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Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi (tradução de Tuca Magalhães; A Girafa; 502 páginas; 58 reais) – Ao narrar a paixão de um homem adulto por uma menina em Lolita, Vladimir Nabokov escandalizou muitos leitores ocidentais. Definitivamente, não é o tipo de livro que conquistaria leitores nas fileiras do fundamentalismo islâmico. Desafiando o cerceamento da teocracia iraniana, a professora de literatura inglesa Azar Nafisi reuniu um pequeno grupo de alunas em sua casa, em Teerã, para ler e discutir a obra-prima de Nabokov e outros clássicos ocidentais de Flaubert, Jane Austen, F. Scott Fitzgerald. Hoje radicada nos Estados Unidos, Azar conta neste livro sua experiência nessas aulas clandestinas e em sua acidentada passagem pelas repressivas universidades iranianas.

Leia trecho

Capítulo 1

No outono de 1995, depois de me demitir do meu último cargo acadêmico, decidi me dar um presente e realizar um sonho. Escolhi sete das minhas melhores e mais dedicadas alunas e as convidei para virem à minha casa, nas manhãs de quinta-feira, para discutirmos literatura. Todas eram mulheres - formar uma turma mista em casa era muito arriscado, mesmo se estivéssemos apenas discutindo inofensivas obras de ficção. Um jovem estudante persistente, embora barrado da nossa classe, insistiu nos seus direitos. Desse modo, Nima lia o material selecionado e me visitava em dias específicos para falar sobre os livros que líamos.

Freqüentemente provocava minhas alunas lembrando-as do livro A primavera da Srta. Jean Brodie, de Muriel Spark, e perguntavalhes: Qual de vocês vai me trair? Porque sou pessimista por natureza, e estava segura de que pelo menos uma delas se viraria contra mim.

Certa vez, Nassrin respondeu maliciosamente: a senhora mesma disse que, em última análise, somos nossos próprios traidores, representando Judas para nosso próprio Cristo. Manna observou que eu não era a Srta. Brodie, e que elas, bem, elas eram o que eram. Ela me relembrou uma advertência que eu gostava de fazer: não subestime, sob qualquer circunstância, uma obra de ficção, tentando transformá-la em carbono da vida real; o que buscamos na ficção não é tanto a realidade, mas a epifania da verdade. Suponho, porém, que se fosse agir contra a minha própria recomendação e escolher a obra de ficção que mais refletisse nossas vidas na República Islâmica do Irã, não seria A primavera da Srta. Jean Brodie, nem mesmo 1984, de George Orwell, mas talvez Invitation to a beheading (Convite para uma decapitação), de Nabokov, ou, melhor ainda, Lolita.

Na minha última noite em Teerã, dois anos após começarmos os seminários matinais das quintas-feiras, uns poucos amigos e alunos vieram dizer adeus e ajudar na mudança. Depois que despojamos a casa de todos os seus itens, quando todos os objetos e todas as cores esmaeceram dentro de oito malas cinzentas, como gênios erráticos reevaporando para dentro das suas garrafas, minhas alunas e eu nos postamos junto à nua parede branca da sala de jantar e tiramos duas fotografias.

Neste momento, vejo os dois retratos na minha frente. No primeiro, há sete mulheres de pé contra uma parede branca. Exceto pelo oval dos rostos e pelas mãos, elas estão completamente cobertas de acordo com a lei do país, trajadas com túnicas pretas e, sobre suas cabeças, lenços pretos. No segundo retrato, o mesmo grupo, na mesma posição, contra a mesma parede branca. Só que, neste, elas tiraram as túnicas negras e os véus. Manchas coloridas as separam umas das outras. Todas se diferenciaram - pela cor e estilo das roupas, pela cor e comprimento dos cabelos; nem mesmo as duas que mantiveram os lenços parecem as mesmas.

A jovem da extrema direita, na segunda fotografia, é nossa poeta, Manna, de jeans e camiseta branca. Ela compunha versos sobre coisas que os outros, em geral, nem percebiam. A fotografia não reflete a peculiar opacidade dos olhos escuros de Manna, testemunho do seu retraimento e da sua natureza íntima.

Ao lado de Manna está Mahshid, cujo longo lenço negro se choca com suas feições delicadas e sorriso reservado. Mahshid era boa em muitas coisas; um certo refinamento em sua pessoa fez com que nos puséssemos a chamá-la de "my lady". Nassrin costumava dizer que, mais do que definir Mahshid, tínhamos conseguido acrescentar uma outra dimensão à palavra lady. Mahshid é muito sensível. Ela é como uma porcelana, Yassi me disse certa vez, fácil de quebrar. É por isso que parece frágil para os que não a conhecem muito bem, mas infeliz de quem a ofender. Quanto a mim, Yassi continuou bem-humorada, eu sou como um bom plástico velho; não quebrarei, não importa o que façam comigo.

Yassi era a mais jovem do grupo. Ela é a que está de amarelo, inclinada para frente, explodindo de rir. Costumávamos, implicantemente, chamá-la de nossa comediante. Yassi era tímida por natureza, mas certas coisas a animavam e a faziam perder suas inibições. Ela possuía um tom de voz que, com gentileza, ridicularizava e questionava não somente os outros, mas sobretudo a si mesma.

Eu sou a de marrom, ao lado de Yassi, com um braço em volta dos seus ombros. Bem atrás de mim está Azin, minha aluna mais alta, com seu longo cabelo louro e uma camiseta cor-de-rosa. Ela ri como o resto de nós. Os sorrisos de Azin nunca pareceram sorrisos; sempre desabrocharam mais como prelúdio para uma irreprimível e nervosa hilaridade. Ela resplandecia daquela maneira peculiar, mesmo quando contava o último problema que tivera com o marido. Sempre escandalosa e sem papas na língua, Azin sentia prazer em chocar pelas suas atitudes e pelos seus comentários, e freqüentemente entrava em conflito com Mahshid e Manna. Nós a apelidamos de "a selvagem".

Do meu outro lado está Mitra, talvez a mais calma de todas. Como as cores pastéis dos seus quadros, ela parecia recuar e desaparecer gradualmente num registro mais mortiço. Sua beleza tornou-se imprevisível por causa de um par de covinhas miraculosas, que ela podia usar, e usava, para levar muitas vítimas insuspeitas a se dobrarem à de sua vontade.

Sanaz, pressionada pela família e pela sociedade, vacilava entre o desejo de independência e sua necessidade de aprovação; é ela quem segura o braço de Mitra. Nós todas estamos sorrindo. Nima, marido de Manna e meu genuíno crítico literário - se pelo menos ele perseverasse em concluir os brilhantes ensaios que começava a escrever -, é nosso parceiro invisível, o fotógrafo.

Havia mais alguém: Nassrin. Ela não está nas fotografias - ela não foi até o fim. Mas minha história ficaria incompleta sem aquelas que não puderam, por um motivo ou outro, permanecer conosco. Suas ausências persistem, como uma dor aguda que parece não possuir origem física. Assim é Teerã para mim: suas ausências são mais reais que suas presenças.

Quando vejo Nassrin com os olhos da minha mente, ela está levemente fora de foco, enevoada, de algum modo distante. Revi muitas fotos que minhas alunas tiraram comigo ao longo dos anos, e Nassrin está em muitas delas, mas sempre escondida atrás de alguma coisa - de uma pessoa, de uma árvore. Em uma delas, estou junto a oito alunas, num pequeno jardim diante do prédio da nossa faculdade, cenário, ao longo dos anos, de tantas fotografias de despedida. No fundo da cena existe um frondoso salgueiro. Estamos rindo e Nassrin aparece de relance, numa das pontas, atrás de uma aluna mais alta, como um diabrete que se intromete travessamente numa cena para a qual não foi convidado. Numa outra, mal consigo distinguir seu rosto no pequeno espaço em V entre os ombros de duas meninas. Nessa, ela parece absorta; está carrancuda, como se não percebesse que estava sendo fotografada.

Como posso descrever Nassrin? Uma vez chamei-a de gato de Cheshire, aparecendo e desaparecendo nas inesperadas reviravoltas da minha vida acadêmica. A verdade é que não consigo descrevê-la: ela mesma era sua própria definição. Pode-se apenas dizer que Nassrin era Nassrin.

Durante cerca de dois anos, quase todas as quintas-feiras pela manhã, com chuva ou com sol, elas vinham à minha casa e, em quase todas as vezes, eu não conseguia me recuperar do choque de vê-las tirar suas obrigatórias túnicas e véus, e explodir em cores. Quando entravam na sala, minhas alunas despiam mais que véus e túnicas. Gradualmente, cada uma delas ganhava um contorno e uma forma, tornava-se seu próprio ser inimitável. Nosso mundo, naquela sala com sua janela emoldurando minhas adoradas Montanhas Elburz, tornava-se nosso santuário, nosso universo auto-suficiente, zombando da realidade de véus negros e de rostos tímidos, na cidade que se espalhava abaixo.

O tema da aula era a relação entre a ficção e a realidade. Líamos literatura persa clássica, como os contos da nossa própria dama da ficção, Scherazade, de As mil e uma noites, e os clássicos ocidentais - Orgulho e preconceito, Madame Bovary, Daisy Miller, Dezembro fatal e, sim, Lolita. Enquanto escrevo o título dos livros, as memórias rodopiam com o vento para perturbar a quietude deste outono em outra sala, em outro país.

Aqui e agora, neste outro mundo que aflorou tantas vezes em nossas discussões, sento e me imagino e às minhas alunas outra vez, minhas meninas, como acabei por chamá-las, lendo Lolita numa sala enganosamente ensolarada, em Teerã. Mas, para roubar as palavras de Humbert, o poeta/criminoso de Lolita, preciso que você, leitor, nos imagine, porque realmente não existimos se você não existir. Contra a tirania do tempo e da política, nos imagine da maneira como não ousaríamos, algumas vezes, imaginar a nós mesmas: em nossos momentos mais íntimos e secretos, nas instâncias mais extraordinariamente comuns da vida, escutando música, nos apaixonando, caminhando por ruas sombrias, ou lendo Lolita em Teerã. E depois nos imagine novamente com tudo isso confiscado, impelido para os porões da vida, extirpado de nós.

Se hoje escrevo sobre Nabokov, é para celebrar nossa leitura de Nabokov em Teerã, contra todas as probabilidades. Entre todos os seus romances, escolhi aquele sobre o qual lecionei por último, e aquele que está vinculado a tantas lembranças. É sobre Lolita que quero escrever, mas, neste momento, não existe um modo como eu consiga escrever sobre o romance sem também escrever sobre Teerã. Esta, então, é a história de Lolita em Teerã, como Lolita propiciou uma cor diferente a Teerã, e como Teerã ajudou a redefinir o romance de Nabokov, transformando- o nesta Lolita, a nossa Lolita.


 
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