele queria dizer.


 
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