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Como
Fazer Inimigos e Alienar Pessoas, de Toby Young (tradução
de Myriam Campello; Record; 366 páginas; 38,90 reais)
Antes de escrever esse livro, o jornalista inglês Toby Young
fez de tudo para ter acesso ao mundo das celebridades. Sua chance
de ouro deu-se em 1995, quando ele foi contratado pela glamourosa
revista americana Vanity Fair. Infelizmente, Young meteu
os pés pelas mãos e acabou demitido antes de ver as
portas dos espaços vip se abrirem para ele. Restou-lhe da
experiência uma visão implacável do universo
dos famosos e aspirantes à fama. Atento para o ridículo
nos outros e em si próprio, Young dedicou-se então
a destilar suas memórias. Graças a Como Fazer Inimigos
e Alienar Pessoas, tornou-se ele mesmo uma celebridade.
Leia
trechos do livro
Capítulo
1
"Há
milhões para serem arrebanhados aqui e nossos únicos
concorrentes são idiotas"
NA
TARDE DE 8 DE JUNHO DE 1995 finalmente recebi o telefonema.-
-
Quem está falando é Dana Brown, do escritório
de Graydon Carter. Falo com Toby Young?
-
Ahn, sim.
-
Um momento, por favor.
Pausa.
-
Toby? É Graydon. O que acha de ficar por aqui durante um
mês?
Pronto,
era o telefonema que eu vinha esperando. Desde a noite da festa
da Vanity Fair, quinze meses antes, eu vinha cultivando assiduamente
o editor da revista. Já escrevera três matérias
para ele e sempre que tropeçava em Graydon numa de suas regulares
viagens a Londres, esforçava-me para encantá-lo. O
fato de ele estar me oferecendo apenas um mês de trabalho
era sobretudo teórico. Tratava-se de um período de
teste de um mês de duração e, desde que eu não
estragasse tudo, isso levaria a um emprego de tempo integral. Senti-me
como Boot, o herói de Scoop, de Evelyn Waugh, sendo convocado
por The Daily Beast.
Para
mim a Vanity Fair não era só mais uma revista de luxo
de Nova York. Era um vínculo com Manhattan durante sua era
dourada, a era da Round Table do Hotel Algonquin. Na primeira encarnação
da Vanity Fair, de 1914 a 1936, seus colaboradores incluíam
Dorothy Parker, Edmund Wilson, Robert Benchley, D. H. Lawrence,
T.S.Eliot, Colette, Cocteau, Herman J. Mankiewicz - a lista é
interminável. Até Houdini escrevera para a Vanity
Fair. A ressurreição da revista se dera em 1983 através
de S.I. Newhouse Jr., o bilionário proprietário da
Condé Nast e, de 1984-92, a revista tinha sido editada por
Tina Brown, anteriormente ao leme da Tatler. Tina estava com trinta
anos quando recebeu a convocação de Si, como S.I.
Newhouse era conhecido. Depois disso ela editou a The New Yorker,
o emprego mais prestigiado das revistas americanas. Com Tina, a
Vanity Fair tornou-se a bíblia mensal do jet set, uma eclética
combinação do glamour de Hollywood, alta sociedade
e crime verdadeiro chamada por Tina de "a mistura". Não
era exatamente a revista culturalmente superior e literária
que fora, mas ainda assim era tremendamente mais sensual do que
qualquer uma de suas rivais britânicas.
Conheci
Graydon em 1993 num almoço do Sunday Times em Londres, cerca
de um ano depois de ele suceder Tina. Eu estava com vinte e nove
anos na época e já trabalhara por uma ampla gama de
publicações inglesas, desde a The Literary Review
à Hello!, mas nunca havia encontrado um editor de revista
como ele. Com seu terno de Savile Row gasto e camisa da Jermyn Street*
no fio, sem se falar no penteado excêntrico, ele tinha um
ar atraentemente desmazelado que lembrava mais The Spectator do
que uma grande revista de luxo. Quando falava, porém, parecia
um jornalista de Chicago da velha escola, cuspindo frases como um
personagem em A primeira página.
Por
exemplo, depois de alguns copos de vinho, sugeri que a Vanity Fair
publicasse uma matéria fotográfica sobre a "Londres
literária", apresentando fotos dos mais ilustres autores
britânicos em seus pubs favoritos. A idéia era ilustrar
a conexão entre o álcool e a vida literária
londrina.
-
Você está brincando - respondeu ele. - Ia parecer um
manual de dentista, porra.
Graydon
dava a impressão de um homem que fizera um grande esforço
para cultivar uma certa imagem - a do WASP [branco, anglo-saxão,
protestante] levemente boêmio e com aspirações
literárias - apenas para contradizê-la no momento em
que abrisse- a boca. Tanto quanto eu podia ver, sua corrente de
ditos espi-rituosos rebeldes, pontua-dos de expletivos, era um modo
de avisar que ele estava do lado dos colegas, mesmo se parecesse
um membro do Sistema.
Eu
esperava que fosse verdade.
Todos
os jornalistas da Fleet Street* que conheço fantasiaram,
uma vez ou outra, trabalhar numa revista de Nova York. Receber aquele
telefonema de Tina Brown ou Graydon Carter é o equivalente
ao tele-grama que Herman J. Mankiewicz enviou a Ben Hecht de Holly-wood
em 1925:
Você
aceitaria trezentos por semana para trabalhar para a Paramount Pictures?
Todas as despesas pagas. Os trezentos são ninharia. Há
milhões para serem arrebanhados aqui e nossos únicos
concorrentes são idiotas. Não espalhe isso por aí.
No
meu caso, o telefonema chegou no momento certo. Exatamente duas
semanas antes eu tomara a decisão de fechar The Modern Review,
a revista que vinha editando nos últimos quatro anos, sem
dizer nada à minha co-proprietária, Julie Burchill.
Naquela época, Julie era provavelmente a jornalista mais
famosa do Reino Unido, com uma reputação de extremamente
vingativa. Aborrecê-la não era uma boa idéia.
"Toby não tem nenhum futuro aqui", trovejara ela
no The Times quando descobriu a coisa. "Terá que deixar
o país, como todo mundo que se coloca contra mim." Julie
e eu brigamos depois que ela abandonou o marido, um jornalista americano
chamado Cosmo Landesman, e fugiu com Charlotte Raven, uma feminista
bissexual de vinte e cinco anos. Charlotte, uma colaboradora da
revista, despertara novamente a consciência radical de Julie
e esta queria fazer de Charlotte sua editora. Juntas, iam transformar
a revista num cruzamento de The Nation com Ms. Preferi fechar a
revista a deixá-la cair nas mãos do inimigo e o resultado
é que eu estava agora desempregado - e muito, muito impopular.
Pelo
certo, eu deveria estar deprimido. The Modern Review era a minha
vida. Julie, Cosmo e eu a fundamos em 1991 e nos anos seguintes
a revista conquistou um enorme público cult, vendendo quinze
mil números no seu auge. A idéia original era fornecer
um fórum para que jornalistas e acadêmicos escrevessem
artigos longos e eruditos sobre temas como Bruce Willis e Stephen
King - o lema da revista era "Cultura de massa para os de cultura
superior." O objetivo, claro, era defender o tipo de cultura
inferior que as classes articuladas encaravam como abaixo do desprezo.
O objetivo da The Modern Review era épater a burguesia instruída.
No
primeiro número, publicamos autores como Pauline Kael, Nick
Hornby e James Wood falando sobre importantes ícones de nosso
tempo como Bart Simpson, Kevin Costner e Hannibal Lecter. Artigos
típicos incluíam uma bibliografia de Arnold Schwazenegger
pelo editor literário da revista e a matéria de um
jovem professor de Cambridge sobre a duradoura atração
dos filmes Porkies no underground romeno. Continha até a
resenha literária feita por um desconhecido graduado de Cambridge,
Chris Weitz, que juntamente com seu irmão Paul, fez Ame-rican
Pie nove anos depois. Após folheá-la pela primeira
vez, Julie descreveu-a como parecida com um número de Smash
Hits editado por F.R. Leavis. (O equivalente americano a um número
de The National Enquirer editado por Lionel Trilling.)
A
revista deslanchou para um excelente começo quando Robert
Maxwell, o infame magnata das editoras, ameaçou-me com um
enorme processo. Era o outono de 1991, e, enquanto reuníamos
o material para fazer o primeiro número, contrabandeei minha
equipe para os escritórios de um dos jornais de Maxwell para
usar suas instalações de produção de
alta tecnologia. Ele ficou doido quando descobriu. Não era
apenas o fato de eu ter usado seu equipamento sem pedir permissão,
embora isso já fosse suficientemente ruim, mas também
por agradecer a ele no sumário das matérias pela ajuda
no primeiro número. Foi um ato de total insanidade. "É
como os arrombadores de uma casa deixarem um cartão de visitas",
desaprovou ele. E disse que se não concordássemos
em desativar a revista de vez, ele entraria com um processo judicial
e nos denunciaria à polícia como invasores de propriedade
privada.
Decidi
lutar contra ele - Maxwell era um vilão de James Bond, e
eu não ia destruir o primeiro número da revista só
porque havíamos ofendido sua vaidade - mas tratava-se de
uma estratégia de alto risco. A revista dificilmente poderia
arcar com uma onerosa batalha legal. Em seu primeiro ano, The Modern
Review teve que se arrastar com um inves-timen-to inicial em torno
de 25 mil dólares. No decorrer de seu quarto ano de vida,
o investimento total na revista era aproximadamente a metade do
que Graydon Carter gasta em limusines num único ano. Ela
só conse-guiu- sobreviver com despesas muito baixas. Não
era tanto uma mi-niem--presa, era mais uma empresa de apartamento-estúdio,
sendo pro-du-zida no meu apartamento em Shepherd's Bush. O "escritório"
consistia em dois computadores Macs da Apple e um telefone/fax.
Quando as pessoas ligavam perguntando pelo "departamento de
assinaturas", eu simplesmente passava o telefone a Ed Porter,
o editor-adjunto. Ele e eu éra-mos os únicos empregados
de tempo integral, e pagávamos a nós mes-mos a grandiosa
soma de 4.500 libras por ano. Ninguém poderia nos acusar
de estar naquilo por dinheiro.
No
fim de 1991 as coisas pareciam lúgubres. A tentativa da abertura
de um processo por parte de Maxwell contra a The Modern Review fora
rejeitada, mas ele instaurara uma ação contra mim
pessoalmente e isso pairava no ar. Nesse meio tempo, os advogados
que contratei para atuar no caso me apresentaram uma conta de 25
mil dólares, ameaçando-me com uma ação
de sua própria autoria se eu não pagasse a conta imediatamente.
Você não vê isso em Ally McBeal. Então,
exatamente quando tudo indicava que eu teria que hipotecar meu apartamento
pela segunda vez, algo aconteceu do outro lado do mundo que mudou
completamente minha sorte. Soube da novidade por meu amigo Aidan
Hartley, um jornalista baseado em Nairóbi, que me ligou às
4 da manhã em 5 de novembro. Ele acabara de ver algo no telex
que poderia me interessar.
-
É melhor que seja bom - disse eu.
-
É. Robert Maxwell está perdido no mar.
A
morte de Maxwell pôs um fim à sua ação.
Quanto aos advogados da The Modern Review, eles reduziram a conta
para 20 mil dólares e concordaram que a revista pagasse em
prestações. A polícia nunca entrou em contato
conosco.
Ultrapassando
aquele obstáculo, The Modern Review sobreviveu por mais quatro
anos. Nada jamais aconteceu que fosse páreo para a excitação
daquelas primeiras semanas, mas houve alguns pontos altos. No verão
de 1992 despachei uma repórter sob disfarce para a Cornualha
a fim de receber instruções pessoais do romancista
premiado D.M. Thomas a respeito da arte de escrever sobre erotismo.
Como era esperado, ele se comportou mal. Em 1993, a revista publicou
a transcrição não expurgada de uma correspondência
por fax crescentemente acrimoniosa entre Julie Burchill e Camille
Paglia que terminou com Julie chamando a Professora de Humanidades
de "um velho sapatão maluco". Ainda se pode encontrar
todo o diálogo na Internet. A realização que
mais me deu orgulho foi convencer Rob Long, um produtor executivo
de Cheers, a escrever uma coluna regular na qual documentasse sua
estranha relação com seu agente. As colunas formavam
a base de um livro hilariante - Conversations with my agent (Conversas
com meu agente) - que foi para a lista dos mais vendidos do LA Times.
Houve
também alguns baixos. Fui ameaçado com outra ação
em 1994, dessa vez por Elizabeth Hurley. Ela se irritou com o fato
de eu pre-ten--der imprimir algumas fotos seminuas dela e fez com
que seus -advo-ga-dos me assustassem. Pensei que isso era um pouco
absurdo, con-siderando-se que ela posara para fotos semelhantes
em GQ e Esquire, mas isso fora antes de ela ficar famosa por usar
um vestido Versace de decote baixo na première de Quatro
casamentos e um funeral. Elizabeth Hurley é a primeira atriz
na história que só foi notada depois que se vestiu.
O
momento mais baixo, de longe, foi minha briga com Julie Burchill.
Conheci Julie em 1984 quando ela deixou seu primeiro marido e foi
morar com Cosmo Landesman, um nativo de St. Louis de vinte e nove
anos, por acaso meu vizinho de porta. Julie passou a ser - literalmente
- a moça da casa vizinha e nos tornamos instantaneamente
os Novos Melhores Amigos. Acho que ela gostava do fato de eu ser
tão desagradável. Eu era um estudante de Oxford de
vinte anos sofrendo na época do que eu diagnosticava como
"carisma negativo" - só precisava entrar numa sala
cheia de gente que eu não conhecia para fazer dez inimigos.
Julie provavelmente gostou de mim porque me detestar teria sido
óbvio demais. Ela sempre gostava de fazer o oposto do que
se esperava dela. Fosse qual fosse o motivo, eu era grato por sua
amizade. Estava desesperado por abrir caminho no jornalismo e apesar
de ter apenas vinte e cinco anos, Julie era uma das jornalistas
mais prolíficas do país, com colunas em três
publicações de circulação nacional.
Quando
ficou enjoada de fazer sua coluna na Time Out - a precursora londrina
da Time Out New York - ela sugeriu que eu a escrevesse, ela assinasse
e dividíssemos o dinheiro. Esse arranjo só produziu
uma matéria, mas Julie ficou tão contente com o resultado
que o incluiu em Love it or shove it, uma antologia dos "Maiores
Sucessos" de seu jornalismo. Ela também mantinha um
fluxo de conselhos fraternos em cartas para mim enquanto eu ainda
estava em Brasenose, minha faculdade em Oxford. "Como você
convence as mulheres de que não é apenas um fofinho
urso de pelúcia substituto, com esse nariz de garoto de doze
anos?", escreveu ela em 1986. "Cosmo diz que a resposta
é sodomia - nenhuma mulher deixa de levar a sério
um homem depois de ser sodomizada. Para um democrata liberal ele
pode ser muito ELEMENTAR às vezes."
Nossa
briga começou quando um jornal mostrou interesse em comprar
The Modern Review em março de 1995. Entretanto, os executivos
do jornal deixaram claro que a fórmula original da revista
- escritores inteligentes escrevendo sobre coisas tolas - teria
que ser atualizada para eles continuarem interessados. Organizei
uma série de reuniões com a equipe da revista para
discutir a direção que poderíamos tomar. Achei
que ficariam todos encantados por eu ter conseguido um comprador.
Finalmente salários adequados! O que eu não previra
era que a possibilidade da The Modern Review ser removida do meu
apartamento significaria que outra pessoa pudesse editá-la.
Um foco de oposição logo surgiu e, para meu espanto,
na pessoa de Charlotte Raven. Charlotte tinha apenas vinte e cinco
anos. Era uma escritora viva, inteligente, mas jamais editara coisa
alguma. Sua tarefa principal no escritório era datilografar!
Contudo, tinha uma vantagem que os outros candidatos potenciais
não tinham: estava dormindo com Julie Burchill.
Diante
da perspectiva do meu reino cair em mãos inimigas, e sem
nada ter sobrado no meu tesouro, vi-me dolorosamente tentado a simplesmente
pôr fogo no local. Quanto mais eu pensava nisso, mais a idéia
era atraente para mim. The Modern Review viera ao mundo num fulgor
de publicidade - por que não deixá-lo do mesmo modo?
As dúvidas remanescentes que eu pudesse ter foram varridas
quando Julie ameaçou romper um compromisso que fizera de
aparecer num seminário da The Modern Review que eu organizara.
Vários milhares de libras do dinheiro de patrocínio
estavam vinculados ao seu comparecimento; se ela não fosse,
a revista não conseguiria o dinheiro. Por que ela não
iria?
-
Porque não quero nunca mais ver sua carinha feia de novo
- explicou ela, bruscamente. - Você tem sido um constrangimento
para mim há anos.
Clique.
Ruído de linha desocupada.
Certo,
pensei. Você pediu por isso. Organizei uma reunião
de emergência dos membros da equipe ainda leais a mim - todos
os três - e lhes disse o que queria fazer: fechar a revista
em segredo sem contar a Julie. Miraculosamente, eles concordaram
em ajudar. Nas duas semanas seguintes organizamos secretamente um
número de "Os Maiores Sucessos" e o contrabandeamos
para nossos impressores. Escrevi um editorial de duas mil palavras
anunciando que esse seria o último número da The Modern
Review e descrevi as circunstâncias escandalosas que levaram
a seu desenlace: Julie estava tendo um caso lésbico com uma
das colaboradoras. Na capa as palavras: "Isso é tudo,
pessoal!"
Assim
que o número chegou às bancas, a imprensa enlouqueceu.
Segundo um crítico da mídia, minha disputa com Julie
recebeu mais de quarenta metros somando-se todos os centímetros
das colunas jorna-lísticas, tornando-a o segundo maior assunto
da semana depois da Bósnia. A imprensa inicialmente relatou-a
como uma matéria de noticiário, depois passou a se
perguntar se uma briga entre dois jornalistas deveria ter recebido
tanta cobertura. De certo modo, eu gostaria que não tivesse.
A publicidade estava longe de ser favorável. Na época,
eu brincava que só havia uma coisa pior do que ser falado:
era ser Toby Young. Entre outras indignidades, fui comparado a Hitler
pelo The Independent on Sunday. Durante a semana em que o escândalo
estourou, perdi quatro quilos e meio - a dieta da humilhação
pública!
O
argumento de Julie, repetido em incessantes entrevistas, era que
eu tivera uma espécie de acesso e destruíra a revista
num ataque de raiva. "Ele agiu como uma criança mimada
que está correndo o risco de perder o brinquedo favorito",
disse ela ao The Evening Standard. Julie tocara num ponto certo.
Eu tinha me matado para produzir The Modern Review e esse era o
agradecimento que recebia? Como é que membros da equipe da
revista ousavam se voltar contra mim, gente que eu arrancara pessoalmente
da obscuridade? Achavam mesmo que Charlotte tinha a energia, a paciência
e o talento para produzir um novo número da revista a cada
mês? Que ingratidão!
Mas
foi por Julie que eu mais me senti traído. Como podia me
rejeitar por Charlotte? Eu acreditava no juramento que fizéramos
repeti-damente, sempre que ficávamos bêbados, prometendo
imorredoura leal-dade um ao outro. Havia algo absurdamente juvenil
na coisa - eu perdera a conta das vezes em que selamos esse pacto
furando nossos polegares e unindo nossos sangues - mas parecia real
para mim. Um juramento é um juramento é um juramento,
droga! Senti como se ela quebrasse um acordo sagrado.
Eu
estava nervoso quando Graydon Carter ligou. Como deveria levar a
coisa? Desejava desesperadamente o emprego mas não queria
que Gray-don me considerasse um cachorrinho de colo que corria sempre
que ele assobiasse.
-
Quanto vocês estão pensando em me pagar? - arrisquei.
Graydon
estava incrédulo.
-
Quanto? Quem é você, Woodward Bernstein, porra? Está
me dizendo que não virá por um mês a não
ser que eu lhe pague uma tonelada de dinheiro? Achei que você
queria isso. Ouça, eu não devia lhe dizer, mas Si
quer conhecê-lo. Ele não pede para conhecer muita gente,
você sabe.
Ah,
meu Deus! S.I. Newhouse Jr. queria me conhecer! O que é que
eu dissera? Comecei a pedalar para trás furiosamente.
-
Puxa, nossa, é uma honra. Eu adoraria conhecer Si. Não
me importo com o que você me pague. Na verdade...
-
Olhe, vou lhe pagar 10 mil dólares, está bem?
Agora
era a minha vez de assobiar. Se eu conseguisse encompridar essa
oferta num emprego de tempo integral, acabaria recebendo 120 mil
dólares por ano. Isso era quatro vezes o que eu ganhava em
1994.
-
Quando quer que eu comece?
-
Que tal em 5 de julho?
A
data ficava a quatro semanas dali. A idéia de me desenraizar
de Londres em menos de um mês era, francamente, ridícula.
Fora todo o resto, tinha que considerar minha namorada, Syrie Johnson.
Syrie tinha um emprego de tempo integral. Estaria preparada para
largar tudo e ir embora comigo? Eu duvidava disso.
-
Nenhum problema - disse eu.
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