Sinistros
com Fogo, de David Means (tradução de José Rubens
Siqueira; Companhia das Letras; 160 páginas; 34 reais) Segundo livro
de Means, um dos melhores contistas da nova geração americana, Sinistros
com Fogo foi premiado com o Los Angeles Times Book Prize em 2001. Os treze
textos da coletânea têm como cenário cidadezinhas bucólicas
à beira do Rio Hudson, nas proximidades de Nova York, onde belas paisagens
naturais convivem com os destroços de indústrias decadentes. Contra
esse pano de fundo, desfila uma galeria de personagens que inclui um piromaníaco,
um ex-combatente do Vietnã, um corretor imobiliário fraudulento
e um lenhador suicida. Todos parecem se dobrar ao peso de algum fracasso, sentimento
que Means analisa sem nenhuma condescendência.Leia
trecho Incidente
na ferrovia, agosto de 1995 O
declive onde ele sentou para descansar fazia parte do leito da ferrovia, aberto
com a ajuda de explosivos nos depósitos de xisto e calcário cortados
pelo rio Hudson, que ficava logo abaixo do morro e não dava para ver, escondido
pela arborização, quintais, casas. O vento passou pelo mato, soprou
os dois lados dos trilhos, morreu, depois voltou insinuando algas marinhas - o
mar a quilômetros se abria para o grande porto de Nova York, o mar atraído
pela gravidade da lua Hudson acima, aquele profundo e manso estuário que
chegava como um toque de sal no ar contra o rosto dele, preso entre os joelhos;
ele sentia o próprio sal nos lábios, porque estava andando havia
quilômetros e a noite estava quente. Era um homem elegante de camisa de
colarinho branca para dentro da calça jeans passada; era o tipo de homem
que mandava lavar a seco o jeans; estava acostumado a retirar de dentro de sacos
plásticos longos e brilhantes as roupas, processadas quimicamente, dobradas,
identificadas e desinfetadas. Oito quilômetros atrás, seu BMW azul-escuro
parado na estrada com o motor ligado - com gasolina suficiente para ele continuar
funcionando -, estacionado na lateral do acostamento a fim de dar a impressão
de que era um daqueles muitos carros, em noite de verão, gente da cidade
que deu uma parada para recuperar alguma lembrança perdida ou sentir o
gostinho do ar da floresta mais uma vez antes de voltar para casa, para o abraço
do concreto. Ele era o tipo de homem que deixava o carro funcionando só
pelas aparências, para ajudar a embalar uma estranha imaginária num
ilusório senso de estabilidade: estava tudo bem com o mundo, ela pensaria,
passando, indo cuidar de suas coisas; quando ele saiu do carro foi com ela na
cabeça - alguma mulher estranha passando a caminho de casa -, por isso
deixou o carro ligado. Apesar
da dor nos pés por causa da estranha caminhada ao longo de quase cinco
quilômetros de leito de ferrovia, não pôde deixar de notar;
curvado como estava, o esplendor desse lugar no mundo, abaixo do vasto céu
aberto, a escuridão quebrada apenas pela passagem de um carro na rodovia
mais acima; durante a caminhada, a noite, que descera devagar, ao longo de várias
horas, endurecera; seus olhos tinham se acostumado com o escuro e o guiaram com
segurança até esse lugar. Esticou as pernas e começou a tirar
os sapatos, empurrando o calcanhar com a sola do outro sapato. (Ele era o tipo
de homem que desamarrava os sapatos primeiro, tirava um, depois o outro, sentado
no banquinho-escada ou na beira da cama; era também o tipo de homem que
usava uma calçadeira de marfim para calçá-los toda manhã,
adorava a sensação da meia deslizando com firmeza contra a superfície
lisa e fria, o uso de um instrumento para a tarefa simples.) Mas não era
nem hora nem lugar para rituais costumeiros; tinha vindo para trair a si mesmo,
para se livrar dessas coisas. Deixou-os nos arbustos, um solitário par
de italianos finos, feitos à mão, um pé aninhado junto ao
outro amorosamente, frente com frente. Andou devagar. Na
curva havia luz suficiente - difusa pelo céu brumoso - para divisar os
cacos de garrafas quebradas (se estivesse olhando para baixo em vez de olhar para
a frente). O estilhaço em que pisou, de uma garrafa de uísque de
malte envelhecido, era serrilhado como os Alpes franceses, a base redonda da garrafa
formando um suporte perfeito para a saliência, o único caco de vidro
em metros, bem acomodadinho contra o trilho; entrou direto em seu calcanhar, cortou
firme a almofada dura, abriu um corte que o fez cair de lado. Era um daqueles
cortes que vão se abrindo devagar para as possibilidades da dor, crescendo
a partir de um pequeno ponto, como um cone; era o tipo de corte que dava a assustadora
sensação de ser ilimitado na dor que podia acabar produzindo. Ficou
sentado ali e pensou um momento naquilo, sem elaborar uma estratégia, mas
tentando invocar alguma imagem do manual da Cruz Vermelha que um dia havia memorizado.
(Era uma exigência de suas aulas de iatismo.) Aprendera a fazer uma bóia
com um jeans molhado; aprendera a estancar o sangramento de um membro amputado
usando um cinto de couro como torniquete; sabia afastar a língua e desobstruir
a garganta antes de começar um boca-a-boca; mas ali, na solidão
absoluta de sua dor, não tinha certeza do que fazer a não ser tentar
lembrar um desenho de algum tipo, um daqueles diagramas esquemáticos, mas
úteis, de algum agudo sofrimento humano, como uma fratura exposta, o osso
apenas um conjunto de linhas saindo de dentro de alguma coxa imaginária,
duas linhas curvas como num esboço de Picasso; ficou ali sentado e deixou
sangrar um momento, esperando lavar o tétano. Parecia que sua vida se tornara
uma série de episódios assim, longos silêncios inquiridores
enquanto tentava lembrar alguma imagem perdida, um tênue diagrama de uma
circunstância e a maneira própria de resolver, remendar, enfaixar
os ferimentos até poder obter ajuda mais profissional. No
mato daquele cafundó suburbano, agachado no trilho de aço sem fim
(forjado em Bethlehem, Pensilvânia, e instalado durante o século
XIX, usado no transporte de calcário das minas às margens do Hudson
para a construção dos grandes alicerces dos grandes arranha-céus),
ele tirou a camisa e tateou a costura buscando o ponto onde poderia ceder. Para
rasgar teve de usar os dentes. Queria
uma única razão incisiva para caminhar sozinho seminu, a dor no
calcanhar esquerdo queimando perna acima, a bandagem improvisada farfalhando.
Uma explicação: talvez a recente perda catastrófica de sua
esposa, Margaret, o carro dela soltando vapor e fumaça de cabeça
para baixo na pista errada da avenida Saw Mill River, os destroços retorcidos
traídos pelo guardrail batido, a pavimentação antiquada
seguindo uma trilha feita originalmente pelos indígenas, o gosto do cabelo
vermelho dela em sua boca quando se abraçaram pela última vez. Um
negócio de ações estragado - culpa dele. A culpa atribuída
a uma falha do computador. O rosto firme de McKinnen atrás dos óculos
com aro de metal, dedos tamborilando no tampo de vidro da mesa, oferecendo um
bom pacote. A partida de sua esposa certa manhã; as palavras de explicação
em trêmula caligrafia de esferográfica preta; o nome do traidor o
de um velho amigo, Samson, cujo aperto de mão ainda dormia na palma de
sua luva de golfe no andar de cima. Histórias melhores poderiam ser contadas
se Margaret tivesse morrido devagar, um longo declínio com suas células
brancas a ceder, os lábios tremendo ao formular as últimas palavras.
Não era razão suficiente para suas atitudes. Ele tinha certeza disso.
A casa grande deles ficava ao lado do rio, estimulante de tão grande quando
se mudaram, agora só casa demais; ele talvez tenha andado a tarde inteira
pela varanda e olhado a água lisa até que, por volta das três,
um grupo de jardineiros chegou, sacudindo o silêncio poético com
seus foles e cortadores de grama ruidosos, empurrando-o para o escritório
do terceiro andar, onde, com o rosto nas mãos, implorou pela própria
salvação - salvação não da dor, mas de alguma
coisa que não conseguia especificar, talvez apenas coisas que não
havia feito. Talvez passos que não havia dado. Talvez aceitasse inteiramente
que ela não era nada mais que vazio agora; ela era saias penduradas no
armário, o cheiro de seu perfume nos lençóis não lavados
empilhados na lavanderia, receitas rasgadas de revistas empilhadas na mesa dela
no quartinho. Mais
uma brisa leve soprou. Ele avançava devagar pelos trilhos, deixando para
trás o carimbo de uma pegada de sangue em cada dormente. Adiante, os trilhos
faziam uma curva escuridão adentro; à sua esquerda e acima, as vigas
mestras e calhas das paredes recortadas na pedra. Para
os sujeitos que o avistaram uns quatrocentos metros adiante, ele saiu como um
animal ferido do ar brumoso, nada mais que uma sombra nos trilhos mancando de
um jeito estranho que não parecia humano. Eram quatro, eles também
sem camisa, alimentando uma fogueira de gravetos que mal produzia chamas, só
muita fumaça esbranquiçada em fitas no ar pesado. Mesmo à
luz da fogueira dava para ver que eram todos magrinhos, daquele jeito carente,
nodosos de músculos e de sombras cinza-azuladas de várias tatuagens.
O que o avistou tinha acabado de sorver um longo trago de uma garrafa de cerveja
e estava retomando o fôlego. Porra,
nossa, disse ele baixinho, afastando uma longa mecha de cabelo preto do rosto. Que
porra é essa?, disse outro, separando um pouco as pernas como se quisesse
se estabilizar contra a chegada de uma força. As botas grossas trituraram
o cascalho. Ele apertou as mãos abertas contra os lados da cintura. Um
dos outros parou ao lado, passando as mãos sobre a superfície lisa
do couro cabeludo raspado num movimento repetido, meio agitação,
meio hábito; cada um deles trepidando agitado. Entenderam de imediato que
fosse quem fosse que vinha vindo, envolto como estava no escuro, vinha enfraquecido
e com algum tipo de problema, de fato, porque estava sem camisa e oscilava de
um lado para outro, talvez bêbado ou cansado ou as duas coisas, e pronto
para ser dominado, para ser seduzido por qualquer coisa que sentissem vontade
de fazer; ele era tudo que a noite lhes tinha oferecido, como em resposta a uma
prece, algo para romper o tédio de fumar maconha e falar merda e tudo o
mais, e eles todos sabiam, ao vê-lo, e estavam prontos. O
ponto onde se reuniam, bem na frente de onde os trilhos abriam um buraco escuro
no barranco que subia, estava juncado de velhos restos da ferrovia, trilhos e
dormentes, grumos de piche e garrafas quebradas; era um abrigo marginal apartado
e protegido de tudo, simplesmente abandonado e desnecessário como eles
próprios se sentiam e, por causa disso, eram; um punhado de lixo e carne
jogada fora, as tatuagens feitas por eles mesmos marcando a carne jovem. Eram
jovens, bêbados, ávidos. O que eles viram surgir era um homem amolecido
pela meia-idade. Em seu manquejar havia um ligeiro resíduo de dignidade
e formalismo, no jeito como levantava os pés como se ainda estivessem calçados
e carregassem o peso dos sapatos caros; ou talvez tudo isso não tenha sido
notado até que, chegando a eles, o homem abriu a boca e falou, disse um
alô suave, as vogais se abrindo, a copa da boca sobre as palavras como uma
concha valiosa… talvez não tenham notado nada ao se posicionarem em torno
dele em silêncio, sem uma palavra, o sujeito com a cabeça lisa por
trás, enquanto o sujeito de botas grossas dava um passo à frente
e os outros se moviam em uníssono, um de cada lado, como se ele fosse fazer
alguma tentativa de escapar. (Essa era a fantasia de tensão que a postura
deles produzia, queria produzir, ansiava produzir.) Foi
depois, nas reconstituições oníricas daqueles momentos, que
ele se deu conta de que o silêncio em que eles trabalhavam revelava tudo
sobre seus corpos jovens: músculos ágeis de proezas, carne marcada,
ferida, queimada com pequenos olhos-de-boi duros dos tocos de cigarro do papai;
os foda-se de corpos retorcidos em chaves e golpes de luta livre, presos com joelhos
nas costas e no esterno; tendões travados e ossos partidos de juntas muito
flexíveis que sugavam o ar de suas bocas de catorze anos nos recessos do
estacionamento de trailers cravado no cu dos cafundós perto do depósito
de lixo tóxico da cidade. Esses eram os garotos que cantavam e caçoavam
e que ele havia temido antes, ao andar pela cidade. Agora, estava contente de
topar com almas que surgiam do escuro em torno de uma patética fogueira.
Havia por trás de tudo isso, enquanto eles armavam um silêncio que
traía também o chute que viria primeiro do homem da frente, apenas
o som mortiço dos insetos, um som tão prolongado que se apagou de
sua cabeça e foi preenchido com uma forma nova e mais aguda de silêncio.
O chute acertou seu estômago. Ele caiu. Devagar, com graça, os dois
rapazes das laterais vieram até ele e gentilmente o ajudaram a levantar,
sentindo de imediato sua falta de resistência, fazendo notar isso ao dobrar
seus braços nas costas, o que produziu um arco-íris de dor nas omoplatas.
A função deles era preencher o espancamento com o máximo
de dignidade possível, sustentar o balé da cena, fazer aquilo valer
a pena, porra - produzir uma suspensão em que seu amigo, com as longas
mechas de cabelo preto e oleoso balançando agora na frente da cabeça
inclinada, pudesse trabalhar; e ele se curvou ligeiramente, bem na frente do homem
sem camisa, deixando o breve período de graça inchar entre eles
- depois se curvou mais e mais perto até sua testa encostar bem na testa
do estranho, tocando ali a umidade do suor, enquanto pronunciava para ele, no
sussurro abafado de um confessor, de um padre passando penitência: A gente
vai te encher de porrada, sabe, então é melhor não reclamar…
interrompendo as palavras e oferecendo um chute na virilha tão forte que
fez o homem se dobrar em dois, e na hora exata os outros o soltaram, de forma
que ele caiu no chão, o pé ensangüentado raspando no trilho;
o de cabeça lisa tirou a carteira do bolso de trás do homem e abriu,
curvou-se para a luz, folheou com o dedo o bolinho de notas que tirou fora, jogou
a carteira de couro preto no mato, onde ela caiu aberta, derramando no escuro
documentos, fotografias, cartões de crédito e de banco que, quando
introduzidos no caixa eletrônico e acompanhados de HHMH - iniciais dele
e de sua mulher -, fariam ejetar belas pilhas de notas, tantas quantas alguém
pudesse querer ou precisar. Perfurado
na encosta anos antes (durante o período já mencionado de entusiasmo
na construção da ferrovia) por meio de uma série de explosões
que soltaram a rocha o suficiente para permitir que homens com picaretas e pás
trabalhassem em cima das pilhas, o túnel era uma coisa rústica,
um buraco aberto a gotejar água de fonte, com um cheiro molhado de enxofre;
era uma ferida na terra e o tipo de lugar onde os caras gostavam de fumar maconha
e até dormir nas noites de verão, deitados uns contra os outros,
junto do lado úmido para o caso de um possível trem de carga resolver
passar, sacolejando e guinchando. Eram trens feios, bestiais, que vomitavam fumaça
de diesel e se arrastavam como se tivessem vergonha dos trilhos decrépitos,
pegando a passagem de nível ao longo do rio Hudson a passo de lesma; vagões
de carga sujos e amassados, os selos e emblemas do proprietário marcados
pelo tempo, raspados, rabiscados com spray - a composição completa
passava algumas vezes por dia, e mesmo que os meninos estivessem na cidade, bebendo
ou morgando na pizzaria, dava para ouvir o grito do trem na curva perto da passagem
de nível. Foi
para esse túnel que levaram o homem, arrastando-o, seus tornozelos batendo
nos dormentes, a boca amordaçada com a bandagem cheia de sangue. Podia-se
desejar que fosse diferente, desejar que esses rapazes, em sua alegria, resolvessem
soltá-lo aos elementos, jogá-lo no mato, nos talos inclinados do
bambu silvestre, para apodrecer ali ou rastejar de volta à segurança;
mas não. A verdade é que eles sabiam tão bem como todo mundo
o que estavam fazendo; havia ali um esquema bem encaixado acima de tudo; as estrelas
se alinhavam de determinado jeito, e tudo estava saindo como planejado; se existe
um Deus e, depois, se o homem se salvasse e pensasse na profunda questão
de sua experiência, poderia atribuí-la (com a orientação
do reverendo Simpson) a um estado pessoal de deus absconditus, abandonado
em certo sentido como Cristo na cruz; se não existe Deus, então
esse golpe de má sorte começou quando ele largou o BMW e começou
a andar com grande determinação, e sem determinação,
para o lado inferior da estrada 9W, que normalmente o levava nas noites de sexta-feira
até a cidade, por cima da ponte, pela West Side e saindo pela rua 72, até
um estacionamento coberto feito de concreto moldado fresco, a batida da porta
do carro, borracha contra borracha, soando particularmente doce ao ecoar naqueles
espaços fechados. No Lincoln Center, ele podia estacionar no subsolo e
subir para as salas de concerto sem atravessar o espaço ao ar livre: esta
noite era a Sinfonia n. 3 de Brahms, com aquele segundo tema misterioso,
o andante, que não reaparece no lugar esperado da repetição;
e o terceiro movimento, de que ele gostava especialmente, poco allegretto,
tão redondo e macio no começo que o faria, se tivesse ido até
lá, lembrar-se dos ombros de sua mulher, de um momento, vinte anos antes,
em que faziam amor num quartinho em Nantucket, numa noite de outono, o noroeste
de inverno soprando com uma coerência constante que parecia eliminar o mundo,
de forma que só existia a umidade macia debaixo dele e os ombros dela.
Claro, ao ouvir de sua poltrona na terceira fila à direita, com os olhos
fechados, ele iria, se tivesse ido à cidade, idealizar e sentimentalizar
aquela primeira noite de amor com a mulher que dois anos depois iria lhe dar a
mão como sua amada esposa. A verdade daquela noite era diferente, claro:
beijos estranhos, dentes batendo, vergonha por certas deformações.
Ele não ouviu o Brahms, e portanto não teve essa lembrança
em particular. (E talvez ao descer do carro, bater e trancar a porta, o firme
crepitar das solas de couro na alameda do desvio, ele soubesse que estava evitando
essa lembrança; talvez sim, talvez não.) Fosse qual fosse sua escolha
na questão, Deus ou não-Deus, os meninos sentiram a força
do acaso do lado deles; tinham de cumprir um dever, sabendo como sabiam que aquele
homem que estavam arrastando, imóvel, tinha algum pequeno traço
de dignidade enterrado nos gritos abafados, inexpressivos, que estava dando. No
cinema, os olhos nessa situação espreitam em torno, cintilam de
medo, buscam o céu para se apoiar em alguma coisa - mas os olhos dele pairaram
no escuro devagar e sem determinação, como se estivessem soltos;
na boca do túnel, ao sentir o frio ar como de caverna, ele ficou quieto. |