O
Correspondente Estrangeiro,
de Alan Furst (tradução de Heloísa Mourão; Objetiva/Suma
de Letras; 270 páginas; 33,90 reais) O americano Alan Furst é
um seguidor da tradição firmada por ingleses como Graham Greene
e John Le Carré: escreve romances de espionagem que se afastam da ação
aventurosa para investir nos dilemas morais. Em O Correspondente Estrangeiro,
Carlo Weisz, repórter da agência Reuters em Paris às vésperas
da II Guerra Mundial, assume a edição de um jornal de dissidentes
italianos depois que seu diretor é assassinado pela polícia secreta
de Mussolini. Ameaçado pelos fascistas, Weisz ainda tenta ajudar Christa,
o amor de sua vida, que se envolve em perigosas atividades de espionagem na Alemanha
nazista.
Leia
trecho
Dentro da Resistenza Paris,
últimos dias do outono; um céu cinzento e turbulento ao amanhecer,
a chegada do crepúsculo ao meio-dia, seguido, às sete e meia, por
chuvas oblíquas e guarda-chuvas negros enquanto o povo da cidade corria
para casa diante das árvores desfolhadas. Em 3 de dezembro, 1938, no coração
do Sétimo Arrondissement, um Lancia sedan de cor champanhe virou a esquina
da rue Saint Dominique e estacionou junto à calçada na rue Augereau.
Em seguida, o homem no banco traseiro inclinou-se à frente por um instante,
e o chofer avançou alguns metros mais e parou novamente, desta vez na sombra
entre dois postes de luz.
O homem no banco traseiro do Lancia chamava-se Ettore, il conte Amandola - o décimo
nono Ettore, Heitor, na linhagem Amandola, sendo conde apenas o mais ilustre de
seus títulos. Mais perto dos sessenta que dos cinqüenta, ele tinha
olhos escuros e levemente protuberantes, como se a vida o tivesse surpreendido
(embora ela nunca tivesse ousado fazê-lo), e um rubor nas faces que sugeria
uma garrafa de vinho com o almoço, ou a excitação da expectativa
por um evento planejado para o cair da noite. Na verdade, tratava-se de ambos.
Quanto ao resto de suas cores, era um tipo bastante prateado: seus cabelos cor
de prata, reluzindo com brilhantina, eram penteados para trás até
chegar a uma superfície lustrosa, e seu fino bigode prata, aparado diariamente
com uma tesoura, delineava seu lábio superior. Sob um branco sobretudo
de lã, na lapela do terno de seda cinza, usava uma fita da qual pendia
uma cruz de Malta com um fundo de esmalte azul, o que significava que possuía
o título de cavaliere da Ordem da Coroa da Itália. Na outra lapela,
a medalha de prata do partido fascista italiano; um quadrado inclinado com fasces
- um feixe de varas de bétula atadas a um machado por um cordão
vermelho - na diagonal. Simbolizava o poder dos cônsules do Império
Romano, que traziam consigo as verdadeiras varas de bétula e o machado
e tinham a autoridade para surrar com as varas, ou decapitar com o machado.
O conde Amandola olhou para o seu relógio, baixou a janela traseira e,
através da chuva, fixou o olhar numa curta ruela, a rue du Gros Caillou,
transversal à rue Augereau. Daquele ponto de observação -
e mandara averiguar duas vezes naquela semana - podia ver a entrada do Hotel Colbert;
uma entrada bastante sutil, apenas o nome em letras douradas na porta de vidro
e um jorro de luz do saguão que brilhava no pavimento molhado. O Colbert,
um hotel bastante sutil, silencioso, discreto, que atendia aos affaires cinq-à-sept;
aventuras amorosas administradas entre as cinco e as sete, aquelas horas flexíveis
do começo da noite. Mas, pensou Amandola, para você, um gostinho
de fama amanhã. O commissionaire do hotel, segurando um amplo guarda-chuva,
deixou a entrada e caminhou energicamente para o fim da rua, em direção
à rue Saint-Dominique. Mais uma vez, Amandola olhou para o relógio.
7h32, marcava. Não, pensou ele, são 19h32.
Para esta ocasião, o horário de 24 horas, a hora militar, era obviamente
a forma apropriada. Afinal, ele era um major, recebera a patente em 1914, servira
na Grande Guerra e tinha as medalhas e sete uniformes pomposamente confeccionados
como prova. Servira com distinção - oficialmente reconhecido - no
departamento de finanças do Ministério da Guerra, em Roma, onde
dava ordens, mantinha a disciplina, lia e assinava formulários e cartas,
e recebia e dava telefonemas, seu escrupuloso decoro militar em todos os sentidos.
E assim permaneceu, desde 1927, em seu mandato como oficial superior na Pubblica
Sicurezza, o departamento de Segurança Pública do Ministério
do Interior, instituído no ano anterior pelo chefe da po- lícia
nacional de Mussolini. O trabalho não era muito diferente de seu emprego
durante a guerra; os formulários, as cartas, os telefonemas e a manutenção
da disciplina - sua equipe se mantinha a postos em suas mesas, e a formalidade
era a regra em todas as conversações.
19h44. A chuva tamborilava regularmente no teto do Lancia e Amandola apertou o
casaco mais firmemente, contra o frio. Na calçada do lado de fora, uma
criada - sob a capa de chuva aberta um uniforme cinza e branco - era puxada por
um bassê que vestia um suéter. Enquanto o cão farejava na
calçada e começava a andar em círculos, a criada estreitou
os olhos para ver Amandola através do vidro. Grosseiros, os parisienses.
Ele não se deu ao trabalho de virar o rosto, simplesmente olhou através
dela, ela não existia. Alguns minutos depois, um táxi negro de formas
quadradas encostou à entrada do Colbert. O commissionaire saltou para fora,
deixando a porta aberta, enquanto um casal emergia do saguão: ele, cabelos
brancos, alto e encurvado; ela, mais nova, usando um chapéu com um véu.
Postaram-se juntos sob o guarda-chuva do commissionaire, ela ergueu o véu,
e eles se beijaram apaixonadamente - até a próxima terça,
meu querido. Em seguida a mulher entrou no táxi, o homem deu uma gorjeta
ao commissionaire, ergueu seu próprio guarda-chuva e virou a esquina a
passos largos.
19h50. Ecco, Bottini! O chofer observava o retrovisor lateral. "Il galletto",
disse. Sim, o frangote, assim o chamavam, pois ele realmente se emproava. Rumando
pela rue Augereau em direção ao Colbert, ele era o clássico
baixinho que se recusava a ser baixo: postura ereta, as costas rijas, queixo erguido,
peito para fora. Bottini era um advogado de Turim que emigrara para Paris em 1935,
insatisfeito com as políticas fascistas de seu país natal. Insatisfação
indubitavelmente aguçada por uma boa surra em público e meia garrafa
de óleo de rícino, administrada por um esquadrão de Camisas
Negras enquanto uma multidão atônita se reunia e observava em silêncio.
Sempre um liberal, provavelmente um socialista, possivelmente um comunista em
segredo, presumia Amandola - escorregadios como enguias, estes tipos -, Bottini
era um compatriota a ser oprimido, e proeminente na comunidade de compatriotas-a-serem-oprimidos.
Mas o problema com o galletto não era o fato de que se emproava, o problema
era que cantava de galo. Chegando a Paris, naturalmente se uniu à organização
Giustizia e Libertà, o maior e mais determinado grupo de oposição
antifascista, e em seguida tornou-se editor de um de seus jornais clandestinos,
o Liberazione, escrito em Paris, contrabandeado para a Itália, depois impresso
e distribuído clandestinamente. Infamità! O jornal escoiceava como
uma mula; farpado, mordaz, bem informado e selvagem, sem um pingo de respeito
pelo glorioso fascismo da Itália, por Il Duce ou por quaisquer de seus
feitos. Mas agora, Amandola pensou, este galletto já cantara o bastante.
Quando Bottini virou a esquina da rue Augereau, tirou os óculos de armação
de metal, enxugou a chuva das lentes com um grande lenço branco e pôs
os óculos num estojo. Entrou no hotel em seguida. Estava precisamente no
horário, de acordo com os relatórios da investigação.
Nas noites de terça, das oito às dez, sempre no quarto 44, ele recebia
sua amante, a esposa do político socialista francês LaCroix. LaCroix,
que dirigira um ministério, e depois outro, no governo da Frente Popular.
LaCroix, que aparecia ao lado do primeiro-ministro Daladier nas fotografias dos
jornais. LaCroix, que jantava em seu clube toda terça-feira e jogava bridge
até meia-noite.
Eram 20h15 quando um táxi estacionou em frente ao Colbert, e Madame LaCroix
emergiu, correndo a passos curtos para dentro do hotel. Amandola teve apenas um
vislumbre dela - cabelos cor de telha, nariz branco e pontiagudo, uma pintura
de Rubens, carnuda e abundante. E amplamente concupiscente, segundo os investigadores
que alugavam o quarto 46 e espreitavam do outro lado da parede. Os elementos são
vocais e ruidosos, dizia um relatório. Descrevia, supôs Amandola,
cada espécie de gemido e guincho de quando os dois executavam seu acasalamento
como porcos excitados. Ah, ele conhecia o tipo; ela gostava de boa comida e gostava
de um bom vinho e gostava de seus prazeres carnais - qualquer uma das opções
ou todas juntas, sem dúvida, o baralho completo de cartas depravadas. Libertinos.
Havia um espelho de corpo inteiro em frente ao pé da grande cama do quarto
44, e eles certamente tiravam vantagem dele, excitados por observar a si mesmos
debatendose por todo lado, excitados por observar - tudo.
Agora, Amandola pensou, é preciso esperar. Sabiam que os amantes costumavam
passar alguns minutos conversando antes de entrar em ação. Então,
dêem um tempinho a eles. Os espiões OVRA de Amandola - OVRA era o
nome da polícia secreta, a polícia política, instituída
por Mussolini na década de 20 - já estavam dentro do hotel, tinham
ocupado quartos naquela tarde, acompanhados de prostitutas. Que, com o tempo,
poderiam muito bem ser encontradas pela polícia e interrogadas, mas o que
poderiam dizer? "Ele era careca, ele usava barba, ele disse que seu nome
é Mario." Mas, àquela altura, o Mario careca e o Mario barbudo
já teriam passado há muito pela fronteira, de volta à Itália.
No máximo, as moças apareceriam em fotos nos jornais.
Madame LaCroix, quando os homens da OVRA irrompessem no quarto, ficaria sem dúvida
indignada, imaginaria que se tratava de alguma artimanha desprezível perpetrada
pela cobra do marido. Mas não imaginaria por muito tempo e, quando o revólver
aparecesse, com o longo cano de um silenciador, seria tarde demais para gritar.
Bottini gritaria? Ou imploraria por sua vida? Não, pensou Amandola, nenhum
dos dois. Praguejaria contra eles, um galletto arrogante até o fim, e tomaria
sua pílula. Na têmpora. Em seguida, o silenciador seria retirado,
o revólver colocado na mão de Bottini. Tão triste, tão
melancólico, um caso de amor condenado, o desespero de um amante.
E o mundo acreditaria? O encontro amoroso que terminou em tragédia? A maioria
sim, mas alguns não, e o evento fora orquestrado para estes, para os que
saberiam imediatamente que isso era política, não paixão.
Pois não era um desaparecimento silencioso, era público e extravagante,
assim concebido para servir de aviso: Faremos tudo que quisermos, vocês
não podem nos deter. Os franceses ficariam ultrajados, mas e daí,
os franceses ficavam sempre ultrajados. Bem, que esperneassem à vontade.
Eram 20h42 quando o líder do esquadrão OVRA deixou o hotel e cruzou
para o lado da rue Augereau em que estava Amandola. Mãos nos bolsos, cabeça
baixa, usava uma capa de chuva de borracha e chapéu de feltro negro, gotas
pingando da aba. Quando passou pelo Lancia, levantou a cabeça, revelando
um rosto pesado e escuro, um rosto sulista, e fez contato visual com Amandola.
Uma breve olhadela, mas suficiente. Está feito.
4 de dezembro, 1938. O Café Europa, localizado numa rua estreita próxima
à Gare du Nord, pertencia a um francês de ascendência italiana.
Um homem de opiniões ardorosas e inflamadas, um idealista, ele dispo- nibilizou
a sala dos fundos para um grupo de giellisti parisienses, assim chamados por sua
associação à Giustizia e Libertà - conhecidos informalmente
pelas iniciais GL, portanto giellisti. Havia oito deles naquela manhã,
convocados para uma reunião de emergência. Todos usavam sobretudos
escuros, sentados ao redor de uma mesa na sala apagada, e, com exceção
da única mulher, usavam seus chapéus. Não só porque
a sala era fria e úmida, mas também - embora ninguém jamais
o tivesse dito em voz alta - porque de certo modo combinava com a natureza conspiratória
de sua política: a resistência antifascista, a Resistenza.
Todos estavam mais ou menos na meia-idade, eram emigrados da Itália e membros
de uma certa classe - um advogado de Roma, um professor da escola de medicina
de Veneza, um historiador de arte de Siena, um homem que possuíra uma farmácia
na mesma cidade, a mulher uma ex-química industrial de Milão. E
assim por diante - muitos usavam óculos e a maioria fumava cigarros, exceto
o professor sienense de história da arte, empregado posteriormente como
medidor para a companhia de gás, que fumava um pequeno e poderoso charuto.
Três deles trouxeram consigo um certo jornal matutino, o mais pérfido
e ultrajante dos tablóides parisienses, e uma cópia jazia sobre
a mesa, desdobrada para exibir uma fotografia granulada sob a manchete assassinato/suicídio
no hotel dos amantes. Bottini, de peito nu, sentado e recostado numa cabeceira,
um lençol puxado até a cintura, olhos abertos e vagos, sangue em
seu rosto. A seu lado, uma forma sob o lençol, os braços abertos,
jogados.
O líder do grupo, Arturo Salamone, deixou o jornal repousar por algum tempo,
uma homenagem silenciosa. Em seguida, fechou o jornal com um suspiro, dobrou-o
ao meio e pôs ao lado de sua cadeira. Salamone era um homem grande como
um urso, com uma mandíbula pesada e sobrancelhas espessas que se encontravam
no alto do nariz. Fora um expedidor marítimo em Gênova e agora trabalhava
como contador em uma companhia de seguros. |