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Assuntos
de Família,
de Rohinton Mistry (tradução de Anna Olga de Barros
Barreto; Objetiva; 466 páginas; 55,90 reais) –
Escritores-imigrantes são um fenômeno marcante na ficção
de língua inglesa recente. São figuras como Salman
Rushdie ou Michael Ondaatje, que saíram de seu país
para fazer sucesso em Londres, Nova York ou Toronto. Mistry, que
nasceu na Índia e vive no Canadá, é um jovem
integrante desse grupo. No centro de seu terceiro romance está
uma família parse (indianos de origem persa e religião
zoroastrista). O patriarca sofre de mal de Parkinson e precisa de
seus enteados. E é aí que os problemas começam.
Mistry não se limita a enfocar esse pequeno grupo. À
moda de Dickens, que descreveu a Londres sombria da Revolução
Industrial, ele cria um painel sufocante de uma metrópole
pobre –
sua Bombaim natal.
Leia
trechos do livro
A ansiedade
por causa do veredicto iminente fez Nariman acordar com o estômago
embrulhado. Tinham se passado três semanas e o Dr. Tarapore
devia vir hoje para proferir sua decisão sobre o tornozelo.
Até
esse momento, Nariman conseguira, por toda a manhã, segurar-se
até todos terminarem o chá ou o café da manhã
e partirem para o colégio e para o trabalho. Ele se orgulhava
de lhes poupar o mau cheiro, mas o intestino o estava derrubando
nesse último dia.
Me
desculpe, sussurrou ele para Roxana, não ouso
segurar mais, senão a imundície vai ser maior.
Que
bobagem, Papai, se você precisa da comadre, você tem
que usá-la. Ela se assegurou de que as bordas estavam
secas, enquanto ele se virava ligeiramente para um lado de modo
que ela pudesse posicioná-la.
Yezad
estava quieto até o cheiro começar a inundar o quarto.
Ele se sentiu enjoado. Empurrando o prato da sua frente, correu
para o quarto dos fundos, e ela o acompanhou.
Esse
fedor na hora do café da manhã, disse ele, sem
se preocupar em baixar a voz. Você não podia
esperar mais uns minutos?
Eu
podia, mas Papai não pôde. Você não notou,
em todos esses dias, que nem uma vez sequer ele fez número
dois antes de vocês saírem de casa?
E
por que não foi igual hoje? Ou ele quer me dar uma amostra
antes de ir embora?
Pare
de ser desagradável! Ela se afastou e foi para o quarto
da frente onde os meninos estavam implicando com Nariman.
Xi,
Vovô!, Jehangir disse. É uma bomba atômica!
Murad
disse que se parecia mais com uma bomba de hidrogênio. Yezad
gritou do quarto dos fundos mandando que eles saíssem, não
era saudável comerem ali.
Milhares
de pessoas vivem nas sarjetas de Bombaim!, gritou Roxana de
volta. Comendo e dormindo perto de canos e fossas! Esta cidade
inteira cheira a esgoto! E você se preocupa com a comadre
de Papai! Que idiota que você pode ser!
Está
vendo, chefe? Ela me chama de idiota por sua causa. É justo?
Minha
filha chama todo mundo de idiota, observou Nariman com voz
macia. Até a mim.
Jehangir
teve medo que outra briga começasse, como a que tinha havido
a respeito do vaso do xixi alguns dias atrás. Sei uma
piada nova, Papai, o menino disse. Posso contar para
você?
Mais
tarde.
Por
favor, Papai, é muito engraçada.
Está
certo, disse ele, mal-humorado.
Era
uma vez, em Viena, alguns turistas foram ao museu Beethoven onde...
Essa
é velha, Murad zombou. Todo mundo sabe da história
do último movimento de Beethoven. Eu sei uma nova.
Não
quero nenhuma piada suja, a mãe o preveniu.
Mas
a minha não é suja. Escute só: Alguns turistas
estavam em Viena no museu Beethoven e...
Você
está me arremedando!, Jehangir protestou.
Deixe-me
terminar, é completamente diferente, sabe? Então os
turistas entraram numa sala onde havia um caixão aberto com
um corpo dentro, já apodrecendo e verde, com vermes saindo
dele. Era alguém de rosto franzido, com a testa larga e o
cabelo desalinhado, exatamente como Beethoven. Perto do caixão
havia uma estante de música com o manuscrito da Quinta Sinfonia.
Os turistas ficaram perturbados e perguntaram ao guia o que estava
acontecendo. Ele lhes pediu que tivessem paciência e observassem
atentamente a exposição. Então eles esperaram.
Não demorou muito, o cadáver estendeu a mão
para fora do caixão e apagou um compasso da música.
Segundos depois, a mão saiu de novo e apagou outro compasso.
Os turistas ficaram chocados e perguntaram ao guia: Esse não
é o corpo de Ludwig van Beethoven? Por que ele não
está encerrado na terra? O guia disse, Por favor, fiquem
calmos mein damen und herren. Ja, este é Beethoven, o compositor,
ja, ele está morto. E agora ele está lentamente se
de-compondo.
Todos
riram, e Roxana disse que não sabia onde os meninos aprendiam
essas coisas. Jehangir teve a impressão de ter sido suplantado
por Murad, mas não se importou. Juntos, tinham evitado uma
briga entre Mamãe e Papai. No decorrer das graças
e implicâncias deles, ela removeu a comadre.
Antes
de sair para trabalhar, Yezad parou ao lado da cama de Nariman.
Boa sorte, chefe, quando o Dr. Tarapore vier.
Obrigado,
Yezad.
Roxana
esperava, à porta, para beijá-lo. Me desculpe
por ter gritado, disse ele no ouvido dela. Você
sabe como me sinto com cheiros. Ela fechou os olhos enquanto
o braço de Yezad a apertava contra si.
Me
faz um favor, Yezdaa? Pede ao barbeiro da esquina que venha aqui
agora para fazer a barba em Papai, antes que o médico chegue.
Claro.
Ele começou a descer a escada, e então parou. Se
Jal e Coomy vierem visitar, não deixe que eles intimidem
você na frente do médico, não concorde com nada.
Conhecendo
os dois, sei que esqueceram de que o exame é hoje,
disse ela, tranqüilizando-o com um beijo fugidio.
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