Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Sementes Mágicas, de V.S. Naipaul (tradução de Alexandre Hubner; Companhia das Letras; 264 páginas; 45 reais) – De nacionalidade britânica, ascendência indiana e nascido na ilha de Trinidad, no Caribe, Naipaul tece seus livros em torno do emaranhado cultural que marca sua própria biografia. Mas não espere o celebratório discurso do "multiculturalismo": o exílio, o deslocamento e o choque são as experiências fundamentais de personagens como Willie Chandran, protagonista de Meia Vida que retorna nesse novo romance. Em Sementes Mágicas, Chandran, instigado por sua irmã esquerdista, embrenha-se na zona rural da Índia para se engajar em uma guerrilha revolucionária. Suas andanças com esse bando, porém, são uma crônica de fracasso, tédio e crime.

Leia trecho

Mais tarde - na floresta de teca, no primeiro acampamento, quando ele, na primeira noite que passou montando guarda, se surpreendeu em certos momentos desejando apenas chorar, e quando, com o alívio da aurora, sobreveio também o impressionante grito de um pavão longínquo, o grito que os pavões proferem às primeiras horas da manhã, depois de terem tomado seu primeiro gole d’água em algum lago da floresta: um grito áspero, cortante, que devia falar de um mundo revigorado e refeito, mas que após a demorada noite ruim parecia falar apenas de tudo o que se havia perdido, homem, ave, floresta, mundo; e então, quando aquele acampamento se tornou uma lembrança romântica, nos entorpecentes anos da guerrilha, sempre em marcha, na floresta, nas aldeias, nas cidadezinhas, quando viajar disfarçado muitas vezes dava a impressão de ser um fim em si e durante a maior parte do dia era possível esquecer o propósito mesmo do disfarce, quando ele se sentia decaindo intelectualmente, quando notava a desintegração de partes de sua personalidade; e depois, na prisão, com aquela sua ordem abençoada, seus horários rígidos, suas normas mantenedoras, a renovação que aquilo lhe proporcionava -, mais tarde lhe foi possível determinar as etapas que ele percorrera ao passar do que teria chamado de mundo real a todas as subseqüentes áreas de irrealidade: passando, por assim dizer, de um compartimento estanque do espírito para outro.

1

OS VENDEDORES DE ROSAS

Tinha começado muitos anos antes, em Berlim. Era outro mundo. Ele levava uma vida provisória, em suspenso, no apartamento de sua irmã Sarojini. Depois de seus anos de África, fora um conforto enorme a proteção oferecida por esse novo tipo de vida, fazendo dele quase um turista, livre de exigências e ansiedades. Aquilo tinha de acabar, claro; e começou a acabar no dia em que Sarojini disse: "Faz seis meses que você está aqui. Não sei se conseguirei renovar seu visto novamente. Você sabe o que isso significa. Talvez não possa continuar aqui. E não adianta reclamar. Precisa começar a pensar em se mudar. Tem idéia de um lugar para onde possa ir? Tem algo que queira fazer?".

Disse Willie: "Estou a par desse problema do visto. Tenho pensado nisso".

Disse Sarojini: "Sei o que você quer dizer quando fala que está pensando num assunto. É sinal de que o guardou a sete chaves em algum lugar da cabeça".

Disse Willie: "Não sei o que fazer. Não sei para onde ir".

"Você nunca achou que precisava fazer o que quer que fosse. Nunca se deu conta de que os homens precisam fazer o mundo para si próprios."

"Tem razão."

"Não fale assim comigo. É desse jeito que a classe opressora pensa. Só têm de ficar firmes no lugar para que o mundo continue do jeito que eles gostam."

Disse Willie: "Você não me ajuda em nada quando distorce as coisas. Sabe muito bem o que eu quis dizer. Tenho a sensação de ter sido vítima do destino. O que eu poderia ter feito na Índia? O que poderia ter feito na Inglaterra em 1957 ou em 1958? E na África?".

"Dezoito anos na África. Coitada da sua mulher. Ela achou que tivesse arrumado um homem. Devia ter falado comigo."

Disse Willie: "Sempre fui um sujeito deslocado. Continuo sendo. O que vou fazer aqui em Berlim?".

"Você é deslocado porque quer. Sempre preferiu se esconder. É a psicose do colonizado, a psicose do homem de casta. Puxou seu pai. Passou dezoito anos na África. Havia um movimento guerrilheiro formidável lá. Sabia disso?"

"Era muito longe de onde eu estava. Foi uma guerra travada às escondidas, até os últimos momentos."

"Foi uma guerra grandiosa. Pelos menos no princípio. Quando a gente pensa no que foi aquilo, fica com lágrimas nos olhos. Um povo pobre e desamparado, escravizado em sua própria terra, começando do nada em todos os sentidos. E o que você faz? Vai procurá-los? Junta-se a eles? Tenta ajudá-los? Era uma causa boa o bastante para qualquer um que estivesse atrás de uma causa. Mas não. Você continua na sua fazenda, ao lado da sua adorável mulherzinha mestiça, tampa os ouvidos com o travesseiro e torce para que nenhum guerrilheiro negro malvado entre à noite na casa e o amedronte com seu fuzil e suas botas pesadas."

"Não foi assim, Sarojini. Lá no fundo, no meu íntimo, sempre estive do lado dos africanos, mas eu não tinha uma guerra para travar."

"Se todo mundo dissesse isso, nunca haveria revolução em lugar nenhum. Todos nós temos guerras para travar."

Estavam num café na Knesebeckstrasse. No inverno, Willie achara o lugar quente, vaporoso, civilizado - estudantes trabalhavam como garçons e garçonetes - e acolhedor. Agora que o verão chegava ao fim, achava-o rançoso e opressivo, seus rituais já muito batidos, uma advertência a Willie - a despeito do que Sarojini dizia - do tempo que passava improdutivamente, evocando o misterioso soneto que eles haviam sido obrigados a decorar na escola missionária. E esse tempo arredado no entanto era verão...

Um jovem tâmil entrou, vendendo rosas vermelhas. Sarojini fez um pequeno gesto com a mão e pôs-se a vasculhar a bolsa. O tâmil se aproximou e estendeu-lhes as rosas, porém evitando olhá-los nos olhos. Repelia qualquer parentesco com eles. Era cheio de si, o vendedor de rosas, perfeitamente convencido de seu valor. Sem encarar o homem, concentrando-se em suas calças marrons (feitas por um alfaiate de uma terra distante) e na pulseira e no relógio, ambos enormes e folheados a ouro (talvez não fosse efetivamente ouro), que ele tinha no braço peludo, Willie percebeu que, em seu próprio meio, o vendedor de rosas seria alguém insignificante, invisível. Ali, num meio que talvez ele compreendesse tão mal quanto Willie, um meio que ainda não aprendera a ver, era como um homem desgarrado de si mesmo. Tornara-se alguém diferente.

Willie conhecera um sujeito assim algumas semanas antes, num dia em que saíra à rua sozinho. Estava parado diante de um restaurante sul-indiano vazio, com algumas moscas rastejando na vitrine, em cima dos vasos de plantas e dos pratos artificiais de arroz e dosas, com garçons baixotes, de aspecto amador (talvez não fossem de fato garçons, talvez fossem outra coisa, quem sabe eletricistas ou contadores, imigrantes ilegais recém-chegados), à espreita, na penumbra que havia lá dentro, a qual contrastava com o brilho barato da idéia que alguém fizera de como seria uma decoração oriental. Um indiano ou tâmil aproximara-se de Willie. Era rechonchudo, embora não fosse gordo, tinha um rosto redondo e um boné cinza, com uma estampa de linhas azuis finas, espaçadas umas das outras, como os bonés de golfe Kangol que Willie se lembrava de ver anunciados nas páginas finais dos primeiros livros da editora Penguin: talvez ele houvesse se inspirado naqueles velhos anúncios.

O sujeito pôs-se a falar sobre o formidável movimento guerrilheiro em vias de eclodir. Willie mostrou-se interessado, até afável. Gostou daquele rosto rechonchudo, sorridente. O boné o cativava. E também a conversa conspiratória e a idéia que ela comunicava, de um mundo prestes a ser surpreendido. Mas quando o homem mencionou a enorme necessidade de dinheiro, quando insistiu nisso, Willie ficou incomodado, depois assustado, e começou a se afastar da vitrine com as moscas enclausuradas e sonolentas. E, apesar de o sujeito continuar dando a impressão de sorrir, de seus lábios macios saiu uma longa, cruel e profunda praga religiosa, proferida em tâmil, que Willie entendeu parcialmente, e assim que essa praga foi proferida, o sorriso do sujeito se desfez e, sob o boné de golfe com o xadrez azul, seu rosto estampou uma careta de ódio feroz.

O súbito emprego do tâmil sobressaltou Willie, a velha praga religiosa em que o sujeito depositara toda sua fé religiosa, aquele ódio profundo e abrupto, qual a estocada de uma navalha. Não contou a Sarojini sobre o encontro com o homem. O hábito de guardar as coisas para si mesmo o acompanhava desde a infância, em casa e na escola; entranhara-se ainda mais nos anos que ele passara em Londres, e tornara-se parte intrínseca de sua natureza nos dezoito anos que vivera na África, quando Willie precisara ocultar tantas obviedades de si mesmo. Consentia que as pessoas lhe falassem coisas que ele estava cansado de saber, e fazia-o não por maldade, não devido a nenhum plano estabelecido, mas em virtude do desejo de não ofender, de deixar que tudo se desenrolasse sem percalços.

Sarojini deixou a rosa ao lado do prato. Seguiu com os olhos o vendedor de rosas enquanto ele caminhava por entre as mesas. Quando ele saiu do café, ela disse para Willie: "Não sei o que você sente em relação àquele homem. Mas ele vale bem mais que você".

Disse Willie: "Claro".

"Não me provoque. Esse jeito dissimulado de falar pode dar certo com estranhos. Não comigo. Sabe por que aquele homem vale mais que você? Porque descobriu que tem uma guerra para travar. Poderia ter dito que tinha outras coisas para fazer. Poderia ter dito que tinha uma vida para viver. Poderia ter dito: ‘Estou em Berlim. Custou muito chegar até aqui. Aquelas falsificações todas, os vistos, tanto tempo vivendo às escondidas. Mas agora acabou. Consegui fugir do lugar onde nasci e de tudo o que eu fui. Agora vou fingir que pertenço a este lugar novo e rico. Vou assistir à televisão, vou me familiarizar com os programas estrangeiros e vou colocar na cabeça que isso é algo realmente meu. Irei à kdw e freqüentarei os restaurantes. Aprenderei a beber uísque e vinho e logo estarei contando meu dinheiro, dirigindo meu carro, sentindo que sou como todas aquelas pessoas das propagandas. Chegarei à conclusão de que, no fundo, não é tão difícil assim fazer a transição de um mundo para o outro e terei a sensação de que é assim que deve ser para todos nós’. Ele podia ter chegado a essas conclusões falsas e obscenas. Porém viu que tinha uma guerra para travar. Não reparou, Willie? Ele não olhou para nós. É claro que sabe de onde somos. Sabe da proximidade que há entre nós e ele, mas nos tratou com desprezo. Colocou-nos na categoria dos enganadores."

Disse Willie: "Talvez ele tenha ficado com vergonha por ser tâmil e estar vendendo rosas a essas pessoas na nossa presença".

"Não parecia envergonhado. Aquele rapaz tinha o ar de alguém que tem uma causa, o ar de quem está à parte. É algo que você poderia ter observado na África, se soubesse ver. Esse homem está vendendo rosas em Berlim, mas em algum lugar muito longe daqui essas rosas estão se transformando em armas. É assim que são feitas as revoluções. Estive em alguns acampamentos. Eu e Wolf estamos fazendo um filme sobre eles. Em breve ouviremos muitas notícias a respeito deles. Não há no mundo um exército guerrilheiro tão disciplinado. São ferozes, dão medo. E, se você conhecesse melhor sua própria história, compreenderia o milagre que é isso."

 

Outro dia, no zoológico, em meio ao cheiro horrível dos animais selvagens mantidos ociosamente em cativeiro, ela disse: "Tenho de falar a você sobre a nossa história. De outro modo, vai achar que eu sou louca como o tio de nossa mãe. Toda a história que você e pessoas como você conhecem sobre nosso país vem de um livro britânico, escrito no século xix por um sujeito chamado Roper Lethbridge, um inglês que foi inspetor escolar na Índia. Sabia disso? Foi o primeiro grande livro didático de história da Índia e foi publicado na década de 1880, pela editora britânica Macmillan. Ou seja, somente vinte e poucos anos após o Motim, e é claro que era uma obra imperialista, além de ser um livro para vender e dar dinheiro. Mas também era um trabalho de relativa erudição, à maneira britânica, e fez muito sucesso. Nunca houvera nada parecido na Índia, nenhum método de ensino como aquele, nenhum adestramento naquele tipo de história. O livro de Lethbridge teve várias reedições e forneceu muitas das idéias que ainda temos sobre nós mesmos. Dentre elas, uma das mais importantes era a de que, na Índia, havia raças servis, pessoas que nasciam para ser escravas, e raças marciais. As marciais eram boas, as servis não. Eu e você pertencemos, por parte de mãe, à raça servil. Aposto que sabe disso. E aposto que aceita parcialmente isso. É o motivo de ter levado a vida que levou. Os tâmiles que vendem rosas em Berlim pertencem integralmente às raças servis. Essa idéia foi gravada neles das mais variadas formas. E essa idéia britânica sobre a divisão da Índia em raças servis e marciais é completamente equivocada. O exército que a Companhia Britânica das Índias Orientais mantinha no Norte da Índia era composto de hindus de castas superiores. Foi esse o exército que levou as fronteiras do Império Britânico quase até o Afeganistão. Contudo, após o Grande Motim de 1857, esse exército hindu teve seu status rebaixado. Seus integrantes não encontravam mais oportunidades de avanço na carreira militar. Assim, na propaganda britânica, os soldados que haviam expandido o império tornaram-se servis e os povos da fronteira, que eles próprios haviam vencido pouco antes do Motim, tornaram-se marciais. É desta forma que os imperialismos funcionam. É isso que acontece aos povos cativos. E como na Índia não temos noção de história, rapidamente esquecemos nosso passado e sempre acreditamos no que nos dizem. Quanto aos tâmiles do Sul, a nova ordenação britânica dizia que eram sujos. Eram escuros e não tinham inclinação para a guerra; só serviam para trabalhar. Eram enviados como servos para as plantações da Malásia, do Ceilão e de outros lugares. Esses tâmiles que vendem rosas em Berlim a fim de comprar armas tiveram de tirar das costas todo um peso de história e propaganda. Transformaram-se num povo verdadeiramente marcial, e fizeram-no contra todas as probabilidades. Você devia sentir admiração por eles, Willie".

E à sua maneira imperturbável, Willie escutava; em meio ao cheiro desagradável daqueles animais infelizes, escutava e não dizia nada. Sarojini era sua irmã. Ninguém no mundo o compreendia tão bem. Ela compreendia cada recanto de suas fantasias; compreendia tudo o que acontecera em sua vida na Inglaterra e na África, ainda que no decorrer daqueles vinte anos só tivessem se encontrado uma vez. Willie tinha a sensação de que, mesmo que não trocassem nem uma palavra, ela, que se desenvolvera em tantos sentidos, seria capaz de compreender até os detalhes físicos de uma vida sexual como a que ele tivera. Nada permanecia oculto a ela; e mesmo quando se encontrava em seu ânimo mais revolucionário, vulgar e prepotente, dizendo coisas que já dissera inúmeras vezes, mesmo então ela era capaz de, acrescentando uma frase aqui, outra ali, evocar certos aspectos do passado singular que os dois haviam compartilhado e tocar em coisas dentro de Willie que ele teria preferido esquecer.

Ele não dizia nada quando ela falava, mas prestava atenção em tudo o que ela dizia. Em Berlim, aos poucos se deu conta de algo nela que nunca notara. Embora não se cansasse de falar em injustiças e crueldades e na necessidade de uma revolução, apesar de brincar com quadros vivos de sangue e carnificina em cinco continentes, Sarojini parecia estranhamente serena. Perdera o azedume e a agressividade que a caracterizava no início da vida. Sarojini passara anos definhando no ashram da família, sem ter o que almejar além de piedade e subserviência; e muitos anos depois de ter partido de lá, aquela vida funesta no ashram - a oferta de curas falsas aos humildes e necessitados - continuava a rondá-la, como se fosse algo a que talvez tivesse de voltar caso as coisas com Wolf dessem errado.

Ela já não experimentava aquela ansiedade. Assim como aprendera a vestir-se para enfrentar o clima frio e se fizera atraente (os dias de malhas e meias de lã com um sári tinham ficado muito para trás), também as viagens, os estudos, a política da revolução e sua tranqüila vida partida ao meio com o fotógrafo pouco exigente pareciam ter lhe proporcionado um sistema intelectual completo. Nada mais a surpreendia ou a magoava. Sua visão do mundo era capaz de absorver tudo: assassinatos políticos na Guatemala, revolução islâmica no Irã, tumultos e conflitos entre castas na Índia e mesmo os roubos triviais praticados por uma questão de hábito ou princípio de comerciante pelo dono do depósito de bebidas em Berlim, quando entregava suas encomendas no apartamento, sempre com duas ou três garrafas de vinho a menos ou trocadas, os preços adulterados por meio de estratagemas complexos, desconcertantes.

Dizia ela: "É isso que acontece em Berlim Ocidental. Estão no fim de um corredor aéreo e tudo aqui é subsidiado. Por isso gastam energia com esse tipo de ratonice. É o grande fiasco do Ocidente. Ainda vão se dar conta disso".

A própria Sarojini, por intermédio de seu fotógrafo, vivia de um subsídio oferecido por algum órgão do governo alemão-ocidental. De modo que sabia do que estava falando; e não estava nem aí.

Ao receber mais uma caixa de vinho e cerveja, dizia: "Vejamos o que o patife aprontou dessa vez".

A Sarojini que ele deixara para trás na Índia, fazia vinte anos ou mais, nunca teria sido capaz de nada parecido com isso. E era a essa sua nova serenidade, a esse seu linguajar novo e elegante que ele cada vez mais se via reagindo em Berlim. Willie olhava a irmã com admiração. Assombrava-o e excitava-o que fosse sua irmã. Após seis meses com ela - os dois nunca haviam passado tanto tempo juntos depois de adultos -, o mundo começou a mudar para ele. Assim como sentia que ela era capaz de penetrar todas as suas emoções, inclusive suas necessidades sexuais, assim também ele começou a penetrar a maneira que ela tinha de ver as coisas. Havia lógica e ordem em tudo o que ela dizia.

E Willie viu, coisa que em seu íntimo ele agora tinha a impressão de sempre ter sabido, embora jamais o houvesse aceitado, Willie viu que havia os dois mundos de que Sarojini falava. Um deles era ordenado, firmemente estabelecido, suas guerras travadas. Nesse mundo sem guerras nem perigos de verdade as pessoas haviam se simplificado. Assistiam à televisão e encontravam as comunidades a que queriam pertencer; comiam e bebiam coisas certificadas; e contavam seu dinheiro. No outro mundo, as pessoas eram mais frenéticas. Estavam desesperadas por entrar no mundo mais simples e ordenado. Contudo, embora permanecessem à margem de uma centena de lealdades, os resíduos da velha história as agrilhoavam; centenas de pequenas guerras as enchiam de ódio e dissipavam suas energias. No ambiente livre e agitado da Berlim Ocidental, tudo parecia fácil. Mas não muito longe dali havia uma fronteira artificial, e para lá dessa fronteira havia constrições e outro tipo de gente. Nas antigas ruínas de grandes edifícios, cresciam ervas e por vezes árvores; em toda parte, estilhaços e bombas haviam penetrado as pedras e o estuque.

Os dois mundos coexistiam. Era idiotice fingir que não. E agora Willie sabia com clareza a qual deles pertencia. Parecera-lhe natural, vinte anos antes, na Índia, querer esconder-se. Tudo o que adviera desse desejo agora lhe parecia vergonhoso. Sua meia vida em Londres; e depois, toda sua vida na África, aquela vida em que ele se esmerava por permanecer parcialmente oculto, aferindo seu sucesso pelo fato de que em seu grupo de segunda classe, formado por portugueses mestiços, não se sobressaía muito, era "passável"; toda aquela vida parecia vergonhosa.

Um dia Sarojini trouxe para o apartamento um exemplar do Herald Tribune. O jornal estava dobrado de maneira a exibir uma reportagem em particular. Mostrou-a para ele e disse: "É sobre o lugar em que você vivia".

Disse Willie: "Por favor, não me interessa. Já lhe disse".

"Precisa começar a se interessar."

Ele pegou o jornal e disse com seus botões, pronunciando o nome da mulher: "Ana, me perdoe". Mal chegou a ler o que estava escrito na reportagem. Não precisava. Reviveu tudo mentalmente. A guerra civil tornara-se verdadeiramente sangrenta. Não havia movimento de tropas; apenas ataques súbitos, homens que atravessavam a fronteira para queimar, matar, aterrorizar e depois voltar. Havia uma foto de prédios de concreto branco com os telhados incendiados e marcas de fumaça delineando as janelas vazias: a arquitetura simples das colônias rurais já transformada em ruína. Pensou nas estradas que conhecia, nos cones de rocha azul, na cidadezinha litorânea. Todos por lá fingiam que o mundo se tornara um lugar seguro; mas em seu íntimo sabiam que a guerra estava se aproximando e que um dia as estradas desapareceriam.

Certa feita, quando o conflito estava no princípio, eles tinham feito essa brincadeira no almoço de domingo. Vamos supor, haviam dito, que estivéssemos isolados do resto do mundo. Imaginemos como seria viver aqui sem que nos chegasse nada de fora. A primeira perda, claro, seriam os carros. Depois não haveria mais remédios. Ficaríamos sem roupas. Sem eletricidade. E assim, durante o almoço, com os meninos uniformizados e os carros com tração nas quatro rodas estacionados no pátio de areia, eles tinham feito essa brincadeira, imaginando uma situação de privação. E tudo aquilo acabara acontecendo.

Willie, muito envergonhado em Berlim ao refletir sobre seu comportamento na África, pensou: "Não posso mais me esconder. Sarojini tem razão".

Todavia, como era seu costume, não contou a ela o que estava pensando.

 

Uma tarde, caminhavam sob as árvores de uma das grandes avenidas comerciais da cidade. Willie parou em frente à loja Patrick Hellmann para olhar as roupas Armani expostas na vitrine. Vinte anos antes, ele não sabia nada sobre roupas, não entendia de tecidos nem de cortes; agora era diferente.

Disse Sarojini: "Quem você acha que é a pessoa mais importante do mundo?".

Disse Willie: "Armani é bem importante, mas acho que não é isso que você quer que eu diga. É outra coisa, não é?".

"Tente."

"Ronald Reagan."

"Sabia que ia dizer isso."

Disse Willie: "Foi uma provocação".

"Não, não. Tenho certeza que é isso que você pensa. Mas eu não quis dizer poderoso. Falei importante. O nome Kandapalli Seetaramiah significa alguma coisa para você?"

"É ele o mais importante?"

"Um homem importante não é necessariamente um homem poderoso. Lênin não era poderoso em 1915 ou 1916. Na mi-nha visão das coisas, um homem importante é alguém capaz de mudar o curso da história. Quando, daqui a cem anos, a história definitiva da revolução do século xx for escrita e vários preconceitos etnocêntricos tiverem sido descartados, Kandapalli estará lá, ao lado de Lênin e Mao. Disso não tenho a menor dúvida. E você nem ouviu falar dele. Eu sei."

"Ele faz parte do movimento tâmil?"

"Ele não é tâmil. Mas Kandapalli e o movimento tâmil são elementos do mesmo processo regenerativo em curso no mundo. Se eu conseguisse fazê-lo acreditar nesse processo, você seria outra pessoa."

Disse Willie: "Não sei nada sobre a história francesa além da tomada da Bastilha. Mas ainda me lembro de alguma coisa a respeito de Napoleão. Tenho certeza de que compreenderia Kandapalli se você me explicasse".

"Será? A importância extraordinária de Kandapalli como revolucionário se deve ao fato de que ele deu fim à linha Lin Piao."

Disse Willie: "Você está indo rápido demais para mim".

"Você está querendo me tirar do sério. Está se fazendo de bobo. É claro que conhece Lin Piao. O mundo inteiro conhece Lin Piao. Foi ele quem teve a idéia de liquidar os inimigos de classe. No começo, parecia simples e excitante o caminho a ser seguido. Na Índia, ainda havia o atrativo de ser algo que vinha da China, e pensamos que isso nos colocava lado a lado com os chineses. Na realidade, foi o fim da revolução. A linha Lin Piao transformou a revolução num teatro da classe média. Jovens exibicionistas da classe média urbana usando roupas de camponeses, escurecendo a pele com suco de nozes, juntando-se a gangues de marginais, pensando que fazer a revolução significava matar policiais. A polícia não teve a menor dificuldade em acabar com eles. As pessoas nesse tipo de movimento sempre subestimam a polícia, não sei por quê. Deve ser porque se superestimam demais.

"Isso tudo aconteceu quando você estava na África, onde estava sendo travada uma guerra de verdade. Mais tarde, as pessoas daqui disseram que tínhamos perdido uma geração inteira de jovens revolucionários brilhantes e que jamais seríamos capazes de substituí-los. Eu mesma tinha essa sensação e passei muitos meses deprimida. Na Índia, o progresso intelectual é vagaroso. Isso é uma coisa que você está cansado de saber. O trabalhador rural sem-terra vai para a cidade, e é possível que seu filho se torne um escriturário. O filho do escriturário talvez consiga chegar ao ensino superior, e o filho dele se forma médico ou cientista. Por isso lamentávamos tanto. Tinham sido necessárias várias gerações para o surgimento de um exército de talentos revolucionários, e a polícia em pouco tempo destruíra a luta e o desenvolvimento intelectual de cinqüenta ou sessenta anos. Era terrível pensar nisso.

"Vou explicar a sensação. Às vezes, durante uma tempestade, caem algumas árvores velhas muito bonitas. Você não sabe o que fazer. A primeira coisa que sente é raiva. Começa a procurar um inimigo. Então, muito rapidamente se dá conta de que a raiva, por mais reconfortante que seja, é inútil, percebe que não há do que nem de quem sentir raiva. É preciso encontrar outra maneira de lidar com a perda. E era assim que eu me sentia, oca e infeliz, quando ouvi falar de Kandapalli. Acho que nunca tinha ouvido falar dele antes. Ele proclamava uma nova revolução. Dizia que aquela conversa sobre a perda de uma geração de revolucionários brilhantes era choradeira sentimentalóide. Não eram particularmente brilhantes, não tinham uma formação das melhores nem sequer chegavam a ser bons revolucionários. Se fossem, não se teriam deixado enganar pela estupidez da linha Lin Piao. Não, dizia Kandapalli, tudo o que sucedera fora que havíamos tido a sorte de perder uma geração de tolos semi-analfabetos e autocentrados.

"Isso me deixou bastante magoada. Eu e Wolf havíamos trabalhado muito com os revolucionários. Conhecíamos alguns deles pessoalmente. Mas a brutalidade das palavras de Kandapalli me fez refletir sobre certas coisas que eu havia notado, porém deixara de lado. Lembrei do homem que viera nos ver no hotel. Era um sujeito absurdamente vaidoso. Queria que soubéssemos como era bem relacionado no exterior. Quando lhe oferecemos um drinque, ele disse com a maior cara-de-pau que queria uma dose tripla de uísque importado. Naquele tempo, o uísque importado custava três ou quatro vezes mais que o indiano. Ele estava pedindo uma coisa caríssima. E então, com uma espécie de auto-satisfação, ficou nos encarando para ver nossa reação. Achei-o desprezível, mas, obviamente, tínhamos sido treinados para controlar nossas expressões. E é claro que o uísque triplo foi demais para ele.

"Refleti sobre isso e sobre outras coisas, e então minha mágoa inicial com as palavras de Kandapalli deu lugar ao deslumbramento com o brilhantismo e a simplicidade de sua análise. Ele proclamava o fim da linha Lin Piao. Em seu lugar, anunciava a Linha das Massas. A revolução tinha de vir de baixo, dos vilarejos, do povo. Nesse movimento não havia lugar para os farsantes da classe média. E por incrível que pareça, das ruínas daquela revolução falsa, Kandapalli já pôs em andamento uma verdadeira revolução. Libertou áreas enormes. Mas, ao contrário dos que o precederam, não gosta de publicidade.

"Não foi nada fácil conseguir um encontro com ele. Os mensageiros eram desconfiados. Formavam uma rede de informações. Não queriam se envolver conosco. Por fim, passamos vários dias andando na floresta. Eu tinha a impressão de que não estávamos indo a lugar nenhum. Mas finalmente, uma tarde, quando já era quase hora de montarmos acampamento para passar a noite, chegamos a uma pequena clareira. A luz do sol incidia de um jeito muito bonito sobre uma comprida choupana de barro com telhado de sapê. Em frente, via-se um campo de mostarda parcialmente ceifado. Essa era a base de Kandapalli. Uma delas. Após todo aquele drama, encontramos um homem simples. Era baixo e escuro. Um professor primário, sem qualificações. Um homem nascido em Warangal. Nas ruas de uma cidade, ninguém repararia nele. Warangal é um dos lugares mais quentes da Índia, e quando ele começou a falar sobre os pobres, seus olhos ficaram marejados e ele tremia."

 

Foi assim que, nas últimas semanas do verão em Berlim, teve início um novo tipo de vida emocional para Willie.

Disse Sarojini: "Todas as manhãs, quando se levantar, você deve pensar não só em si mesmo, mas também nos outros. Pense em algo que esteja próximo de você aqui. Pense em Berlim Oriental, nas ruínas cobertas de mato, nas marcas deixadas nas paredes pelos bombardeios de 1945, nas pessoas hoje em dia, caminhando cabisbaixas pelas ruas. Pense naquele lugar da África em que você viveu. Talvez não queira se lembrar da coitada da Ana, mas pense na guerra que havia por lá. E que continua a ser travada. Pense na sua casa. Tente imaginar Kandapalli na floresta. São lugares reais, com pessoas reais".

Noutro dia ela disse: "Fui intolerante com você vinte anos atrás. Eu o censurava demais. Era uma tola. Sabia tão pouco. Não tinha lido quase nada. Só conhecia a história de nossa mãe e sabia do tio radical que ela tinha. Agora percebo que você era como Mahatma Gandhi, e não podia ser senão quem você era".

Disse Willie: "Ah, meu Deus. Gandhi - isso nunca teria me passado pela cabeça. Ele está a léguas e mais léguas de distância de mim".

"Achei que isso o deixaria surpreso. Mas é verdade. Quando tinha dezoito ou dezenove anos, Gandhi foi estudar direito na Inglaterra. Vivia como um sonâmbulo em Londres. Não tinha meios de compreender aquela cidade extraordinária. Mal sabia o significado das coisas que via. Não conhecia a arquitetura nem os museus, não fazia idéia dos grandes escritores e políticos que a cidade ocultava na década de 1890. Acho que não foi sequer uma vez ao teatro. Só conseguia pensar no curso de direito, na comida vegetariana, em cortar seu próprio cabelo. Assim como Vishnu flutuava no oceano primevo do não-ser, assim também, na Londres de 1890, Gandhi flutuava num oceano de não-ver e não-saber. Ao cabo de três anos levando essa meia vida, ou esse um quarto de vida, ele caiu numa depressão profunda. Percebeu que precisava de ajuda. Havia no Parlamento um deputado conservador que tinha a reputação de se interessar pelos indianos. Era a única pessoa a quem Gandhi sentia que podia recorrer. Escreveu uma carta ao sujeito e foi vê-lo. Tentou explicar-lhe sua depressão e, passados alguns instantes, o deputado disse: ‘Já sei qual é o seu problema. Você não sabe nada sobre a Índia. Não conhece nada da história indiana’. Recomendou alguns livros imperialistas. Não sei se Gandhi chegou a lê-los. Ele estava em busca de auxílio prático. Não queria que lhe dissessem para ler um livro de história. Não lhe parece, Willie, que há um pouco de você nesse jovem Gandhi?"

Disse Willie: "Como ficou sabendo desse encontro entre Gandhi e o deputado? Isso foi há muito tempo. Quem lhe contou?".

"Gandhi escreveu uma autobiografia nos anos 1920. Um livro notável. Muito simples, muito breve, muito honesto. Um livro sem bravatas. Um livro tão verdadeiro que todo indiano, jovem ou velho, consegue enxergar a si próprio em suas páginas. Não há outro livro como esse na Índia. Seria um épico indiano moderno se as pessoas o lessem. Mas não o lêem. Acham desnecessário. Acham que o conhecem. Que não têm nada a descobrir nele. É assim que os indianos são. Eu nem sabia sobre essa autobiografia. Foi o Wolf que me perguntou se eu a havia lido. Isso foi pouco depois de ele aparecer no ashram do nosso pai. Ficou chocado quando soube que eu não conhecia o livro. Já o li duas ou três vezes. É uma leitura tão fácil, uma história tão boa, que você vai lendo, vai se envolvendo e de repente se dá conta de que não prestou a devida atenção em todas as coisas profundas que ele estava dizendo."

Disse Willie: "Sinto que você teve muita sorte com o Wolf".

"Ele tem outra família. Isso ajuda muito. Não preciso ficar o tempo todo com ele. E ele é ótimo professor. Acho que é um dos motivos de ainda estarmos juntos. Sou alguém a quem ele pode ensinar. Wolf logo percebeu que eu não tinha a menor noção de tempo histórico, notou que eu não conseguia perceber a diferença entre cem e mil anos, entre duzentos e dois mil anos. Eu sabia sobre nossa mãe e o tio dela e uma ou outra coisa sobre a família do nosso pai. Com exceção disso, tudo o mais era um borrão, um oceano primevo, onde figuras como Buda, Akbar, a rainha Elizabeth, a rani de Jhansi, Maria Antonieta e Sherlock Holmes flutuavam e se entrecruzavam. Wolf me ensinou que a coisa mais importante num livro é a data. Não faz sentido ler um livro se você não sabe quando ele foi escrito, se não sabe quão distante ou quão perto ele está de você. A data fixa o livro no tempo, e quando você conhece outros livros e acontecimentos, as datas começam a compor uma escala temporal. Não dá para explicar a libertação que isso foi para mim. Quando penso em nossa história, já não me sinto afundando numa degradação atemporal. Vejo com mais clareza. Tenho uma noção da escala e da seqüência das coisas."

 

Willie recaía em velhos hábitos. Vinte e cinco anos antes, quando Londres se mostrara tão informe e desconcertante para ele quanto (segundo Sarojini) havia sido para o mahatma em 1890, Willie recorrera aos livros na tentativa de sair daquele aturdimento, procurando a biblioteca da faculdade para instruir-se sobre as coisas mais banais. De modo que agora, para fazer páreo à envergadura do conhecimento de Sarojini, e com a esperança de alcançar sua serenidade, ele se pôs a ler. Usava a biblioteca do British Council. Lá, certo dia, encontrou - não a estava procurando - a autobiografia do mahatma, na tradução inglesa preparada por seu secretário.

A narrativa agradável e simples o arrebatou. Não conseguia largar o livro, queria sorvê-lo por inteiro, numa sentada só, um capítulo após o outro; mas não demorou a ser importunado por uma série de detalhes de que já não se lembrava bem, eventos que já não tinham uma seqüência clara, passagens que ele lera muito rapidamente; e (como Sarojini havia dito) tinha sempre de voltar, ler aquelas palavras fáceis mais devagar, compreender as coisas extraordinárias que o autor dizia à sua maneira tão plácida. Um livro (especialmente no começo) sobre vergonha, ignorância, incompetência: toda uma cadeia de memórias que Willie (ou seu pobre pai, pensava ele) teria preferido levar consigo para o túmulo, mas que a coragem daquela confissão muito simples, conquistada sabe lá Deus à custa de quanto sofrimento, tornava inofensiva, quase parte integrante da memória popular, na qual cada indiano podia ver a si próprio.

Pensou Willie: "Quem dera esse livro reparador tivesse me caído nas mãos vinte e cinco anos atrás. Talvez hoje eu fosse outra pessoa. Teria almejado outra vida. Não teria levado aquela vida abjeta entre estranhos na África. Teria percebido que não estava sozinho no mundo, que um grande homem havia estado aqui antes de mim. Em vez disso, eu lia Hemingway, que era tão distante de mim, que não tinha nada para me oferecer, e escrevia aqueles meus contos falsos. Que escuridão, que auto-ilusão, que desperdício. Se bem que naquela altura talvez eu não tivesse sabido ler o livro. Talvez não me dissesse nada. Talvez eu precisasse experimentar aquela vida para agora poder enxergá-la com mais nitidez. Talvez as coisas aconteçam quando têm de acontecer".

Disse ele a Sarojini, quando estavam conversando sobre o livro: "Esse não é o mahatma de que ouvíamos falar na Índia. Diziam para a gente que ele era um patife, um ator, falso até o último fio de cabelo".

Disse ela: "Para o tio de nossa mãe, ele era o representante de uma casta opressora. Isso era tudo o que nos diziam. Fazia parte da guerra entre castas deles, da revolução que pretendiam fazer. Não conseguiam pensar em nada maior. Ninguém achava que precisava saber mais sobre o mahatma".

Disse Willie: "Se ele não tivesse ido para a África do Sul, se não tivesse deparado aquela outra vida, será que não teria feito nada? Teria continuado a ser como sempre havia sido?".

"É quase certo que sim. Mas releia os capítulos mais importantes. Você verá como tudo é relatado com imparcialidade e poderá tirar suas próprias conclusões."

"Como a África do Sul o escandalizou! Dá para sentir a vergonha, a perplexidade que tomou conta dele. Ele não estava preparado para aquilo. O terrível incidente no trem noturno, e depois aquele colono tâmil com a cabeça ensangüentada, clamando a ele por justiça."

Disse Sarojini: "Espancado pelo fazendeiro para o qual trabalhava e ao qual estava submetido até resgatar a dívida contraída por ocasião de sua migração. Os servos que o império transplantava, destituídos de todo e qualquer direito. Podia-se submetê-los a tudo. Os ancestrais dos nossos vendedores de rosas aqui em Berlim. Progrediram muito em cem anos. Agora têm condições de travar sua própria guerra. Isso devia fazer você se sentir bem. Não temos como nos colocar no lugar de Gandhi. Presenciar a mais gratuita das brutalidades e não poder fazer nada. A maioria de nós teria fugido e se escondido. Foi o que fez a maior parte dos indianos, e continua fazendo. Mas Gandhi, com sua inocência sagrada, pensou que havia algo que ele podia fazer. Foi assim que deu início a sua vida política, com essa necessidade de agir. ‘O que posso fazer?’ E foi assim até o último instante. Pouco antes da independência, houve distúrbios comunais horríveis em Bengala. Ele foi até lá. Algumas pessoas espalharam garrafas quebradas e cacos de vidro por onde ele, o frágil e envelhecido mahatma, o homem de paz, passaria caminhando. A essa altura ele se achava imerso em sua busca religiosa, mas ainda lhe restava uma boa dose da velha lucidez, e com freqüência o ouviam falando sozinho naqueles dias, indagando a si mesmo: ‘O que posso fazer? O que posso fazer?’.

"Nem sempre havia muito o que ele pudesse fazer. É fácil esquecermos isso. Nem sempre ele foi o mahatma seminu. O caminho semi-religioso que ele começou a trilhar na África do Sul - a comuna, a importância do trabalho de cada um para a subsistência de todos, o emaranhado de noções extraídas de Tolstói e Ruskin - não o ajudava em nada naquela situação. Na autobiografia, o relato dos vinte anos que ele passou na África do Sul é vívido e repleto de acontecimentos, repleto das coisas que ele estava fazendo. Tem-se a impressão de que está em curso algo grandioso, algo que transformará a África do Sul, mas boa parte da luta que ele descreve é pessoal e religiosa, e visto com maior distanciamento, percebe-se que esse período na África do Sul foi um fracasso total. Ele tinha quarenta e seis anos quando desistiu e voltou para a Índia. Cinco anos a mais que você, Willie, e sem nada para mostrar por seus vinte anos de trabalho. Na Índia, ele recomeçou do nada. Teve de refletir muito, naquela altura e depois também, sobre como fazer para, sendo um estranho, inserir-se num contexto local em que já havia vários líderes mais cultos que ele. Hoje pode parecer que as coisas já estavam acontecendo e que, por ser o mahatma, tudo o que ele precisava fazer em 1915 era deixar que o levassem para o topo. Não foi assim. Ele fez as coisas acontecerem. Ele criou a onda. Era uma mistura de reflexão e intuição. Acima de tudo, reflexão. Era um verdadeiro revolucionário."

E Willie não disse nada.

Sarojini o fizera percorrer um longo caminho. Infundira-lhe o exercício mental diário de se imaginar de volta aos lugares mais desolados que havia visto ou conhecido. Isso já se tornara um hábito em suas manhãs; e agora, num prolongamento dessa meditação matinal, Willie se surpreendia reavaliando a vida que levara na Índia e em Londres, reavaliando a África e seu casamento, aceitando tudo sob uma nova luz, sem esconder nada, mesclando todo o phátos do seu passado amorfo com um ideal novo e enobrecedor.

Pela primeira vez na vida, ele começou a experimentar algo que se poderia chamar efetivamente de orgulho. Sentia-se, por assim dizer, ocupando espaço quando caminhava pelas ruas; e indagava a si mesmo se seria assim que as outras pessoas se sentiam o tempo inteiro, sem precisar fazer esforço, todas as pessoas seguras de si que ele conhecera em Londres e na África. Aos poucos, a esse orgulho somou-se uma alegria imprevista, que era como uma recompensa adicional, a alegria de saber que ele rejeitava tudo o que via. Sarojini havia lhe dito que as pessoas que ele via viviam tão-somente para o prazer. Comiam, assistiam à televisão e contavam seu dinheiro; tinham sido reduzidas a uma simplicidade terrível. Willie via como essa simplicidade era antinatural; e ao mesmo tempo sentia a excitação proporcionada pelos novos movimentos do seu coração e da sua mente; e sentia-se acima de tudo que o circundava.

Cinco meses antes, em meio ao adorável, surpreendente e restaurador inverno, quando, na condição de refugiado da África, ele não dispunha de nenhum lugar realmente seu para o qual pudesse voltar, tudo lhe parecera acolhedor e abençoado. Os edifícios não haviam mudado, as pessoas tampouco - tudo o que ele podia dizer era que aprendera a identificar as pobres mulheres de meia-idade do Leste, mortificadas, amortecidas, a duas fronteiras de distância. Lembrava-se daqueles dias, a memória de sua felicidade, muito distintamente. Não a rejeitava. Era um indício de quão longe ele havia ido.

Aquela alegria, por não existir na Berlim real, e sim numa bolha especial - o apartamento de Sarojini, o dinheiro de Sarojini, as conversas de Sarojini -, não poderia ter durado. Vinte anos antes, ele teria desejado agarrar-se àqueles bons tempos, teria tentado fazer, em Berlim, a cidade no fim do estreito corredor aéreo, o que depois faria na África. E a coisa teria acabado pior que na África. Podia ter ficado como o indiano que ele conhecera um dia, um sujeito culto, de uns trinta anos, óculos com aros dourados, que chegara a Berlim com grandes esperanças e agora era um mendigo de cara lustrosa, maltrapilho e adulador, sem lugar para dormir, a cabeça já não muito boa, um hálito horrível, o braço quebrado numa tipóia imunda, queixando-se dos maus bocados que passava nas mãos de jovens criminosos.

Naqueles cinco meses Willie percorrera um longo caminho. Nunca para ele houvera um período assim, um período em que não experimentara nenhuma ansiedade mais premente, em que não precisara representar para ninguém, e em que, como num conto de fadas, ele e a irmã haviam se tornado adultos sem sofrer em demasia. Willie sentia que tudo o que havia pensado e elaborado durante aqueles cinco meses era verdade. Resultava de uma nova serenidade. Todas as coisas que sentira antes, todos os desejos aparentemente reais que o haviam levado à África, tudo aquilo era falso. Já não sentia vergonha; aceitava tudo; compreendia que tudo o que lhe havia sucedido fora uma preparação para o que estava por vir.

 


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio