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A Fome de Todos Nós, de Dave Eggers (tradução de Antonio E. de Moura Filho; Rocco; 232 páginas; 32 reais) – Autor do festejado livro autobiográfico Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, Dave Eggers é um dos melhores escritores americanos da nova geração, além de editar a badalada revista literária McSweeney's. Os quinze contos de A Fome de Todos Nós fazem uma coletânea irregular. Há pequenas bobagens, como Há Certas Coisas que Ele Deveria Guardar para Si – "conto" que se resume ao título, seguido de algumas páginas em branco. Mas também há textos que confirmam o talento e a inventividade de Eggers, como Após Ser Jogado no Rio e Antes de Me Afogar – narrado em primeira pessoa por um cachorro.

Leia trecho

O QUE SIGNIFICA QUANDO UMA MULTIDÃO EM UM PAÍS DISTANTE ATIRA NUM SOLDADO DA SUA PRÓPRIA NAÇÃO, ARRANCA-O DE DENTRO DO SEU VEÍCULO E DEPOIS O MUTILA NO CHÃO

EXISTIA UM HOMEM QUE SENTIA UMA GRANDE PERTURBAÇÃO. Sentia-se ansioso e desconfortável. E estes sentimentos não lhe eram familiares. Jamais sentira esta espécie de tédio intangível, mas havia um ano que ele vinha se sentindo deste jeito. Às vezes, ele ficava simplesmente andando pela casa, incapaz de compreender o motivo daquela tensão. Ainda que o dia estivesse claro, ensolarado, ainda que tudo estivesse bem, ele ficava de um lado para o outro. Sentava-se para ler um livro e logo levantava, achando que precisava dar um telefonema. Quando se aproximava do telefone, dava-se conta de que não havia nenhuma ligação que precisava fazer, mas havia algo do lado de fora da janela que ele precisava inspecionar. Alguma coisa no jardim que precisava de reparos. Ele precisava pegar o carro e ir em algum lugar, precisava dar uma fugida rápida. O homem vira a foto no jornal naquela manhã. Vira a foto do corpo do soldado, agora no chão sob o caminhão. Usando um uniforme marrom, o soldado estava de barriga para cima, com as botas quase brancas sob o sol a pino, com as pontas para cima. Enquanto isso, o homem estava em casa, sentado, confortável, usando meias quentes e tomando suco de laranja em um copo liso e pesado, vendo a foto colorida do sujeito morto. A foto fez com que ele ofegasse, sozinho em sua casa. Analisou a foto, percebendo que procurava sangue – onde o soldado recebera o tiro? Não havia sinal visível de sangue. Virou a página, tentou prosseguir, mas logo voltou à fotografia para ver se apareciam cidadãos daquela nação longínqua. Não havia ninguém. O homem levantou-se. Observou a fumaça que ondulava para a direita, saindo de uma fábrica no horizonte. Por que sentia-se violentado? Sentia-se golpeado, roubado, estuprado. Se um soldado fosse morto e mutilado em seu próprio país, o homem não sentiria esse tipo de revolta. Não é como ele se sente quando fica sabendo da colisão de trens, ou que uma família no Missouri afogou-se em um lago dentro de uma van. Entretanto, aquele simples soldado do outro lado do mundo, arrancado do próprio carro, aquele corpo sem sangue no chão de terra embaixo do caminhão – por que essa situação deixa o homem tão nervoso, por que tudo isto lhe parece tão pessoal? Em sua casa o homem se sente sempre assim agora. Sente-se escavado, embrulhado, dissecado. Seus olhos ressentem-se do esforço prolongado para tentar enxergar no escuro. O homem observa a fumaça da fábrica , e embora haja muitas coisas que poderia fazer neste dia, ele não fará nenhuma delas.

 


 
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