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Um
Mês no Campo, de J.L. Carr (tradução
de Carlos Szlak; Globo; 162 páginas; 25 reais) O escritor
inglês J.L. Carr, que morreu em 1994, foi reconhecido tardiamente,
quando já beirava os 70 anos, ao ser indicado para o prestigioso
Booker Prize graças a essa idílica novela. O lançamento
da obra no Brasil, duas décadas depois de sua publicação
na Inglaterra, é uma excelente notícia. Um Mês
no Campo conta a história de Tom Birkin, um veterano
da I Guerra Mundial que tenta retomar a vida ao voltar da batalha
e verificar, entre outras coisas, que a mulher o abandonou.
Ao estabelecer-se num vilarejo do interior, onde se ocupa da restauração
de um mural religioso, o personagem vai refazendo sua auto-estima
em meio a uma exótica galeria de personagens.
Leia
trechos do livro
Quando
o trem parou, saí aos tropeções, dando cotoveladas
e empurrando com pontapés minha mochila militar. Embaixo,
na plataforma, alguém gritava desesperadamente: "Oxgodby..
Oxgodby." Ninguém se ofereceu para ajudar; assim, tive
de subir de novo ao vagão, tropeçando em tornozelos
e pés, para alcançar o cesto (sobre o porta-bagagem)
e a minha cama de campanha dobrável (sob o assento). Se essa
era uma boa amostra da gente do norte, então eu estava em
território inimigo, e assim não tomei muito cuidado
com o lugar onde pusera minhas botas. Ouvi um sujeito inspirar e
outro grunhir: nenhum deles disse nada. Então, o guarda-linha
apitou, o trem moveu-se aos trancos alguns metros à frente
e parou. Isso bastou para incentivar o velho do canto mais próximo
a semicerrar sua janela. Ele disse, no dialeto do norte, que aquela
chuva iria me ensopar e fechou a janela na minha cara. A seguir,
a locomotiva lançou uma formidável nuvem de vapor
e se afastou lentamente, com uma fileira de rostos inexpressivos
encarando-me. Fiquei só, na plataforma. Arrumei minha bagagem,
dei uma última olhada no mapa, meti-o dentro do bolso do
meu sobre tudo e tirei-o novamente, fazendo cair minha passagem
aos pés do chefe de estação e desejando ter
pregado os dois botões que faltavam. Esperava que a chuva
parasse até eu ter um teto sobre minha cabeça.
Uma jovem, com a cara achatada contra um vidro, olhava para mim
da casa do chefe da estação. Deve ter sido meu sobretudo
que atraiu sua atenção; era de antes da guerra - de
1907, aproximadamente, creio -, um tecido maravilhoso, de primeira
qualidade, um tweed grosso, espinha de peixe. Alcançava os
meus tornozelos; seu primeiro dono deve ter sido um gigante abastado.
Vi que ia ficar muito molhado; as solas já não impediam
a água de entrar. O chefe da estação retornou
para a sala dos sinais luminosos e disse alguma coisa, mas não
entendi o dialeto. Ele pareceu perceber isso. Disse que posso
emprestar-lhe meu guarda-chuva", repetiu ele num inglês
tolerável.
"O lugar para onde estou indo não fica muito longe",
respondi. "Isto é, segundo o mapa."
O povo daquela região tem uma curiosidade insuperável.
"Onde é esse lugar?", perguntou ele.
"A igreja", informei-lhe. "Espero poder me secar
quando chegar lá."
"Antes entre e tome um chá", propôs ele.
"Tenho um encontro com o vigário", disse eu.
"Ah, eu sou não-conformista", esclareceu ele. "De
todo jeito, se precisar de alguma coisa, mande me avisar. Bem, espero
que ele esteja lá."
Ele parecia conhecer o motivo da minha visita.
Parti sem entusiasmo, protegendo da melhor forma possível
minhas roupas de reserva (que estavam no cesto de palha) sob meu
sobretudo. O caminho coincidia com o indicado pelo mapa. E ali estava
a construção isolada, uma casa de fazenda arruinada,
com seu jardinzinho dianteiro amuado atrás de uma cerca enferrujada,
de ferro fundido. Um cão acorrentado - um airedale terrier
- arrastou-se, uivou sem convicção e correu para procurar
um novo abrigo. Mais além, havia alguns galinheiros ruindo
entre as urtigas do pomar abandonado. A água da chuva escorria
do meu chapéu de feltro, sulcando meu pescoço, e uma
das alças do cesto arrebentou. Então, dobrei a esquina
após passar uma sebe alta encontrando o pasto aberto. E lá
estava a igreja.
Era uma obra sem originalidade. Sem dúvida, a região
não conheceu nenhuma grande expansão do comércio
de lã durante a Idade Média. Fora uma região
miserável; cada pedra uma extorsão. O pequeno coro
tinha um telhado invulgarmente baixo; deve ter sido acrescentado
ao edifício principal (que tinha um telhado muito alto, baixando
na direção das naves laterais) uns bons cem anos depois.
A torre era atarracada. Não se deve ficar com uma impressão
errada; no conjunto, o aspecto era bastante agradável. Ao
me aproximar, percebi que a alvenaria fora muito bem ordenada -
silhares de pedra calcária e não de pedra bruta. A
pedra fora belamente cortada mesmo entre os contrafortes, apresentando
apenas um vestígio de argamassa. Mesmo quase afogado como
estava, aplaudi silenciosamente os pedreiros. A própria pedra
apenas com um matiz de amarelo, de magnésio - deve ter sido
extraída perto de Tadcaster e transportada pelos rios acima.
Não se irrite com esses detalhes: mesmo naqueles dias longínquos
eu já tinha excelente opinião de mim mesmo como apreciador
de pedras.
O muro do cemitério estava em boa situação,
embora, surpreendentemente, o trinco do estreito portão estivesse
quebrado e preso por uma corda. Havia algumas lápides do
século XVIII em boas condições, com seus querubins
manchados de liquens, ampulhetas e caveiras quase cobertos por capim
espesso, canteiros de urtigas e ervas daninhas. Vislumbrei dois
ou três espigões de um jazigo familiar submersos em
sarças: um gato cinzento espreitou para fora, encarou-me
com hostilidade e sumiu. Sabe Deus o que mais vivia ali: atualmente,
aquilo teria sido registrado como um santuário de vida selvagem.
As calhas e os canos de escoamento - não pude evitar, precisava
ver se estavam resistindo bem. Assim, desbravei o caminho em torno
do edifício. Não havia vazamento em nenhum lugar,
nem vestígios de infiltração nas paredes! A
umidade é a sentença de morte das pinturas murais.
Se houvesse nem que fosse uma parede esverdeada, seria melhor ter
dado meia-volta naquele exato momento e retornado à estação.
Assim, dirigi-me ao pequeno pórtico com seus assentos de
pedra, polidos ao longo de quinhentos anos pela fricção
dos traseiros dos assistentes de funerais abatidos pelo incenso
ou pelo remorso.
Girei o puxador em forma de anel e empurrei a porta, que guinchou
- um aviso ao qual ficaria grato durante as semanas seguintes. E
ali estava eu. De modo geral, era como eu havia imaginado - um piso
de lajes, três pilares atarracados em cada lado da nave central,
duas naves laterais baixas e, mais adiante, um coro (tanto quanto
conseguia ver) zelosamente reorganizado por algum beneficiado tratadista.
O telhado era obra bastante sólida; poderia ser o casco invertido
de um navio. E parecia haver alguns bojos interessantes. Porém,
naturalmente, é o cheiro dos lugares - sempre o cheiro -
que produz uma impressão imediata - e o cheiro que havia
ali era o das almofadas úmidas dos genuflexórios.
O andaime, como me fora dito por carta, estava montado, preenchendo
o arco do coro. Havia até mesmo uma escada amarrada nele,
pela qual subi de imediato. Pode-se dizer muita coisa contra o reverendo
J. C. Keach. Infelizmente. Mas, quando ele se encontrar diante do
trono do Juízo Final, também se poderá dizer
como atenuante: foi um homem cumpridor, Deus. E entre os ingleses
esta é uma virtude rara. Poderíamos ter nos saído
bem com algumas pessoas, assim como os chefes de abastecimento nos
depósitos da França. Ele havia dito que o andaime
estaria pronto, e estava. Dissera que, se eu chegasse no trem das
sete e quinze da noite, encontrar-me-ia na igreja às sete
e trinta. E assim foi.
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