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Um
Médico Brasileiro no Front, de Massaki Udihara (Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo e co-editoras; 380 páginas;
38 reais) Esse lançamento traz à tona um relato
inédito a respeito da participação nacional
na II Guerra Mundial. É o diário mantido pelo médico
Massaki Udihara, tenente da Força Expedicionária Brasileira
(FEB) entre 1944 e 1945. Udihara é um narrador fluente e
imbuído de espírito crítico. Ele registra o
cotidiano dos pracinhas com riqueza de detalhes, revolta-se diante
da tragédia da guerra e não poupa de críticas
seus superiores e os próprios companheiros. "Os nossos soldados
são bons. Quando não se embriagam", alfineta. A bem-cuidada
edição traz artigos que ajudam a entender o ponto
de vista do autor, filho de imigrantes japoneses.
Leia
trechos do livro
Junho
/ Julho 1944
29-6-44
Começa este diário (não sei se será
diário no sentido de quotidiano, ao menos pretenderá
ser) em uma tarde, no dia de São Pedro, às 5 horas
da tarde, na real cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, Vila Militar.
Esse começo é somente para a fixação
do momento em que realmente me destaquei, com todos os meus companheiros,
da vida de todos os dias e de todos os mortais. Desse momento em
diante todos os meus atos e ações já não
terão mais a significação de todos os dias
e tudo já se escapou da minha vontade.
Estou, desde esse momento, sujeito aos azares dos imprevistos pois
que tudo se processará em completo alheamento da minha vontade.
Não sei e não saberei de nada senão quando
me for dado a conhecer. Também não poderei fazer,
ad sponte, tudo que se me der na telha.
Foi por isso que fixei esse momento.
Essa a hora que se estabeleceu como o início da prontidão,
ou seja, o momento em que ninguém poderia deixar o quartel.
E todos os meus contatos com o exterior cessaram nesse momento.
O dia, por mais estranho que possa parecer, não diferia em
nada aos outros. Se não fosse a lufa-lufa dos preparativos
não se poderia supor que algo de anormal estivesse acontecendo.
O céu, com algumas nuvens escuras e a temperatura um pouco
elevada apesar do inverno, não apresentava qualquer característico.
E vendo a fisionomia dos nossos soldados não se poderia por
ela aduzir qualquer ilação. A preocupação,
o receio ou mesmo a alegria, se existiam, não se demonstravam
por atos ou expansões que as revelassem. Havia mais, ao contrário,
um como quê de indiferença, quase todos encarando o
fato com naturalidade.
Talvez fosse o fato de já estarem tão acostumados,
tanto se falou nele que não constituiu surpresa, que não
se deu importância à sua significação.
Se todos pudessem avaliar o que ele iria representar na vida de
todos talvez outras fossem as impressões.
espírito e nem tenho disposição para uma análise,
se é que isso fosse adiantar.
O tempo foi passando. As horas, bem entendido. O momento em que
deveríamos sair estava se aproximando.
Enquanto isso, terminei de aprontar a minha mala. É do tipo
americano, de lona de cor verde e com zipper. Fiquei admirado com
a quantidade de coisas que se pode por dentro dela. Fui dispondo
tudo. Uma infinidade de coisas. Quando dei acordo de mim não
conseguia mais fechá-la. Sentei-me sobre ela. De nada adiantou.
Tive então que transferir algumas coisas para uma pasta.
Com muito esforço e já suando em bica consegui fechá-la.
Não é preciso dizer que depois disso lembrei que havia
deixado dentro dela o que devia ter deixado fora.
Depois de todas essas peripécias ficou pronta. Estava em
condição de ser transportada. O diabo é que
eu é que devia transportá-la. Com a maior das confianças
e satisfações possíveis peguei pela alça
para erguê-la. Antes não tivesse feito. Só consegui
movê-Ia alguns centímetros do lugar antes que a minha
mão sentisse um ardume todo especial e o meu braço
parecesse que fosse ser arrancado.
E pensar que eu teria que carregá-la sabe Deus até
onde. Não quis pensar nas conseqüências para não
ver o resultado.
Vieram dizer-me que um soldado do meu pelotão estava deitado
e não podia andar. Fui vê-lo. Era importante, pois
esse homem, como todos os outros, deveria ir. Encontrei-o sentado,
na beira da sua cama, no alojamento, arrumando o seu saco. Se pudessem
imaginar o esforço que isso representava para ele sentiriam
como me senti. As mãos estavam inchadas, assim como os pés,
devido a uma infecção. Apesar disso tudo, estava se
aprontando.
A história desse seu estado e de outros merece ser contada.
Fica para depois.
Era um gaúcho que viera voluntariamente. Alto, magro, moreno
com uns olhos azuis claros. Talvez por ter vivido muito tempo na
fronteira tinha um sotaque castelhano bem caraterístico.
Aliás, seu modo de falar, pela construção das
frases já chamava a atenção.
2392. Dado o seu estado procurei saber o que se faria com ele. Resumindo:
foi resolvido que ficaria. Fui lá onde estava para lhe dizer.
As lágrimas começaram a correr dos olhos. Era verdadeiramente
sincero e de comover o seu pesar e tristeza. Viera para ir e tinha
que ficar. Isso que lhe doía. Conformou-se com a esperança
de ir depois.
Pouco depois, um outro de outro pelotão, com furúnculos
nas pernas, mal podendo andar também disse que iria. Não
ficaria. Estava com os companheiros há dois anos. Não
deixaria por nada. Iria de qualquer forma. Foi.
Acontecera dias antes. Numerosos soldados estavam baixados. Alguns
de gravidade pronunciada. Chegaram do mesmo modo que haviam ido.
Depois soubemos da história. O general dera ordens para que
todos tivessem alta, não interessando o estado de cada um.
E foi dada alta. É desse quilate o nosso serviço médico.
No trem só o silêncio imperou. Era ordem. A maioria
procurou dormir.
30-6
O dia passou sem maiores interesses.
Adaptação, arrumação e o mais que requeria
essa nossa mudança. A noite chegou e com ela o restante dos
companheiros. Lá fora, manquejando, estava o Bola. Era o
cachorro que nos acompanhava desde Taubaté. Sempre andou
conosco. E ficou, lá fora, andando sobre três patas,
de cá para lá. Não o deixaram entrar. Não
sei por que o deixaram vir. É triste e penoso vê-lo
desse modo.
1-7
Encontrarei-me na mesa com o Almenor. Na véspera haviam chegado
os três capelães. Falando deles, disse-me:
Sabe que amanhã vai haver missa? Às seis e às
nove".
"Amanhã? Por quê?", estranhei, pois não
imaginava qual a razão disso.
"Amanhã é domingo".
Interessante como se perde a noção do dia e a pouca
importância que se lhe dá quando não há
qualquer interesse para fixá-lo. Como o dia aqui é
o mesmo, quase que a qualquer momento, não me preocupei em
guardá-lo. Foi realmente uma surpresa saber que amanhã
seria domingo.
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