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 |  | Roth:
a Alemanha nos anos 20 | |
Berlim,
de Joseph Roth (tradução de José Marcos Macedo; Companhia
das Letras; 208 páginas; 35 reais) Nascido na Ucrânia, de
uma família judaica, o romancista e jornalista Joseph Roth (1894-1939)
foi um grande cronista da República de Weimar os tempos de crise
e agitação que precederam a ascensão do nazismo na Alemanha.
Berlim é uma série de reportagens sobre a capital alemã
na década de 20. Roth explora a cidade inteira, dos bastidores políticos
do Reichstag (o Parlamento alemão) aos inferninhos noturnos. Em uma das
crônicas mais interessantes, ele percorre a cidade na companhia de um criminoso
recém-saído da cadeia na qual ficou cinqüenta anos. O ex-prisioneiro
observa as imensas mudanças urbanas por que Berlim passou no meio século
em que esteve ausente. Leia
trecho SAIR
A PASSEIO O
que eu vejo é o traço ridiculamente discreto no semblante da rua
e do dia. Um cavalo, atrelado a um coche, olhando de cabeça baixa para
o embornal, sem saber que os cavalos originalmente vieram ao mundo sem coches;
uma criança que brinca na calçada com bolinhas de gude, observa
o corre-corre metódico dos adultos e, repleta do pendor à ociosidade,
não faz idéia de que já representa o ápice da Criação,
mas em vez disso anseia por ser adulta; um policial que imagina ser o ponto absolutamente
estático no turbilhão dos acontecimentos e o pilar de não
sei que autoridade: inimigo da rua, e ali postado para vigiá-la e cobrar-lhe
o devido tributo na forma de um certo senso de ordem. Vejo uma moça na
moldura de uma janela aberta, ela própria parte integrante do muro e consumida
pelo desejo de libertar-se do abraço das paredes que são o seu mundo.
Um homem que, premido nas sombras de uma praça angulosa, cata sobras de
papel e pontas de cigarro. Um quiosque de anúncios na cabeceira da rua,
epígrafe dessa rua, com um pequeno cata-vento em cima. Um senhor gordo,
fumando charuto e de paletó claro, que parece a nódoa de gordura
encarnada deste dia de verão. O terraço de um café plantado
de coloridas senhoras, que aguardam ser colhidas. Garçons de uniforme branco,
porteiros de azul, vendedores de jornal, um hotel, um ascensorista, um negro. O
que eu vejo é o velho com o delgado trompete de latão na Kurfürstendamm.
Um mendigo cujo drama chama tanto mais a atenção para si próprio
porque é inaudível. Às vezes o falsete do trompete, do pequeno
trompete de latão branco, é mais forte, é mais intenso que
toda a Kurfürstendamm. E o gesto de um garçom no terraço do
café, tentando esmagar uma mosca, tem mais conteúdo que os destinos
de todos os fregueses no terraço do café. A mosca consegue escapulir,
e o garçom decepciona-se. Por que tanta hostilidade com a mosca, ó
garçom? Um inválido de guerra que achou uma lixa de unhas. Alguém,
uma senhora, perdeu a lixa de unhas no lugar onde o inválido está
sentado. Agora o mendigo começa a lixar as unhas. O acaso que lhe pôs
nas mãos uma lixa de unhas e essa ação prosaica de lixar
as unhas bastam para erguê-lo acima de mil classes sociais, simbolicamente
falando. Um cão que corre atrás de uma bola em movimento e pára
diante do objeto agora sem vida, incapaz de compreender como uma coisa de borracha,
estúpida e desmiolada, pudera um instante atrás saltitar tão
vívida e espirituosa, é o herói de um drama fugaz. Somente
as miudezas da vida são importantes. A
mim, que passeio pelas diagonais de um dia de fim de primavera, que me importa
a grande tragédia da história mundial, inscrita nos editoriais dos
jornais? Ou mesmo o destino de um indivíduo, um possível herói
de uma tragédia, que perdeu a mulher ou recebeu uma herança ou traiu
a mulher ou de algum modo nos toca de forma patética? Em face dos acontecimentos
microscópicos, todo o patético se esvazia no erro, na insignificância.
O diminutivo das partes impressiona mais que a monumentalidade do todo. Já
não tenho gosto pelos gestos amplos dos heróis do palco universal.
Quanto a mim, eu passeio. Perco
o respeito por um quiosque de anúncios onde fatos como, por exemplo, os
cigarros Manoli são proclamados como se fossem um ultimato ou um memento
mori. De algum modo, suponho, a insignificância de um ultimato e de
um cigarro revela-se na maneira como um e outro são anunciados. O que se
proclama alto e bom som tem pouco peso e conteúdo. E imagino que não
haja nada hoje em dia que não seja proclamado alto e bom som. Nisso consiste
sua grandeza. Vejo que a tipografia assumiu proporções de visão
de mundo. As questões mais importantes, menos importantes e as desimportantes
são o que apenas na aparência é mais importante, menos
importante ou desimportante. Só de suas imagens inferimos seu valor, não
de sua essência. O acontecimento da semana é aquilo que, em letra
de fôrma, em gesto, em largos movimentos de braço, foi assinalado
como o acontecimento da semana. Nada é, tudo significa. Mas, diante do
brilho do sol que se difunde sem cerimônia sobre muro, rua, trilhos, que
incide janela adentro, reverbera vidraça afora num sem-número de
reflexos, aquilo que foi insuflado desaparece porque é privado de essência.
Privado de essência, imagino (iludido como sou pela letra de fôrma,
pela tipografia como visão de mundo dominante), é tudo aquilo que
tomamos como pleno e importante: os cigarros Manoli e o ultimato. Mas
nos confins da cidade, onde ouvi dizer que começa a natureza, ela própria
não está lá, e sim a natureza-antologia. Suponho que também
sobre a natureza muito já tenha sido impresso para que ela possa continuar
sendo o que costumava ser. No lugar da natureza difunde-se no arrabalde das cidades
a natureza-conceito, o conceito de natureza. Uma mulher que, na orla da floresta,
protege a vista com o guarda-chuva trazido para qualquer eventualidade, observando
o horizonte, topa com certa mancha que tem a impressão de conhecer de algum
quadro e exclama: "Parece uma pintura!". Trata-se de uma subordinação
a um conceito rígido, circunscrito e bem definido de natureza como modelo
pictórico. Subordinação, aliás, não tão
rara; nossa relação com a natureza tornou-se falsa. Pois adquiriu
um propósito. A tarefa que lhe cabe é nossa diversão. Já
não existe por si própria. É função de um objetivo.
No verão fornece bosques onde podemos cochilar, lagos para remar, campos
para nos bronzearmos, poentes para nos encantar, montanhas para turismo e belezas
naturais para atrair excursões de estrangeiros. Reduziu-se às páginas
de um Baedeker. Mas
o que eu vejo não está nas páginas do Baedeker. O que eu
vejo é uma nuvem de mosquitos erguendo-se e baixando de súbito,
de forma inesperada e totalmente sem propósito ao redor de um tronco. A
silhueta de um homem carregado de lenha numa trilha da floresta. A fisionomia
franzina de um galho de jasmim debruçado no muro. A vibração
de uma voz infantil que se perde no ar. A melodia inaudível e sonolenta
de uma vida distante, talvez até irreal. Não
compreendo as pessoas que vejo fazendo caminhadas para apreciar a natureza. A
floresta não é um salão de baile. "Recreação"
não é uma necessidade, se esse é o objetivo expresso do andarilho.
A "natureza" não é uma instituição. O
europeu ocidental lançou-se à natureza como quem vai a um baile
à fantasia. Ele tem uma relação de capote de chuva com a
natureza. Vi andarilhos que trabalham como contadores. Não precisavam de
bastões de caminhada. O terreno é tão plano e suave que uma
sóbria caneta-tinteiro lhes bastaria. Mas o indivíduo não
vê o terreno suave e plano. Vê a "natureza". Se quisesse
velejar, vestiria provavelmente um terno branco de seda crua, herança do
seu avô, que também velejava. Não tem ouvidos para o murmurejo
das ondas e não sabe da importância que tem o estourar de uma bolha.
O dia em que a natureza virou uma estação de águas - acabou-se. Em
virtude de todos esses fatos, meu passeio é o de um ranzinza, e dou-lhe
assim por encerrado. Berliner
Börsen-Courier, 24 de maio de 1921 |